História Verso
História do Brasil · Brasil Colonial

A Independência

Quem rompeu com Portugal foi o herdeiro do trono português. Entre a ordem das Cortes para o regente voltar e o 7 de setembro passaram-se onze meses de rupturas graduais — e a data que a escola celebra formalizou o que já estava feito.

182213 min de leitura4 fontes
Independência ou Morte · Pedro Américo · 1888
Pedro Américo pintou esta cena em 1888, sessenta e seis anos depois do episódio. Trocou as mulas por cavalos e a roupa de viagem por uniforme de gala: é a Independência como o Império quis ser lembrado, não como aconteceu.
Independência ou Morte · 1888 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Por que a independência do Brasil foi proclamada justamente pelo herdeiro do trono português?

Porque, para boa parte da elite instalada aqui, cortar com Lisboa sem abrir mão da dinastia era a saída de menor risco. Esse grupo — que a época chamou de “partido brasileiro” — reunia latifundiários das capitanias vizinhas à capital, gente do funcionalismo e da magistratura nascida no Brasil, e ainda portugueses cujo dinheiro já estava atado ao destino da colônia. Todos empurrando na mesma direção: que Dom Pedro não fosse embora.1

O príncipe atendeu, e a recusa foi encenada solenemente no dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822. Foi ali que o caminho ficou escolhido.1 Dali em diante, a separação deixou de ser assunto de discurso e passou a ser construída por decreto.

O que as Cortes fizeram para provocar isso

O rei voltou a Portugal em abril de 1821, levando consigo quatro mil súditos e deixando Pedro na regência. Vieram então as eleições para as Cortes, com um resultado que dizia muito: a quase totalidade dos escolhidos havia nascido aqui. Entre eles estavam nomes que tinham ido às armas em 1817 — Cipriano Barata, pela Bahia, Muniz Tavares, por Pernambuco, e Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, por São Paulo.1

O que veio de Lisboa entre o fim de setembro e outubro de 1821transformou uma inclinação difusa em projeto. As Cortes resolveram puxar de volta para Portugal as repartições que Dom João VI havia montado no Brasil, mandaram reforço militar para o Rio e para Pernambuco e, no ponto que decidiu tudo, exigiram o retorno do regente.1

Recolonizar era o plano
Repare no conjunto: devolver as repartições, mandar tropas e chamar o regente de volta. As Cortes não estavam só reorganizando o império — estavam desfazendo o Brasil sede e rebaixando de novo a antiga colônia. Foi isso que uniu quem tinha interesses opostos.

Os atos que romperam antes do grito

Para Fausto não há meio-termo aqui: tudo o que o regente fez depois do Fico foi rompimento. Quem servia nas tropas portuguesas e recusou o juramento de fidelidade a Dom Pedro teve de sair do Rio — e é desse vazio que nasce a ideia de um exército brasileiro. O novo ministério que ele montou continuou cheio de portugueses, mas o comando ficou com um brasileiro: José Bonifácio de Andrada.1

Convocada a Constituinte, o ritmo acelerou — e sem largar a retórica de “união com Portugal”. Serviço público passou a exigir adesão declarada à causa da independência. Governos provinciais foram orientados a não empossar funcionário chegado de Portugal. E, já em agosto, saiu o decreto que classificava como inimiga toda tropa vinda da metrópole.1

LembreA independência foi declarada em 7 de setembro?

Foi formalizada ali. Mas em agosto as tropas portuguesas já eram oficialmente inimigas, e desde janeiro o regente havia desobedecido às Cortes. O Ipiranga fecha um processo de onze meses — não o abre.

Chegado o 7 de setembro de 1822, foi na beira do riacho Ipiranga que Dom Pedro deu o grito que oficializou a separação. Menos de três meses depois, em 1º de dezembro, ele recebia a coroa e o título de Dom Pedro I — aos 24 anos. O país nascia independente sem trocar de forma de governo: seguia monarquia.1

Esboço para Independência ou Morte · Painter of the original drawing: Pedro Americo de Figueirede e Mello (29 April 1843 – 7 October 1905) Uploader of the scan: Amandaravellicasper · 1888
O esboço de Pedro Américo para a mesma tela. Ver a composição sendo montada ajuda a lembrar do óbvio: a cena foi construída em ateliê, não observada.
Esboço para Independência ou Morte · 1888 · Wikimedia Commons · Public domain
Questão 01múltipla escolha · sem placar
O 7 de setembro de 1822 é tratado como o marco da Independência. Considerando os atos praticados entre janeiro e agosto daquele ano, é correto afirmar que a data:
  1. Incorreta. A ruptura já estava em curso. Em janeiro o regente desobedeceu à ordem de regresso, e em agosto as tropas vindas de Portugal já eram consideradas inimigas por decreto.

  2. Incorreta. A coroação foi em 1º de dezembro de 1822, quase três meses depois — e Dom Pedro tinha 24 anos.

  3. Correta. É a leitura que o processo sustenta. Fausto trata os atos posteriores ao Fico como atos de ruptura, e é deles que se esboça a criação de um exército brasileiro.

  4. Incorreta. A forma monárquica foi mantida. A ruptura foi com Lisboa, não com a dinastia — quem proclamou foi o próprio herdeiro do trono português.

  5. Incorreta. Não houve consulta popular. A Constituinte foi eleita por voto indireto, e a eleição ocorreu depois da Independência.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

José Bonifácio, que não cabe em rótulo

O homem à frente do ministério é mais complexo do que a escola costuma apresentar. Fausto avisa logo que o pensamento de José Bonifácio não cabe em rótulo. Na pauta social, ele estava à frente do próprio tempo: queria acabar aos poucos com o tráfico e com o cativeiro, redistribuir terra e abrir o país à imigração livre.1

Politicamente, porém, era um liberal conservador, adversário declarado — nas palavras dele — das “esfarrapadas bandeiras da suja e caótica democracia”. Considerava adequada para o Brasil a forma monárquica, sustentada por uma representação de cidadãos restrita às camadas dominantes e ilustradas.1

Quem podia votar, e por quê não podia

Quando, em junho de 1822, Dom Pedro acolheu a proposta de Constituinte, abriu-se um debate revelador: a eleição deveria ser direta ou indireta? Gonçalves Ledo defendia a eleição direta, argumentando que se “o maior número pede eleição direta, a lei as deve sancionar”, pois só por ela se poderia dizer que o povo nomeou seus representantes.1

Venceu a eleição indireta, realizada aliás já depois da Independência. E a justificativa oficial merece ser lida com atenção: as instruções eleitorais alegaram que, no Brasil, não havia uma “população homogênea em que estão difundidas as luzes e as virtudes sociais”.1 Em outras palavras: o povo foi declarado despreparado para escolher — pelos mesmos que acabavam de invocá-lo para justificar a ruptura.

Por que ficou tudo unido

Virou hábito, entre historiadores brasileiros, opor a nossa separação — relativamente tranquila — ao processo atribulado da emancipação hispano-americana, lembrando que aqui o território se manteve inteiro enquanto do outro lado surgiram várias nações no lugar de uma.1

Fausto pede cautela com a conclusão fácil. Imaginar que existisse um projeto compartilhado seria erro: nem dentro do grupo que promoveu a ruptura, com José Bonifácio à frente, havia entendimento sobre que Estado montar. Os dezoito anos entre 1822 e 1840 seriam de oscilação política constante e de rebeliões em série.1

Fora do país, quem chancelou primeiro foram os Estados Unidos, em maio de 1824. Londres já tratava o Brasil como independente na prática, movida por dois interesses bem concretos: manter a antiga colônia estável e preservar posição comercial num mercado que, naquele momento, era o terceiro maior que os ingleses tinham fora da ilha. O reconhecimento no papel demorou por um motivo específico — a Inglaterra queria, em troca, o fim imediato do tráfico de escravizados.1

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Na Constituinte de 1822 discutiu-se se a eleição deveria ser direta ou indireta. Venceu a indireta, e a justificativa oficial das instruções eleitorais foi que:
  1. Correta. É a formulação das próprias instruções. O mesmo povo invocado para legitimar a ruptura foi declarado sem preparo para escolher representantes.

  2. Incorreta. A justificativa registrada não foi logística, e sim sobre as “condições brasileiras” em termos de instrução e virtude da população.

  3. Incorreta. A essa altura o Brasil já rompia com as Cortes. A decisão foi interna.

  4. Incorreta. Inverte a posição dele. Gonçalves Ledo defendia a eleição DIRETA, argumentando que só por ela se poderia dizer que o povo nomeou seus representantes.

  5. Incorreta. A Constituição de 1824 é posterior — e veio depois de o próprio imperador dissolver a Constituinte.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • Data que fecha, não que abre — 7 de setembro formalizou uma ruptura já em curso. O Fico é de 9 de janeiro; em agosto as tropas portuguesas já eram consideradas inimigas por decreto.
  • Independência não foi pacífica — tropas que recusaram jurar fidelidade foram expulsas do Rio, e formou-se um exército. O combate armado continuou em 1823 em outras províncias — assunto do artigo seguinte.
  • Imagem que é fonte sobre outra época — a tela de Pedro Américo é de 1888 e retrata a cena com uniformes de gala e cavalos. É documento sobre como o Império quis ser lembrado, não sobre 1822.
  • Personagem que resiste a rótulo — José Bonifácio defendia fim gradual da escravidão e reforma agrária, e ao mesmo tempo chamava a democracia de “suja e caótica”. Progressista no social, conservador no político.
  • Ruptura sem projeto — Fausto alerta que nem no núcleo promotor havia acordo sobre o Estado a construir. A unidade territorial não significou unidade de projeto — e 1822 a 1840 foi período de rebeliões.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Onze meses de ruptura

abr 1821Dom João VIregressa; Pedrofica comopríncipe regenteset–out 1821Cortes mandamrepartições aLisboa e ordenama volta doregente9 jan 1822Dia do Fico:Pedro decidepermanecerapós o FicoTropas que nãojuram fidelidadedeixam o Rio;nasce um exércitojun–ago 1822Constituinteconvocada; tropasde Portugaldeclaradasinimigas7 set 1822Grito do Ipirangaformaliza aindependênciaOnze meses entre a ordem de volta e o Ipiranga. A ruptura foi um processo de decisões acumuladas, não um grito.
Os três marcos em destaque contam a história real: a ordem das Cortes para o regente voltar, a desobediência do Fico e, só no fim, o Ipiranga. Entre o primeiro e o último, quase um ano de decisões acumuladas.

O que empurrou a ruptura, e o que ela deixou

O QUE EMPURROU A RUPTURAO QUE A RUPTURA DEIXOUCortes recolonizadorasrepartições de volta a Lisboa,tropas e ordem de regressoConcentrou esforços em conseguir a permanência de Dom Pedro no Brasil.O “partido brasileiro”grandes proprietários eburocratas nascidos aquiEstado já montadodesde 1808 o Rio temministério, tesouro e tropaIndependência · 7 set 1822ruptura conduzida pelo próprioherdeiro do trono portuguêsMonarquia mantidaPedro I coroado imperadorem 1º de dezembro, aos 24Estrutura intocadaescravidão e grandepropriedade continuamTerritório unificadoao contrário da Américaespanhola, fragmentadaSem projeto comum1822–1840: flutuação políticae série de rebeliões
A segunda e a quarta caixa da direita são as que a redação de vestibular precisa: a Independência manteve escravidão e grande propriedade, e não produziu acordo sobre que Estado construir.

Direta ou indireta: o primeiro debate eleitoral do país

Gonçalves Ledo: eleição DIRETA“Se o maior número pede eleição direta,a lei as deve sancionar”Só por ela se poderia dizerque o povo nomeou seus representantesDerrotado no debateO que venceu: eleição INDIRETARealizada já depois da IndependênciaJustificativa das instruções eleitorais:no Brasil não havia “população homogêneaem que estão difundidas as luzese as virtudes sociais”Ou seja: o povo foi julgado despreparado
A justificativa vencedora está na coluna da direita, e vale ler duas vezes. O mesmo povo invocado para legitimar a ruptura foi declarado sem “luzes” para escolher seus representantes.

Mapa mental do assunto

Independência7 de setembro de 1822O que precipitouCortes mandam o regente voltarRepartições de volta a LisboaNovas tropas ao Rio e PernambucoQuem conduziuDom Pedro, herdeiro portuguêsJosé Bonifácio no ministérioGonçalves Ledo na ala radicalO que mudouFim do vínculo com LisboaImpério com Pedro I, aos 24 anosReconhecimento dos EUA em 1824O que NÃO mudouEscravidão e grande propriedadeMonarquia e elite dirigenteVoto restrito às camadas dominantes
O ramo destacado é o que separa a resposta boa da mediana. Quem lista só o que mudou descreve; quem aponta o que permaneceu, explica.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Regresso de Dom João VIabril de 1821, com 4 mil portugueses; Pedro fica regente
Medidas das Cortesset–out de 1821: repartições de volta a Lisboa, novas tropas e ordem de regresso do regente
Deputados eleitos no Brasilquase todos nascidos aqui; entre eles Cipriano Barata, Muniz Tavares e Antônio Carlos de Andrada
Dia do Fico9 de janeiro de 1822 — a permanência do regente é a escolha do “partido brasileiro”
Atos de rupturaexpulsão das tropas que não juraram fidelidade; formação de um exército brasileiro
Chefe do ministérioJosé Bonifácio de Andrada — brasileiro à frente de um ministério de portugueses
Agosto de 1822tropas vindas de Portugal declaradas inimigas por decreto
Grito do Ipiranga7 de setembro de 1822, às margens do riacho Ipiranga
Coroação1º de dezembro de 1822; Dom Pedro I tinha 24 anos
Forma de governomonarquia mantida — a ruptura foi com Lisboa, não com a dinastia
Eleição da Constituinteindireta; Gonçalves Ledo defendera a direta e foi derrotado
Justificativa oficialnão haveria no Brasil “população homogênea em que estão difundidas as luzes e as virtudes sociais”
Reconhecimento dos EUAmaio de 1824
Posição inglesareconhecimento informal antes; o formal atrasou pela exigência de extinguir o tráfico
O que veio depois1822–1840: flutuação política e série de rebeliões — não havia projeto comum de Estado
Formato pensado para a véspera da prova: cada linha responde a uma pergunta que a questão costuma fazer.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Unesp.
  3. CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem / Teatro de Sombras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
  4. SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.