A Independência
Quem rompeu com Portugal foi o herdeiro do trono português. Entre a ordem das Cortes para o regente voltar e o 7 de setembro passaram-se onze meses de rupturas graduais — e a data que a escola celebra formalizou o que já estava feito.

Independência ou Morte · 1888 · Wikimedia Commons · Public domain
Por que a independência do Brasil foi proclamada justamente pelo herdeiro do trono português?
Porque, para boa parte da elite instalada aqui, cortar com Lisboa sem abrir mão da dinastia era a saída de menor risco. Esse grupo — que a época chamou de “partido brasileiro” — reunia latifundiários das capitanias vizinhas à capital, gente do funcionalismo e da magistratura nascida no Brasil, e ainda portugueses cujo dinheiro já estava atado ao destino da colônia. Todos empurrando na mesma direção: que Dom Pedro não fosse embora.1
O príncipe atendeu, e a recusa foi encenada solenemente no dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822. Foi ali que o caminho ficou escolhido.1 Dali em diante, a separação deixou de ser assunto de discurso e passou a ser construída por decreto.
O que as Cortes fizeram para provocar isso
O rei voltou a Portugal em abril de 1821, levando consigo quatro mil súditos e deixando Pedro na regência. Vieram então as eleições para as Cortes, com um resultado que dizia muito: a quase totalidade dos escolhidos havia nascido aqui. Entre eles estavam nomes que tinham ido às armas em 1817 — Cipriano Barata, pela Bahia, Muniz Tavares, por Pernambuco, e Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, por São Paulo.1
O que veio de Lisboa entre o fim de setembro e outubro de 1821transformou uma inclinação difusa em projeto. As Cortes resolveram puxar de volta para Portugal as repartições que Dom João VI havia montado no Brasil, mandaram reforço militar para o Rio e para Pernambuco e, no ponto que decidiu tudo, exigiram o retorno do regente.1
Repare no conjunto: devolver as repartições, mandar tropas e chamar o regente de volta. As Cortes não estavam só reorganizando o império — estavam desfazendo o Brasil sede e rebaixando de novo a antiga colônia. Foi isso que uniu quem tinha interesses opostos.
Os atos que romperam antes do grito
Para Fausto não há meio-termo aqui: tudo o que o regente fez depois do Fico foi rompimento. Quem servia nas tropas portuguesas e recusou o juramento de fidelidade a Dom Pedro teve de sair do Rio — e é desse vazio que nasce a ideia de um exército brasileiro. O novo ministério que ele montou continuou cheio de portugueses, mas o comando ficou com um brasileiro: José Bonifácio de Andrada.1
Convocada a Constituinte, o ritmo acelerou — e sem largar a retórica de “união com Portugal”. Serviço público passou a exigir adesão declarada à causa da independência. Governos provinciais foram orientados a não empossar funcionário chegado de Portugal. E, já em agosto, saiu o decreto que classificava como inimiga toda tropa vinda da metrópole.1
LembreA independência foi declarada em 7 de setembro?
Foi formalizada ali. Mas em agosto as tropas portuguesas já eram oficialmente inimigas, e desde janeiro o regente havia desobedecido às Cortes. O Ipiranga fecha um processo de onze meses — não o abre.
Chegado o 7 de setembro de 1822, foi na beira do riacho Ipiranga que Dom Pedro deu o grito que oficializou a separação. Menos de três meses depois, em 1º de dezembro, ele recebia a coroa e o título de Dom Pedro I — aos 24 anos. O país nascia independente sem trocar de forma de governo: seguia monarquia.1

Esboço para Independência ou Morte · 1888 · Wikimedia Commons · Public domain
José Bonifácio, que não cabe em rótulo
O homem à frente do ministério é mais complexo do que a escola costuma apresentar. Fausto avisa logo que o pensamento de José Bonifácio não cabe em rótulo. Na pauta social, ele estava à frente do próprio tempo: queria acabar aos poucos com o tráfico e com o cativeiro, redistribuir terra e abrir o país à imigração livre.1
Politicamente, porém, era um liberal conservador, adversário declarado — nas palavras dele — das “esfarrapadas bandeiras da suja e caótica democracia”. Considerava adequada para o Brasil a forma monárquica, sustentada por uma representação de cidadãos restrita às camadas dominantes e ilustradas.1
Quem podia votar, e por quê não podia
Quando, em junho de 1822, Dom Pedro acolheu a proposta de Constituinte, abriu-se um debate revelador: a eleição deveria ser direta ou indireta? Gonçalves Ledo defendia a eleição direta, argumentando que se “o maior número pede eleição direta, a lei as deve sancionar”, pois só por ela se poderia dizer que o povo nomeou seus representantes.1
Venceu a eleição indireta, realizada aliás já depois da Independência. E a justificativa oficial merece ser lida com atenção: as instruções eleitorais alegaram que, no Brasil, não havia uma “população homogênea em que estão difundidas as luzes e as virtudes sociais”.1 Em outras palavras: o povo foi declarado despreparado para escolher — pelos mesmos que acabavam de invocá-lo para justificar a ruptura.
Por que ficou tudo unido
Virou hábito, entre historiadores brasileiros, opor a nossa separação — relativamente tranquila — ao processo atribulado da emancipação hispano-americana, lembrando que aqui o território se manteve inteiro enquanto do outro lado surgiram várias nações no lugar de uma.1
Fausto pede cautela com a conclusão fácil. Imaginar que existisse um projeto compartilhado seria erro: nem dentro do grupo que promoveu a ruptura, com José Bonifácio à frente, havia entendimento sobre que Estado montar. Os dezoito anos entre 1822 e 1840 seriam de oscilação política constante e de rebeliões em série.1
Fora do país, quem chancelou primeiro foram os Estados Unidos, em maio de 1824. Londres já tratava o Brasil como independente na prática, movida por dois interesses bem concretos: manter a antiga colônia estável e preservar posição comercial num mercado que, naquele momento, era o terceiro maior que os ingleses tinham fora da ilha. O reconhecimento no papel demorou por um motivo específico — a Inglaterra queria, em troca, o fim imediato do tráfico de escravizados.1
- Data que fecha, não que abre — 7 de setembro formalizou uma ruptura já em curso. O Fico é de 9 de janeiro; em agosto as tropas portuguesas já eram consideradas inimigas por decreto.
- Independência não foi pacífica — tropas que recusaram jurar fidelidade foram expulsas do Rio, e formou-se um exército. O combate armado continuou em 1823 em outras províncias — assunto do artigo seguinte.
- Imagem que é fonte sobre outra época — a tela de Pedro Américo é de 1888 e retrata a cena com uniformes de gala e cavalos. É documento sobre como o Império quis ser lembrado, não sobre 1822.
- Personagem que resiste a rótulo — José Bonifácio defendia fim gradual da escravidão e reforma agrária, e ao mesmo tempo chamava a democracia de “suja e caótica”. Progressista no social, conservador no político.
- Ruptura sem projeto — Fausto alerta que nem no núcleo promotor havia acordo sobre o Estado a construir. A unidade territorial não significou unidade de projeto — e 1822 a 1840 foi período de rebeliões.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Onze meses de ruptura
O que empurrou a ruptura, e o que ela deixou
Direta ou indireta: o primeiro debate eleitoral do país
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Regresso de Dom João VI | abril de 1821, com 4 mil portugueses; Pedro fica regente |
| Medidas das Cortes | set–out de 1821: repartições de volta a Lisboa, novas tropas e ordem de regresso do regente |
| Deputados eleitos no Brasil | quase todos nascidos aqui; entre eles Cipriano Barata, Muniz Tavares e Antônio Carlos de Andrada |
| Dia do Fico | 9 de janeiro de 1822 — a permanência do regente é a escolha do “partido brasileiro” |
| Atos de ruptura | expulsão das tropas que não juraram fidelidade; formação de um exército brasileiro |
| Chefe do ministério | José Bonifácio de Andrada — brasileiro à frente de um ministério de portugueses |
| Agosto de 1822 | tropas vindas de Portugal declaradas inimigas por decreto |
| Grito do Ipiranga | 7 de setembro de 1822, às margens do riacho Ipiranga |
| Coroação | 1º de dezembro de 1822; Dom Pedro I tinha 24 anos |
| Forma de governo | monarquia mantida — a ruptura foi com Lisboa, não com a dinastia |
| Eleição da Constituinte | indireta; Gonçalves Ledo defendera a direta e foi derrotado |
| Justificativa oficial | não haveria no Brasil “população homogênea em que estão difundidas as luzes e as virtudes sociais” |
| Reconhecimento dos EUA | maio de 1824 |
| Posição inglesa | reconhecimento informal antes; o formal atrasou pela exigência de extinguir o tráfico |
| O que veio depois | 1822–1840: flutuação política e série de rebeliões — não havia projeto comum de Estado |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Unesp.
- CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem / Teatro de Sombras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
- SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.