Quilombos e Palmares
Em 1678, o governo de Pernambuco negociou um acordo de paz com Palmares. Estados coloniais não assinam tratado com esconderijo — assinam com quem tem território, produção e chefia reconhecida. É por aí que este artigo entra no assunto.

A Serra da Barriga, em União dos Palmares (AL) · 2022 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Em 1678, o governo de Pernambuco sentou-se para negociar um acordo de paz com Palmares. Governos não assinam tratado com esconderijo. Com o que, então, eles estavam negociando?
Essa pergunta organiza o artigo inteiro, e ela é o antídoto contra a versão que a escola costuma contar. Antes de chegar a Palmares, porém, é preciso saber o que a própria colônia entendia por quilombo — porque a definição legal é surpreendente.
Cinco pessoas bastavam
O documento mais esclarecedor sobre o assunto não descreve nenhum quilombo: define o que era um. Em 1740, respondendo a uma consulta, o Conselho Ultramarino fixou o entendimento de que quilombo era “toda habitação de negros fugidos que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados nem se achem pilões neles”.1
Leia devagar os critérios, porque cada um deles derruba uma expectativa. Mais de cinco pessoas — não é preciso multidão. Lugar despovoado — basta estar fora do alcance. Ainda que não haja casa construída. Ainda que não haja pilão, isto é, ainda que não se processe alimento ali.
Quer dizer: seis pessoas paradas numa clareira já constituíam crime organizado, aos olhos do Estado. E a razão de a definição ser tão larga é evidente — quanto mais amplo o conceito, mais fácil enquadrar. A lei não estava descrevendo um fenômeno: estava ampliando a própria jurisdição.
Porque ela explica um número. Fausto conta os quilombos coloniais às centenas — e o dado só faz sentido quando se sabe que seis fugitivos num descampado já contavam. A imagem de grandes reinos escondidos é enganosa nos dois sentidos: havia muito mais quilombos do que se imagina, e a esmagadora maioria era minúscula.
O que era um quilombo, e quantos havia
A definição que Fausto oferece é mais interessante que a jurídica, porque olha para dentro. Quem fugia do cativeiro e se fixava em algum lugar, escreve ele, refazia ali modos de organizar a vida em sociedade parecidos com os da África — e é a esse tipo de estabelecimento que se dá o nome de quilombo. Deles, o Brasil colonial teve às centenas.6
O verbo é o ponto: recompunham. Não se tratava apenas de fugir de alguma coisa — tratava-se de reconstruir outra, com referência a modos de organização trazidos de origem. Fuga é o meio; o quilombo é o resultado.
E Fausto abre o parágrafo com uma advertência que vale repetir inteira: seria errôneo pensar que, enquanto os indígenas se opuseram à escravidão, os negros a aceitaram passivamente. Desde os primeiros tempos, fizeram parte da relação entre senhores e escravizados as fugas individuais ou em massa, as agressões contra senhores e a resistência cotidiana.6
LembreO que era um quilombo?
Um estabelecimento erguido por quem escapou do cativeiro pela fuga e ali refez maneiras africanas de organizar a vida coletiva. O Brasil colonial teve centenas deles — e, pela definição legal de 1740, bastavam mais de cinco pessoas em lugar despovoado.
A palavra veio da África, e não significava fuga
Vale um parágrafo de vocabulário, porque ele contraria o senso comum. Quilombo não é palavra portuguesa nem invenção brasileira: a historiografia a relaciona ao termo kilombo, de origem centro-africana, ligado a uma instituição de acampamento e iniciação guerreira existente entre povos da região de Angola.12
O deslocamento de sentido diz muita coisa. No lugar de origem, a palavra nomeava uma forma de organizar homens armados. No Brasil, passou a nomear o que o Estado queria destruir. E, no século 17, o termo mais usado na documentação não era esse: era mocambo — também de origem africana, associado à ideia de esconderijo ou abrigo.1
Guardar os dois nomes ajuda a ler o assunto: Palmares aparece nos documentos da época como um conjunto de mocambos, e não como uma cidade única.
Palmares não era um lugar — era uma rede
Aqui a fonte principal deste site é precisa, e a precisão importa. Fausto o descreve como uma rede de povoados, com alguns milhares de moradores, plantada num trecho de território que caiu, em boa parte, dentro do atual estado de Alagoas. Era um quilombo entre outros — e, na avaliação dele, sem dúvida o principal deles.6
A palavra rede é a chave militar do assunto. Uma aldeia única cai quando é encontrada. Um conjunto de povoados absorve perdas: destruído um, os demais seguem, e a população se redistribui. Foi por isso que dezenas de expedições voltaram anunciando vitória sem que Palmares acabasse.
A documentação portuguesa nomeia vários desses povoados. O principal, e sede da chefia, era o Macaco — referido nos papéis da repressão como Cerca Real do Macaco, expressão que já entrega o que os atacantes viam: uma praça fortificada, com paliçada. Outros aparecem com nomes como Subupira e Acotirene.23

Réplica da sede administrativa, no Parque Memorial Quilombo dos Palmares · 2017 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Um lugar que produzia o que comia
O argumento mais forte contra a versão do esconderijo é econômico, e começa pelo nome. Palmares vem das matas de palmeira da região — e a palmeira não era paisagem: era infraestrutura. Dela saíam alimento, óleo, fibra para cordas e cestos e cobertura para os telhados.23
Sobre essa base a documentação registra agricultura — milho, feijão, mandioca, banana, cana —, além de criação de animais e trabalho artesanal, incluindo cerâmica e ferro.2
E há o dado que sela o argumento: havia excedente, e o excedente era trocado com moradores das redondezas — lavradores pobres, mascates e até soldados —, em negócios que envolviam sal, pólvora, armas e ferramentas. Quer dizer que Palmares não vivia escondido da sociedade colonial: vivia negociando com ela.12
Quase cem anos, contra dois impérios
A duração é o segundo argumento, e Fausto o enuncia em uma linha: formado no início do século 17, Palmares resistiu aos ataques de portugueses e holandeses por quase cem anos.6
Repare no detalhe que costuma passar batido: dois impérios europeus diferentes. Entre 1630 e 1654 o Nordeste açucareiro esteve sob domínio holandês, e o quilombo teve de enfrentar as duas administrações coloniais, uma depois da outra. Aliás, foi durante a guerra entre elas que Palmares mais cresceu: com os senhores ocupados em lutar entre si, a vigilância sobre os engenhos afrouxou e as fugas aumentaram.23
Um século é muito tempo. Para efeito de comparação, é mais do que separa a Independência da Proclamação da República. Nenhuma comunidade sobrevive tanto por acaso geográfico: sobrevive por organização.
O tratado de 1678
Chegamos ao episódio que, sozinho, decide a discussão — e ele é diplomático, não militar.
Depois de sucessivas expedições fracassadas, o governador de Pernambuco, Pedro de Almeida, mudou de método e propôs negociar. Em 1678, o chefe reconhecido de Palmares — conhecido pelo título de Ganga Zumba — desceu até Recife acompanhado de uma comitiva e foi recebido com honras.23
Os termos ajustados dizem tudo sobre o que estava em jogo. A colônia oferecia liberdade aos nascidos em Palmares e terras na região de Cucaú, onde o grupo se instalaria. Em troca, exigia submissão à Coroa portuguesa e — este é o ponto — a devolução dos escravizados que fugissem dali em diante.23
A cláusula final revela o cálculo dos dois lados. Para a colônia, o problema nunca foi a existência daquela gente: era o exemplo que ela dava, e o fluxo que ela atraía. Reconhecer os que já estavam lá saía barato, desde que a porta fosse fechada atrás deles.
Para Palmares, aceitar significava trocar de lado: de destino das fugas a guardião da propriedade escrava alheia. E foi exatamente nesse ponto que a comunidade se dividiu.2
O acordo rachou Palmares em dois. Parte seguiu Ganga Zumba para Cucaú; outra parte recusou os termos, sob liderança de Zumbi, e permaneceu na serra. Ganga Zumba morreu pouco depois — segundo as fontes da época, envenenado —, e a chefia do que restava passou a Zumbi.23
O livro didático costuma reduzir 1678 a “Ganga Zumba traiu, Zumbi resistiu”. É leitura pobre. O que houve foi uma divergência política real dentro de uma comunidade real: de um lado, a aposta de que um acordo garantiria a sobrevivência do grupo; de outro, a avaliação de que aceitar devolver fugitivos destruiria a razão de existir de Palmares. Duas estratégias, com riscos distintos. Comunidades que discutem estratégia e se dividem por ela são comunidades políticas — e é isso que o episódio prova.
1690–1695: a guerra terceirizada
Rompido o acordo, a colônia voltou à força — e teve de contratar quem soubesse fazer aquele serviço.
Fausto registra que a campanha final de liquidação do quilombo, entre 1690 e 1695, foi conduzida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho.6
E acrescenta um dado que muda o sentido do episódio: o mesmo homem, ao lado de outro paulista, Matias Cardoso de Almeida, participou no Rio Grande do Norte do combate à longa rebelião indígena conhecida como Guerra dos Bárbaros, entre 1683 e 1713. Os bandeirantes, observa ele, também serviram aos propósitos de repressão de populações submetidas no Norte e no Nordeste.6
Quer dizer: destruir Palmares não foi cruzada — foi contrato. O mesmo prestador de serviço atendia encomendas contra quilombolas e contra indígenas rebelados, em províncias diferentes, na mesma década.
A campanha exigiu meios que nenhuma expedição anterior tivera, incluindo artilharia arrastada serra acima. A Cerca Real do Macaco caiu em 1694, depois de cerco. Zumbi escapou e resistiu mais um ano; foi localizado por delação e morto em 20 de novembro de 1695. Sua cabeça foi exposta em praça pública, em Recife — providência tomada, segundo os documentos da época, para desfazer a crença de que ele fosse imortal.23

Monumento a Zumbi dos Palmares · 2014 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
Por que a data virou feriado
O 20 de novembro não é aniversário de fundação nem de vitória: é a data da morte de Zumbi. A escolha diz algo sobre o que se quis marcar — não o fim de Palmares, e sim o ponto em que a resistência precisou ser encerrada à força. Hoje é o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, feriado nacional desde 2023.5
E há um desdobramento jurídico que liga o século 17 ao presente. A Constituição de 1988, no artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, reconheceu a propriedade definitiva das terras ocupadas pelos remanescentes das comunidades dos quilombos, cabendo ao Estado emitir-lhes os títulos.5
Quer dizer que o quilombo deixou de ser crime e passou a ser direito — e que a palavra que em 1740 servia para enquadrar seis pessoas numa clareira serve, hoje, para garantir a terra de quem ficou.

20 de novembro na Serra da Barriga, 2015 · 2015 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
- Palmares não era esconderijo — era uma rede de povoados com vários milhares de habitantes, produção agrícola própria, artesanato e comércio de excedente com moradores das redondezas. Quem negocia sal, pólvora e ferramentas com vizinhos não está escondido da sociedade colonial.
- O acordo de 1678 é a prova política — o governo de Pernambuco negociou termos com a chefia de Palmares: liberdade aos nascidos ali e terras em Cucaú, em troca de submissão à Coroa e devolução dos fugitivos futuros. Estados não firmam tratado com quem não reconhecem como interlocutor.
- A divisão não foi traição — Ganga Zumba aceitou os termos e Zumbi os recusou. Foram duas estratégias de sobrevivência, com riscos diferentes, discutidas dentro de uma comunidade política — e não um caso moral de lealdade contra covardia.
- Quilombos existiram às centenas — Palmares é exceção em escala, não em espécie. Pela definição do Conselho Ultramarino de 1740, bastavam mais de cinco pessoas em lugar despovoado, ainda que sem casas construídas ou pilões.
- Fuga não foi a única resistência — Fausto adverte que seria errôneo supor aceitação passiva: houve fugas individuais e em massa, agressões contra senhores e resistência cotidiana desde os primeiros tempos.
- A repressão era serviço contratado — Domingos Jorge Velho conduziu a campanha final entre 1690 e 1695 e, na mesma década, combateu a rebelião indígena conhecida como Guerra dos Bárbaros no Rio Grande do Norte. Bandeirantes serviram à repressão de populações submetidas no Norte e no Nordeste.
Aviso de fonte, porque este artigo foge ao padrão do site. Boris Fausto dedica ao assunto um único parágrafo, e não menciona Zumbi em momento algum. Dele vêm a definição de quilombo, a existência às centenas, a rede de povoados, o século de resistência, a data de 1695 e o nome de Domingos Jorge Velho. Todo o restante veio da literatura especializada, citada nas fontes.
E há o que ninguém sabe com firmeza: a população exata de Palmares é disputada — as cifras mais altas vêm de relatórios de expedição, cujos autores tinham interesse em engrandecer o inimigo derrotado. Também seguem em discussão a organização política interna, se “Ganga Zumba” era nome ou título, e o grau de parentesco entre os chefes. O artigo não fecha nenhum desses pontos.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Quase um século, e duas administrações coloniais
Por que Palmares durou tanto
Duas versões do mesmo quilombo
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Definição de quilombo | estabelecimento de quem escapou do cativeiro pela fuga e ali refez maneiras africanas de organizar a vida coletiva |
| Definição legal de 1740 | Conselho Ultramarino: mais de cinco fugidos em parte despovoada, ainda que sem ranchos ou pilões |
| Quantidade | existiram às centenas no Brasil colonial |
| Origem da palavra | relacionada ao termo centro-africano kilombo; no século 17 usava-se mais mocambo |
| O que era Palmares | uma rede de povoados, e não um povoado único |
| Localização | região que hoje corresponde em parte ao estado de Alagoas; sede na Serra da Barriga |
| Povoado principal | o Macaco, referido nos documentos como Cerca Real do Macaco |
| População | “vários milhares”, segundo Fausto; as cifras mais altas são disputadas, por virem de relatórios de expedição |
| Duração | do início do século 17 a 1695 — quase cem anos |
| Adversários | portugueses e holandeses, sucessivamente |
| Economia | milho, feijão, mandioca, banana e cana; criação, artesanato e aproveitamento das palmeiras |
| Relação com o entorno | excedente trocado com moradores das redondezas por sal, pólvora, armas e ferramentas |
| Composição | africanos e descendentes, mas também indígenas, mestiços, brancos pobres e desertores |
| Acordo de 1678 | Pedro de Almeida e Ganga Zumba: terras em Cucaú e liberdade aos nascidos ali, por submissão e devolução de fugitivos futuros |
| Efeito do acordo | divisão interna; Zumbi recusa e permanece na serra; Ganga Zumba morre pouco depois, ao que consta envenenado |
| Campanha final | 1690–1695, conduzida pelo bandeirante Domingos Jorge Velho |
| Queda do Macaco | 1694, após cerco e uso de artilharia |
| Morte de Zumbi | 20 de novembro de 1695; cabeça exposta em praça pública no Recife |
| Desdobramento atual | 20 de novembro é feriado nacional desde 2023; o art. 68 do ADCT de 1988 reconhece a propriedade das terras de remanescentes de quilombos |
Fontes
- REIS, João José; GOMES, Flávio dos Santos (orgs.). Liberdade por um Fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. Fonte principal deste artigo.
- GOMES, Flávio dos Santos. Palmares: escravidão e liberdade no Atlântico Sul. São Paulo: Contexto, 2005.
- FREITAS, Décio. Palmares: a guerra dos escravos. Rio de Janeiro: Graal.
- CARNEIRO, Édison. O Quilombo dos Palmares. São Paulo: Companhia Editora Nacional.
- BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal do site; neste assunto, dedica-lhe um parágrafo — do qual vêm a definição de quilombo, a rede de povoados, o século de resistência e a data de 1695.