As invasões holandesas
Vinte e quatro anos de domínio holandês em Pernambuco, três fases de guerra e uma pergunta que o vestibular adora: o Brasil teria sido melhor sob a Holanda? Fausto responde — e a resposta não é a que se espera.

Vista de Olinda · 1662 · Wikimedia Commons · Public domain
Se o governo de Nassau foi tão melhor que o português, por que o domínio holandês acabou?
Porque não dependia dele. Nassau governou sete dos vinte e quatro anos de presença holandesa em Pernambuco, e quem decidia era a Companhia das Índias Ocidentais — que tinha outra ideia do que uma colônia devia ser. Guarde isso, porque é a chave da pergunta contrafactual que aparece no fim do artigo.
Duas invasões, e uma assimetria reveladora
No conjunto, as invasões fizeram estrago — mas Fausto separa os casos de um jeito que rende questão de prova. Tomada Salvador, entre 1624 e 1625, quem quebrou foi o açúcar do Recôncavo; Pernambuco passou incólume. Anos depois a situação se inverteu: com Pernambuco em guerra, de 1630 a 1637, foi a Bahia que lucrou — faltou produto no mercado internacional, e o preço subiu para quem ainda podia vender.1
Não existia “o Brasil” sofrendo junto. Existiam capitanias concorrentes, e a desgraça de uma era a alta de preço da outra. Essa é uma das razões pelas quais a resistência demorou a se organizar.
Três fases de guerra
Pernambuco foi atacado em 1630, e a queda de Olinda abre o episódio. Dali para a frente, a guerra se organiza em três blocos bem distintos. O primeiro, de 1630 a 1637, foi de resistência — e terminou mal para o lado luso: os holandeses saíram dele mandando em tudo o que ficava entre o Ceará e o rio São Francisco.1
É desse trecho da guerra que sai o nome de Domingos Fernandes Calabar. Nascido em Porto Calvo, Alagoas, conhecia como ninguém o terreno em que se lutava. Trocou de lado, saiu das fileiras luso-brasileiras para as holandesas e serviu bem a elas — até ser capturado e morto.1

Vista da ilha de Itamaracá · 1637 · Wikimedia Commons · Public domain
Fausto escreve que Calabar se destacou “de forma negativa na visão luso-brasileira”. A ressalva é deliberada: em 1630 não existia nação brasileira a ser traída. Havia dois impérios disputando um território — e um homem que escolheu o lado que parecia vencer.
O que Nassau realmente fez
Nassau tinha dois problemas na mesa: uma economia travada e uma população local que não o via como seu. Atacou os dois de uma vez. Colocou à venda, a prazo, os engenhos deixados para trás por senhores que haviam fugido para a Bahia. E, contra a falta de comida, impôs uma regra objetiva: cada proprietário rural teria de plantar mandioca — o “pão do país” — em quantidade proporcional ao número de pessoas que mantinha escravizadas.1
De confissão calvinista, deixou os católicos em paz e, pelos indícios disponíveis — o ponto tem controvérsia —, os judeus também. Aos criptojudeus, cristãos-novos que mantinham o culto antigo às escondidas, permitiu-se praticá-lo à luz do dia. O Recife dos anos 1640 chegou a ter duas sinagogas, e gente de fé judaica veio da Holanda para cá.1

Mulher tapuia · 1641 · Wikimedia Commons · Public domain
Houve também política de atrair gente de ciência e de arte. Foi assim que chegou Frans Post, o primeiro a pintar paisagem e cotidiano brasileiros — as imagens deste artigo saíram do pincel dele e do de Eckhout. Na cidade, Nassau tirou de Olinda o posto de capital e o deu ao Recife, erguendo ao lado do núcleo velho a Cidade Maurícia: ruas em grade, canais cortando tudo, uma Amsterdã de mentira sob o sol do trópico.1
O atrito com os donos do negócio acabou vencendo: brigado com a Companhia, Nassau pegou o navio de volta em 1644.1 A saída dele é o começo do fim.
LembreQuanto tempo Nassau governou?
Sete anos: 1637 a 1644. A presença holandesa durou trinta anos contando desde Salvador, ou vinte e quatro em Pernambuco. Confundir o governo de Nassau com o período holandês inteiro é o erro mais comum do assunto.
Por que os holandeses foram embora
A insurreição prolongou-se por vários anos: os revoltosos dominavam o interior, e o Recife permanecia em mãos holandesas. O impasse foi quebrado nas duas batalhas dos Guararapes, com a vitória dos insurretos, em 1648 e 1649.1
Só que arma não explica tudo. Havia três fatores rodando em paralelo. O primeiro: a Companhia das Índias Ocidentais quebrou de credibilidade, e investidor nenhum queria mais botar dinheiro nela. O segundo: parte da própria Holanda passou a preferir acordo com Portugal, e o argumento era comercial — o sal que vinha de Setúbal sustentava a pesca holandesa, e valia mais que o retorno incerto de uma colônia do outro lado do mundo. O terceiro: em 1652 estourou a guerra contra a Inglaterra, e o dinheiro que sobrava para campanha militar no Brasil secou. Um ano depois a esquadra portuguesa fechou o mar em torno do Recife, e em 1654 os holandeses entregaram.1
Vale reler: parte da Holanda concluiu que o sal português valia mais que o açúcar brasileiro. O Brasil não foi perdido numa batalha decisiva — foi descartado numa planilha.

Mulher africana · 1641 · Wikimedia Commons · Public domain
Quem pagou a guerra
Aqui está o número que explica o resto da história. Da conta da guerra, dois terços saíram de bolsos daqui na etapa de resistência — e, na reconquista, praticamente tudo. A tropa mudou de cara na mesma proporção: no começo predominavam portugueses, castelhanos e mercenários vindos de Nápoles; no fim, quem estava em maior número eram homens da terra, pernambucanos sobretudo.1
Conta paga e sangue derramado geram fatura política. O modo como os holandeses foram postos para fora alimentou o nativismo de Pernambuco por dois séculos, até a Praieira, de 1848: a província virou endereço permanente de movimento por autonomia, por independência e de rebelião declarada. Antes de 1822 o adversário era Lisboa; depois, passou a ser o governo central do próprio país, com pauta social embutida em boa parte dos casos.1
O Brasil seria melhor se os holandeses tivessem ficado?
É a pergunta obrigatória do assunto, e Fausto recusa vendê-la barato: não existe resposta segura, porque se está diante de conjectura — de um caminho que nunca chegou a ser trilhado.1
Posto o governo de Nassau lado a lado com a truculência portuguesa e com o caráter frequentemente predatório daquela colonização, a impressão é favorável aos holandeses. Só que Nassau era uma corrente dentro da Holanda, não a Holanda: a Companhia das Índias Ocidentais puxava para o outro lado, muito mais perto do modelo português. Trocando a lente para essa, e olhando o que os holandeses fizeram na Ásia e nas Antilhas, a impressão favorável desmancha.1
E aí vem a formulação que resolve a questão de prova: o que determina uma colonização não é a bandeira de quem coloniza, e sim o modelo que se implanta. A própria Inglaterra serve de prova — fez nos Estados Unidos algo profundamente diferente do que fez na Jamaica.1
- Duração que se confunde — Nassau governou de 1637 a 1644 — sete anos. A presença holandesa em Pernambuco durou de 1630 a 1654, e a primeira invasão, em Salvador, foi em 1624. Atribuir a Nassau o período inteiro é o erro mais comum.
- Termo anacrônico — chamar Calabar de traidor da pátria pressupõe uma nação brasileira que não existia em 1630. Fausto marca a ressalva ao dizer que ele se destacou negativamente “na visão luso-brasileira”.
- Contrafactual sem resposta fechada — Fausto recusa dizer se o Brasil seria melhor sob a Holanda. Argumenta que Nassau era uma tendência e a Companhia era outra, e que o que decide é o tipo de colonização, não a nacionalidade do colonizador.
- Guerra que beneficiou parte do país — a invasão de Pernambuco elevou o preço internacional do açúcar e favoreceu a Bahia. Tratar as invasões como desgraça nacional uniforme apaga a concorrência entre capitanias.
- Controvérsia registrada pelo autor — a tolerância de Nassau com os judeus é dada por Fausto como provável, com ressalva explícita de que há controvérsia sobre o ponto.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Trinta anos, em seis marcos
Por que os holandeses saíram, e o que ficou
O contrafactual: e se tivessem ficado?
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Primeira invasão | Salvador, 1624–1625 — desastrosa para o Recôncavo, indiferente a Pernambuco |
| Segunda invasão | Pernambuco, a partir de 1630, com a conquista de Olinda |
| Fase 1 · resistência | 1630–1637; domínio holandês do Ceará ao rio São Francisco |
| Calabar | nascido em Porto Calvo (AL); passou às forças holandesas; preso e executado |
| Fase 2 · Nassau | 1637–1644 — sete anos apenas |
| Obras de Nassau | Recife vira capital no lugar de Olinda; constrói a Cidade Maurícia, com canais |
| Medidas econômicas | venda a crédito dos engenhos abandonados; plantio obrigatório de mandioca |
| Tolerância religiosa | católicos e, provavelmente, judeus; duas sinagogas no Recife nos anos 1640 |
| Artistas trazidos | Frans Post e Albert Eckhout, entre naturalistas e letrados |
| Fase 3 · insurreição | rebeldes no interior, Recife holandês; Guararapes em 1648 e 1649 |
| Causas da saída | crise da Companhia; sal de Setúbal mais valioso; guerra Holanda–Inglaterra em 1652 |
| Capitulação | 1654, após cerco naval português ao Recife |
| Quem pagou a guerra | recursos locais: 2/3 na resistência e quase a totalidade na reconquista |
| Diáspora judaica | cláusula da rendição permitiu emigrar: Suriname, Jamaica e Nova Amsterdam (Nova York) |
| Legado político | nativismo pernambucano por dois séculos, até a Revolução Praieira de 1848 |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda Restaurada: guerra e açúcar no Nordeste. Rio de Janeiro: Topbooks.
- MELLO, Evaldo Cabral de. O Negócio do Brasil: Portugal, os Países Baixos e o Nordeste. Rio de Janeiro: Topbooks.
- BOXER, Charles R. Os Holandeses no Brasil, 1624–1654. Recife: Companhia Editora de Pernambuco.