Os povos originários antes de 1500
Não se sabe se eram dois milhões ou mais. Quase tudo o que se registrou sobre eles foi escrito por cronistas, viajantes e padres do lado da conquista — e a simpatia de cada relato varia conforme o povo tenha resistido ou cedido.

Aldeia tupinambá segundo Hans Staden · 1552 · Wikimedia Commons · Public domain
Quase tudo o que se escreveu sobre os povos que viviam aqui antes de 1500 saiu da pena de quem veio conquistá-los. Dá para conhecer um povo pelos olhos de quem o destruiu?
Dá — desde que se leia sabendo disso. Este artigo começa pelo problema da fonte porque, neste assunto, o problema da fonte é o assunto. Fausto abre a discussão exatamente por aí, e a advertência dele vale para cada afirmação que virá depois.
Quem escreveu o que sabemos
Analisar a sociedade e os costumes desses povos é difícil por dois motivos que se somam. O primeiro é a distância cultural: trata-se de gente cujo modo de vida era muito diferente do de quem escreveu — e do nosso. O segundo é o preconceito, que existiu e ainda existe, e que atravessa os relatos deixados por cronistas, viajantes e padres, os jesuítas em primeiro lugar.1
O padrão que Fausto identifica nesses textos é o mais revelador do conjunto. Neles, os indígenas aparecem divididos entre os de qualidades boas e os de qualidades ruins — e o critério não é etnográfico. A avaliação acompanha o grau de resistência que cada povo opôs aos portugueses. Quem cedia era descrito com simpatia; quem lutava, não.1

O ritual antropofágico gravado por Theodor de Bry · 1631 · Wikimedia Commons · Public domain
O caso dos aimorés demonstra o mecanismo inteiro. Eles se destacaram pela eficiência militar e pela rebeldia — e foram, por isso, retratados sempre de forma desfavorável. Segundo os mesmos relatos, os indígenas em geral moravam em casas, mas os aimorés viviam como animais na mata; os tupinambás comiam os inimigos por vingança, os aimorés porque apreciavam carne humana. A distinção não descreve povos: descreve quem incomodava mais.1
E a descrição teve consequência jurídica. Quando a Coroa publicou, em 1570, sua primeira lei proibindo a escravização dos indígenas, apenas os aimorés foram nominalmente excluídos da proteção. O adjetivo do cronista virou exceção na lei.1
A divisão dos povos em grandes blocos que se estuda hoje vem de estudos recentes de antropólogos, apoiados em afinidades de cultura e de língua. Já os portugueses batizaram de forma impressionista dezenas de “nações” — carijós, tupiniquins, tamoios. São rótulos aplicados de fora, no calor do contato, e não autodenominações organizadas.
Nem quantos eram, sabemos
Há ainda uma terceira lacuna, e essa não nasce de incompreensão nem de preconceito: nasce da dificuldade de obter o dado. Ninguém sabe quantas pessoas viviam, na chegada dos portugueses, no território correspondente ao Brasil e ao Paraguai de hoje.1
A margem entre os cálculos disponíveis é enorme, e o modo mais claro de perceber isso é comparar recortes desiguais: há estimativa de 2 milhões para o território inteiro e há estimativa de cerca de 5 milhões só para a Amazônia brasileira. Não são números que se somem nem que se comparem diretamente — e é justamente por isso que servem de aviso.1
LembreQuantos indígenas havia no Brasil em 1500?
A resposta honesta é não se sabe. As estimativas vão de 2 milhões para todo o território a cerca de 5 milhões apenas para a Amazônia. Qualquer número exato apresentado como certo, nesse assunto, é sinal de fonte fraca.
Como se vivia
A base material da vida tupi combinava quatro atividades: caça, pesca, coleta de frutas e agricultura. Para abrir roça, derrubavam árvores e punham fogo — uma técnica que os colonizadores viriam a adotar, e não a substituir.1
No que plantavam há um item que mudaria a história da colônia. Havia feijão, milho e abóbora, mas o cultivo principal era a mandioca — e a farinha feita dela virou alimento básico do Brasil colonial. A colônia comeu, por séculos, o que a roça indígena produzia.1
Essa produção era de subsistência, voltada ao consumo próprio. Cada aldeia produzia o que precisava, e a troca de alimentos entre aldeias era pequena. Quando a área dava sinal de esgotamento, o grupo se mudava, temporária ou definitivamente.1

Pajés com o manto tupinambá em ritual · 2022 · Wikimedia Commons · CC0
Havia, porém, circulação entre aldeias — só que de outro tipo. O que se trocava eram mulheres e bens de prestígio, como penas de tucano e as pedras usadas para fazer botoque. Desses contatos nasciam alianças, e das alianças, blocos de aldeias posicionados uns contra os outros.1
É nesse ponto que a guerra entra — e ela não era acidente, era parte da estrutura. Guerrear e capturar inimigos, mortos em ritual antropofágico, integrava a sociedade tupi. Como essas atividades cabiam aos homens, delas dependiam duas coisas: a obtenção de prestígio e a renovação das mulheres do grupo.1

A saudação lacrimosa, na edição de 1580 de Léry · 1580 · Wikimedia Commons · Public domain
O indígena ecologista não existiu
Aqui Fausto derruba um lugar-comum que a escola às vezes reforça com boa intenção. Seria engano supor que esses grupos agissem movidos por uma preocupação intuitiva em preservar o equilíbrio ecológico das áreas que ocupavam. A prova está no próprio comportamento descrito acima: diante da exaustão relativa dos alimentos, a solução adotada era mudar de lugar, não conservar o lugar.1
E o contrapeso vem na mesma página, porque a correção não autoriza o exagero oposto. Pelo alcance limitado daquelas atividades e pela tecnologia simples de que dispunham, esses povos estavam muito longe de causar estragos comparáveis aos de hoje — a contaminação de rios por mercúrio e a derrubada de floresta com motosserra são obra de outra gente, em outra escala.1
Não havia uma nação — e isso decidiu tudo
Chegamos ao fato político que explica o século seguinte. Não existia uma nação indígena. Existiam grupos dispersos e frequentemente em conflito entre si. Foi essa fragmentação que permitiu aos portugueses encontrar aliados entre os próprios indígenas para combater os que resistiam.1
Fausto oferece um exemplo que inverte a expectativa de quem imagina o europeu sempre no comando: nos seus primeiros anos, a vila de São Paulo de Piratininga teria muito provavelmente sido tomada pelos tamoios se não contasse com o apoio dos tupis locais. A permanência portuguesa no planalto dependeu de uma aliança indígena.1
Nada disso, adverte ele, significa que houve passividade. A resistência foi forte, e foi mais forte ainda quando o que estava em jogo era a escravização. Ela se deu por guerra, por fuga e pela recusa ao trabalho compulsório — e os indígenas tinham, comparados aos africanos escravizados, uma vantagem decisiva para resistir: estavam em casa, enquanto os africanos eram implantados à força num território desconhecido.1

Frontispício da Histoire d'un voyage, de Jean de Léry, 1578 · 1578 · Wikimedia Commons · Public domain
1500, do outro lado
Do ponto de vista de quem já estava aqui, a palavra que Fausto emprega para 1500 é catástrofe.1
O primeiro efeito, porém, não foi de horror, e sim de enquadramento religioso. Chegados de muito longe, em embarcações imensas, os portugueses — e sobretudo os padres — foram associados, na imaginação tupi, aos grandes xamãs, os pajés que percorriam as aldeias curando, profetizando e anunciando uma terra de fartura. Os brancos passaram a ser, ao mesmo tempo, respeitados, temidos e odiados, como gente dotada de poder especial.1
O que veio depois foi mensurável. Vieram doenças contra as quais não havia defesa biológica — sarampo, varíola, gripe — e duas ondas epidêmicas entre 1562 e 1563 mataram mais de 60 mil pessoas, ao que se estima, sem contar as vítimas do sertão. Vieram a violência cultural e o aldeamento. E veio, do contato, uma população mestiça, cuja presença Fausto descreve como silenciosa na formação da sociedade brasileira — silenciosa porque está em toda parte e quase nunca é nomeada.1
- A fonte é parte interessada — cronistas, viajantes e padres escreveram do lado da conquista, e nos relatos a qualidade moral atribuída a cada povo acompanha o grau de resistência que ele opôs. O caso dos aimorés é a demonstração, e a lei de 1570 os excluiu nominalmente da proteção.
- Número que não existe — não se sabe quantos eram. As estimativas vão de 2 milhões para todo o território de Brasil e Paraguai a cerca de 5 milhões só para a Amazônia brasileira — recortes diferentes, o que amplia a divergência.
- O mito do ecologista intuitivo — Fausto nega explicitamente que houvesse preocupação deliberada com equilíbrio ecológico: diante da exaustão de alimentos, migrava-se. Ao mesmo tempo, o impacto era incomparavelmente menor que o das atividades atuais — as duas coisas ao mesmo tempo.
- Não havia “os índios” no singular — eram grupos dispersos e muitas vezes em conflito, sem unidade política. Foi isso que permitiu ao português achar aliados indígenas — e São Paulo de Piratininga sobreviveu aos tamoios graças ao apoio dos tupis locais.
- Aliança não é ausência de resistência — a existência de aliados indígenas não anula a resistência, que foi forte sobretudo contra a escravização, por guerra, fuga e recusa ao trabalho compulsório.
- Rótulos aplicados de fora — carijós, tupiniquins e tamoios são nomes que os portugueses atribuíram de forma impressionista. A classificação em grandes blocos por afinidade cultural e linguística é obra recente de antropólogos, não autodenominação da época.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
A linha do tempo das fontes, não dos povos
Duas estimativas que nem se comparam
Por que a conquista avançou, e o que resultou
Ler o relato e ler quem escreveu o relato
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Natureza das fontes | relatos de cronistas, viajantes e padres — sobretudo jesuítas —, todos posteriores a 1500 |
| Viés dessas fontes | a qualidade atribuída a cada povo acompanha o grau de resistência que ele opôs aos portugueses |
| Caso exemplar | os aimorés: militarmente eficientes, rebeldes e retratados de forma sempre desfavorável |
| Lei de 1570 | primeira proibição de escravizar indígenas — e os aimorés são a única exclusão nominal |
| Origem dos nomes de “nações” | atribuídos de forma impressionista pelos portugueses: carijós, tupiniquins, tamoios |
| Origem da classificação atual | estudos recentes de antropólogos, por afinidade cultural e linguística |
| População em 1500 | não se sabe: de 2 milhões em todo o território a cerca de 5 milhões só na Amazônia |
| Base de subsistência | caça, pesca, coleta de frutas e agricultura |
| Técnica de roça | derrubada e queimada — depois adotada pelos colonizadores |
| Cultivos | feijão, milho, abóbora e principalmente mandioca |
| Herança alimentar | a farinha de mandioca tornou-se alimento básico do Brasil colonial |
| Tipo de economia | subsistência, para consumo próprio; pouca troca de alimentos entre aldeias |
| O que circulava entre aldeias | mulheres e bens de prestígio, como penas de tucano e pedras de botoque |
| Papel da guerra | elemento integrante da sociedade tupi; atividade masculina que dava prestígio e renovava as mulheres do grupo |
| Mito a evitar | o da preocupação ecológica intuitiva — diante da exaustão de alimentos, migrava-se |
| Contrapeso ao mito | o impacto era incomparavelmente menor que o das atividades atuais |
| Fato político decisivo | não havia nação indígena, e sim grupos dispersos e em conflito — daí os aliados indígenas dos portugueses |
| Vantagem para resistir | estavam em casa, ao contrário dos africanos escravizados, implantados à força em território desconhecido |
| Epidemias de 1562–1563 | mais de 60 mil mortos, sem contar o sertão; sarampo, varíola e gripe |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- STADEN, Hans. Duas Viagens ao Brasil. Publicado originalmente em Marburgo, 1557. Fonte primária, escrita por ex-cativo dos tupinambás.
- LÉRY, Jean de. Histoire d’un Voyage Fait en la Terre du Brésil. 1.ª edição, 1578. Fonte primária.
- CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
- MONTEIRO, John Manuel. Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.