As capitanias hereditárias
Dom João III dividiu o Brasil em quinze quinhões traçados a régua sobre o mapa e entregou cada um a um particular. Duas capitanias deram certo, as outras não — e é o fracasso, não o sucesso, que explica o que veio depois.

O mapa das capitanias hereditárias · 1926 · Wikimedia Commons · CC0
Por que a Coroa portuguesa entregou pedaços inteiros do Brasil a particulares, em vez de administrá-los ela mesma?
Porque não tinha dinheiro para fazer diferente, e porque perder o território era um risco real. Nas três primeiras décadas depois de 1500, o interesse português pelo Brasil foi pequeno: a terra rendia pau-brasil e pouco mais, enquanto as Índias rendiam especiarias. Mas terra não ocupada era terra que outro reino podia tomar — e franceses já frequentavam a costa. A solução foi transferir o custo e o risco da ocupação para particulares, ficando a Coroa com parte do tributo.
A decisão de Dom João III parece ter sido tomada enquanto Martim Afonso de Sousa ainda se encontrava deste lado do Atlântico. O desenho foi simples e brutal: traçaram-se faixas paralelas à linha do equador, cada uma indo da praia até o meridiano de Tordesilhas, e o que sobrou foram quinze quinhões. Cada um deles passou às mãos de um capitão-donatário.1
As faixas vão do mar até uma linha imaginária no meio do continente. Ninguém sabia o que havia ali dentro — nem se havia terra até lá. O desenho não descreve o Brasil; descreve o que Lisboa achava que podia repartir.
Quem eram os donatários
Não eram nobres de primeira grandeza. O grupo misturava pequena nobreza, funcionários do reino e homens de negócio, e o que unia todos era o trânsito junto à Coroa.1 Martim Afonso entrou pela folha de navegador. Duarte Coelho vinha de carreira militar brilhante no Oriente, mas de bolso vazio — e seria ele quem faria dar certo em Pernambuco. Jorge Figueiredo Correia acumulava o cargo de escrivão da Fazenda Real com um grande negócio próprio, e tinha banqueiros florentinos por trás. Pero do Campo Tourinho fez o oposto de todos: liquidou o que possuía em Portugal e atravessou o mar com seiscentos colonos.1

Martim Afonso de Sousa · 1560 · Wikimedia Commons · Public domain
Pero do Campo Tourinho entrou em conflito com os próprios colonos, foi denunciado à Inquisição e embarcou de volta a Portugal. O detalhe diz mais sobre o projeto do que qualquer mapa: o donatário podia mandar na capitania, mas não estava acima da Igreja nem imune aos seus.
Curiosamente, a primeira capitania brasileira nasceu antes do sistema existir. Em data anterior a 1532, a Ilha de São João foi entregue pelo rei a Fernão de Noronha — que hoje dá nome a ela.1
Possuidor não é proprietário
Aqui está a distinção que a prova costuma cobrar e que o resumo escolar costuma achatar. O instrumento era uma doação, e o que ela transferia era a posse, jamais a propriedade. Vender, o donatário não podia; repartir, tampouco; e o rei guardava para si a prerrogativa de alterar a concessão ou acabar com ela.1
Dentro desse limite, os poderes eram amplos. Do lado do dinheiro, cobrava-se por quase tudo: montar engenho de açúcar, erguer moinho movido a água e explorar depósito de sal só era possível mediante direitos pagos ao donatário, que ainda ficava com uma fatia do que a Coroa recolhia sobre pau-brasil, metal precioso e pesca. Do lado do mando, a lista é ainda maior — julgar era atribuição exclusivamente dele, e a ela se somavam fundar vila, distribuir sesmaria, convocar colono para a guerra e organizar milícia própria.1
LembreDonatário era dono da capitania?
Não. Era possuidor. Não podia vender nem dividir, e o rei podia modificar ou extinguir a doação. A terra seguia pertencendo à Coroa — e foi justamente por isso que a Coroa conseguiu retomá-las depois.
Era feudalismo?
Essa é uma pergunta clássica de prova, e a resposta honesta é: o debate existiu e perdeu força. As capitanias são uma instituição a que historiadores — sobretudo portugueses — recorreram com frequência para defender a tese da natureza feudal da colonização.
Para Fausto, tanto a tese quanto o debate em torno dela encolheram. No lugar entrou uma corrente historiográfica mais nova, para a qual não faz falta carimbar com rótulo europeu rígido uma formação social que é complexa justamente por não repetir a Europa.1
Isso não significa que não haja nada de medieval ali. Ao montar o sistema, a Coroa reaproveitou fórmulas nascidas na Europa medieval — cobrar pela licença de instalar um engenho, por exemplo, funciona como as banalidades que o lavrador pagava ao senhor feudal. No conjunto, porém, o que as capitanias foram é outra coisa: uma experiência de colonização provisória e às apalpadelas.1

O Estado do Brasil em 1549 · 1922 · Wikimedia Commons · Public domain
O fracasso, que é o que importa
Tirando São Vicente e Pernambuco, o resultado foi fracasso — mais fundo aqui, menos ali, mas fracasso. Faltou dinheiro, sobrou briga interna, os donatários não sabiam o que estavam fazendo e os povos indígenas reagiram. E Fausto anota uma coincidência que não é coincidência: as duas que deram certo são justamente as que juntaram lavoura de açúcar com um trato menos violento em relação aos povos da terra.1

Diário da navegação da armada de 1530 · 1839 · Wikimedia Commons · Public domain
Esse fracasso tem consequência direta: ele deixou à mostra o quanto a administração da América portuguesa era frágil, e a criação do governo-geral em 1549 veio como resposta — avanço real na maneira de organizar a Colônia.1 As capitanias, note-se, não sumiram do mapa. A Coroa foi recomprando-as aos poucos, e elas seguiram existindo como divisão administrativa; o que mudou foi a natureza delas, agora peça do Estado e não concessão a particular. O processo se encerrou entre 1752 e 1754, no tempo do Marquês de Pombal.1
Uma colônia que mal falava consigo mesma
Nada explica melhor a fragilidade do sistema do que a distância, e quem registrou isso foram os jesuítas, nas cartas que trocavam. Uma delas saiu da Bahia em 1552, endereçada aos irmãos de Coimbra: o padre Francisco Pires desculpava-se por escrever apenas do que acontecia ali perto, e explicava por quê — havia anos inteiros em que uma capitania nada sabia da outra, e não era raro chegar navio de Portugal antes de chegar notícia da capitania vizinha. No ano seguinte, do sertão de São Vicente, Nóbrega resumiu a mesma situação numa frase: “Mais fácil é vir de Lisboa recado a esta capitania que da Bahia”.1

Assinatura de Martim Afonso de Sousa, 1553 · 1553 · Wikimedia Commons · Public domain
- Número que varia — Fausto fala em quinze quinhões. Livros didáticos citam 14 ou 15 capitanias para 12 donatários, porque alguns receberam mais de um quinhão e a contagem muda conforme o critério. Se a questão pedir um número, o mais seguro é raciocinar por quinhões, não por donatários.
- Distinção jurídica cobrada — donatário era possuidor, não proprietário. Confundir os dois é o erro mais comum do assunto, e é o que explica como a Coroa conseguiu retomar as capitanias depois.
- Debate historiográfico esvaziado — a tese da natureza feudal da colonização teve peso e hoje tem pouco. Fausto registra que a discussão perdeu importância diante de uma historiografia que evita rótulos europeus rígidos.
- Causalidade que a escola inverte — o governo-geral não veio porque as capitanias deram certo, e sim porque quase todas falharam. O fracasso é a causa, não um detalhe.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Por que a Coroa repartiu, e no que deu
O sistema, do começo ao fim
Podia e não podia: os limites do donatário
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Ano da criação | 1534, por Dom João III |
| Como foi dividido | 15 quinhões, em faixas paralelas ao equador, do litoral ao meridiano de Tordesilhas |
| Quem recebeu | capitães-donatários — pequena nobreza, burocratas e comerciantes ligados à Coroa |
| Regime jurídico | doação: o donatário era possuidor, nunca proprietário |
| Não podia | vender nem dividir a capitania; o rei podia modificá-la ou extingui-la |
| Poderes econômicos | arrecadar tributos; cobrar licença de engenhos, moinhos e sal; parte do tributo do pau-brasil e dos metais |
| Poderes administrativos | monopólio da justiça, fundar vilas, doar sesmarias, alistar colonos e formar milícias |
| Primeira capitania | Ilha de São João, a Fernão de Noronha, antes de 1532 |
| As que prosperaram | Pernambuco e São Vicente — açúcar e relação menos agressiva com os indígenas |
| Por que as outras falharam | falta de recursos, desavenças internas, inexperiência, ataques indígenas |
| Consequência direta | criação do governo-geral em 1549 |
| Fim do sistema | retomada pela Coroa por compra; concluída entre 1752 e 1754, sob Pombal |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.). História Geral da Civilização Brasileira, tomo I. São Paulo: Difel.
- SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.