História Verso
História do Brasil · Brasil Colonial

As invasões holandesas

Vinte e quatro anos de domínio holandês em Pernambuco, três fases de guerra e uma pergunta que o vestibular adora: o Brasil teria sido melhor sob a Holanda? Fausto responde — e a resposta não é a que se espera.

1624–165413 min de leitura4 fontes
Vista de Olinda · Frans Post · 1662
Olinda depois de incendiada, por Frans Post. Repare que a ruína aparece integrada à paisagem, sem drama — Post pintava para holandeses, e a destruição da cidade rival não era tragédia para quem encomendou o quadro.
Vista de Olinda · 1662 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Se o governo de Nassau foi tão melhor que o português, por que o domínio holandês acabou?

Porque não dependia dele. Nassau governou sete dos vinte e quatro anos de presença holandesa em Pernambuco, e quem decidia era a Companhia das Índias Ocidentais — que tinha outra ideia do que uma colônia devia ser. Guarde isso, porque é a chave da pergunta contrafactual que aparece no fim do artigo.

Duas invasões, e uma assimetria reveladora

No conjunto, as invasões fizeram estrago — mas Fausto separa os casos de um jeito que rende questão de prova. Tomada Salvador, entre 1624 e 1625, quem quebrou foi o açúcar do Recôncavo; Pernambuco passou incólume. Anos depois a situação se inverteu: com Pernambuco em guerra, de 1630 a 1637, foi a Bahia que lucrou — faltou produto no mercado internacional, e o preço subiu para quem ainda podia vender.1

A guerra do vizinho é o lucro de alguém
Não existia “o Brasil” sofrendo junto. Existiam capitanias concorrentes, e a desgraça de uma era a alta de preço da outra. Essa é uma das razões pelas quais a resistência demorou a se organizar.

Três fases de guerra

Pernambuco foi atacado em 1630, e a queda de Olinda abre o episódio. Dali para a frente, a guerra se organiza em três blocos bem distintos. O primeiro, de 1630 a 1637, foi de resistência — e terminou mal para o lado luso: os holandeses saíram dele mandando em tudo o que ficava entre o Ceará e o rio São Francisco.1

É desse trecho da guerra que sai o nome de Domingos Fernandes Calabar. Nascido em Porto Calvo, Alagoas, conhecia como ninguém o terreno em que se lutava. Trocou de lado, saiu das fileiras luso-brasileiras para as holandesas e serviu bem a elas — até ser capturado e morto.1

Vista da ilha de Itamaracá · Frans Post · 1637
Vista da ilha de Itamaracá, por Frans Post, 1637 — primeiro ano dele no Brasil holandês. A calma da paisagem contrasta com a guerra que corria em volta.
Vista da ilha de Itamaracá · 1637 · Wikimedia Commons · Public domain
Traidor de quem?
Fausto escreve que Calabar se destacou “de forma negativa na visão luso-brasileira”. A ressalva é deliberada: em 1630 não existia nação brasileira a ser traída. Havia dois impérios disputando um território — e um homem que escolheu o lado que parecia vencer.

O que Nassau realmente fez

Nassau tinha dois problemas na mesa: uma economia travada e uma população local que não o via como seu. Atacou os dois de uma vez. Colocou à venda, a prazo, os engenhos deixados para trás por senhores que haviam fugido para a Bahia. E, contra a falta de comida, impôs uma regra objetiva: cada proprietário rural teria de plantar mandioca — o “pão do país” — em quantidade proporcional ao número de pessoas que mantinha escravizadas.1

De confissão calvinista, deixou os católicos em paz e, pelos indícios disponíveis — o ponto tem controvérsia —, os judeus também. Aos criptojudeus, cristãos-novos que mantinham o culto antigo às escondidas, permitiu-se praticá-lo à luz do dia. O Recife dos anos 1640 chegou a ter duas sinagogas, e gente de fé judaica veio da Holanda para cá.1

Mulher tapuia · Albert Eckhout · 1641
Mulher tapuia, por Albert Eckhout, 1641. Pintado por encomenda de Nassau, em tamanho natural. É retrato de observação e peça de propaganda colonial ao mesmo tempo.
Mulher tapuia · 1641 · Wikimedia Commons · Public domain

Houve também política de atrair gente de ciência e de arte. Foi assim que chegou Frans Post, o primeiro a pintar paisagem e cotidiano brasileiros — as imagens deste artigo saíram do pincel dele e do de Eckhout. Na cidade, Nassau tirou de Olinda o posto de capital e o deu ao Recife, erguendo ao lado do núcleo velho a Cidade Maurícia: ruas em grade, canais cortando tudo, uma Amsterdã de mentira sob o sol do trópico.1

O atrito com os donos do negócio acabou vencendo: brigado com a Companhia, Nassau pegou o navio de volta em 1644.1 A saída dele é o começo do fim.

LembreQuanto tempo Nassau governou?

Sete anos: 1637 a 1644. A presença holandesa durou trinta anos contando desde Salvador, ou vinte e quatro em Pernambuco. Confundir o governo de Nassau com o período holandês inteiro é o erro mais comum do assunto.

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Sobre o governo de João Maurício de Nassau no Brasil holandês, é correto afirmar que ele:
  1. Incorreta. Nassau governou de 1637 a 1644 — sete anos dos vinte e quatro. Confundir o governo dele com o período inteiro é o erro mais comum do assunto.

  2. Incorreta. Foi o contrário: Nassau elevou o Recife à condição de capital, no lugar de Olinda, e construiu ao lado a Cidade Maurícia.

  3. Correta. As duas medidas visavam o mesmo: acabar com a paralisação econômica e enfrentar as crises de abastecimento. A mandioca era chamada de “pão do país”.

  4. Incorreta. Nassau era calvinista e foi tolerante com os católicos e, ao que tudo indica, com os judeus. Houve duas sinagogas no Recife na década de 1640.

  5. Incorreta. Nassau voltou à Europa em 1644, por desavenças com a Companhia — dez anos antes da capitulação e quatro antes do primeiro Guararapes.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Por que os holandeses foram embora

A insurreição prolongou-se por vários anos: os revoltosos dominavam o interior, e o Recife permanecia em mãos holandesas. O impasse foi quebrado nas duas batalhas dos Guararapes, com a vitória dos insurretos, em 1648 e 1649.1

Só que arma não explica tudo. Havia três fatores rodando em paralelo. O primeiro: a Companhia das Índias Ocidentais quebrou de credibilidade, e investidor nenhum queria mais botar dinheiro nela. O segundo: parte da própria Holanda passou a preferir acordo com Portugal, e o argumento era comercial — o sal que vinha de Setúbal sustentava a pesca holandesa, e valia mais que o retorno incerto de uma colônia do outro lado do mundo. O terceiro: em 1652 estourou a guerra contra a Inglaterra, e o dinheiro que sobrava para campanha militar no Brasil secou. Um ano depois a esquadra portuguesa fechou o mar em torno do Recife, e em 1654 os holandeses entregaram.1

Sal contra açúcar
Vale reler: parte da Holanda concluiu que o sal português valia mais que o açúcar brasileiro. O Brasil não foi perdido numa batalha decisiva — foi descartado numa planilha.
Mulher africana · Albert Eckhout · 1641
Mulher africana, por Albert Eckhout, 1641. Da mesma série encomendada por Nassau. Ler a imagem exige perguntar quem encomendou e para quê — é o olhar do colonizador que cataloga.
Mulher africana · 1641 · Wikimedia Commons · Public domain

Quem pagou a guerra

Aqui está o número que explica o resto da história. Da conta da guerra, dois terços saíram de bolsos daqui na etapa de resistência — e, na reconquista, praticamente tudo. A tropa mudou de cara na mesma proporção: no começo predominavam portugueses, castelhanos e mercenários vindos de Nápoles; no fim, quem estava em maior número eram homens da terra, pernambucanos sobretudo.1

Conta paga e sangue derramado geram fatura política. O modo como os holandeses foram postos para fora alimentou o nativismo de Pernambuco por dois séculos, até a Praieira, de 1848: a província virou endereço permanente de movimento por autonomia, por independência e de rebelião declarada. Antes de 1822 o adversário era Lisboa; depois, passou a ser o governo central do próprio país, com pauta social embutida em boa parte dos casos.1

O Brasil seria melhor se os holandeses tivessem ficado?

É a pergunta obrigatória do assunto, e Fausto recusa vendê-la barato: não existe resposta segura, porque se está diante de conjectura — de um caminho que nunca chegou a ser trilhado.1

Posto o governo de Nassau lado a lado com a truculência portuguesa e com o caráter frequentemente predatório daquela colonização, a impressão é favorável aos holandeses. Só que Nassau era uma corrente dentro da Holanda, não a Holanda: a Companhia das Índias Ocidentais puxava para o outro lado, muito mais perto do modelo português. Trocando a lente para essa, e olhando o que os holandeses fizeram na Ásia e nas Antilhas, a impressão favorável desmancha.1

E aí vem a formulação que resolve a questão de prova: o que determina uma colonização não é a bandeira de quem coloniza, e sim o modelo que se implanta. A própria Inglaterra serve de prova — fez nos Estados Unidos algo profundamente diferente do que fez na Jamaica.1

Questão 02múltipla escolha · sem placar
A pergunta “o Brasil teria sido melhor sob domínio holandês?” é clássica. A posição de Fausto sobre ela é que:
  1. Incorreta. Fausto reconhece o contraste com a rudeza lusa, mas recusa concluir a partir dele — porque Nassau não representava a Holanda inteira.

  2. Incorreta. Os holandeses investiram em administração, urbanismo e ciência no Nordeste. O argumento de Fausto contra o contrafactual é outro.

  3. Incorreta. Deixou marcas profundas: o nativismo pernambucano se estende por dois séculos, até a Praieira de 1848.

  4. Incorreta. A comparação faz o efeito inverso: é justamente ao observar Ásia e Antilhas que as dúvidas crescem, diz Fausto.

  5. Correta. É a formulação exata de Fausto, e ele reforça com um exemplo: os ingleses estabeleceram colônias bem diversas nos Estados Unidos e na Jamaica.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • Duração que se confunde — Nassau governou de 1637 a 1644 — sete anos. A presença holandesa em Pernambuco durou de 1630 a 1654, e a primeira invasão, em Salvador, foi em 1624. Atribuir a Nassau o período inteiro é o erro mais comum.
  • Termo anacrônico — chamar Calabar de traidor da pátria pressupõe uma nação brasileira que não existia em 1630. Fausto marca a ressalva ao dizer que ele se destacou negativamente “na visão luso-brasileira”.
  • Contrafactual sem resposta fechada — Fausto recusa dizer se o Brasil seria melhor sob a Holanda. Argumenta que Nassau era uma tendência e a Companhia era outra, e que o que decide é o tipo de colonização, não a nacionalidade do colonizador.
  • Guerra que beneficiou parte do país — a invasão de Pernambuco elevou o preço internacional do açúcar e favoreceu a Bahia. Tratar as invasões como desgraça nacional uniforme apaga a concorrência entre capitanias.
  • Controvérsia registrada pelo autor — a tolerância de Nassau com os judeus é dada por Fausto como provável, com ressalva explícita de que há controvérsia sobre o ponto.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Trinta anos, em seis marcos

1624–1625Ocupação deSalvador:desastre para oRecôncavo,indiferente aPernambuco1630Conquista deOlinda; começa aguerra deresistência1637–1644Governo deNassau; Recifevira capital enasce a CidadeMaurícia1645Insurreição:rebeldes dominamo interior,Recife segueholandês1648 e 1649As duas batalhasdos Guararapesquebram o impasse1654Esquadraportuguesa cercao Recife;holandesescapitulamTrinta anos entre a primeira investida e a capitulação — e apenas sete deles sob o governo de Nassau.
Os três marcos em destaque são os que a prova cobra: a conquista de Olinda que abre a guerra, o governo de Nassau que dura só sete anos, e os Guararapes que quebram o impasse militar.

Por que os holandeses saíram, e o que ficou

POR QUE OS HOLANDESES SAÍRAMO QUE FICOUGuararapesvitórias dos insurretosem 1648 e 1649Companhia em criseninguém mais queriainvestir recursos nelaArgumentava-se que o comércio do sal de Setúbal era mais importante que os lucros duvidosos da colônia ultramarina.O sal valia maisgrupo na Holanda prefere paz:sal de Setúbal move a pescaOutra guerraHolanda contra Inglaterraa partir de 1652Capitulação · 1654esquadra portuguesa cercao Recife pelo marNativismo pernambucanodois séculos de revolta,até a Praieira de 1848Cláusula da rendição autorizou a emigração dos judeus que estiveram ao lado dos flamengos.Diáspora judaicaSuriname, Jamaica eNova AmsterdamFim do monopólio do açúcara técnica e o capital seguempara as Antilhas
Repare que só uma das quatro causas é militar. A Holanda saiu do Brasil por cálculo econômico e por outra guerra — inclusive porque parte dela concluiu que o sal de Setúbal valia mais que o açúcar de Pernambuco.

O contrafactual: e se tivessem ficado?

O que sugere que SIMNassau foi tolerante com católicos e judeusEnfrentou a fome obrigando o plantio de mandiocaVendeu a crédito os engenhos abandonadosTrouxe artistas, naturalistas e letradosContraste com a rudeza e a predação lusaO que sugere que NÃONassau era só uma tendência entre duasA Companhia era a outra — e predatóriaColônias holandesas na Ásia e AntilhasIngleses fizeram EUA e Jamaica, bem diferentesDecide o TIPO de colonização,não a nacionalidade do colonizador
Os dois lados do argumento, como Fausto os apresenta. A coluna da direita contém a chave da resposta: o que define uma colonização é o tipo implantado, não a bandeira de quem a implanta.

Mapa mental do assunto

Invasões holandesas1624–1654As três fases1630–1637 guerra de resistência1637–1644 governo de Nassau1645–1654 insurreição e expulsãoO governo de NassauRecife capital, no lugar de OlindaCidade Maurícia, réplica tropicalFrans Post pinta o BrasilPor que saíramGuararapes, 1648 e 1649Companhia falida e sal de SetúbalGuerra com a Inglaterra em 1652O que a guerra deixouNativismo até a Praieira, 1848Custo pago localmente: 2/3 e depois quase tudoJudeus rumo a Nova Amsterdam
O ramo destacado é o que costuma faltar na resposta: quem financiou e lutou a reconquista foi a própria gente da terra, e é dessa conta que nasce o nativismo pernambucano.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Primeira invasãoSalvador, 1624–1625 — desastrosa para o Recôncavo, indiferente a Pernambuco
Segunda invasãoPernambuco, a partir de 1630, com a conquista de Olinda
Fase 1 · resistência1630–1637; domínio holandês do Ceará ao rio São Francisco
Calabarnascido em Porto Calvo (AL); passou às forças holandesas; preso e executado
Fase 2 · Nassau1637–1644 — sete anos apenas
Obras de NassauRecife vira capital no lugar de Olinda; constrói a Cidade Maurícia, com canais
Medidas econômicasvenda a crédito dos engenhos abandonados; plantio obrigatório de mandioca
Tolerância religiosacatólicos e, provavelmente, judeus; duas sinagogas no Recife nos anos 1640
Artistas trazidosFrans Post e Albert Eckhout, entre naturalistas e letrados
Fase 3 · insurreiçãorebeldes no interior, Recife holandês; Guararapes em 1648 e 1649
Causas da saídacrise da Companhia; sal de Setúbal mais valioso; guerra Holanda–Inglaterra em 1652
Capitulação1654, após cerco naval português ao Recife
Quem pagou a guerrarecursos locais: 2/3 na resistência e quase a totalidade na reconquista
Diáspora judaicacláusula da rendição permitiu emigrar: Suriname, Jamaica e Nova Amsterdam (Nova York)
Legado políticonativismo pernambucano por dois séculos, até a Revolução Praieira de 1848
Formato pensado para a véspera da prova: cada linha responde a uma pergunta que a questão costuma fazer.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda Restaurada: guerra e açúcar no Nordeste. Rio de Janeiro: Topbooks.
  3. MELLO, Evaldo Cabral de. O Negócio do Brasil: Portugal, os Países Baixos e o Nordeste. Rio de Janeiro: Topbooks.
  4. BOXER, Charles R. Os Holandeses no Brasil, 1624–1654. Recife: Companhia Editora de Pernambuco.