História Verso
História do Brasil · Brasil Colonial

Inconfidência Mineira e Conjuração Baiana

Nenhum dos dois pegou em armas, nenhum dos dois tomou nada. Um virou feriado nacional; do outro quase ninguém sabe o nome. A diferença entre eles não está no que fizeram — está em quem eram, no que pediam e em quanto isso assustou.

178914 min de leitura5 fontes
Tiradentes esquartejado, por Pedro Américo, 1893 · Pedro Américo · 1893
Tiradentes esquartejado, de Pedro Américo, 1893. A tela foi pintada um século depois da execução e quatro anos depois da Proclamação da República: documenta a fabricação do mártir republicano, não a cena de 1792.
Tiradentes esquartejado, por Pedro Américo, 1893 · 1893 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Os dois movimentos foram descobertos antes de começar. Nenhum tomou nada, nenhum disparou um tiro. Por que um deles virou feriado nacional e o outro quase ninguém sabe nomear?

A resposta não está no que fizeram — nesse quesito são parecidos. Está em quem eram, no que pediam e no tamanho do susto que provocaram. Por isso este artigo trata os dois lado a lado, e não um depois do outro.

Revolta regional, não revolução nacional

Antes dos casos, a tese que Fausto usa para enquadrá-los, e que é o conteúdo mais cobrado do assunto. Aquelas conspirações tinham a ver com as novas ideias e com fatos da esfera internacional, mas refletiam também a realidade local. E a conclusão dele é categórica: foram movimentos de revolta regional, e não revoluções nacionais.1

Esse é o traço que une episódios muito diferentes entre si — a Inconfidência Mineira de 1789, a Conjuração dos Alfaiates de 1798 e a Revolução de 1817, em Pernambuco.1

Daí decorre a advertência que desmonta a leitura patriótica. Perguntado quando teria surgido a consciência de ser brasileiro, Fausto recusa data fechada. O sentimento foi se formando por etapas, e sempre pelo mesmo caminho: certos grupos daqui perceberam que o que lhes convinha já não era o que convinha a Lisboa — ou, pior, que era em Lisboa que morava o problema deles.1

E ele fecha o ponto com uma advertência que vale decorar. Naquele período — e ainda por um bom tempo depois de 1822 — ser brasileiro era algo que se alcançava por dentro do pertencimento à província. Quem se levantava dizia-se mineiro, dizia-se baiano, dizia-se pernambucano; e, às vezes, dizia-se pobre. A identidade nacional vinha depois dessas, quando vinha.1

LembreA Inconfidência foi um movimento de independência nacional?

Não, e é isso que a prova cobra. Fausto os classifica como movimentos de revolta regional. Até a independência, a consciência nacional passa pela regional: os rebeldes se afirmam como mineiros, baianos, pernambucanos — e às vezes como pobres — antes de se afirmarem como brasileiros.

A mesma biblioteca, dois usos opostos

Havia inspiração comum. As “ideias francesas” e o liberalismo da revolução americana eram as fontes de todos eles.1

Mas o uso divergia conforme quem lesse — e a linha de corte é uma só. Os setores dominantes tratavam de limitar aquelas ideias, e eram muito prudentes no tocante à abolição da escravatura, que viria ferir seus interesses. Já para as camadas dominadas, a ideia de independência vinha acompanhada de propósitos igualitários de reforma social.1

Guarde essa distinção: ela é o motor de tudo o que vem a seguir. Ler Voltaire não diz o que a pessoa quer. O que diz é o que ela tem a perder.

Quem eram os inconfidentes

Comecemos por Minas — e não pelo enredo, e sim pela ficha de quem estava na mesa. Quem conspirava ali vinha, quase todo, do andar de cima da colônia. Havia quem tirasse ouro do chão e quem tivesse fazenda; havia padre metido em negócio, gente de repartição e advogado com nome na praça; e havia farda graduada, na pessoa de Francisco de Paula Freire de Andrade, que comandava os Dragões.1

E não eram forasteiros do sistema: todos tinham vínculos com as autoridades coloniais na capitania, e alguns — Alvarenga Peixoto, Tomás Antônio Gonzaga — ocupavam cargos na magistratura. Quem conspirava contra a Coroa em Minas trabalhava para ela.1

José Joaquim da Silva Xavier era, em parte, a exceção. Os pais morreram cedo e deixaram sete filhos; ele foi perdendo o que tinha para credores e não se deu bem no comércio que tentou. Farda, então: em 1775 tornou-se alferes, que era o degrau de baixo entre os oficiais. Fora do quartel, arrancava dentes.1

Não eram provincianos

O que moveu a conspiração de Minas foi, antes de tudo, o que estava acontecendo em Minas — e o que estava acontecendo piorava a cada ano, nas duas últimas décadas do século 18. Fausto faz questão de dizer, porém, que reconhecer isso não transforma os conjurados em provincianos alheios ao mundo: o que se pensava na Europa e na América do Norte chegava até eles.1

A prova é estatística, e é ótima. O Brasil inteiro tinha dezenove matriculados em Coimbra no ano de 1787, e dez desses dezenove saíram de Minas. A universidade, reconhece Fausto, era casa de gente conservadora — mas ficava do outro lado do Atlântico, e isso bastava: por ali passavam as ideias novas e as pessoas que as defendiam.1

Dois casos concretos mostram até onde ia esse alcance. Um ex-estudante de Coimbra, José Joaquim da Maia, entrou na Faculdade de Medicina de Montpellier, na França, em 1786 — e, naquele ano e no seguinte, procurou Thomas Jefferson, então embaixador norte-americano, em busca de apoio para uma revolução no Brasil.1

O outro é Álvares Maciel, participante da conspiração: formou-se em Coimbra, viveu ano e meio na Inglaterra, onde aprendeu técnicas fabris e discutiu com negociantes ingleses a possibilidade de apoio a um movimento pela independência.1

O gatilho: uma cobrança que não chegou a ser feita

Faltava o motivo imediato, e ele foi fiscal. Minas vinha ladeira abaixo nas últimas décadas do século 18, por duas razões que se somavam: cada ano se tirava menos ouro, e a Coroa apertava a cobrança do quinto para não perder receita — a crise estrutural que este site trata em artigo próprio.1

No plano local, a relação entre a elite e a administração já vinha estremecida. O governador Luís da Cunha Meneses, chegado em 1782, empurrou para escanteio os nomes de maior peso da região e distribuiu o que tinha a distribuir entre os seus. Tiradentes, que nem era da elite, também saiu perdendo: tiraram dele a chefia do destacamento encarregado de patrulhar a estrada da Mantiqueira — posto de importância estratégica.1

O agravamento veio com o substituto. O Visconde de Barbacena chegou com instruções do ministro Melo e Castro para garantir o tributo anual de cem arrobas de ouro. Para completar a cota, poderia apropriar-se de todo o ouro existente e, se ainda faltasse, decretar a derrama — um imposto a ser pago por cada habitante da capitania.1

E havia uma segunda instrução, menos lembrada e mais explosiva: investigar os devedores da Coroa e os contratos entre a administração pública e particulares. A ameaça pairava sobre a capitania inteira, mas mais diretamente sobre o grupo de elite — onde estavam os maiores devedores.1

De onde vinham aquelas dívidas
Vale entender o mecanismo, porque ele muda o retrato do movimento. Era comum a Coroa conceder a particulares bem relacionados o direito de cobrar impostos. O contratador pagava uma quantia à Coroa pelo direito e ficava com a diferença entre esse pagamento e o que conseguisse arrecadar. Só que, com frequência, nem sequer completavam o pagamento devido — e as dívidas se acumulavam. Os inconfidentes não eram apenas contribuintes descontentes: boa parte deles devia ao fisco que ia ser investigado.

Os preparativos começaram nos últimos meses de 1788, estimulados justamente pela expectativa do lançamento da derrama. Não chegaram a sair do papel: em março de 1789 veio a denúncia, feita por quem tentava resolver os próprios problemas. Seguiram-se as prisões em Minas e a de Tiradentes no Rio de Janeiro; o longo processo, tocado na capital da colônia, só terminou em 18 de abril de 1792.1

O que estava no programa

Aqui é obrigatório um aviso de método, e Fausto o faz antes de responder: a maioria das fontes disponíveis é o que disseram réus e testemunhas num processo em que se decidia, literalmente, uma questão de vida ou morte. Tudo o que se segue é declaração prestada sob ameaça de forca.1

Feita a ressalva: aparentemente a intenção da maioria era proclamar uma República, tomando como modelo a Constituição dos Estados Unidos. Tomás Antônio Gonzaga governaria os três primeiros anos, e depois haveria eleições anuais.1

O restante do programa responde, item por item, a queixas concretas daquela sociedade. Sobre o Distrito Diamantino pesavam restrições — cairiam. Sobre os devedores do fisco real pesava a cobrança — seria perdoada. Faltavam manufaturas — seriam estimuladas. E, no lugar de tropa permanente, previa-se o cidadão armado, convocável para uma milícia nacional quando fosse preciso.1

O Museu da Inconfidência, em Ouro Preto · Ana Penna · 2015-06-07 09:05:54
O Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. O prédio foi a Casa de Câmara e Cadeia da capitania, e a praça diante dele é onde a cabeça de Tiradentes foi exposta depois da execução.
O Museu da Inconfidência, em Ouro Preto · 2015 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

A escravidão dividiu a mesa

O item que Fausto considera o mais interessante da pauta é a libertação dos escravos — que, observa ele, só excepcionalmente aparece nos movimentos de rebeldia, tanto do Brasil colônia quanto do Brasil independente.1

A contradição que ele expõe tem dois lados, e os dois doem. Vista pelas ideias, a coisa não se sustenta: que liberdade é essa que convive com o cativeiro? Vista pelos bolsos, também não: que senhor de escravos assina a própria ruína?1

E o processo mostra que a divisão foi real — não apenas conveniente. Quem tinha mais cativos que quase todo o grupo, Alvarenga Peixoto, foi quem argumentou a favor de libertá-los: uma vez livres, calculava ele, seriam o esteio mais firme da nova República. Do outro lado ficou gente como Álvares Maciel, para quem a conta não fechava — tirada a escravaria, quem sustentaria a lavoura e a mineração?1

A saída encontrada, ao que parece, foi uma solução de compromisso: libertar apenas os escravos nascidos no Brasil.1

Vale reparar no desenho dessa fórmula. Ela preserva a propriedade já comprada — os africanos trazidos pelo tráfico continuariam cativos — e concede no que ainda não custou dinheiro. É o mesmo tipo de engenharia que reaparecerá, quase um século depois, nas leis emancipacionistas do Império.

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Sobre a composição social e o programa da Inconfidência Mineira, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. Esse é o perfil da Conjuração dos Alfaiates, na Bahia. Em Minas predominava a elite colonial: mineradores, fazendeiros, letrados e uma alta patente militar.

  2. Incorreta. O tema foi discutido e dividiu o grupo. Alvarenga Peixoto defendeu a libertação; Álvares Maciel, a manutenção. Chegou-se a uma solução de compromisso.

  3. Incorreta. O programa previa o oposto: nada de exército permanente. Os cidadãos usariam armas e serviriam, quando necessário, numa milícia nacional.

  4. Incorreta. Tiradentes era, em parte, a exceção no grupo: perdera propriedades por dívidas, fracassara no comércio e era alferes, o grau inicial da oficialidade.

  5. Correta. É o que as declarações do processo indicam, com a ressalva de que essas fontes foram produzidas sob ameaça de condenação capital. A fórmula preservava a propriedade já adquirida e concedia apenas quanto ao futuro.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Dezoito horas de sentença

A punição foi calculada como espetáculo. Encerrado o processo, a Coroa montou uma cena com dois propósitos declarados: exibir força e tirar de qualquer um a vontade de tentar de novo. Um detalhe dá a medida do gesto — foram dezoito horas só para ler o veredito.1

A forca foi a pena lida para Tiradentes e para outros tantos. Poucas horas depois, porém, chegou carta de clemência assinada pela rainha Dona Maria: as condenações viravam banimento — expulsão do Brasil —, e uma só ficou de fora do perdão.1

O enforcamento aconteceu na manhã de 21 de abril de 1792, com toda a liturgia que o Antigo Regime reservava a esse tipo de ato: tropa em forma, discursos e vivas à rainha. Depois vieram o corpo retalhado e a cabeça posta à vista na praça principal de Ouro Preto.1

Note a lógica da clemência seletiva. Comutar quase todas as penas e executar um só permite poupar a elite — que voltaria a ser útil — e ao mesmo tempo entregar um corpo à praça. O escolhido foi justamente o de menor patente e menor fortuna.

Bahia, nove anos depois: outra gente inteiramente

Passemos ao segundo movimento — e a mudança de retrato é total.

Na Bahia de 1798 conspirou, segundo Fausto, gente que a cor e a posição social marcavam. Eram mulatos — uns livres de nascimento, outros alforriados —, empregados em ofícios da cidade: artesãos e soldados. Havia também escravizados entre eles. E como uma parte considerável costurava roupa para viver, o episódio ficou conhecido pelo ofício desses.1

Nem os brancos do grupo vinham de cima: quase todos eram gente miúda. A exceção que importa é o médico Cipriano Barata — nome que reapareceria em quase toda revolta nordestina das quatro décadas seguintes.1

E o pano de fundo não era ideológico: era a barriga. A escassez de gêneros alimentícios e a carestia provocaram vários motins em Salvador entre 1797 e 1798.1

Um episódio resume a cidade daquele momento. Era sábado de aleluia de 1797, e uma carga de carne seguia, carregada por escravizados, para a casa do general-comandante da praça. Não chegou: o povo com fome caiu em cima, e o que ia no lombo daqueles homens terminou dividido entre quem atacou e as vendedoras de quitute que trabalhavam ali.1

A Praça da Piedade, em Salvador, no século 19 · autoria não identificada · 2006-07-21 02:39:33
A Praça da Piedade, em Salvador, em imagem do século 19. Foi nesta praça que os condenados da Conjuração dos Alfaiates foram enforcados e esquartejados.
A Praça da Piedade, em Salvador, no século 19 · 2006 · Wikimedia Commons · Public domain

O programa que assustou

O que a Bahia pedia era: proclamar a República; acabar com a escravidão; abrir o comércio, com a França em primeiro lugar entre os parceiros desejados; pagar mais aos militares; e castigar os padres que se pusessem contra a liberdade.1

Ponha essa lista ao lado da mineira e a diferença salta. Nenhuma cláusula de compromisso sobre a escravidão. Nenhuma distinção entre nascidos aqui e nascidos na África. E duas reivindicações que não aparecem em Minas por motivo óbvio: soldo maior — porque quem conspirava era soldado mal pago — e punição de clérigos — porque quem conspirava não tinha padre do seu lado.

A inspiração também era outra: o modelo, aqui, era o que vinha acontecendo na França. Entre o que a devassa apreendeu havia filosofia — Voltaire, Condillac —, e vale notar que esses mesmos autores circulavam entre os mineiros. Ao lado delas apareceram textos políticos curtos, de linguagem direta, que cruzaram o Atlântico e foram parar nas estantes de quem lia na colônia. Deles saíram os “pasquins sediciosos” — e os papéis que, em agosto de 1798, apareceram espalhados pelas ruas de Salvador.1

Fora os panfletos e uma porção de conversas de articulação, nada saiu do papel. E o fim veio de um erro de cálculo: sondaram o próprio governador em busca de apoio. Dali em diante foram prisões e delações.1

Por que a pena foi maior

O desfecho é a parte mais reveladora do assunto. Quatro dos principais acusados foram enforcados e esquartejados; outros receberam prisão ou banimento. Não houve carta de clemência.1

Fausto qualifica o resultado sem rodeios. Entre o que aqueles homens fizeram — e o que teriam chance de fazer — e o que lhes foi imposto, a distância é grande demais para ser justiça: o que se lê nas sentenças é vontade de dar exemplo, e um exemplo calculado para doer mais que o de Minas.1

Duas explicações se somam. A primeira é a origem social dos acusados. A segunda é um conjunto de circunstâncias ligadas ao temor das rebeliões de negros e mulatos.1

E esse temor tinha endereço no mapa. A insurreição de escravos iniciada em São Domingos, colônia francesa nas Antilhas, em 1791, estava em pleno curso — só terminaria em 1801, com a criação do Haiti como Estado independente. Quer dizer: enquanto os alfaiates eram julgados na Bahia, uma revolução de escravizados estava ganhando no Caribe.1

Some-se a isso a demografia local. Levantes de negros vinham ficando cada vez mais comuns naquela capitania, e o fenômeno tirava o sono da Coroa e dos senhores locais pelo motivo mais simples: em números redondos, oito de cada dez habitantes da Bahia eram negros ou mulatos.1

Junte as três informações e a desproporção deixa de ser mistério. Em Minas, a Coroa punia gente do seu próprio meio, num lugar onde era maioria demográfica confortável. Na Bahia, punia gente da base da sociedade, num lugar onde essa base era quatro quintos da população, e num ano em que o Caribe mostrava o que acontece quando ela vence.

Memorial aos conjurados, na Praça da Piedade · Alex@Eddi ( Diskussion ) · 2013-02-05
Memorial aos conjurados, na Praça da Piedade. A homenagem é recente — sinal de quanto tempo o movimento baiano levou para entrar na memória oficial do país.
Memorial aos conjurados, na Praça da Piedade · 2013 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0
Questão 02múltipla escolha · sem placar
A repressão à Conjuração dos Alfaiates foi mais severa que a aplicada aos inconfidentes mineiros. Fausto explica essa diferença principalmente por:
  1. Incorreta. O movimento não chegou a se concretizar além do lançamento de panfletos e de algumas articulações. A severidade foi, nas palavras de Fausto, desproporcional à ação.

  2. Incorreta. Houve inspiração francesa e defesa do livre comércio com a França, mas não participação de agentes franceses. O que pesou foi o perfil dos acusados e o medo social.

  3. Correta. São exatamente os dois fatores que Fausto reúne. A punição foi mensagem endereçada a uma maioria demográfica, num ano em que o Caribe mostrava o que essa maioria podia fazer.

  4. Incorreta. Não houve assassinato. Houve, ao contrário, uma tentativa de obter apoio do governador da Bahia — e foi a partir dela que começaram as prisões e delações.

  5. Incorreta. O movimento defendia expressamente a proclamação da República. E a rainha não comutou penas na Bahia, ao contrário do que fizera em Minas.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Por que um virou feriado

Resta explicar o desfecho simbólico, que é onde os dois casos mais se afastam.

Fausto é claro quanto ao peso material da Inconfidência. Nada chegou a ser feito, e a chance de dar certo era mínima — nem os militares envolvidos nem os contatos no Rio de Janeiro mudavam isso. Medida por esse critério, a Revolução de 1817, que saiu de Pernambuco e alcançou boa parte do Nordeste, pesou bem mais.1

A importância da Inconfidência é simbólica, e só. Tiradentes virou herói nacional, e a sala de aula passou a contar sua morte — o corpo desfeito, a cabeça exposta — com uma mistura de comoção e espanto. Nada disso, porém, brotou pronto: o mito levou décadas para ser montado, e essa montagem tem história própria.1

O primeiro capítulo dessa história está no nome do episódio. Antes de 1822, quem contava a história era o lado de quem colonizava — e o rótulo “Inconfidência Mineira”, nascido então e preservado pela tradição até hoje, é a prova viva disso. A palavra não é neutra: inconfidência é quebra de fidelidade, é dever descumprido — e o dever em questão é o que se tem para com o rei ou para com o Estado.1

Depois veio o Império, e com ele o desconforto. Dois motivos somados tornavam o episódio constrangedor para o novo regime. Um: aquela gente não gostava de monarquia. Outro: Pedro I e Pedro II descendiam, em linha reta, da soberana que os condenou.1

Foi 1889 que mudou tudo. Com a República, o episódio ganhou luz e Tiradentes ganhou a auréola de mártir — e não sem fundamento. Há sinais de que a encenação com que a Coroa quis assustar a colônia produziu o efeito contrário: em vez de apagar o caso, manteve-o lembrado, e manteve viva também a simpatia por quem tinha sido punido.1

O resultado, na avaliação dele, é um dos poucos heróis nacionais cultuado como mártir tanto pela direita quanto pela esquerda — e pelo povo da rua.1

E por que o outro não

A Conjuração dos Alfaiates teve destino oposto na memória. Também ali quase nada se realizou de concreto, e também ali o que interessa é o símbolo — só que sem nada parecido com a glória que coube a Minas.1

Quem a resgatou foi Affonso Ruy, num livro de 1942chamado A Primeira Revolução Social Brasileira. Fausto acha o título grande demais para o fato — e ainda assim reconhece o essencial: foi ali que apareceu, pela primeira vez, um projeto vindo de baixo em que independência e mudança social andavam juntas.1

Aí está, em uma frase, a razão de o país ter demorado tanto a celebrá-la. Um movimento que pede independência é palatável a qualquer regime. Um movimento que pede independência e reforma social só se torna palatável quando alguém está disposto a discutir a segunda parte.

Pontos sensíveis deste artigo
  • Revolta regional, não revolução nacional — é a classificação de Fausto para os movimentos do período. Até a independência, e mesmo depois, a consciência nacional passa pela regional: os rebeldes se afirmam como mineiros, baianos, pernambucanos — e às vezes como pobres — antes de brasileiros.
  • A mesma leitura, dois usos — ideias francesas e liberalismo norte-americano inspiravam todos. Mas os setores dominantes as limitavam, sendo prudentes quanto à abolição, que feriria seus interesses; nas camadas dominadas, independência vinha junto com reforma social igualitária.
  • Os inconfidentes eram do sistema — mineradores, fazendeiros, padres em negócios, funcionários, advogados e o comandante dos Dragões. Todos tinham vínculos com as autoridades, alguns ocupavam cargos na magistratura — e boa parte devia ao fisco que as instruções de Barbacena mandavam investigar.
  • As fontes são o processo — quase tudo o que se sabe do programa vem de declarações de réus e testemunhas num julgamento em que se decidia vida ou morte. Fausto faz essa ressalva antes de expor as propostas, e ela deve acompanhar qualquer citação delas.
  • A libertação era parcial — a solução de compromisso libertaria apenas os escravos nascidos no Brasil. Alvarenga Peixoto, grande senhor de escravos, defendeu a alforria como forma de criar defensores da República; Álvares Maciel argumentou que sem cativos ninguém trabalharia nas minas.
  • A desproporção da pena baiana tem causa — quatro enforcados e esquartejados, sem comutação, contra um único enforcado em Minas. Fausto atribui a diferença à origem social dos acusados e ao temor das rebeliões de negros e mulatos — com São Domingos em revolta desde 1791 e cerca de 80% de população de cor na capitania.
Onde este artigo para
Este artigo narra os dois levantes. Fica de fora, por ter página própria e ser dona do tema, a crise estrutural do sistema colonial — pressão fiscal, esgotamento do ouro, política pombalina, mudança na Europa e a chamada “viradeira”. Dela entra aqui apenas o gatilho imediato de Minas. A Revolução Pernambucana de 1817, que Fausto considera materialmente mais importante que a Inconfidência, pertence ao contexto da presença da família real e não é tratada aqui. Também não se discutem os nomes dos quatro executados na Bahia nem o detalhe do processo baiano: a fonte principal deste site não os fornece.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Duas conspirações e uma data que não é brasileira

1782Cunha Menesesassume edesagrada a elitemineira1788Barbacena trazordem de cobrarcem arrobasmarço de 1789A denúncia;começam asprisões1791Insurreição deescravos em SãoDomingos21/4/1792Tiradentes éenforcado eesquartejadoagosto de 1798Panfletos nasruas de SalvadorDuas conspirações separadas por nove anos e por quase três mil quilômetros — e uma terceira data, a de 1791, que não é brasileira e explica a dureza da segunda.
O marco de 1791 está aqui de propósito. Sem a revolta de São Domingos em curso, a desproporção entre as penas de Minas e as da Bahia fica sem explicação.

Os mesmos anos, os mesmos livros, projetos opostos

Minas, 1789Elite: mineradores, fazendeiros, letradosDevedores do fisco, com cargos e patenteModelo: a Constituição dos Estados UnidosEscravidão: só os nascidos no BrasilPenas comutadas em banimentoUm enforcado; virou herói nacionalBahia, 1798Mulatos livres e libertos, artesãos, soldadosGente sem cargo, sem patente, sem créditoModelo: a Revolução FrancesaEscravidão: fim, sem meio-termoNenhuma comutação de penaQuatro enforcados; ficou fora do panteão
Compare linha a linha. A diferença decisiva está na quarta: em Minas, a escravidão foi objeto de compromisso; na Bahia, de supressão. É essa linha que explica a sexta.

Por que a punição baiana foi maior

O QUE ASSUSTOUCOMO SE TRADUZIUQuem eramartesãos, soldados e libertos —não gente com quem se negociaO que pediamfim da escravidão, semcláusula de compromissoO exemplo do CaribeSão Domingos em revoltadesde 1791, ainda em cursoRepressão desproporcionaldura além do tamanhoreal da conspiraçãoSem clemêncianenhuma carta real comutoupena, como houve em MinasQuatro execuçõesenforcados e esquartejados,contra um único em MinasAviso à capitaniadirigido a uma populaçãode cor perto de 80%Esquecimentosó entra na historiografiaem 1942, e sem virar mito
As três caixas da esquerda agem juntas. Isoladamente, nenhuma explicaria quatro execuções sem clemência num movimento que não passou de panfletos.

Mapa mental do assunto

Movimentos de rebeldiafins do século 18O que eramRevoltas regionais, não revoluções nacionaisRebeldes se dizem mineiros e baianosConsciência nacional passa pela regionalMinas, 1789Elite endividada com o fiscoDerrama esperada como gatilhoRepública nos moldes norte-americanosBahia, 1798Artesãos, soldados e libertosFome e carestia em SalvadorRepública e fim da escravidãoTrês erros a evitarChamar de movimento nacionalAchar Tiradentes líder desde sempreSupor que os dois pediam o mesmo
O ramo destacado reúne os três atalhos deste conteúdo. O terceiro é o mais frequente em redação: tratar os dois movimentos como se pedissem a mesma coisa.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Classificação geralmovimentos de revolta regional, não revoluções nacionais
Consciência nacionalpassa pela regional: os rebeldes se afirmam como mineiros, baianos, pernambucanos — e às vezes como pobres
Inspiração comumas “ideias francesas” e o liberalismo da revolução americana
Linha de corte ideológicaos dominantes limitavam as ideias, prudentes quanto à abolição; os dominados juntavam independência e reforma social
Composição em Minaselite colonial: mineradores, fazendeiros, padres em negócios, funcionários, advogados e o comandante dos Dragões
Tiradentesalferes, o grau inicial da oficialidade; apelido algo depreciativo, vindo do ofício de dentista
Contato externoJosé Joaquim da Maia procurou Thomas Jefferson em 1786–87; Álvares Maciel viveu ano e meio na Inglaterra
Estudantes em Coimbraem 1787, 10 dos 19 brasileiros matriculados eram de Minas
Gatilho fiscala expectativa da derrama, imposto por habitante, para completar a cota de cem arrobas de ouro
Origem das dívidas da elitecontratos de arrecadação: pagavam à Coroa pelo direito de cobrar impostos e nem sempre completavam o pagamento
Denúncia e processomarço de 1789; o processo no Rio termina em 18 de abril de 1792
Programa mineiroRepública nos moldes da Constituição dos Estados Unidos, milícia no lugar de exército, perdão aos devedores, manufaturas
Escravidão em Minassolução de compromisso: libertar apenas os nascidos no Brasil
Punição em Minasleitura de sentença de 18 horas; penas comutadas em banimento por carta da rainha, exceto Tiradentes
Execução de Tiradentes21 de abril de 1792; esquartejamento e cabeça exposta na praça principal de Ouro Preto
Composição na Bahiamulatos livres e libertos, artesãos e soldados, alguns escravos; entre os brancos, o médico Cipriano Barata
Contexto imediatoescassez de alimentos e carestia; motins em Salvador entre 1797 e 1798
Programa baianoRepública, fim da escravidão, livre comércio com a França, aumento do soldo militar, punição de padres contrários à liberdade
Punição na Bahiaquatro enforcados e esquartejados, sem comutação; outros presos ou banidos
Causa da desproporçãoorigem social dos acusados e temor de rebelião de negros e mulatos; São Domingos em revolta desde 1791; ≈80% de população de cor
Memória da Inconfidênciao nome é a acusação; incômoda no Império, projetada pela República, Tiradentes vira mártir
Memória da Conjuraçãodestacada só a partir do livro de Affonso Ruy, em 1942; primeira corrente popular a unir independência e reivindicação social
Cada linha responde a uma pergunta que a questão costuma fazer sobre os dois movimentos e sobre a memória que se construiu deles.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. RUY, Affonso. A Primeira Revolução Social Brasileira. 1942. Obra que projetou a Conjuração dos Alfaiates na historiografia — e cujo título Fausto considera exagerado.
  3. MAXWELL, Kenneth. A Devassa da Devassa: a Inconfidência Mineira, Brasil e Portugal, 1750–1808. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
  4. JANCSÓ, István. Na Bahia, contra o Império: história do ensaio de sedição de 1798. São Paulo: Hucitec, 1996.
  5. CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.