História Verso
História do Brasil · Brasil Colonial

Quilombos e Palmares

Em 1678, o governo de Pernambuco negociou um acordo de paz com Palmares. Estados coloniais não assinam tratado com esconderijo — assinam com quem tem território, produção e chefia reconhecida. É por aí que este artigo entra no assunto.

163013 min de leitura6 fontes
A Serra da Barriga, em União dos Palmares (AL) · Joalpe · 2022-12-27
A Serra da Barriga, em União dos Palmares (AL), onde ficava o principal mocambo. A escolha do sítio é argumento militar: encosta íngreme, água disponível e vista sobre quem se aproximasse.
A Serra da Barriga, em União dos Palmares (AL) · 2022 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Pergunta orientadora

Em 1678, o governo de Pernambuco sentou-se para negociar um acordo de paz com Palmares. Governos não assinam tratado com esconderijo. Com o que, então, eles estavam negociando?

Essa pergunta organiza o artigo inteiro, e ela é o antídoto contra a versão que a escola costuma contar. Antes de chegar a Palmares, porém, é preciso saber o que a própria colônia entendia por quilombo — porque a definição legal é surpreendente.

Cinco pessoas bastavam

O documento mais esclarecedor sobre o assunto não descreve nenhum quilombo: define o que era um. Em 1740, respondendo a uma consulta, o Conselho Ultramarino fixou o entendimento de que quilombo era “toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles”.1

Leia devagar os critérios, porque cada um deles derruba uma expectativa. Mais de cinco pessoas — não é preciso multidão. Lugar despovoado — basta estar fora do alcance. Ainda que não haja casa construída. Ainda que não haja pilão, isto é, ainda que não se processe alimento ali.

Quer dizer: seis pessoas paradas numa clareira já constituíam crime organizado, aos olhos do Estado. E a razão de a definição ser tão larga é evidente — quanto mais amplo o conceito, mais fácil enquadrar. A lei não estava descrevendo um fenômeno: estava ampliando a própria jurisdição.

Por que a definição importa tanto
Porque ela explica um número. Fausto conta os quilombos coloniais às centenas — e o dado só faz sentido quando se sabe que seis fugitivos num descampado já contavam. A imagem de grandes reinos escondidos é enganosa nos dois sentidos: havia muito mais quilombos do que se imagina, e a esmagadora maioria era minúscula.

O que era um quilombo, e quantos havia

A definição que Fausto oferece é mais interessante que a jurídica, porque olha para dentro. Quem fugia do cativeiro e se fixava em algum lugar, escreve ele, refazia ali modos de organizar a vida em sociedade parecidos com os da África — e é a esse tipo de estabelecimento que se dá o nome de quilombo. Deles, o Brasil colonial teve às centenas.6

O verbo é o ponto: recompunham. Não se tratava apenas de fugir de alguma coisa — tratava-se de reconstruir outra, com referência a modos de organização trazidos de origem. Fuga é o meio; o quilombo é o resultado.

E Fausto abre o parágrafo com uma advertência que vale repetir inteira: seria errôneo pensar que, enquanto os indígenas se opuseram à escravidão, os negros a aceitaram passivamente. Desde os primeiros tempos, fizeram parte da relação entre senhores e escravizados as fugas individuais ou em massa, as agressões contra senhores e a resistência cotidiana.6

LembreO que era um quilombo?

Um estabelecimento erguido por quem escapou do cativeiro pela fuga e ali refez maneiras africanas de organizar a vida coletiva. O Brasil colonial teve centenas deles — e, pela definição legal de 1740, bastavam mais de cinco pessoas em lugar despovoado.

A palavra veio da África, e não significava fuga

Vale um parágrafo de vocabulário, porque ele contraria o senso comum. Quilombo não é palavra portuguesa nem invenção brasileira: a historiografia a relaciona ao termo kilombo, de origem centro-africana, ligado a uma instituição de acampamento e iniciação guerreira existente entre povos da região de Angola.12

O deslocamento de sentido diz muita coisa. No lugar de origem, a palavra nomeava uma forma de organizar homens armados. No Brasil, passou a nomear o que o Estado queria destruir. E, no século 17, o termo mais usado na documentação não era esse: era mocambo — também de origem africana, associado à ideia de esconderijo ou abrigo.1

Guardar os dois nomes ajuda a ler o assunto: Palmares aparece nos documentos da época como um conjunto de mocambos, e não como uma cidade única.

Palmares não era um lugar — era uma rede

Aqui a fonte principal deste site é precisa, e a precisão importa. Fausto o descreve como uma rede de povoados, com alguns milhares de moradores, plantada num trecho de território que caiu, em boa parte, dentro do atual estado de Alagoas. Era um quilombo entre outros — e, na avaliação dele, sem dúvida o principal deles.6

A palavra rede é a chave militar do assunto. Uma aldeia única cai quando é encontrada. Um conjunto de povoados absorve perdas: destruído um, os demais seguem, e a população se redistribui. Foi por isso que dezenas de expedições voltaram anunciando vitória sem que Palmares acabasse.

A documentação portuguesa nomeia vários desses povoados. O principal, e sede da chefia, era o Macaco — referido nos papéis da repressão como Cerca Real do Macaco, expressão que já entrega o que os atacantes viam: uma praça fortificada, com paliçada. Outros aparecem com nomes como Subupira e Acotirene.23

Réplica da sede administrativa, no Parque Memorial Quilombo dos Palmares · Thalita Chargel · 2017-06-11 10:03:20
Réplica da sede administrativa, no Parque Memorial Quilombo dos Palmares. É reconstrução contemporânea, não vestígio: quase nada da arquitetura original sobreviveu, e o que se vê no local é interpretação apoiada em documentos.
Réplica da sede administrativa, no Parque Memorial Quilombo dos Palmares · 2017 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Um lugar que produzia o que comia

O argumento mais forte contra a versão do esconderijo é econômico, e começa pelo nome. Palmares vem das matas de palmeira da região — e a palmeira não era paisagem: era infraestrutura. Dela saíam alimento, óleo, fibra para cordas e cestos e cobertura para os telhados.23

Sobre essa base a documentação registra agricultura — milho, feijão, mandioca, banana, cana —, além de criação de animais e trabalho artesanal, incluindo cerâmica e ferro.2

E há o dado que sela o argumento: havia excedente, e o excedente era trocado com moradores das redondezas — lavradores pobres, mascates e até soldados —, em negócios que envolviam sal, pólvora, armas e ferramentas. Quer dizer que Palmares não vivia escondido da sociedade colonial: vivia negociando com ela.12

Questão 01múltipla escolha · sem placar
A historiografia recente sobre os quilombos, e sobre Palmares em particular, distanciou-se da imagem do refúgio isolado na mata. O principal fundamento dessa revisão é:
  1. Incorreta. Palmares está documentado em farta papelada oficial da própria repressão colonial, incluindo relatos de expedições e o acordo de 1678.

  2. Incorreta. A maioria era de fato pequena — bastavam mais de cinco pessoas, pela definição de 1740 —, mas Palmares reunia vários milhares de habitantes numa rede de povoados.

  3. Incorreta. Havia indígenas, mestiços e brancos pobres entre os moradores, o que é significativo. Mas a base populacional era formada por africanos e seus descendentes.

  4. Correta. É o fundamento central da revisão: quem produz excedente e negocia sal, pólvora e ferramentas com vizinhos não está escondido da sociedade colonial — está inserido nela em outros termos.

  5. Incorreta. Foi alvo de dezenas de expedições, portuguesas e holandesas, ao longo de quase cem anos, até a campanha final de 1690 a 1695.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Quase cem anos, contra dois impérios

A duração é o segundo argumento, e Fausto o enuncia em uma linha: formado no início do século 17, Palmares resistiu aos ataques de portugueses e holandeses por quase cem anos.6

Repare no detalhe que costuma passar batido: dois impérios europeus diferentes. Entre 1630 e 1654 o Nordeste açucareiro esteve sob domínio holandês, e o quilombo teve de enfrentar as duas administrações coloniais, uma depois da outra. Aliás, foi durante a guerra entre elas que Palmares mais cresceu: com os senhores ocupados em lutar entre si, a vigilância sobre os engenhos afrouxou e as fugas aumentaram.23

Um século é muito tempo. Para efeito de comparação, é mais do que separa a Independência da Proclamação da República. Nenhuma comunidade sobrevive tanto por acaso geográfico: sobrevive por organização.

O tratado de 1678

Chegamos ao episódio que, sozinho, decide a discussão — e ele é diplomático, não militar.

Depois de sucessivas expedições fracassadas, o governador de Pernambuco, Pedro de Almeida, mudou de método e propôs negociar. Em 1678, o chefe reconhecido de Palmares — conhecido pelo título de Ganga Zumba — desceu até Recife acompanhado de uma comitiva e foi recebido com honras.23

Os termos ajustados dizem tudo sobre o que estava em jogo. A colônia oferecia liberdade aos nascidos em Palmares e terras na região de Cucaú, onde o grupo se instalaria. Em troca, exigia submissão à Coroa portuguesa e — este é o ponto — a devolução dos escravizados que fugissem dali em diante.23

A cláusula final revela o cálculo dos dois lados. Para a colônia, o problema nunca foi a existência daquela gente: era o exemplo que ela dava, e o fluxo que ela atraía. Reconhecer os que já estavam lá saía barato, desde que a porta fosse fechada atrás deles.

Para Palmares, aceitar significava trocar de lado: de destino das fugas a guardião da propriedade escrava alheia. E foi exatamente nesse ponto que a comunidade se dividiu.2

O acordo rachou Palmares em dois. Parte seguiu Ganga Zumba para Cucaú; outra parte recusou os termos, sob liderança de Zumbi, e permaneceu na serra. Ganga Zumba morreu pouco depois — segundo as fontes da época, envenenado —, e a chefia do que restava passou a Zumbi.23

Uma divergência que não é traição
O livro didático costuma reduzir 1678 a “Ganga Zumba traiu, Zumbi resistiu”. É leitura pobre. O que houve foi uma divergência política real dentro de uma comunidade real: de um lado, a aposta de que um acordo garantiria a sobrevivência do grupo; de outro, a avaliação de que aceitar devolver fugitivos destruiria a razão de existir de Palmares. Duas estratégias, com riscos distintos. Comunidades que discutem estratégia e se dividem por ela são comunidades políticas — e é isso que o episódio prova.
Questão 02múltipla escolha · sem placar
O acordo negociado em 1678 entre o governo de Pernambuco e a liderança de Palmares é considerado um marco na compreensão do que foi aquele quilombo porque:
  1. Correta. É a leitura correta, e é o argumento mais forte contra a versão escolar. Negociar tratado pressupõe reconhecer o outro lado como entidade política capaz de assumir e cumprir obrigações.

  2. Incorreta. Nada disso ocorreu. O acordo previa inclusive a devolução dos escravizados que fugissem dali em diante — isto é, reforçava a escravidão fora de Palmares.

  3. Incorreta. O acordo dividiu Palmares, Ganga Zumba morreu logo depois e a guerra recomeçou: a campanha final de destruição foi conduzida entre 1690 e 1695.

  4. Incorreta. Não houve criação de capitania nem representação política. O que se ofereceu foi terra em Cucaú e liberdade aos nascidos em Palmares, mediante submissão à Coroa.

  5. Incorreta. Zumbi foi justamente quem recusou os termos e permaneceu na serra. Quem negociou foi Ganga Zumba, e o acordo valia para Palmares, não para todos os quilombos.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

1690–1695: a guerra terceirizada

Rompido o acordo, a colônia voltou à força — e teve de contratar quem soubesse fazer aquele serviço.

Fausto registra que a campanha final de liquidação do quilombo, entre 1690 e 1695, foi conduzida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho.6

E acrescenta um dado que muda o sentido do episódio: o mesmo homem, ao lado de outro paulista, Matias Cardoso de Almeida, participou no Rio Grande do Norte do combate à longa rebelião indígena conhecida como Guerra dos Bárbaros, entre 1683 e 1713. Os bandeirantes, observa ele, também serviram aos propósitos de repressão de populações submetidas no Norte e no Nordeste.6

Quer dizer: destruir Palmares não foi cruzada — foi contrato. O mesmo prestador de serviço atendia encomendas contra quilombolas e contra indígenas rebelados, em províncias diferentes, na mesma década.

A campanha exigiu meios que nenhuma expedição anterior tivera, incluindo artilharia arrastada serra acima. A Cerca Real do Macaco caiu em 1694, depois de cerco. Zumbi escapou e resistiu mais um ano; foi localizado por delação e morto em 20 de novembro de 1695. Sua cabeça foi exposta em praça pública, em Recife — providência tomada, segundo os documentos da época, para desfazer a crença de que ele fosse imortal.23

Monumento a Zumbi dos Palmares · Cícero R. C. Omena · 2014-06-14 15:50
Monumento a Zumbi dos Palmares. Não existe retrato dele feito em vida: toda imagem é construção posterior — e essa ausência é o motivo de o assunto depender tanto da documentação produzida por quem o perseguiu.
Monumento a Zumbi dos Palmares · 2014 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Por que a data virou feriado

O 20 de novembro não é aniversário de fundação nem de vitória: é a data da morte de Zumbi. A escolha diz algo sobre o que se quis marcar — não o fim de Palmares, e sim o ponto em que a resistência precisou ser encerrada à força. Hoje é o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, feriado nacional desde 2023.5

E há um desdobramento jurídico que liga o século 17 ao presente. A Constituição de 1988, no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, reconheceu a propriedade definitiva das terras ocupadas pelos remanescentes das comunidades dos quilombos, cabendo ao Estado emitir-lhes os títulos.5

Quer dizer que o quilombo deixou de ser crime e passou a ser direito — e que a palavra que em 1740 servia para enquadrar seis pessoas numa clareira serve, hoje, para garantir a terra de quem ficou.

20 de novembro na Serra da Barriga, 2015 · Ministério da Cultura · 2015-11-19 12:20
Comemorações do 20 de novembro na Serra da Barriga, em 2015. O lugar onde o quilombo foi destruído tornou-se o lugar onde ele é celebrado — inversão que levou três séculos para acontecer.
20 de novembro na Serra da Barriga, 2015 · 2015 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
Pontos sensíveis deste artigo
  • Palmares não era esconderijo — era uma rede de povoados com vários milhares de habitantes, produção agrícola própria, artesanato e comércio de excedente com moradores das redondezas. Quem negocia sal, pólvora e ferramentas com vizinhos não está escondido da sociedade colonial.
  • O acordo de 1678 é a prova política — o governo de Pernambuco negociou termos com a chefia de Palmares: liberdade aos nascidos ali e terras em Cucaú, em troca de submissão à Coroa e devolução dos fugitivos futuros. Estados não firmam tratado com quem não reconhecem como interlocutor.
  • A divisão não foi traição — Ganga Zumba aceitou os termos e Zumbi os recusou. Foram duas estratégias de sobrevivência, com riscos diferentes, discutidas dentro de uma comunidade política — e não um caso moral de lealdade contra covardia.
  • Quilombos existiram às centenas — Palmares é exceção em escala, não em espécie. Pela definição do Conselho Ultramarino de 1740, bastavam mais de cinco pessoas em lugar despovoado, ainda que sem casas construídas ou pilões.
  • Fuga não foi a única resistência — Fausto adverte que seria errôneo supor aceitação passiva: houve fugas individuais e em massa, agressões contra senhores e resistência cotidiana desde os primeiros tempos.
  • A repressão era serviço contratado — Domingos Jorge Velho conduziu a campanha final entre 1690 e 1695 e, na mesma década, combateu a rebelião indígena conhecida como Guerra dos Bárbaros no Rio Grande do Norte. Bandeirantes serviram à repressão de populações submetidas no Norte e no Nordeste.
Onde este artigo para
Aviso de fonte, porque este artigo foge ao padrão do site. Boris Fausto dedica ao assunto um único parágrafo, e não menciona Zumbi em momento algum. Dele vêm a definição de quilombo, a existência às centenas, a rede de povoados, o século de resistência, a data de 1695 e o nome de Domingos Jorge Velho. Todo o restante veio da literatura especializada, citada nas fontes.

E há o que ninguém sabe com firmeza: a população exata de Palmares é disputada — as cifras mais altas vêm de relatórios de expedição, cujos autores tinham interesse em engrandecer o inimigo derrotado. Também seguem em discussão a organização política interna, se “Ganga Zumba” era nome ou título, e o grau de parentesco entre os chefes. O artigo não fecha nenhum desses pontos.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Quase um século, e duas administrações coloniais

início do séc. 17Formam-se osprimeirosmocambos1630–1654Ataquesholandeses;Palmares cresce1678Acordo de paz comGanga Zumba1690Domingos JorgeVelho écontratado1694Cai a Cerca Realdo Macaco20/11/1695Zumbi é morto; acabeça é expostaNote a distância entre o primeiro e o último marco militar: quase cem anos. Nenhum esconderijo dura o tempo que Palmares durou.
Os marcos destacados não são batalhas: são o período de crescimento durante a guerra holandesa, a negociação de 1678 e a data que virou feriado. A história de Palmares não é só militar.

Por que Palmares durou tanto

POR QUE DUROU TANTOO QUE ISSO PRODUZIUTerreno a favorencosta íngreme, mata fechadae água farta na serraComida própriaroça, caça e as palmeirasque deram nome ao lugarRede, não aldeiavários povoados: destruir umnão derruba o conjuntoPalmares, quase um séculoresistiu a portuguesese a holandesesAutonomianão dependia de saquepara se alimentarComércioexcedente trocado commoradores das redondezasReconhecimentoo governo de Pernambuconegocia acordo em 1678Guerra terceirizadafoi preciso contratarbandeirantes paulistas
A segunda e a terceira caixas da esquerda são as que a versão escolar ignora. Sem produção própria e sem estrutura em rede, nenhum agrupamento resiste a dezenas de expedições ao longo de um século.

Duas versões do mesmo quilombo

A versão “esconderijo”Um refúgio isolado na mataGente escondida, esperando não ser achadaSobrevivência por saque e caçaSem produção nem excedenteSem chefia estável nem sucessãoDestruído numa investidaO que a documentação mostraRede de povoados, com um centroVários milhares de habitantesRoça, criação e artesanato própriosExcedente trocado com vizinhosChefia reconhecida e disputa sucessóriaQuase cem anos e dezenas de expedições
A coluna da esquerda é a que circula em resumo escolar. A da direita é a que a documentação da própria repressão colonial sustenta — e é essa a diferença cobrada nas questões mais bem formuladas.

Mapa mental do assunto

Quilombose PalmaresO fenômeno geralExistiram às centenas na colôniaRecompunham formas sociais africanasBastavam cinco pessoas, dizia a leiPalmares em númerosRede de povoados, hoje em parte AlagoasVários milhares de habitantesQuase cem anos de resistênciaProvas de que era políticaProdução agrícola e comércioAcordo de paz negociado em 1678Sucessão disputada entre chefesTrês erros a evitarChamar de esconderijo na mataReduzir tudo a Palmares e a ZumbiTratar fuga como única resistência
O ramo destacado reúne os três atalhos deste conteúdo. O segundo é o mais frequente: tratar Palmares como se fosse o único quilombo, quando existiram centenas deles.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Definição de quilomboestabelecimento de quem escapou do cativeiro pela fuga e ali refez maneiras africanas de organizar a vida coletiva
Definição legal de 1740Conselho Ultramarino: mais de cinco fugidos em parte despovoada, ainda que sem ranchos ou pilões
Quantidadeexistiram às centenas no Brasil colonial
Origem da palavrarelacionada ao termo centro-africano kilombo; no século 17 usava-se mais mocambo
O que era Palmaresuma rede de povoados, e não um povoado único
Localizaçãoregião que hoje corresponde em parte ao estado de Alagoas; sede na Serra da Barriga
Povoado principalo Macaco, referido nos documentos como Cerca Real do Macaco
População“vários milhares”, segundo Fausto; as cifras mais altas são disputadas, por virem de relatórios de expedição
Duraçãodo início do século 17 a 1695 — quase cem anos
Adversáriosportugueses e holandeses, sucessivamente
Economiamilho, feijão, mandioca, banana e cana; criação, artesanato e aproveitamento das palmeiras
Relação com o entornoexcedente trocado com moradores das redondezas por sal, pólvora, armas e ferramentas
Composiçãoafricanos e descendentes, mas também indígenas, mestiços, brancos pobres e desertores
Acordo de 1678Pedro de Almeida e Ganga Zumba: terras em Cucaú e liberdade aos nascidos ali, por submissão e devolução de fugitivos futuros
Efeito do acordodivisão interna; Zumbi recusa e permanece na serra; Ganga Zumba morre pouco depois, ao que consta envenenado
Campanha final1690–1695, conduzida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho
Queda do Macaco1694, após cerco e uso de artilharia
Morte de Zumbi20 de novembro de 1695; cabeça exposta em praça pública no Recife
Desdobramento atual20 de novembro é feriado nacional desde 2023; o art. 68 do ADCT de 1988 reconhece a propriedade das terras de remanescentes de quilombos
Cada linha responde a uma pergunta que a questão costuma fazer sobre quilombos e sobre Palmares. As linhas marcadas como disputadas não têm resposta fechada na literatura.

Fontes

  1. REIS, João José; GOMES, Flávio dos Santos (orgs.). Liberdade por um Fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. Fonte principal deste artigo.
  2. GOMES, Flávio dos Santos. Palmares: escravidão e liberdade no Atlântico Sul. São Paulo: Contexto, 2005.
  3. FREITAS, Décio. Palmares: a guerra dos escravos. Rio de Janeiro: Graal.
  4. CARNEIRO, Édison. O Quilombo dos Palmares. São Paulo: Companhia Editora Nacional.
  5. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
  6. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal do site; neste assunto, dedica-lhe um parágrafo — do qual vêm a definição de quilombo, a rede de povoados, o século de resistência e a data de 1695.