História Verso
História do Brasil · Brasil Colonial

As capitanias hereditárias

Dom João III dividiu o Brasil em quinze quinhões traçados a régua sobre o mapa e entregou cada um a um particular. Duas capitanias deram certo, as outras não — e é o fracasso, não o sucesso, que explica o que veio depois.

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O mapa das capitanias hereditárias · DIAS, C. Malheiros · 1926-03-09
Repare nas linhas retas e paralelas: o território foi repartido a régua, em Lisboa, sobre um mapa de um interior que nenhum português havia percorrido.
O mapa das capitanias hereditárias · 1926 · Wikimedia Commons · CC0
Pergunta orientadora

Por que a Coroa portuguesa entregou pedaços inteiros do Brasil a particulares, em vez de administrá-los ela mesma?

Porque não tinha dinheiro para fazer diferente, e porque perder o território era um risco real. Nas três primeiras décadas depois de 1500, o interesse português pelo Brasil foi pequeno: a terra rendia pau-brasil e pouco mais, enquanto as Índias rendiam especiarias. Mas terra não ocupada era terra que outro reino podia tomar — e franceses já frequentavam a costa. A solução foi transferir o custo e o risco da ocupação para particulares, ficando a Coroa com parte do tributo.

A decisão de Dom João III parece ter sido tomada enquanto Martim Afonso de Sousa ainda se encontrava deste lado do Atlântico. O desenho foi simples e brutal: traçaram-se faixas paralelas à linha do equador, cada uma indo da praia até o meridiano de Tordesilhas, e o que sobrou foram quinze quinhões. Cada um deles passou às mãos de um capitão-donatário.1

A régua e o desconhecido
As faixas vão do mar até uma linha imaginária no meio do continente. Ninguém sabia o que havia ali dentro — nem se havia terra até lá. O desenho não descreve o Brasil; descreve o que Lisboa achava que podia repartir.

Quem eram os donatários

Não eram nobres de primeira grandeza. O grupo misturava pequena nobreza, funcionários do reino e homens de negócio, e o que unia todos era o trânsito junto à Coroa.1 Martim Afonso entrou pela folha de navegador. Duarte Coelho vinha de carreira militar brilhante no Oriente, mas de bolso vazio — e seria ele quem faria dar certo em Pernambuco. Jorge Figueiredo Correia acumulava o cargo de escrivão da Fazenda Real com um grande negócio próprio, e tinha banqueiros florentinos por trás. Pero do Campo Tourinho fez o oposto de todos: liquidou o que possuía em Portugal e atravessou o mar com seiscentos colonos.1

Martim Afonso de Sousa · Lisuarte de Abreu · circa 1560
Martim Afonso de Sousa, no Livro de Lisuarte de Abreu, por volta de 1560. Retratado ainda no próprio século — raro para personagens desta época, quase sempre desenhados séculos depois.
Martim Afonso de Sousa · 1560 · Wikimedia Commons · Public domain
O donatário que voltou preso
Pero do Campo Tourinho entrou em conflito com os próprios colonos, foi denunciado à Inquisição e embarcou de volta a Portugal. O detalhe diz mais sobre o projeto do que qualquer mapa: o donatário podia mandar na capitania, mas não estava acima da Igreja nem imune aos seus.

Curiosamente, a primeira capitania brasileira nasceu antes do sistema existir. Em data anterior a 1532, a Ilha de São João foi entregue pelo rei a Fernão de Noronha — que hoje dá nome a ela.1

Possuidor não é proprietário

Aqui está a distinção que a prova costuma cobrar e que o resumo escolar costuma achatar. O instrumento era uma doação, e o que ela transferia era a posse, jamais a propriedade. Vender, o donatário não podia; repartir, tampouco; e o rei guardava para si a prerrogativa de alterar a concessão ou acabar com ela.1

Dentro desse limite, os poderes eram amplos. Do lado do dinheiro, cobrava-se por quase tudo: montar engenho de açúcar, erguer moinho movido a água e explorar depósito de sal só era possível mediante direitos pagos ao donatário, que ainda ficava com uma fatia do que a Coroa recolhia sobre pau-brasil, metal precioso e pesca. Do lado do mando, a lista é ainda maior — julgar era atribuição exclusivamente dele, e a ela se somavam fundar vila, distribuir sesmaria, convocar colono para a guerra e organizar milícia própria.1

LembreDonatário era dono da capitania?

Não. Era possuidor. Não podia vender nem dividir, e o rei podia modificar ou extinguir a doação. A terra seguia pertencendo à Coroa — e foi justamente por isso que a Coroa conseguiu retomá-las depois.

Questão 01múltipla escolha · sem placar
A doação de uma capitania hereditária conferia ao donatário amplos poderes sobre o território. Sobre a natureza jurídica dessa doação, é correto afirmar que o donatário:
  1. Incorreta. É o erro mais comum do assunto. A capitania era hereditária — passava aos herdeiros —, mas isso não fazia do donatário proprietário: ele não podia vender nem dividir o território.

  2. Incorreta. Não havia prazo. A doação era hereditária e sem termo final; o que a Coroa retinha era o direito de modificá-la ou extingui-la a qualquer tempo, e mais tarde retomou as capitanias por compra.

  3. Correta. A terra continuava pertencendo à Coroa. É exatamente por isso que, séculos depois, a Coroa conseguiu retomar as capitanias — processo concluído entre 1752 e 1754, sob Pombal.

  4. Incorreta. Ao contrário: o donatário tinha o monopólio da justiça e arrecadava tributos, além de poder fundar vilas e doar sesmarias. Os poderes eram amplos — o que era limitado era a titularidade da terra.

  5. Incorreta. Essa é a descrição de um feudo europeu, não da capitania. A tese da natureza feudal da colonização existiu, mas Fausto registra que ela perdeu a importância que já teve.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Era feudalismo?

Essa é uma pergunta clássica de prova, e a resposta honesta é: o debate existiu e perdeu força. As capitanias são uma instituição a que historiadores — sobretudo portugueses — recorreram com frequência para defender a tese da natureza feudal da colonização.

Para Fausto, tanto a tese quanto o debate em torno dela encolheram. No lugar entrou uma corrente historiográfica mais nova, para a qual não faz falta carimbar com rótulo europeu rígido uma formação social que é complexa justamente por não repetir a Europa.1

Isso não significa que não haja nada de medieval ali. Ao montar o sistema, a Coroa reaproveitou fórmulas nascidas na Europa medieval — cobrar pela licença de instalar um engenho, por exemplo, funciona como as banalidades que o lavrador pagava ao senhor feudal. No conjunto, porém, o que as capitanias foram é outra coisa: uma experiência de colonização provisória e às apalpadelas.1

O Estado do Brasil em 1549 · Map: J. M. de Araripe Macedo. Book: BRASIL, Ministerio da Agricultura, Industria e Commercio. Directoria Geral de Estatística. · published 1922
O Estado do Brasil em 1549, ano da criação do governo-geral. Compare com o mapa das faixas: em quinze anos, o projeto de repartir já havia sido corrigido.
O Estado do Brasil em 1549 · 1922 · Wikimedia Commons · Public domain

O fracasso, que é o que importa

Tirando São Vicente e Pernambuco, o resultado foi fracasso — mais fundo aqui, menos ali, mas fracasso. Faltou dinheiro, sobrou briga interna, os donatários não sabiam o que estavam fazendo e os povos indígenas reagiram. E Fausto anota uma coincidência que não é coincidência: as duas que deram certo são justamente as que juntaram lavoura de açúcar com um trato menos violento em relação aos povos da terra.1

Diário da navegação da armada de 1530 · SOUZA, Pêro Lopes de. Diário da navegação da armada que foi á terra do Brasil em 1530 sob a Capitania-Mor de Martin Affonso de Souza. Lisboa: Publicação de Adolpho Varnhagen, 1839.
Edição impressa do diário da navegação da armada de 1530 — a expedição de Martim Afonso que fundou São Vicente, uma das duas capitanias que deram certo. O relato é de 1530; este impresso é do século 19.
Diário da navegação da armada de 1530 · 1839 · Wikimedia Commons · Public domain

Esse fracasso tem consequência direta: ele deixou à mostra o quanto a administração da América portuguesa era frágil, e a criação do governo-geral em 1549 veio como resposta — avanço real na maneira de organizar a Colônia.1 As capitanias, note-se, não sumiram do mapa. A Coroa foi recomprando-as aos poucos, e elas seguiram existindo como divisão administrativa; o que mudou foi a natureza delas, agora peça do Estado e não concessão a particular. O processo se encerrou entre 1752 e 1754, no tempo do Marquês de Pombal.1

Uma colônia que mal falava consigo mesma

Nada explica melhor a fragilidade do sistema do que a distância, e quem registrou isso foram os jesuítas, nas cartas que trocavam. Uma delas saiu da Bahia em 1552, endereçada aos irmãos de Coimbra: o padre Francisco Pires desculpava-se por escrever apenas do que acontecia ali perto, e explicava por quê — havia anos inteiros em que uma capitania nada sabia da outra, e não era raro chegar navio de Portugal antes de chegar notícia da capitania vizinha. No ano seguinte, do sertão de São Vicente, Nóbrega resumiu a mesma situação numa frase: “Mais fácil é vir de Lisboa recado a esta capitania que da Bahia”.1

Assinatura de Martim Afonso de Sousa, 1553 · Martim Afonso de Sousa · 1553
A assinatura de Martim Afonso de Sousa, em 1553. Documento de arquivo, e não representação: é o mais perto que se chega da mão de um donatário.
Assinatura de Martim Afonso de Sousa, 1553 · 1553 · Wikimedia Commons · Public domain
Questão 02múltipla escolha · sem placar
Em 1549 a Coroa portuguesa instituiu o governo-geral, com sede em Salvador. A relação entre essa medida e o sistema de capitanias hereditárias pode ser corretamente descrita como:
  1. Incorreta. Inverte a causalidade. Só Pernambuco e São Vicente prosperaram; as demais fracassaram em maior ou menor grau, por falta de recursos, desavenças, inexperiência e ataques indígenas.

  2. Correta. Fausto afirma que o fracasso tornou mais claros os problemas administrativos e que o governo-geral representou um passo importante na organização da colônia. O fracasso é a causa, não um detalhe.

  3. Incorreta. As capitanias não foram extintas ali. Elas subsistiram como unidade administrativa e foram sendo retomadas pela Coroa ao longo de dois séculos, por compra — processo concluído entre 1752 e 1754.

  4. Incorreta. A ameaça externa pesava desde a criação das capitanias, em 1534, e não explica por que a resposta mudou de forma em 1549. O que mudou nesse intervalo foi o resultado do experimento anterior.

  5. Incorreta. A iniciativa foi da Coroa. E a ligação entre as capitanias era tão precária — a correspondência jesuítica registra até um ano sem notícias — que conflitos coordenados entre elas seriam improváveis.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • Número que varia — Fausto fala em quinze quinhões. Livros didáticos citam 14 ou 15 capitanias para 12 donatários, porque alguns receberam mais de um quinhão e a contagem muda conforme o critério. Se a questão pedir um número, o mais seguro é raciocinar por quinhões, não por donatários.
  • Distinção jurídica cobrada — donatário era possuidor, não proprietário. Confundir os dois é o erro mais comum do assunto, e é o que explica como a Coroa conseguiu retomar as capitanias depois.
  • Debate historiográfico esvaziado — a tese da natureza feudal da colonização teve peso e hoje tem pouco. Fausto registra que a discussão perdeu importância diante de uma historiografia que evita rótulos europeus rígidos.
  • Causalidade que a escola inverte — o governo-geral não veio porque as capitanias deram certo, e sim porque quase todas falharam. O fracasso é a causa, não um detalhe.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Por que a Coroa repartiu, e no que deu

POR QUE A COROA FEZ ISSONO QUE DEUTerra não ocupada era terra que outro reino podia tomar. Ocupar era a única forma de manter.Território ameaçadofranceses no litoral,sem ocupação portuguesaA Coroa transfere o custo e o risco para particulares, ficando com parte do tributo.Coroa sem dinheiroa colonização é cara eo retorno é incertoMadeira e Açores já haviam sido ocupadas por doação a particulares.Fórmula já conhecidatestada nas ilhas doAtlântico portuguêsLinhas traçadas sobre o mapa em Lisboa, sem conhecimento do interior.Capitanias hereditárias · 153415 quinhões em faixas paralelasdo litoral ao meridiano de TordesilhasQuase todas fracassamfalta de recursos, desavenças,inexperiência, ataques indígenasFausto observa que as duas bem-sucedidas combinaram atividade açucareira com relação menos agressiva com as tribos.Duas prosperamPernambuco e São Vicente:açúcar mais acordo com indígenasGoverno-geral · 1549o fracasso expõe a faltade administração central
Leia da esquerda para a direita. A caixa destacada à direita é a chave do assunto: as duas capitanias que prosperaram não foram sorte — combinaram açúcar com uma relação menos agressiva com os povos indígenas.

O sistema, do começo ao fim

antes de 1532Fernão de Noronharecebe a primeiracapitania: a Ilhade São João1532Expedição deMartim Afonsofunda São Vicentee traz perito emaçúcar1534Dom João IIIdivide o Brasilem quinzequinhõesdécada de 1540Só Pernambuco eSão Vicenteprosperam de fato1549Criação dogoverno-geral,com sede emSalvador1752–1754Pombal conclui aretomada dascapitanias pelaCoroaDa primeira doação ao governo-geral: menos de vinte anos. A Coroa corrigiu o rumo depressa.
Menos de vinte anos separam a primeira doação da criação do governo-geral. A Coroa percebeu o erro depressa — mas levou mais dois séculos para desmontar o que havia criado.

Podia e não podia: os limites do donatário

O que o donatário PODIAArrecadar tributos na capitaniaCobrar pela licença de engenhos, moinhos e salFicar com parte do tributo do pau-brasil e dos metaisMonopólio da justiçaFundar vilas e doar sesmariasAlistar colonos e formar milícias sob seu comandoO que o donatário NÃO podiaVender a capitaniaDividir a capitaniaImpedir que o rei a modificasseImpedir que o rei a extinguisse— porque era POSSUIDOR, não proprietárioA terra continuava sendo da Coroa
A coluna da direita é a que decide questão de prova. Poder amplo dentro da capitania, nenhum poder sobre a capitania: é essa a diferença entre possuir e ser dono.

Mapa mental do assunto

Capitanias hereditárias1534O desenho15 quinhões, faixas paralelasDo litoral a TordesilhasTraçadas sem conhecer o interiorQuem recebeuPequena nobreza e burocratasComerciantes ligados à CoroaDuarte Coelho, Martim AfonsoO regime jurídicoPossuidor, não proprietárioNão vendia nem dividiaO rei podia extinguirPor que quase todas falharamFalta de recursos e experiênciaDesavenças e ataques indígenasAs duas que deram certo: açúcar
Quatro ramos cobrem o assunto inteiro. O ramo destacado é onde mora a explicação — e não a descrição — do que aconteceu.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Ano da criação1534, por Dom João III
Como foi dividido15 quinhões, em faixas paralelas ao equador, do litoral ao meridiano de Tordesilhas
Quem recebeucapitães-donatários — pequena nobreza, burocratas e comerciantes ligados à Coroa
Regime jurídicodoação: o donatário era possuidor, nunca proprietário
Não podiavender nem dividir a capitania; o rei podia modificá-la ou extingui-la
Poderes econômicosarrecadar tributos; cobrar licença de engenhos, moinhos e sal; parte do tributo do pau-brasil e dos metais
Poderes administrativosmonopólio da justiça, fundar vilas, doar sesmarias, alistar colonos e formar milícias
Primeira capitaniaIlha de São João, a Fernão de Noronha, antes de 1532
As que prosperaramPernambuco e São Vicente — açúcar e relação menos agressiva com os indígenas
Por que as outras falharamfalta de recursos, desavenças internas, inexperiência, ataques indígenas
Consequência diretacriação do governo-geral em 1549
Fim do sistemaretomada pela Coroa por compra; concluída entre 1752 e 1754, sob Pombal
Formato pensado para a véspera da prova: cada linha responde a uma pergunta que a questão costuma fazer.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História Geral da Civilização Brasileira, tomo I. São Paulo: Difel.
  3. SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.