Bandeirantes e o Centro-Sul
A bandeira que arrasou o Guaíra em 1629 levava 69 brancos e quase três mil indígenas e mamelucos. Trezentos anos depois, São Paulo ergueu monumentos ao bandeirante branco de botas — e a estátua está errada dos pés à origem.

A epopeia dos bandeirantes · 2018 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Se a bandeira que atacou o Guaíra em 1629 tinha 69 brancos e quase três mil indígenas e mamelucos, por que os monumentos de São Paulo mostram um homem branco de botas?
Porque a estátua não foi feita no século 17. Ela foi feita entre 1920 e 1950, por gente com um projeto — e esse projeto precisava de um herói branco. Este artigo trata das duas coisas: o que as bandeiras eram, e como elas viraram outra coisa.
Quem realmente ia no sertão
Para Fausto, nada assinalou tanto a presença paulista no século 17 colonial quanto as bandeiras. Eram expedições que entravam pelo sertão atrás de dois objetivos — indígenas para escravizar e metais preciosos — e que ficavam fora meses, às vezes anos. Algumas reuniam milhares de pessoas.1
A composição dessas milhares de pessoas é o dado que desmonta o cartão-postal. Mamelucos e indígenas sempre foram mais numerosos que os brancos, e o exemplo que Fausto apresenta é preciso: a bandeira de Manuel Preto e Raposo Tavares que atacou o Guaíra em 1629 tinha 69 brancos, 900 mamelucos e 2 mil indígenas.1

Domingos Jorge Velho e seu lugar-tenente · 1903 · Wikimedia Commons · Public domain
Fica a pergunta incômoda: por que indígenas já cativos marchavam junto sem grande resistência? Fausto oferece uma explicação que vem da própria organização das sociedades indígenas. Nelas, a guerra era ocupação de homem — ao contrário da agricultura. Participar de uma expedição de guerra não representava, para eles, uma inversão de papéis: era o papel.1
De onde saíam esses homens
São Paulo nasceu no planalto e por causa dos indígenas. Padres e colonizadores subiram a Serra do Mar por trilhas indígenas até alcançar o Planalto de Piratininga, a oitocentos metros de altitude. Ali, em 1554, Nóbrega e Anchieta fundaram a povoação, que virou vila em 1561 e recebeu o colégio dos jesuítas.1
A barreira da serra decidiu o resto. Separados do litoral, missionários e moradores foram se voltando cada vez mais para o interior, aproveitando a rede de rios formada pelo Tietê, pelo Paranaíba e outros. O sertão não era destino excepcional: era a direção natural de quem estava de costas para o mar.1
Fausto aproxima essa São Paulo primitiva da periferia do Norte do Brasil, e a lista de semelhanças explica muita coisa: agricultura de exportação fraca, presença indígena grande, disputa entre colonos e missionários pelo controle dessa população, pouca moeda circulando e troca no lugar do dinheiro em boa parte dos negócios.1
Desse caldo saiu uma população específica. Com pouquíssimas mulheres brancas na região, o cruzamento foi extenso e deu origem ao mameluco, filho de branco com indígena. E a língua da terra não era a de Lisboa: o tupi predominou em São Paulo até o século 18. Os portugueses daqui incorporaram hábitos e técnicas indígenas em vez de substituí-los.1
LembreQual língua predominava em São Paulo no século 17?
O tupi — e ele seguiu dominante até o século 18. A vila que produziu os bandeirantes falava, no dia a dia, a língua dos povos que suas expedições iam capturar.
Onde as bandeiras batiam
As rotas apontaram para Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e, sobretudo, para as regiões em que os espanhóis haviam reunido guaranis em aldeamentos. O alvo mais visado foi o Guaíra, situado na área dos rios Paranapanema e Iguaçu, onde os paulistas voltaram repetidas vezes em campanhas de saque, destruição e apresamento.1
Repare no detalhe: as missões eram alvo preferencial justamente porque já haviam concentrado populações antes dispersas. O trabalho de reunião feito pelos padres espanhóis facilitou a captura pelos caçadores portugueses.

Raposo Tavares em escultura · 2018 · Wikimedia Commons · Public domain
O bandeirante a serviço da Coroa
Um dos pilares do mito é a suposta autonomia paulista diante de Portugal. Fausto a relativiza sem inverter para o extremo oposto: os interesses da Coroa e o bandeirismo não estavam inteiramente divorciados. Algumas bandeiras tiveram incentivo direto da administração portuguesa; outras, não. Mas, de forma geral, buscar metal precioso, apresar indígenas em certos períodos e empurrar as fronteiras combinavam com o que a Metrópole queria.1
A prova mais dura vem do uso militar. Os paulistas foram empregados na repressão a populações submetidas no Norte e no Nordeste. Domingos Jorge Velho e Matias Cardoso de Almeida atuaram no Rio Grande do Norte contra a longa revolta indígena conhecida como Guerra dos Bárbaros, entre 1683 e 1713.1
E foi o mesmo Domingos Jorge Velho quem comandou a campanha final contra o Quilombo dos Palmares, em Alagoas, entre 1690 e 1695. Palmares era uma rede de povoados com vários milhares de habitantes, formada no início do século 17, que havia resistido a portugueses e holandeses por quase cem anos antes de sucumbir às tropas sob seu comando.1
Há uma leitura que vai além. Para Raymundo Faoro, citado por Fausto, o Estado português já era patrimonialista e centralizado desde o século 14, e na Colônia seus braços alcançavam até o sertão distante por meio de caudilhos e bandeirantes que, no fundo, agiam em nome do Estado. É uma interpretação forte e disputada — anote como tese de autor, não como fato.
A fábrica de heróis
Entre 1920 e 1950, historiadores paulistas — com destaque para Alfredo Ellis Jr. e Afonso Taunay — escreveram as obras que transformaram o apresador de gente em fundador da nação.1
O caso de Ellis Jr. é explícito até no título. Ele publicou Raça de Gigantes para sustentar a superioridade racial dos paulistas, que decorreria de três coisas: uma população branca numericamente relevante, o êxito do cruzamento com o indígena e a entrada tardia do africano na região. O veredito de Fausto sobre esse edifício é de uma frase: fantasia com pretensão científica.1
Os dois autores insistiam ainda na independência dos paulistas perante a Coroa e no caráter democrático daquela sociedade — apontando a origem plebeia dos colonos brancos, a mestiçagem, a pequena propriedade, a administração popular e bandeiras supostamente abertas a gente de qualquer condição. E celebravam o alargamento das fronteiras muito além da linha de Tordesilhas.1
Aqui entra a correção mais fina do assunto, e ela é fácil de errar na redação. Fausto concorda que os paulistas construíram uma sociedade rústica, com menos distância entre brancos e mestiços e forte marca da cultura indígena. Mas adverte na sequência: rústica não quer dizer democrática. Quem mandava ali eram as famílias de maior prestígio — e todas elas mandavam nos indígenas.1

Monumento às Bandeiras, de Victor Brecheret · 2012 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0
A exaltação saiu dos livros e ocupou a cidade: ruas, avenidas e monumentos levam nomes de bandeirantes. Fausto separa dois exemplos — a obra de Victor Brecheret junto ao Ibirapuera, que ele considera bela, e o Borba Gato de Santo Amaro, que ele chama de assustador, um gigante de botas plantado no bairro.1
O que sobrou de verdade: a fronteira
Desmontado o mito, resta um efeito concreto e grande. A partir do século 17, a extensão real da Colônia já não tinha relação com a linha de Tordesilhas. Três movimentos empurraram o limite: as bandeiras paulistas rumo ao oeste, os criadores de gado e as forças militares rumo ao sudoeste e, depois, o avanço minerador do século 18. Somados, deixaram a fisionomia territorial do país bem próxima da atual.1

A América portuguesa e a linha de Tordesilhas, c. 1574 · 1574 · Wikimedia Commons · Public domain
A disputa pelo controle da população indígena era estrutural, não episódica. Quando papa e Coroa reafirmaram limites à escravização indígena, entre 1639 e 1640, a reação foi violenta no Rio de Janeiro, em Santos e em São Paulo — e os jesuítas acabaram expulsos da região. Colonos e padres queriam a mesma gente, para fins diferentes.
- A cor da bandeira — as expedições eram majoritariamente indígenas e mamelucas. No Guaíra, em 1629, foram 69 brancos para 900 mamelucos e 2 mil indígenas — números de Fausto, e o dado mais cobrado do assunto.
- Autonomia relativa, não absoluta — houve bandeiras incentivadas pela administração portuguesa e outras não. Metal precioso, apresamento e expansão territorial eram, em geral, compatíveis com os objetivos da Metrópole.
- Rústica não é democrática — Fausto aceita a descrição de uma sociedade rústica, com menor distinção entre brancos e mestiços, mas rejeita a conclusão democrática: mandavam as melhores famílias, e todos mandavam nos indígenas.
- Quando o herói foi fabricado — entre 1920 e 1950, por Ellis Jr. e Taunay. O mito é do século 20, não do 17 — e “Raça de Gigantes” tem tese racial explícita, que Fausto trata como fantasia de aparência científica.
- Palmares e o bandeirante — a destruição do quilombo, entre 1690 e 1695, foi conduzida por Domingos Jorge Velho. O mesmo grupo social celebrado como desbravador foi instrumento de repressão a indígenas e a quilombolas.
- Um mérito que se confirma — a expansão das fronteiras para muito além de Tordesilhas de fato ocorreu. Nem tudo no relato tradicional é falso — o que é falso é a moldura racial e a idealização política em volta.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De 1554 à fabricação do mito, em sete marcos
Quem ia na bandeira do Guaíra, em 1629
Por que as bandeiras, e o que elas produziram
O monumento contra a documentação
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Século das bandeiras | o 17 — a grande marca deixada pelos paulistas na vida colonial |
| Objetivos | apresar indígenas para escravizar e localizar metais preciosos |
| Duração das expedições | meses, às vezes anos no sertão |
| Composição | mamelucos e indígenas sempre em maioria sobre os brancos |
| Bandeira do Guaíra, 1629 | 69 brancos, 900 mamelucos e 2 mil indígenas, sob Manuel Preto e Raposo Tavares |
| Por que indígenas iam junto | a guerra era atividade masculina nas sociedades indígenas, ao contrário da agricultura |
| Fundação de São Paulo | 1554, por Nóbrega e Anchieta, no Planalto de Piratininga a 800 metros; vila em 1561 |
| Rede de penetração | os rios Tietê, Paranaíba e outros, depois de vencida a Serra do Mar |
| Língua da região | o tupi, dominante até o século 18 |
| Destinos das bandeiras | Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e as missões de guaranis dos espanhóis |
| Guaíra | área dos rios Paranapanema e Iguaçu; alvo de campanhas repetidas de saque e apresamento |
| Relação com a Coroa | não inteiramente divorciada: algumas bandeiras tiveram incentivo direto da administração portuguesa |
| Guerra dos Bárbaros | 1683–1713, no Rio Grande do Norte, com Domingos Jorge Velho e Matias Cardoso de Almeida |
| Palmares | campanha final de 1690 a 1695, sob Domingos Jorge Velho, após quase cem anos de resistência |
| Construção do mito | Alfredo Ellis Jr. e Afonso Taunay, entre 1920 e 1950; “Raça de Gigantes” tem tese racial explícita |
| Veredito de Fausto sobre o mito | fantasia com pretensão científica; sociedade rústica não equivale a sociedade democrática |
| Efeito territorial real | bandeiras a oeste, gado e tropas a sudoeste e mineração no século 18 levam a fronteira muito além de Tordesilhas |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- MONTEIRO, John Manuel. Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
- HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos e Fronteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
- FAORO, Raymundo. Os Donos do Poder. São Paulo: Globo. Citado no artigo como posição historiográfica em disputa.