O governo-geral
Em 1549 a Coroa criou um governo para o Brasil inteiro. Por mais de um século, esse governo só mandou de fato na Bahia e nas capitanias em volta — e a colônia rendia 2,5% do que entrava nos cofres do rei, contra 26% vindos da Índia.

A chegada de Tomé de Sousa à Bahia, em gravura do século 19 · 0 · Wikimedia Commons · Public domain
Em 1549 a Coroa criou um governo para toda a América portuguesa. Quanto dessa América o governo efetivamente governava — e por quanto tempo isso continuou assim?
Este artigo responde a essas duas perguntas, e não à pergunta que a apostila costuma fazer. O fracasso das capitanias tem página própria neste site; aqui o assunto é a instituição em funcionamento: o que ela foi encarregada de fazer, com quais cargos, com quanto dinheiro e até onde chegava de fato.
A decisão foi tomada olhando para outros continentes
Comecemos longe do Brasil, porque foi de lá que veio o empurrão. Fausto situa a decisão de Dom João III num momento em que a Coroa portuguesa recebia, quase ao mesmo tempo, um conjunto de más notícias e uma notícia alheia muito boa.1
No Oriente, apareciam os primeiros sinais de crise. A época cunhou até uma expressão para o incômodo: “fumos da Índia” — fumaça da Índia —, usada para pôr em dúvida a solidez do comércio com aquela região.1
Na África, o balanço era militar. Portugal havia sofrido várias derrotas no Marrocos — sem que o sonho de um império africano estivesse extinto por isso.1
Na Europa, veio a confirmação contábil. Em 1549 — exatamente o ano do embarque do primeiro governador-geral —, Portugal encerrou as atividades do posto comercial que mantinha em Flandres, por estar no vermelho.1
E na América, o contraste que fecha o quadro. Enquanto as terras do Brasil rendiam pouco, os espanhóis colhiam êxito crescente na exploração de metais preciosos em sua colônia — e em 1545 haviam encontrado a grande mina de prata de Potosí.1

O Cerro Rico de Potosí, na atual Bolívia · 2006 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.5
Só depois de todo esse cenário externo é que entra o fator interno — e Fausto o apresenta como lembrete, não como causa única. Quando as capitanias deram errado, o que ficou exposto foi o quanto a administração da América portuguesa era frágil. Somadas as duas ordens de razão, o novo governo significou avanço real na maneira de administrar a colônia.1
LembrePor que a Coroa criou o governo-geral em 1549?
Por dois conjuntos de razões. Fora: crise à vista no comércio do Oriente (os “fumos da Índia”), derrotas no Marrocos, fechamento do entreposto de Flandres e o êxito espanhol com a prata de Potosí, achada em 1545. Dentro: o fracasso das capitanias expôs a precariedade da administração. Responder só com o fator interno é responder pela metade.
Mil pessoas, quatrocentas delas degredadas
O homem escolhido tinha ficha de serviço no lugar certo. As crônicas do tempo descrevem Tomé de Sousa como fidalgo de temperamento sério, já rodado pela África e pelo Oriente — ou seja, formado exatamente nas duas frentes que vinham dando problema.1
A comitiva diz mais que o currículo. Desembarcaram na Bahia, com ele, mais de mil pessoas — e quatrocentas dessas vinham na condição de degredados, isto é, cumprindo pena. Vale reter a proporção: dois em cada cinco dos que chegaram para erguer a capital da colônia estavam ali por sentença judicial, não por escolha.1
Um regimento e três cargos
Tomé de Sousa não trouxe apenas gente. Veio com um calhamaço de instruções escritas que a história guardou sob o nome de Regimento de Tomé de Sousa — e é essa a peça a estudar, porque nela os três objetivos do novo governo aparecem declarados: assegurar que a terra ficasse mesmo com Portugal, povoá-la e pôr as receitas do rei em ordem.1
Para dar conta disso criaram-se cargos, e os principais respondem, um a um, por uma função clássica de Estado. Quem cuidava de justiça era o ouvidor. Quem cuidava de defesa era o capitão-mor, com a costa sob sua vigilância. E quem cuidava de dinheiro era o provedor-mor, a quem cabia tanto controlar quanto fazer crescer o que se arrecadava.1
Repare no que a lista não tem. Não há cargo encarregado da população indígena, nem da instrução, nem do culto. Essas três frentes foram entregues, na prática, a uma ordem religiosa — o que produziria consequências que atravessam dois séculos, e que este site trata em outros assuntos.
A palavra parece burocrática e é justamente esse o ponto. Regimento é instrução escrita e detalhada dada pelo rei a um funcionário — e o fato de existir um documento longo, prévio e nominal marca a diferença em relação ao período anterior. As capitanias tinham sido entregues a particulares com poderes amplos; o governo-geral chega com pauta escrita e prestação de contas. É a passagem do favor real para o cargo público.
Dois e meio contra vinte e seis
Antes de qualquer entusiasmo com a nova estrutura, convém enfrentar o número que desmonta o entusiasmo. Fausto adverte que não se deve imaginar que, no século 16, o Brasil rendesse riquezas consideráveis aos cofres reais.1
E dá a medida, com autoria. As contas são do historiador Vitorino Magalhães Godinho e se referem a 1558: daquilo que entrava nos cofres do rei, o Brasil respondia por algo em torno de 2,5%. O tráfico de mercadorias com o Oriente, no mesmo ano, respondia por 26%.2
Uma década depois de criado o governo-geral, portanto, a colônia americana valia, em receita, cerca de um décimo do que valia o Oriente. É esse desnível que explica tanto a modéstia da estrutura montada aqui quanto a paciência de Lisboa com um projeto que só daria retorno mais tarde, com o açúcar.
Estado e Igreja desembarcaram na mesma frota
Junto com o governador-geral vieram os primeiros jesuítas: Manuel da Nóbrega e seus cinco companheiros. E a missão deles tinha duas metades — a segunda quase sempre esquecida.1
Uma delas era a catequese dos indígenas. A outra mirava para dentro da própria Igreja: pôr ordem no clero que a colônia já tinha — pouco numeroso e de reputação ruim, na descrição de Fausto. Quer dizer que os jesuítas não vieram apenas converter quem não era cristão: vieram também consertar o cristianismo que já estava aqui.1

Nóbrega e seus companheiros, por Corte Real, 1843 · 1843 · Wikimedia Commons · Public domain
Pouco depois instalou-se em Salvador um bispado, e ele nasceu subordinado ao arcebispado de Lisboa. Fausto lê nesse passo o começo de uma organização em que Estado e Igreja ficam muito próximos um do outro. A subordinação a Lisboa não é detalhe eclesiástico: a Igreja daqui nasce presa administrativamente à metrópole, como qualquer outra repartição.1
Registro de divergência, para quem for conferir. O texto impresso da fonte principal deste site data a criação do bispado em 1533 — na mesma frase em que diz que ela ocorreu “posteriormente” à chegada de 1549. As duas informações não podem estar certas ao mesmo tempo, e 1533 é anterior à própria fundação de Salvador. Adotamos aqui a data corrente na literatura, 1551, coerente com o “posteriormente” da própria frase.
Uma capital construída de propósito
O governo-geral trouxe, além de cargos, um lugar. Com ele a colônia passou a ter um centro administrativo fixo, coisa que não existia enquanto cada capitania respondia por si.1
Cumprindo o que o papel mandava, o governador tocou uma obra demorada: levantar a cidade de São Salvador, que seria a capital da colônia até 1763. Note o verbo: levantar. A cidade não foi escolhida entre povoados existentes — foi erguida para ser sede, o que a torna a primeira decisão de urbanismo político da história do país.1
O crescimento foi lento e, mesmo lento, excepcional para os padrões da colônia. As estimativas disponíveis apontam 14 mil moradores ao fim do século 16, por volta de 1585; 25 mil já no século 18, em 1724; e algo perto de 40 mil em 1750 — sendo metade dessa gente escravizada. Números modestos, até que se compare: no ano 1600, São Paulo não chegava a 2 mil pessoas.1

A Praça Municipal de Salvador, hoje · 2015 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0
O fim desse ciclo veio em 1763, com a transferência da capital para o Rio de Janeiro. As duas cidades tinham então população parecida, algo em torno de 40 mil — e a observação de Fausto sobre o que mudou é das mais secas do livro: “uma coisa era ser a capital e outra, apenas a principal cidade do Nordeste”.1
Centralizar não é mandar
Chegamos ao ponto que separa quem decorou a data de quem entendeu a instituição. Criar o governo-geral foi, sim, tentativa de centralizar a administração — e Fausto acrescenta a ressalva na frase seguinte. Dali não decorre que o titular do cargo concentrasse todo o poder, nem que, no começo, sua ação pudesse alcançar muita coisa.1
O obstáculo material era simples e decisivo. Uma capitania mal se comunicava com a outra, e essa precariedade de contato encurtava o alcance de quem governava. Administrar exige informação, e informação, ali, dependia de navio.1
Fausto vai além e desmonta uma imagem inteira. Quem imagina uma burocracia lusa pesada e eficiente, instalada aqui de uma vez, está descrevendo algo que não existiu. Copiar no Brasil o aparelho administrativo do reino esbarrou em três dificuldades que ele nomeia: o tamanho da terra, a travessia até Lisboa e o fato de que os problemas daqui não tinham precedente. A presença estatal só foi se ampliando século após século — e sempre mais depressa onde estava o coração da economia de exportação.1
E aqui está a informação que mais surpreende quem imagina uma colônia governada de cima. Antes da metade do século 17, a autoridade régia funcionava mesmo em dois lugares apenas: na capital e nas capitanias grudadas nela. Em todo o resto, quem mandava era outro.1
Fausto nomeia os substitutos, e são dois. Havia, de um lado, as ordens religiosas — os jesuítas à frente, a ponto de a Companhia ser vista como “um Estado dentro do Estado”. Havia, de outro, os donos de terra e os homens que viviam de apresar indígenas. Onde o rei não chegava, mandava ou o padre, ou o potentado.1
As capitanias continuaram lá
Desfaçamos, por fim, o mal-entendido mais comum do assunto: 1549 não é a data em que as capitanias acabaram. Elas subsistiram como unidade administrativa, e o que o governo-geral fez foi montar um andar acima delas.1
A hierarquia colonial ficou assim: no topo local seguiam os governadores de cada capitania — os das capitanias de maior peso, sobretudo —, e um degrau acima deles passou a existir o governador-geral. Coordenação, portanto — não substituição.1
Houve ainda uma promoção de título. Depois que a sede passou da Bahia para o Rio, em 1763, virou praxe o rei conceder a quem ocupava o posto uma dignidade mais alta: a de “Vice-Rei e Capitão-General do Mar e Terra do Estado do Brasil”. As atribuições que vinham junto eram largas, e incluíam o comando de toda a força militar da colônia.1
E Fausto explica por que o título valia mais do que parece. O vice-rei fazia as vezes do próprio soberano a milhares de quilômetros dele — e isso, anota o autor, não era pouca coisa num tempo em que se comunicar era difícil. Quando a ordem demora meses para chegar, quem está no lugar do rei decide como se fosse o rei.1
- A causa não é só interna — o fracasso das capitanias entra na explicação, mas Fausto o apresenta depois de um quadro externo: crise à vista no comércio da Índia, derrotas no Marrocos, fechamento do entreposto de Flandres em 1549 e a prata espanhola de Potosí, achada em 1545.
- As capitanias não foram extintas — elas subsistiram como unidade administrativa, com seus governadores abaixo do governador-geral. O governo-geral coordenou, não substituiu.
- Centralização não é poder efetivo — o governador-geral não detinha todos os poderes, e a ligação precária entre as capitanias limitava seu raio de ação. Até meados do século 17, a autoridade só funcionava na sede e nas capitanias em volta.
- Quem mandava no resto — as ordens religiosas, com os jesuítas à frente — vistos como um Estado dentro do Estado — e os grandes proprietários rurais e apresadores de indígenas. Onde o rei não chegava, mandava o padre ou o potentado.
- O Brasil rendia pouco — segundo cálculos de Vitorino Magalhães Godinho citados por Fausto, em 1558 a colônia respondia por cerca de 2,5% das rendas da Coroa, contra 26% do comércio com a Índia.
- Divergência de data registrada — o texto impresso da fonte principal data o bispado de São Salvador em 1533, logo após dizer que ele foi criado “posteriormente” a 1549. A contradição é interna; adotamos 1551, data corrente na literatura.
Ficam de fora, por terem página própria: o fracasso das capitanias, sua retomada por compra e a conclusão do processo sob Pombal, entre 1752 e 1754; os incentivos fiscais à lavoura de cana contidos no mesmo regimento, que pertencem ao assunto da economia açucareira; e a disputa entre jesuítas e colonos pela mão de obra indígena, que tem artigo próprio. Sobre o funcionamento cotidiano das repartições, os salários dos cargos e o número de funcionários, a fonte principal deste site não desce a detalhe.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Uma decisão tomada em três continentes
O que a colônia rendia, em 1558
O regimento e a realidade
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Quem decidiu | Dom João III, em 1549 |
| Contexto externo | “fumos da Índia”, derrotas no Marrocos, fechamento do entreposto de Flandres e a prata de Potosí (1545) |
| Contexto interno | o fracasso das capitanias expôs a precariedade da administração |
| Primeiro governador-geral | Tomé de Sousa, fidalgo sisudo, com experiência na África e na Índia |
| Comitiva | mais de mil pessoas, das quais quatrocentos degredados |
| Documento fundador | Regimento de Tomé de Sousa — instruções longas e por escrito |
| Propósitos do regimento | garantir a posse territorial, colonizar e organizar as rendas da Coroa |
| Cargo da justiça | ouvidor |
| Cargo da defesa | capitão-mor, responsável pela vigilância da costa |
| Cargo da fazenda | provedor-mor, encarregado do controle e do crescimento da arrecadação |
| Peso econômico em 1558 | Brasil ≈ 2,5% das rendas da Coroa; Índia, 26% (cálculos de Godinho) |
| Chegada dos jesuítas | na mesma frota: Manuel da Nóbrega e cinco companheiros |
| Missão dupla dos jesuítas | catequizar os indígenas e disciplinar o clero ralo e de má fama já existente |
| Bispado de São Salvador | criado em 1551, sujeito ao arcebispado de Lisboa (fonte impressa traz 1533; ver nota) |
| Capital | São Salvador, construída por determinação do regimento; capital até 1763 |
| População de Salvador | ≈14 mil em 1585, 25 mil em 1724 e ≈40 mil em 1750, metade escravizada |
| Alcance real da autoridade | até meados do século 17, só na sede e nas capitanias vizinhas |
| Quem mandava fora dali | ordens religiosas — jesuítas como “Estado dentro do Estado” — e grandes proprietários e apresadores |
| Situação das capitanias | não extintas; subsistiram como unidade administrativa, com seus governadores abaixo do governador-geral |
| Título a partir de 1763 | “Vice-Rei e Capitão-General do Mar e Terra do Estado do Brasil” |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- GODINHO, Vitorino Magalhães. Os Descobrimentos e a Economia Mundial. Lisboa: Presença, 1981–1983. Fonte dos percentuais de arrecadação de 1558.
- SCHWARTZ, Stuart B. Burocracia e Sociedade no Brasil Colonial. São Paulo: Perspectiva.
- SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil. 1627. Fonte primária.
- BOXER, Charles R. O Império Marítimo Português, 1415–1825. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.