História Verso
História do Brasil · Brasil Colonial

Estado e Igreja na colônia

O rei de Portugal cobrava o dízimo, criava as dioceses e escolhia os bispos. A Igreja colonial não era um poder ao lado do Estado — era parte dele. E o que ela entregava em troca era a coisa mais difícil de obter num território imenso: obediência.

séc. XVI-XVIII14 min de leitura4 fontes
Ruínas da redução de São Miguel · Goldemberg Fonseca de Almeida from Dourados - MS, Brazil · 2005-06-09 16:07
Ruínas da redução de São Miguel, no Rio Grande do Sul. São Miguel pertencia aos Sete Povos das Missões, sob jurisdição espanhola — é o vestígio material mais bem preservado de uma aldeia jesuítica em território hoje brasileiro.
Ruínas da redução de São Miguel · 2005 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
Pergunta orientadora

Comece pela pergunta prática: quem cobrava o dízimo no Brasil colonial? A resposta desmonta a intuição de quase todo mundo. Não era o papa, nem o bispo — era o rei de Portugal. E era ele também quem criava as dioceses e escolhia quem seria bispo.

O que isso significava na prática

Antes do conceito, o efeito. Se o rei recolhe o tributo da Igreja, escolhe seus quadros e paga seus salários, então o padre que batiza uma criança em Pernambuco não está apenas representando Roma: está operando dentro de uma estrutura que a Coroa financia, nomeia e fiscaliza.

É por isso que a fórmula “Igreja e Estado eram aliados” fica curta para o período colonial. Aliados são dois. Aqui, a Igreja funcionava como parte do aparelho de Estado português — e o mecanismo que produziu isso tem nome.

O padroado real

Fausto começa relativizando: no mundo ocidental, as relações entre Estado e Igreja variaram muito de país a país, e nem sequer foram uniformes dentro de cada país ao longo do tempo. Feita a ressalva, ele é categórico sobre o caso que nos interessa: em Portugal, ocorreu uma subordinação da Igreja ao Estado, por um mecanismo conhecido como padroado real.1

O padroado era, na descrição da fonte, uma ampla concessão da Igreja de Roma ao Estado português. E toda concessão tem contrapartida: em troca, a Coroa se comprometia a promover e assegurar os direitos e a organização da Igreja — não em Portugal apenas, mas em todas as terras descobertas.1

O que o rei ganhou com o negócio pode ser lido em três itens. O primeiro é financeiro e é o mais pesado: o direito de recolher o dízimo — o tributo devido pelos súditos da Igreja, correspondente a um décimo dos ganhos obtidos em qualquer atividade. Os outros dois são de poder administrativo: cabia à Coroa criar dioceses e nomear os bispos.1

Vale medir o alcance do primeiro. Um décimo de qualquer ganho não é uma taxa sobre fiéis devotos: é um imposto geral sobre a atividade econômica da Colônia, recolhido com o nome de tributo religioso e entrando no caixa do rei.

Interior de igreja colonial em Salvador · Paul R. Burley · 2018-09-29
Interior da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em Salvador, em fotografia de 2018. Salvador foi sede do primeiro bispado do Brasil, subordinado ao arcebispado de Lisboa.
Interior de igreja colonial em Salvador · 2018 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Do outro lado da conta estavam os encargos da Coroa, e Fausto observa que muitos deles resultavam, pelo menos em tese, em subordinação ainda maior da Igreja. Dois são exemplares: remunerar o clero e construir e conservar os edifícios destinados ao culto.1

Repare no efeito da expressão “pelo menos em tese”. Ela aponta o que qualquer administrador sabe: quem paga o salário manda. Um clero remunerado pelo Estado é um clero com pouca margem para contrariá-lo.

Para fiscalizar esse conjunto de tarefas havia um órgão próprio, a Mesa da Consciência e Ordens — que a fonte descreve, com precisão, como algo próximo de um ministério de assuntos religiosos dentro do governo português.1

LembreNo padroado, quem estava subordinado a quem?

A Igreja ao Estado — e não o contrário. Esse é o ponto que mais se erra. Roma fez uma concessão à Coroa portuguesa; a Coroa passou a recolher o dízimo, criar dioceses, nomear bispos, pagar o clero e manter um órgão de governo para fiscalizar tudo isso. Chamar o arranjo de “aliança” apaga a hierarquia que ele estabelecia.

O que a Igreja entregava em troca

Um Estado que precisa governar um território enorme, longe e pouco povoado por agentes seus tem um problema central: como obter obediência sem ter como vigiar? A resposta colonial passa pela Igreja.

Duas coisas estavam nas mãos dela, e a fonte as nomeia: a educação das pessoas e o “controle das almas” na vida diária. Isso a tornava um instrumento muito eficaz para difundir a ideia geral de obediência e, em especial, a obediência ao poder do Estado.1

Mas o alcance ia além da doutrina, e é aqui que o mecanismo fica concreto. Nenhum dos três momentos que decidem uma biografia — nascer, casar e morrer — se cumpria sem ela.1

Fausto lista os atos que ela monopolizava, e vale percorrer a lista pensando no que cada um decidia. O enterro em cemitério designado. A extrema-unção na hora da morte. A confissão. O casamento religioso. A crisma. O batismo.1

Deles dependiam três coisas que estruturavam a vida de qualquer pessoa: o ingresso na comunidade, o enquadramento nos padrões de uma vida decente e a partida sem pecado deste “vale de lágrimas”.1

Junte as duas metades e o desenho aparece inteiro: não havia como existir socialmente fora da Igreja — e a Igreja, pelo padroado, respondia ao rei. Era esse o instrumento de governo mais barato e mais penetrante de que a Coroa dispunha.

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Sobre o padroado real e o papel da Igreja na América portuguesa, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. O mecanismo produzia o inverso: uma subordinação da Igreja ao Estado português. Cabia ao rei criar dioceses e nomear os bispos.

  2. Incorreta. A implicação fiscal era central: o rei recebia o direito de recolher o dízimo, correspondente a um décimo dos ganhos obtidos em qualquer atividade.

  3. Correta. É a descrição da fonte, e a contrapartida importa tanto quanto a concessão: a Coroa assumia remunerar o clero e construir e conservar os edifícios de culto.

  4. Incorreta. O padroado é anterior e estrutura a relação desde o início da colonização. Pombal aparece na fonte como marco do fim da forte influência jesuítica na Corte, não como criador do mecanismo.

  5. Incorreta. O governo português criou a Mesa da Consciência e Ordens, descrita pela fonte como uma espécie de departamento religioso do Estado.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Onde o controle vazava

Seria erro imaginar, porém, uma máquina perfeitamente obediente. Fausto registra que havia limites naquilo que a Coroa conseguia controlar dentro da Igreja, e aponta por onde o arranjo vazava.1

A primeira estava na própria Corte: a Companhia de Jesus teve forte influência junto ao poder até a época do Marquês de Pombal, cujo governo a fonte situa entre 1750 e 1777.1

As outras duas estavam na Colônia. Uma delas era o clero secular — o que vive fora das ordens religiosas —, disperso pelo território e, por isso mesmo, muito difícil de enquadrar. A outra, mais séria, era a autonomia alcançada pelas ordens religiosas: carmelitas, beneditinos, mercedários, franciscanos e, acima de todos, os jesuítas.1

Três circunstâncias explicam essa autonomia, e convém lê-las de trás para frente, porque a última é a decisiva. As ordens obedeciam a regras próprias de cada instituição. Tinham política definida a respeito de questões vitais da colonização — a indígena entre elas. E, sobretudo, tornaram-se proprietárias de grandes extensões de terra e de empreendimentos agrícolas, o que significa que não dependiam da Coroa para sobreviver.1

Guarde esse terceiro item. Independência econômica é independência política — e é ela, mais que qualquer doutrina, que explica o conflito que viria.

Um Estado dentro do Estado
Vale ver até onde essa autonomia chegava. Fausto adverte que o Estado português não corresponde à imagem de uma máquina burocrática esmagadora transposta com êxito para cá: a tentativa esbarrou na extensão da Colônia, na distância da Metrópole e na novidade dos problemas. O alcance do Estado foi crescendo ao longo dos séculos, e era maior nas regiões que formavam o núcleo da economia de exportação. Até meados do século XVII, as autoridades só agiam com eficácia na sede do governo-geral e nas capitanias vizinhas. No resto do território quem mandava eram os grandes proprietários e apresadores de índios — ou as ordens religiosas, com a dos jesuítas considerada um Estado dentro do Estado.1

Os jesuítas: catequizar os índios e corrigir os padres

Eles desembarcaram junto com o primeiro governador-geral: eram seis ao todo, sob a chefia de Manuel da Nóbrega. E vinham com dois objetivos, dos quais o segundo costuma ser esquecido. Um era catequizar os índios. O outro era disciplinar o ralo clero de má fama que já existia na Colônia.1

Ou seja: a Companhia foi enviada, em parte, para consertar a Igreja que aqui estava. Pouco depois criou-se o bispado de São Salvador, subordinado ao arcebispado de Lisboa — e a fonte lê nesse movimento o caminho para uma organização do Estado e da Igreja estreitamente aproximados.1

Em 1554, Nóbrega e Anchieta fundaram no planalto a povoação de São Paulo, que virou vila em 1561, com o colégio dos jesuítas instalado ali.1

O Pátio do Colégio, em São Paulo · paulisson miura from Cuiabá, Brasil · 2011-01-25 18:18
O Pátio do Colégio, em São Paulo, em fotografia de 2011. O sítio marca o local onde Nóbrega e Anchieta fundaram a povoação em 1554. A construção atual é reconstituição posterior.
O Pátio do Colégio, em São Paulo · 2011 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0

As duas sujeições do índio

Este é o ponto em que o artigo precisa de mais cuidado, porque a versão simplificada — colonos maus, jesuítas bons — não é a da fonte.

Fausto distingue duas tentativas básicas de sujeição dos índios. A dos colonos obedecia a um frio cálculo econômico e consistia na escravização pura e simples. A das ordens religiosas, principalmente dos jesuítas, vinha de concepções missionárias. O caminho era juntar os índios em pequenos povoados — as aldeias — e ali, pela via do ensino, fazer deles “bons cristãos”.1

A diferença é real e não deve ser apagada — aldeamento não é escravidão. Mas a fonte acrescenta o que impede a leitura edificante. Na definição de “bom cristão” entrava o modo europeu de trabalhar — e o produto final dessa formação era um contingente de lavradores indígenas ajustável ao que a Colônia precisasse.1

Traduzindo: as duas vias divergiam no método e no grau de violência, mas convergiam no destino — em ambas o indígena terminava fornecendo trabalho ao empreendimento colonial. Era uma disputa sobre quem controlaria essa mão de obra, e como.

Foi exatamente por isso que os jesuítas se tornaram muito visados. Tinham um projeto de aculturação e controle dos indígenas diverso do dos colonizadores — e, além disso, eram donos de extensas fazendas de gado, plantações de algodão e engenhos, e participavam ativamente do comércio das drogas do sertão.1

Eram, portanto, concorrentes econômicos dos colonos, e não apenas adversários morais. Os conflitos entre representantes da Coroa, colonizadores e religiosos foram constantes.1

A fachada da igreja de São Miguel · Fernanda Mariani · 2007-12-22 09:24:56
A fachada da igreja de São Miguel, em fotografia de 2007. A escala do edifício dá a medida do que uma ordem religiosa autônoma era capaz de erguer longe da Coroa.
A fachada da igreja de São Miguel · 2007 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

No Norte, a grande presença indígena fez da região um dos principais campos de atividade missionária. A fonte oferece um número que dá a dimensão do sistema: por volta de 1740, as aldeias de jesuítas e franciscanos abrigavam algo como 50 mil indígenas.1

Foi ali que atuou Padre Antônio Vieira. Ele desembarcou em 1653, na condição de provincial da Companhia, e pôs sua pregação — que a fonte qualifica de intensa — a serviço de uma causa precisa: conter os abusos que se cometiam contra os índios.1

Outro ângulo das ruínas jesuíticas · Itatibamario · 2005-01-26
Outro ângulo das ruínas jesuíticas de São Miguel das Missões, em fotografia de 2005.
Outro ângulo das ruínas jesuíticas · 2005 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Duas coisas que a Igreja não fez

Um artigo honesto sobre este assunto precisa registrar o que não aconteceu. E a omissão mais grave é esta: a escravização do africano não encontrou oposição — nem da Igreja, nem da Coroa.1

Não se tratou de silêncio distante. Ordens religiosas como a dos beneditinos estiveram entre os grandes proprietários de cativos.1 A mesma instituição que discutia os limites do cativeiro indígena era proprietária de africanos escravizados.

A segunda coisa é mais sutil, e diz respeito aos padres rebeldes. Eles existiram: padres seculares buscaram, por caminho individual, escapar ao peso do Estado e da própria Igreja quando houve oportunidade. O exemplo célebre vem da Inconfidência Mineira: entre os envolvidos havia padres que tocavam lavoura grande, exploravam mina e negociavam diamante e gente escravizada. E a fonte registra que houve padres em praticamente todos os movimentos de rebelião a partir de 1789, atravessando a Independência até meados do século XIX.1

Por que tanta presença? Fausto admite que as razões estão pouco estudadas — e recorre a José Murilo de Carvalho, que, analisando a época imperial, contrastou o comportamento conservador dos magistrados com a rebeldia dos padres e sugeriu três origens para ela: a extração social desses homens, as dificuldades de ascensão na carreira e a atuação mais próxima da população.2

Mas vem a ressalva que impede a generalização, e ela é da fonte principal: seria engano estender essa rebeldia a todo o clero — ela era visível, mas excepcional. No trabalho de todo dia — em silêncio, e por vezes com pompa — o que a instituição fez foi outra coisa: converteu índio e africano, e plantou na população o hábito de obedecer àquilo que ela mandava.1

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre a atuação das ordens religiosas na Colônia, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. A fonte afirma que nem a Igreja nem a Coroa se opuseram à escravização do negro, e registra que ordens como a dos beneditinos estiveram entre os grandes proprietários de cativos.

  2. Correta. É o fator decisivo apontado pela fonte, ao lado das regras próprias de cada instituição e de uma política definida sobre a questão indígena. Quem não depende da Coroa para sobreviver não precisa obedecê-la em tudo.

  3. Incorreta. Na definição de “bom cristão” entrava o modo europeu de trabalhar, e dessa formação saía um contingente de lavradores indígenas ajustável ao que a Colônia precisasse.

  4. Incorreta. Os jesuítas possuíam fazendas de gado, plantações de algodão e engenhos, e participavam ativamente do comércio das drogas do sertão — eram concorrentes econômicos, não só adversários morais.

  5. Incorreta. Muito antes disso houve expulsões regionais: do Rio, de Santos e de São Paulo em torno de 1639-1640, e do Maranhão em 1684, com retorno dois anos depois.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • A Igreja não era contrapoder — era aparelho — o padroado produzia subordinação da Igreja ao Estado português, e não uma aliança entre iguais. O rei recolhia o dízimo, criava dioceses, nomeava bispos, remunerava o clero e mantinha a Mesa da Consciência e Ordens para supervisionar tudo.
  • O dízimo era imposto geral, não oferta religiosa — correspondia a um décimo dos ganhos obtidos em qualquer atividade, e quem o recolhia era a Coroa. Tratá-lo como contribuição de fiéis subestima seu peso fiscal sobre a economia colonial.
  • Aldeamento também era sujeição — a diferença em relação à escravização praticada pelos colonos é real e não deve ser apagada. Mas o modo europeu de trabalhar fazia parte da definição de “bom cristão”, e dali saíam lavradores indígenas úteis ao empreendimento. As duas vias divergiam no método e convergiam no destino.
  • Igreja e Coroa não se opuseram à escravidão africana — a afirmação é explícita na fonte, e vem acompanhada de um registro que a agrava: ordens como a dos beneditinos figuravam entre os maiores donos de cativos. Contrapor a defesa do índio ao silêncio sobre o africano é parte do assunto, não digressão.
  • O padre rebelde era exceção — houve padres em praticamente todos os movimentos de rebelião desde 1789, e José Murilo de Carvalho atribui essa rebeldia à extração social, às dificuldades de carreira e à proximidade com a população. Mas a própria fonte adverte que estender a característica a todo o clero é engano: ela era visível, porém excepcional.
  • LACUNA declarada pela própria fonte — sobre as razões da presença de padres nas rebeliões, Fausto escreve que elas estão pouco estudadas. A hipótese de José Murilo de Carvalho é apresentada como sugestão, e é assim que deve ser usada numa resposta.
  • O Estado colonial não era máquina onipresente — até meados do século XVII as autoridades só agiam com eficácia na sede do governo-geral e nas capitanias vizinhas. No resto, mandavam as ordens religiosas — os jesuítas considerados um Estado dentro do Estado — ou os grandes proprietários e apresadores de índios.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De 1549 à expulsão de 1759

1549Nóbrega ecincocompanheiroschegam com ogovernador-geral1554Nóbrega eAnchietafundam apovoação deSão Paulo1561São Paulovira vila,com ocolégio dosjesuítas1639-40Limites àescravizaçãoindígenageram reaçãoviolenta1653ChegaVieira,provincial,pregandocontra osabusos1684Jesuítasexpulsos doMaranhão;voltam doisanos depoisc. 1740As aldeiasde jesuítasefranciscanosabrigam 50milindígenas1759Expulsãodefinitivada Companhiade JesusDa chegada dos primeiros jesuítas à expulsão definitiva, dois séculos — e o atrito com os colonos aparece desde o começo.
Repare que as expulsões locais são muito anteriores à definitiva. O atrito com os colonos aparece já no século XVII, e sempre em torno da mesma questão: quem controla o trabalho indígena.

O padroado como contrato

O que o rei recebeuRecolher o dízimo em toda a ColôniaUm décimo do ganho de qualquer atividadeCriar as diocesesNomear os bisposUm departamento próprio para supervisionarO que o rei assumiuPromover os direitos da IgrejaGarantir sua organização nas terras descobertasRemunerar o cleroConstruir os edifícios de cultoZelar pela conservação deles
Leia as duas colunas juntas. A da direita parece um ônus, mas é o que garante a da esquerda: quem paga o clero e ergue as igrejas manda em quem prega dentro delas.

As duas sujeições do índio

A via do colonoEscravização pura e simplesMovida por frio cálculo econômicoSem qualquer mediaçãoO índio como propriedadeA via das ordens religiosasAldeamento em pequenos povoadosMovida por concepção missionáriaConversão pelo ensino em “bons cristãos”Mas ser “bom cristão” abrangia o modo europeu de trabalharResultado: cultivadores úteis à Colônia
A diferença entre as colunas é real e não deve ser apagada. Mas repare nas duas últimas linhas da direita: o caminho era outro, e o ponto de chegada, o mesmo.

O que tornou o arranjo possível, o que ele produziu

O QUE TORNOU O ARRANJO POSSÍVELO QUE ELE PRODUZIUA concessão de Romaampla cessão ao Estado portuguêssobre as terras descobertasUm território imensoa Coroa não tinha máquinapara alcançar a Colônia inteiraMonopólio dos ritosnascer, casar e morrer passavamobrigatoriamente pela IgrejaPadroado reala Igreja subordinadaao Estado portuguêsReceita para o reio dízimo: um décimo do ganhode qualquer atividadeControle das nomeaçõesa Coroa cria diocesese escolhe os bisposObediência produzidaeducação e “controle das almas”a serviço do poder do EstadoOrdens autônomasdonas de terra e engenho,não dependem da Coroa
Repare no último quadro da direita: a autonomia econômica das ordens não estava no plano. Foi consequência não prevista — e acabou custando a expulsão de 1759.

Mapa mental do assunto

Estado e IgrejaBrasil colonialO padroadoConcessão de Roma ao Estado portuguêsO rei recolhe o dízimoCria dioceses e nomeia bisposMesa da Consciência e OrdensA função socialEducação nas mãos da Igreja“Controle das almas” no dia a diaMonopólio de batismo, casamento e enterroObediência ao poder do EstadoOnde o controle vazavaJesuítas influentes na Corte até PombalClero secular disperso e difícil de enquadrarOrdens com regras própriasTerra e engenho próprios: independênciaErros que a prova cobraA Igreja não era contrapoder — era aparelhoAldeamento também era sujeiçãoIgreja e Coroa aceitaram a escravidão africanaPadre rebelde era exceção, não regra
O ramo destacado reúne os erros mais caros. Os dois primeiros são versões do mesmo engano: tratar a Igreja colonial como instituição externa ao poder.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Mecanismopadroado real — subordinação da Igreja ao Estado português
Naturezaampla concessão da Igreja de Roma ao Estado português
Contrapartida da Coroapromover e assegurar os direitos e a organização da Igreja em todas as terras descobertas
Poder fiscal do reirecolher o dízimo: um décimo dos ganhos de qualquer atividade
Poder administrativocriar dioceses e nomear os bispos
Encargos assumidosremunerar o clero; construir e conservar os edifícios de culto
Órgão supervisorMesa da Consciência e Ordens, espécie de ministério régio para assuntos da fé
Primeiro bispadoSão Salvador, subordinado ao arcebispado de Lisboa
Função social da Igrejaeducação e “controle das almas”, difundindo a obediência ao poder do Estado
Atos monopolizadosbatismo, crisma, casamento religioso, confissão, extrema-unção e enterro
O que dependia deleso ingresso na comunidade, a vida tida por decente e a morte sem pecado
Limite (1)influência da Companhia de Jesus na Corte até a época de Pombal (1750-1777)
Limite (2)clero secular disperso pelo território e difícil de enquadrar
Limite (3)autonomia das ordens: carmelitas, beneditinos, mercedários, franciscanos e sobretudo jesuítas
Razões da autonomiaregras próprias, política sobre a questão indígena e independência econômica
Alcance do Estadoaté meados do século XVII, só a sede do governo-geral e as capitanias vizinhas
Quem mandava no restoordens religiosas — jesuítas como um Estado dentro do Estado — ou grandes proprietários e apresadores de índios
Chegada dos jesuítas1549, com Nóbrega e cinco companheiros, junto ao primeiro governador-geral
Os dois objetivoscatequizar os índios e disciplinar o clero de má fama já existente
São Paulofundada por Nóbrega e Anchieta em 1554; vila em 1561, com colégio jesuítico
Sujeição pelos colonosescravização pura e simples, por frio cálculo econômico
Sujeição pelas ordensjuntar em aldeias e, pela escola, formar “bons cristãos”
A ressalva decisivaser “bom cristão” abrangia o modo europeu de trabalhar — daí saíam lavradores úteis à Colônia
Economia jesuíticafazendas de gado, plantações de algodão, engenhos e comércio das drogas do sertão
1639-1640limites à escravização indígena geram reações violentas no Rio, em Santos e em São Paulo
1653desembarca Padre Antônio Vieira, provincial da Companhia, pregando contra os abusos
1684expulsão do Maranhão; retorno dois anos depois, com apoio da Coroa
c. 1740as aldeias de jesuítas e franciscanos do Norte abrigam algo como 50 mil indígenas
1759expulsão definitiva dos jesuítas
Escravidão africananão houve oposição de nenhuma das duas; beneditinos entre os maiores donos de cativos
Padres rebeldespresentes em praticamente todos os movimentos desde 1789 — mas fenômeno visível e excepcional
Lacuna da fonteas razões dessa presença estão pouco estudadas; a explicação de José Murilo de Carvalho é sugestão
Cada linha responde a uma pergunta que a prova costuma fazer sobre a relação entre o poder religioso e o poder régio na Colônia.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Citado pela fonte principal a respeito da rebeldia do clero.
  3. HOORNAERT, Eduardo (org.). História da Igreja no Brasil. Petrópolis: Vozes.
  4. MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras.