História Verso
História do Brasil · Antes de 1500

Tupis, jês e a diversidade de povos

O mapa que a escola desenha tem duas cores: tupi e tapuia. Só que “tapuia” não é nome de povo nenhum — é a palavra que os tupis usavam para quem falava outra língua, e que os portugueses adotaram como se fosse etnia.

antes de 150011 min de leitura5 fontes
Tupinambás, na gravura do relato de Hans Staden · Hans Staden (c. 1525 – c. 1576) · 1552
Tupinambás na gravura que ilustra o relato de Hans Staden. O bloco mais representado do mapa étnico não é o maior nem o mais antigo: é o que ficou entre o europeu e o resto do continente.
Tupinambás, na gravura do relato de Hans Staden · 1552 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

O mapa dos povos indígenas antes de 1500 costuma vir pintado em duas cores. Uma delas tem nome de povo. A outra tem nome de xingamento. Quem escolheu essas cores?

Começar pela cor errada é a única forma honesta de entrar neste assunto. Então comecemos por tapuia — e pelo fato de que não existiu nenhum povo tapuia.

A palavra que não nomeia ninguém

Fausto registra a origem do termo em uma frase curta, e ela desmonta metade do que se ensina sobre o mapa étnico. Tapuia é uma palavra genérica, e quem a usava eram os próprios tupis-guaranis. Servia para designar indígenas que falavam outra língua.1

Vale demorar no que isso significa. O critério não é territorial, nem físico, nem de organização social: é linguístico, e visto de um lado só. Chamar alguém de tapuia é dizer “não fala como nós” — a mesma operação que os gregos faziam ao chamar de bárbaro quem não falava grego. Não é classificação de etnógrafo: é classificação de vizinho.

E o que os portugueses fizeram com ela? Adotaram-na inteira. Chegando pelo litoral, encontrando primeiro os tupis, negociando e se aliando com eles, herdaram junto o vocabulário com que aqueles grupos descreviam seus rivais. O mapa que a Europa desenhou do interior do continente foi, em boa parte, o mapa que o aliado litorâneo ditou.

Aldeia de tapuias, litografia de Victor Adam, 1835 · Victor Adam · 1835
“Aldeia de tapuias”, litografia de Victor Adam, 1835. O título de uma estampa francesa do século 19 ainda usa como nome de povo uma palavra que nunca foi nome de povo — prova de que o rótulo pegou e atravessou trezentos anos.
Aldeia de tapuias, litografia de Victor Adam, 1835 · 1835 · Wikimedia Commons · Public domain
LembreO que quer dizer “tapuia”?

É palavra tupi-guarani, não portuguesa, e não designa um povo. Marca quem falava outra língua — quer dizer, define o outro pela negativa, a partir de quem fala. Tratar “tapuia” como etnia é o erro mais frequente neste conteúdo.

O bloco que ocupava a costa

Vista a origem do rótulo, dá para desenhar o mapa sem cair nele. A população que os europeus encontraram é dividida, na exposição de Fausto, em dois grandes blocos: de um lado os tupis-guaranis, de outro os chamados tapuias.1

A extensão do primeiro bloco é o dado que mais surpreende quem imagina povos pequenos e isolados. Os tupis-guaranis ocupavam quase toda a costa do que viria a ser o Brasil — do Ceará, pelo menos, até a Lagoa dos Patos, no extremo sul. São milhares de quilômetros de litoral sob povos de cultura e língua semelhantes.1

Dentro do bloco, a divisão é geográfica. Os tupis — também chamados tupinambás — dominavam a faixa litorânea, do Norte até Cananéia, no sul do atual estado de São Paulo. Os guaranis ficavam na bacia dos rios Paraná e Paraguai e no trecho de costa de Cananéia ao extremo sul.1

Duas localizações distintas, portanto — e ainda assim se fala em conjunto tupi-guarani. O motivo é explícito em Fausto: a semelhança de cultura e de língua pesa mais, para efeito de classificação, do que a distância entre os territórios. É a primeira vez que o critério linguístico organiza o mapa neste artigo, e não será a última.1

Cananéia é a fronteira a decorar
Se houver um único ponto geográfico a fixar deste assunto, é este. Cananéia, no sul do estado de São Paulo, é onde termina a faixa tupi e começa a guarani no litoral. Ao norte dela, tupinambás; ao sul, guaranis — que dali seguem para o extremo sul e, terra adentro, para a bacia do Paraná-Paraguai.

Os buracos na faixa litorânea

O bloco tupi-guarani não era, contudo, uma linha contínua. Fausto registra que em alguns pontos do litoral essa presença era interrompida — e são justamente esses grupos interrompentes que recebem o rótulo de tapuias.1

Três deles aparecem nomeados, cada um num trecho preciso. Na foz do rio Paraíba estavam os goitacases. No sul da Bahia e no norte do Espírito Santo, os aimorés. E na faixa entre o Ceará e o Maranhão, os tremembés.1

Repare no que a lista tem de estranho. São três povos sem nenhum parentesco declarado entre si, separados por centenas de quilômetros, e a única coisa que os une é o que não são: não falam tupi-guarani. Um agrupamento assim não descreve os agrupados — descreve o critério de quem agrupou.

Homem tarairiu, por Albert Eckhout, 1641 · Albert Eckhout · 1641
Homem tarairiu pintado por Albert Eckhout em 1641, no Brasil holandês. Os tarairius eram um dos povos que o rótulo genérico engolia — e aqui, excepcionalmente, aparecem identificados pelo próprio nome.
Homem tarairiu, por Albert Eckhout, 1641 · 1641 · Wikimedia Commons · Public domain
Questão 01múltipla escolha · sem placar
A divisão dos povos indígenas do território brasileiro em tupis-guaranis e tapuias, tal como aparece nas fontes coloniais, deve ser lida com cuidado porque:
  1. Incorreta. A palavra não é portuguesa nem tem base geográfica. Era usada pelos próprios tupis-guaranis, e os três grupos assim chamados que Fausto nomeia estavam no litoral, não no interior.

  2. Incorreta. Não havia nação nem confederação indígena, e sim grupos dispersos e frequentemente em conflito. Nenhuma das duas categorias corresponde a uma unidade política.

  3. Incorreta. É exatamente isso. O rótulo define pela negativa e a partir de um lado só — e foi adotado pelos europeus junto com a aliança com os tupis do litoral.

  4. Correta. A classificação em grandes blocos por afinidade cultural e linguística é de fato obra recente de antropólogos. Mas a palavra “tapuia” é anterior e indígena: circulava no contato.

  5. Incorreta. A geografia está invertida. Os tupis-guaranis ocupavam quase toda a costa, do Ceará à Lagoa dos Patos; a bacia do Paraná-Paraguai era a área guarani, dentro do mesmo bloco.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Quem desenhou o mapa que usamos hoje

Se o rótulo colonial não serve, de onde vem a classificação que os livros trazem? Fausto responde com uma advertência de método. Quem montou a divisão em blocos foi a antropologia, e em trabalho recente, cruzando parentesco cultural com parentesco linguístico. Não é o que se pensava em 1500 — é reconstrução feita séculos depois, a partir do que sobrou.1

E o que os portugueses produziram no lugar disso? Uma quantidade de nomes atribuídos de forma impressionista: dezenas de “nações”, entre elas carijós, tupiniquins e tamoios. São designações aplicadas de fora, no calor do contato, por gente que precisava saber com quem negociar e contra quem lutar — não por gente interessada em descrever sociedades.1

Onde entram os jês

Chegamos ao ponto em que a fonte principal deste site não ajuda mais, e é preciso dizê-lo com todas as letras: Fausto não usa o termo “jê” em nenhum momento. Ele trabalha com a oposição tupi-guarani/tapuia e para por aí. O que vem a seguir vem da linguística histórica, e está registrado nas fontes deste artigo.2

A classificação hoje corrente organiza as línguas indígenas brasileiras em troncos, que reúnem famílias, que por sua vez reúnem línguas aparentadas. Os dois maiores são o tronco tupi — do qual a família tupi-guarani é apenas um ramo — e o tronco macro-jê. Além deles há famílias que não se encaixam em tronco algum e línguas isoladas, sem parentesco conhecido.2

Boa parte dos povos que os relatos coloniais chamavam de tapuias é hoje relacionada ao macro-jê — os aimorés, em particular, costumam ser identificados com os grupos depois chamados botocudos, ligados a esse tronco. Mas a substituição de um rótulo por outro não resolve tudo, e é aqui que a honestidade importa: goitacases e tremembés continuam sem classificação firme, porque o registro que sobrou de suas línguas é escasso demais para permitir comparação.2

Em outras palavras: o buraco no mapa não foi preenchido, foi medido. A linguística conseguiu mostrar que “tapuia” escondia realidades muito diversas; não conseguiu, em todos os casos, dizer quais eram.

Família de botocudos em marcha, por Debret, 1834 · Jean Baptiste Debret · 1834
Família de botocudos em marcha, por Debret, 1834. “Botocudo” é nome dado pelos brancos, pelos adornos de lábio e orelha — mais um caso em que o povo entra na história com um apelido descritivo, atribuído de fora.
Família de botocudos em marcha, por Debret, 1834 · 1834 · Wikimedia Commons · Public domain
Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre a geografia dos povos tupis-guaranis às vésperas da chegada dos portugueses, é correto afirmar que:
  1. Correta. É a descrição correta, com Cananéia, no sul do atual estado de São Paulo, como divisor litorâneo entre os dois grupos do mesmo bloco.

  2. Incorreta. É o inverso: a ocupação tupi-guarani do litoral é anterior ao contato, e foi justamente ela que colocou esses povos como primeiros interlocutores dos europeus.

  3. Incorreta. Fausto registra interrupções: goitacases na foz do rio Paraíba, aimorés no sul da Bahia e norte do Espírito Santo, tremembés entre o Ceará e o Maranhão.

  4. Incorreta. A justificativa é a oposta. Apesar da localização geográfica diversa, fala-se em conjunto tupi-guarani justamente pela semelhança de cultura e de língua.

  5. Incorreta. Não existia unidade estatal indígena. A ausência de nação organizada é, aliás, um dos fatos políticos que explicam o avanço da conquista.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

O que o rótulo produziu depois

Uma palavra de exclusão adotada como categoria administrativa não fica sem consequência. Ela reaparece em dois lugares que este site trata em outros assuntos, e vale saber onde procurar.

No tratamento das fontes, o rótulo se soma ao viés dos cronistas: os povos que resistiram são descritos de forma desfavorável, e os aimorés são o caso demonstrativo — inclusive na lei de 1570, que proibiu escravizar indígenas e os excluiu nominalmente da proteção. Esse mecanismo está desenvolvido no artigo de abertura do capítulo, e não se repete aqui.1

E na contagem, o rótulo atrapalha de outro modo: quem foi registrado apenas como “tapuia” não entra em nenhuma série populacional confiável, porque a categoria não corresponde a unidade nenhuma. O problema demográfico é o assunto vizinho.

Pontos sensíveis deste artigo
  • “Tapuia” não é etnia — é palavra genérica usada pelos tupis-guaranis para designar quem falava outra língua. Foi adotada pelos portugueses e virou categoria de mapa, sem nunca ter sido nome de povo.
  • O bloco tupi-guarani é enorme — ia do Ceará, pelo menos, até a Lagoa dos Patos. Tupis ou tupinambás no litoral até Cananéia; guaranis na bacia Paraná-Paraguai e no litoral ao sul dali.
  • O critério do conjunto é linguístico e cultural — apesar de ocuparem áreas distintas, tupis e guaranis são tratados juntos pela semelhança de cultura e de língua. Não é contiguidade territorial que os une.
  • A costa tinha interrupções — goitacases na foz do rio Paraíba, aimorés no sul da Bahia e norte do Espírito Santo, tremembés entre Ceará e Maranhão. Três povos sem parentesco declarado, unidos apenas pelo que não eram.
  • A classificação atual é reconstrução recente — quem a montou foi a antropologia, em trabalho recente, cruzando parentesco cultural com parentesco de língua. Os portugueses, esses produziram dezenas de “nações” batizadas por impressão: carijós, tupiniquins, tamoios.
  • “Jê” não está em Fausto — o termo pertence à linguística histórica, não à fonte principal deste site. Usá-lo é legítimo e útil, mas exige dizer de onde vem — e reconhecer que goitacases e tremembés seguem sem classificação firme.
Onde este artigo para
Aqui se trata do mapa étnico e da origem dos nomes. Ficam de fora, por pertencerem a assuntos vizinhos: a crítica das fontes coloniais e o modo de vida tupi — agricultura, guerra, ritual —, que estão no artigo de abertura do capítulo; e o debate sobre quantos eram, que tem artigo próprio. Sobre a diversidade interna dos povos chamados tapuias, o livro que serve de fonte principal a este site não desce a detalhe: a seção de troncos linguísticos acima veio de outra literatura, e mesmo ela deixa lacunas declaradas.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Por que o mapa chegou até nós com duas cores

POR QUE SÓ DUAS CORESO QUE ISSO PRODUZIUContato pelo litoralo europeu conhece a costae quase nada do interiorIntérprete tupiquem traduz o mundoé o rival dos outrosSem registro do sertãopovos inteiros passamsem deixar documentoO mapa em dois blocostupi-guarani de um lado,“tapuia” do outroPalavra vira etniaum termo de exclusãoentra no mapa como povoDiversidade apagadadezenas de povos somemdentro de um rótulo sóConhecimento desigualsabe-se do tupi litorâneo,quase nada do restoReconstrução tardiaa classificação atual éobra recente e indireta
A primeira caixa da esquerda é a chave: quase tudo o que se registrou veio do litoral, e o litoral era território de um bloco só. O que estava atrás dele entrou na história como categoria negativa.

O que a palavra diz e o que ela cala

O que “tapuia” informaQue o falante não era tupi-guaraniQue quem classificou foi o tupiQue a diferença notada era de línguaQue o europeu adotou a divisão prontaQue o critério veio de dentro, não de foraQue havia rivalidade entre os gruposO que “tapuia” escondeQuantos povos distintos havia aliQue línguas de fato falavamComo cada um se autodenominavaQue não formavam bloco nenhumQue alguns nem eram aparentadosTudo o que não estava no litoral
A coluna da direita é a lista do que se perdeu ao aceitar um rótulo alheio como categoria. Cada linha dela é uma pergunta que hoje não tem resposta.

Mapa mental do assunto

O mapa étnicoantes de 1500Tupis-guaranisCosta, do Ceará à Lagoa dos PatosTupis ou tupinambás: litoral até CananéiaGuaranis: bacia Paraná-Paraguai e sulChamados tapuiasGoitacases: foz do rio ParaíbaAimorés: sul da Bahia, norte do ESTremembés: entre Ceará e MaranhãoDe onde vêm os nomesBlocos: antropólogos, estudo recente“Nações”: impressão portuguesaCarijós, tupiniquins, tamoiosTrês erros a evitarTratar tapuia como etniaConfundir tupi com todo indígenaLer o mapa como fronteira de país
Os dois primeiros ramos são a geografia que a prova cobra; o terceiro é a procedência dos nomes; e o destacado reúne os três atalhos que mais derrubam candidato neste conteúdo.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Os dois blocostupis-guaranis e os chamados tapuias
Origem de “tapuia”palavra tupi-guarani para quem falava outra língua — não é nome de povo
Extensão tupi-guaraniquase toda a costa, do Ceará pelo menos até a Lagoa dos Patos
Tupis ou tupinambásfaixa litorânea, do Norte até Cananéia, no sul do atual estado de São Paulo
Guaranisbacia dos rios Paraná e Paraguai e litoral de Cananéia ao extremo sul
Critério do conjuntosemelhança de cultura e de língua, apesar da localização geográfica diversa
Goitacasesfoz do rio Paraíba
Aimoréssul da Bahia e norte do Espírito Santo
Tremembésfaixa entre o Ceará e o Maranhão
Quem montou o mapa em usoa antropologia recente, cruzando parentesco de cultura com parentesco de língua
Quem inventou carijós e tamoiosos próprios portugueses, por impressão, no calor do contato — dezenas de rótulos assim
Troncos linguísticostupi e macro-jê, mais famílias sem tronco e línguas isoladas — classificação externa a Fausto
Aimorés e macro-jêgeralmente identificados com os grupos depois chamados botocudos, ligados a esse tronco
Lacuna que permanecegoitacases e tremembés seguem sem classificação linguística firme, por escassez de registro
Cada linha responde a uma pergunta que a questão costuma fazer sobre a diversidade dos povos originários e sobre a origem dos nomes que usamos para eles.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo, exceto na seção sobre troncos linguísticos.
  2. RODRIGUES, Aryon Dall’Igna. Línguas Brasileiras: para o conhecimento das línguas indígenas. São Paulo: Loyola, 1986. Fonte da classificação em troncos e famílias, que não está em Fausto.
  3. CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
  4. MONTEIRO, John Manuel. Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
  5. STADEN, Hans. Duas Viagens ao Brasil. Marburgo, 1557. Fonte primária.