História Verso
História do Brasil · Brasil Colonial

A crise do sistema colonial

Não foi a colônia que se rebelou primeiro — foi o chão que se mexeu debaixo de Portugal. Três transformações tornaram o exclusivo obsoleto, e a mais decisiva delas foi silenciosa. A resposta portuguesa: aplicar o mercantilismo com mais rigor, justo quando a Europa o abandonava.

1750-180815 min de leitura4 fontes
Retrato do Marquês de Pombal · Unidentified painter · 18 th century
Retrato do Marquês de Pombal, óleo de escola portuguesa do século XVIII. Sebastião José de Carvalho e Melo comandou a administração portuguesa entre 1750 e 1777.
Retrato do Marquês de Pombal · 0 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Comece pela ponta que chegava às pessoas. A Coroa passou a exigir que o imposto sobre o ouro em Minas rendesse, todo ano, pelo menos cem arrobas do metal — um piso fixo, independente do que se extraísse. Um Estado só faz isso quando está apertado. O que estava apertando Portugal?

A cobrança que chegou a Minas

Duas frentes marcaram a política fiscal do período. Uma foi coibir o contrabando de ouro e de diamantes; a outra, melhorar a arrecadação de tributos.1

Em Minas Gerais, isso significou uma troca de mecanismo: saiu o imposto de capitação, voltou o antigo quinto do ouro — e voltou com a exigência de render anualmente ao menos cem arrobas.1

Repare no que essa exigência faz. Um imposto proporcional cai quando a produção cai; um piso fixo, não. Se as minas rendem menos, a cobrança continua a mesma — e o que era tributo vira dívida da região inteira.

Nos diamantes o caminho foi ainda mais direto: depois de uma série de falências, a Coroa passou a explorar as minas diretamente, em 1771.1

Por que faltava dinheiro

A resposta tem duas metades que agiram ao mesmo tempo, e é a simultaneidade que torna a situação grave.

De um lado, a receita caiu. Em meados do século XVIII a colônia entrou numa depressão econômica que só terminaria no fim da década de 1770. Duas causas principais a explicam. Uma é o açúcar em crise. A outra chega um pouco depois: desde 1760, tira-se menos ouro do chão a cada ano.1

De outro, a despesa disparou. Justamente enquanto as rendas da metrópole encolhiam, cresciam gastos extraordinários de duas naturezas. Foi preciso reconstruir Lisboa, arrasada pelo terremoto de 1755. E foi preciso bancar a guerra contra a Espanha, travada pelo domínio de uma faixa enorme — a que se estende de São Paulo para baixo até o Prata.1

Lisboa no terremoto de 1º de novembro de 1755 · Unknown author Unknown author · 1755
Lisboa no terremoto de 1º de novembro de 1755, em gravura em cobre da época. Reconstruir a capital foi uma das despesas extraordinárias que pesaram sobre a Coroa justamente quando as rendas coloniais caíam.
Lisboa no terremoto de 1º de novembro de 1755 · 1755 · Wikimedia Commons · Public domain

Enquanto isso, o mundo saía do lugar

A pressão fiscal, porém, é sintoma. O que estava em crise era o próprio arranjo que dava sentido a ter colônias — e essa crise vinha de fora. Fausto aponta as transformações que balizaram o mundo ocidental a partir de meados do século XVIII, e vale examinar as três em ordem de estardalhaço.

A mais ruidosa veio da França: a partir de 1789, a Revolução Francesa pôs fim ao Antigo Regime naquele país — com repercussão em toda a Europa, e Fausto acrescenta o detalhe que costuma faltar: inclusive pela força das armas.1

Antes dela, em 1776, treze colônias da América do Norte haviam declarado sua separação da Inglaterra — o precedente de que uma colônia podia deixar de ser colônia.1

E a terceira é a que decide tudo, embora quase não faça barulho. Fausto a descreve como uma revolução silenciosa, sem data precisa, e ainda assim tão ou mais importante que as outras duas: a Revolução Industrial.1

Quatro fatores a compõem, e juntos fizeram da Inglaterra a maior potência mundial da época: o uso de novas fontes de energia; a invenção de máquinas, sobretudo para a indústria têxtil; o desenvolvimento agrícola; e o controle do comércio internacional.1

A contradição inglesa

Aqui está o ponto que mais rende numa dissertação. Precisando ampliar mercados, os ingleses passaram a impor ao mundo o livre comércio e o abandono dos princípios mercantilistas. E, ao mesmo tempo, faziam o oposto em casa: tarifa na porta, tanto para o mercado deles quanto para o das colônias que possuíam.1

Livre comércio para os outros, proteção para si. Não é hipocrisia avulsa — é a posição de quem já ganhou a corrida e agora precisa que ninguém feche as portas.

Nas relações com a América espanhola e portuguesa, esse movimento se traduziu em brechas cada vez maiores no sistema colonial, abertas por três caminhos: acordos comerciais, contrabando e aliança com os comerciantes locais.1

A ofensiva contra a escravidão

Um quarto fator atingiu o mundo colonial: a tendência a limitar ou extinguir a escravidão, manifestada pelas duas maiores potências do período — Inglaterra e França.1

E aqui a fonte faz uma correção importante. A explicação corrente é econômica: os britânicos queriam mais gente comprando, e podiam disputar esse mercado com vantagem porque a Revolução Industrial já os colocara à frente. Fausto não descarta o argumento, mas o limita — ele responde por apenas parte da verdade.1

O que falta na explicação puramente econômica são duas coisas. A primeira: os novos movimentos nascidos nos países mais avançados da Europa, sob a influência do pensamento ilustrado e também do pensamento religioso — este último, sublinha a fonte, é o caso da Inglaterra. A segunda vale para a França: o levante que negros — escravizados e libertos — promoveram nas Antilhas.1

As datas são duas, e a primeira teve volta atrás. Quem agiu antes foi a França revolucionária: em fevereiro de 1794, aboliu o cativeiro em seus domínios coloniais — mas Napoleão desfez a medida em 1802. A Inglaterra só tomaria decisão equivalente em 1807.1

LembreA campanha antiescravista britânica foi apenas cálculo econômico?

Não, e a fonte é explícita. A ligação com o interesse em ampliar mercados consumidores contém apenas parte da verdade. Entram também os movimentos surgidos na Europa mais avançada, sob influência do pensamento ilustrado e religioso — e, no caso francês, a insurreição de libertos e escravizados nas Antilhas. Reduzir tudo a interesse é perder metade da explicação.

Vale o contraste com quem tinha acabado de fazer uma revolução. Nos Estados Unidos, depois de 1776, o resultado foi outro: apesar do caráter liberal e anticolonialista daquele movimento, prevaleceram os interesses dos grandes proprietários rurais. A escravidão só desapareceu em alguns Estados do norte — e justamente naqueles em que os cativos tinham pouca significação econômica.1

Cuidado com a síntese fácil
Fausto resume todo esse processo como uma etapa de formação do capitalismo industrial, ligada à ascensão da burguesia ao poder. Mas emenda logo um aviso, e ele vale para qualquer resposta de prova: amarrar as duas coisas de forma simples é erro. Que a aristocracia acabasse e que a burguesia virasse classe dirigente foi resultado de um percurso complicado, que mudou conforme o país e que se armou a partir de alianças entre classes e da ação do próprio Estado.1 Ou seja: burguesia industrial não sobe em bloco nem no mesmo ritmo em toda parte.
Questão 01múltipla escolha · sem placar
Sobre as transformações do mundo ocidental que provocaram a crise do sistema colonial, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. A Revolução Francesa encerrou o Antigo Regime na França e repercutiu em toda a Europa, inclusive pela força das armas. Mas quem impôs ao mundo o livre comércio foi a Inglaterra, e a fonte considera a Revolução Industrial tão ou mais importante que as revoluções políticas.

  2. Correta. É a contradição registrada pela fonte. Nas relações com a América ibérica, isso se traduziu em brechas cada vez maiores no sistema colonial, abertas por acordos comerciais, contrabando e aliança com comerciantes locais.

  3. Incorreta. Apesar do caráter liberal e anticolonialista da revolução, predominaram os interesses dos grandes proprietários rurais: a escravidão só foi extinta em alguns Estados do norte, onde os cativos tinham pouca significação econômica.

  4. Incorreta. Fausto afirma que essa explicação contém apenas uma parte da verdade. Entram também movimentos nascidos na Europa mais avançada, sob influência do pensamento ilustrado e religioso.

  5. Incorreta. A fonte a descreve justamente como uma revolução silenciosa e sem data precisa — e ainda assim tão ou mais importante que as revoluções política e americana.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

A resposta portuguesa: mais mercantilismo

Como Portugal chegava a esse mundo novo? Mal. Em meados do século XVIII era um país atrasado diante das grandes potências europeias e dependia da Inglaterra, que em troca lhe dava proteção diante da França e da Espanha. E, mesmo nessa posição, Lisboa tentava duas coisas ao mesmo tempo: segurar de pé o sistema colonial e conter os ingleses, cuja presença no Brasil não parava de crescer.1

O marco do período é a subida de Dom José I ao trono, em 1750 — mas Fausto adverte que a importância não está propriamente no rei, e sim no ministro que ele escolheu. O nome de batismo era Sebastião José de Carvalho e Melo; a história o guardaria pelo título que viria depois — Marquês de Pombal.1

A biografia dele até ali tem um detalhe que costuma surpreender: quando foi indicado ao ministério, já passava dos cinquenta anos e vinha de uma carreira relativamente obscura — representara Portugal na Inglaterra e servira como diplomata na Corte austríaca.1

Sua obra se estendeu de 1750 a 1777, e teve dois objetivos: tornar mais eficaz a administração portuguesa e modificar o relacionamento entre Metrópole e Colônia.1

E a fórmula que ele usou é o coração deste artigo. Fausto vê nela uma mistura peculiar entre o antigo e o moderno, que as condições de Portugal explicam: de um lado o absolutismo ilustrado; de outro, o esforço de levar a sério, enfim, o receituário mercantilista.1

Os três irmãos Carvalho · GualdimG · 2022-11-12 16:30:00
Os três irmãos Carvalho, em óleo do século XVIII no Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras: Paulo de Carvalho e Mendonça, Sebastião José de Carvalho e Melo e Francisco Xavier de Mendonça Furtado. Fotografia de 2022.
Os três irmãos Carvalho · 2022 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

As companhias privilegiadas

A tradução prática dessa fórmula foram duas empresas com monopólio. Ambas seguiam, nas palavras da fonte, as concepções do mercantilismo.1

A primeira, de 1755, foi a Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão. Seu objetivo era desenvolver a região Norte, e o método foi oferecer preços atraentes por mercadorias produzidas ali e consumidas na Europa — arroz, algodão, canela, cravo e cacau —, todas transportadas com exclusividade nos navios da própria companhia.1

Ela introduziu também escravos negros na região. Mas a fonte registra o desvio que se seguiu: dada a pobreza local, a maior parte deles acabou reexportada para as minas de Mato Grosso.1

A segunda veio em 1759: a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba, criada para reativar o Nordeste na mesma linha de atuação.1

Quem perdeu com isso? Os setores comerciais brasileiros marginalizados pelas companhias. Mas Fausto faz questão de desfazer uma leitura fácil: perseguir a elite colonial nunca esteve entre os objetivos de Pombal. O que ele fez foi o contrário — abriu lugar para ela na farda, na toga e nos postos de administração e de fazenda do governo.1

E o balanço do programa econômico é sóbrio: ele foi em grande medida frustrado — não por erro de concepção, mas porque bateu de frente com a depressão descrita no início deste artigo.1

O confisco e o buraco no ensino

A medida mais controvertida do período foi a expulsão dos jesuítas de Portugal e de seus domínios, com confisco de bens, em 1759 — episódio que tem artigo próprio. O que interessa aqui é a lógica e o saldo.1

A lógica era de centralização. Não se toleraria que uma ordem religiosa mantivesse território próprio de ação quando seus objetivos não fossem os da Coroa. Prova de que o alvo era o modelo, e não apenas uma ordem: os mercedários, que vinham logo atrás dos jesuítas em peso na Amazônia, levaram o mesmo destino por volta de 1765 — expulsos, e com os bens tomados.1

O saldo material é revelador de quem mandava na colônia. A maioria das propriedades urbanas e rurais confiscadas foi arrematada em leilão por grandes fazendeiros e comerciantes. As maiores igrejas passaram a bispos não integrados nas ordens religiosas. E muitos colégios viraram palácios de governadores ou hospitais militares.1

Fausto encerra o balanço com uma frase seca: houve um grande desperdício, em especial de bens culturais — e cita o exemplo que dói, o das bibliotecas, tidas como coisa de pouco valor.1

Uma comparação que explica muita coisa

A expulsão abriu um vazio no já pobre ensino da colônia. E ao explicar por que o ensino era pobre, a fonte oferece a comparação mais eloquente do capítulo. Havia, em Lisboa, receio de que se formasse aqui dentro uma camada de gente instruída — receio que Madri não compartilhava.1

Os números confirmam. Ainda no século XVI, três universidades já funcionavam na América sob domínio espanhol: em 1538 a de São Domingos, e em 1551 a Cidade do México e São Marcos, em Lima. Do lado português, não se fundou nenhuma em três séculos de colônia.1

Com a imprensa, a história se repete. Ela apareceu nas maiores cidades coloniais espanholas também no século XVI. Aqui, houve uma tentativa isolada — uma oficina gráfica que funcionou no Rio a partir de 1747 e que ordem régia mandou fechar pouco depois. Fora isso, a impressão só começaria no século XIX, quando chegou Dom João.1

Para remediar o vazio vieram três providências. Em Olinda, o bispo de Pernambuco abriu um seminário com espaço para matemática e ciências naturais. No Rio e na Bahia, formaram-se pequenos clubes de intelectuais. E o Estado criou um tributo próprio para bancar as escolas que mantinha — o subsídio literário.1

Pombal, com a Universidade de Coimbra ao fundo · Unknown author Unknown author · 18 th century
Pombal retratado com a Universidade de Coimbra ao fundo. A reforma do ensino foi uma das frentes de sua administração — e o Brasil, ao contrário da América espanhola, não teve universidade em todo o período colonial.
Pombal, com a Universidade de Coimbra ao fundo · 0 · Wikimedia Commons · Public domain

A “viradeira”, e o que ela não foi

Com a morte de Dom José e a queda de Pombal, em 1777, começou o reinado de Dona Maria I. E aqui é preciso desmontar uma imagem consolidada.

Fausto explica a origem dela: a grande controvérsia entre historiadores portugueses a favor e contra Pombal produziu a visão de um corte profundo entre as duas épocas. A própria expressão “viradeira” é indício dessa leitura.1

Mudanças houve, e pesadas. Acabaram-se as companhias de comércio. E fechou-se a porta da indústria têxtil na colônia: nem fábrica nem manufatura de tecido seriam toleradas — salvo uma exceção que vale ler com atenção, a do pano grosso de algodão destinado a vestir os escravizados.1

Isso, somado à repressão aos integrantes da Inconfidência Mineira, deixou na historiografia brasileira uma imagem muito negativa do período posterior a Pombal.1

A ressalva de Fausto é o que corrige o quadro. Nos trinta anos que separam 1777 de 1808, o esforço de reforma não parou — e tinha finalidade declarada: acompanhar os novos tempos para salvar o colonialismo mercantilista.1

E, ao contrário do reinado anterior, este pegou conjuntura favorável. A produção de açúcar valorizou-se e se expandiu, beneficiada pela insurreição dos escravos em São Domingos. E outro produto entrou em cena: o algodão, que a companhia de comércio criada por Pombal havia desenvolvido e que a guerra de independência norte-americana ajudou a impulsionar. Por algum tempo, ele fez do Maranhão a região mais próspera de toda a América portuguesa.1

Dona Maria I, rainha de Portugal · Attributed to Giuseppe Troni · 1783
Dona Maria I, rainha de Portugal, em óleo de 1783 atribuído a Giuseppe Troni. Seu reinado, iniciado com a queda de Pombal, ficou conhecido como “viradeira” — rótulo que a historiografia recente relativiza.
Dona Maria I, rainha de Portugal · 1783 · Wikimedia Commons · Public domain
Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre a administração pombalina e o período que a sucedeu, é correto afirmar que:
  1. Correta. É a “peculiar mistura do velho e do novo” descrita pela fonte. Dela saíram a Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão (1755) e a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba (1759).

  2. Incorreta. Ocorreu o contrário: Pombal colocou membros da elite colonial nos órgãos administrativos e fiscais do governo, na magistratura e nas instituições militares. Quem foi prejudicado foram os setores comerciais marginalizados pelas companhias.

  3. Incorreta. O programa foi em grande medida frustrado. A colônia entrou em depressão em meados do século, por causa da crise do açúcar e da queda da produção de ouro a partir de 1760.

  4. Incorreta. Entre 1777 e 1808 a Coroa continuou tentando reformas para se adaptar aos novos tempos e salvar o colonialismo mercantilista.

  5. Incorreta. Houve uma exceção significativa: as manufaturas de pano grosso de algodão destinadas ao uso dos escravos.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • Pombal não foi um liberal — sua reforma combinou absolutismo ilustrado com a aplicação mais consequente que Portugal já fizera do mercantilismo — criando monopólios, e não abrindo mercado. Tratá-lo como modernizador em sintonia com a Europa inverte o quadro.
  • A Revolução Industrial é a transformação decisiva — a fonte a chama de revolução silenciosa e sem data precisa, e a considera tão ou mais importante que a independência americana e a Revolução Francesa. Responder sobre a crise do sistema colonial citando só as revoluções políticas deixa de fora o motor.
  • Livre comércio para os outros, tarifa para si — a Inglaterra impunha ao mundo o abandono do mercantilismo enquanto protegia seu mercado e o de suas colônias com tarifas. É essa assimetria que abre brechas no sistema colonial ibérico, por acordos, contrabando e aliança com comerciantes locais.
  • O antiescravismo não se explica só por interesse — a associação com a ampliação de mercados consumidores contém, nas palavras da fonte, apenas parte da verdade. Entram os movimentos nascidos na Europa mais avançada, sob influência ilustrada e religiosa, e a insurreição nas Antilhas.
  • Cuidado com a equação burguesia = capitalismo industrial — Fausto sintetiza o processo como etapa de formação do capitalismo industrial ligada à ascensão da burguesia, mas adverte contra a associação simplista: foi processo complexo, variável de país a país, tecido por alianças de classe e pelo papel do Estado.
  • A “viradeira” não paralisou a Coroa — a imagem negativa do período pós-Pombal vem da extinção das companhias, da proibição de manufaturas e da repressão à Inconfidência. Mas entre 1777 e 1808 a Coroa seguiu tentando reformas, e a conjuntura econômica foi favorável — o açúcar se valorizou e o algodão fez do Maranhão a zona mais próspera.
  • O ensino era pobre por decisão, não por acaso — a Coroa portuguesa, ao contrário da espanhola, temia a formação de uma elite letrada na colônia. A Espanha criou universidades na América já no século XVI; a América portuguesa não teve nenhuma em todo o período colonial, e a imprensa só chegou no século XIX.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De 1750 à Revolução Francesa

1750Dom José Isobe aotrono;Pombalassume oministério1755TerremotodestróiLisboa;criada acompanhia doGrão-Pará1757Extinta aescravidãoindígena1759Expulsão dosjesuítas,com confiscode bensa partir de 1760A produçãode ourocomeça acair1776Colônias daAmérica doNorte seseparam daInglaterra1777Morte de DomJosé e quedade Pombal: a“viradeira”1789A RevoluçãoFrancesaencerra oAntigoRegime naFrançaRepare que a queda do ouro e o terremoto de Lisboa são quase simultâneos: a receita cai e a despesa dispara ao mesmo tempo.
O marco em destaque é o mais importante e o menos visível: quando o ouro começa a cair, em 1760, todo o resto da política portuguesa passa a ser resposta a isso.

O que a Inglaterra pregava e o que praticava

O que a Inglaterra pregavaLivre comércio como princípio universalAbandono dos princípios mercantilistasAbertura dos mercados coloniais alheiosFim ou limitação da escravidãoO que a Inglaterra praticavaTarifas protegendo o mercado internoProteção também para suas colôniasContrabando na América ibéricaAliança com os comerciantes locais
Leia as linhas em pares. Não é incoerência: é a posição de quem já venceu a corrida industrial e precisa que ninguém mais feche as portas.

O que se mexeu, e o que veio disso

O QUE SE MEXEUO QUE VEIO DISSORevolução Industrialsilenciosa e sem data,e a mais importante das trêsDuas revoluções políticasindependência americana em 1776,Revolução Francesa a partir de 1789Renda em quedacrise do açúcar e menos ouro,com despesa extraordinária subindoCrise do sistema colonialo exclusivo deixa decorresponder ao mundoReforma pombalinaabsolutismo ilustrado somadoa mais mercantilismoAperto fiscalcem arrobas de ouro por anoexigidas de Minas GeraisBrechas para a Inglaterraacordos, contrabando e aliançacom comerciantes locaisModelo esgotadoa Coroa tenta salvar ocolonialismo mercantilista
Repare que nenhuma das três causas da esquerda nasce no Brasil. A crise do sistema colonial começa fora dele — e chega aqui na forma de imposto.

Mapa mental do assunto

Crise do sistema colonial1750-1808O mundo mudaIndependência dos Estados Unidos, 1776Revolução Francesa, a partir de 1789Revolução Industrial na InglaterraOfensiva contra a escravidãoPortugal apertaPaís atrasado e dependente da InglaterraCompanhias privilegiadas de comércioQuinto do ouro: cem arrobas por anoCoroa explora as minas de diamantePor que faltou dinheiroCrise do açúcarQueda do ouro a partir de 1760Reconstrução de Lisboa após 1755Guerras contra a Espanha no sulErros que a prova cobraPombal não foi liberal: reforçou o mercantilismoA Inglaterra pregava livre comércio e se protegiaO antiescravismo não era só cálculo econômicoA “viradeira” não interrompeu as reformas
O ramo destacado reúne os erros mais caros. O primeiro deles é o que mais aparece em redação: confundir absolutismo ilustrado com liberalismo econômico.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
1776colônias da América do Norte declaram separação da Inglaterra
A partir de 1789a Revolução Francesa encerra o Antigo Regime na França e repercute pela Europa, inclusive pelas armas
Revolução Industrialsilenciosa e sem data precisa — e tão ou mais importante que as outras duas
Seus fatoresnovas fontes de energia, máquinas (sobretudo têxteis), avanço agrícola e controle do comércio internacional
A contradição inglesaprega livre comércio fora e mantém tarifa na porta, para si e para suas colônias
Como abre brechasacordos comerciais, contrabando e aliança com comerciantes locais
Ofensiva antiescravistaInglaterra e França; explicação só econômica contém apenas parte da verdade
O que mais explicamovimentos ilustrados e religiosos na Europa; no caso francês, a insurreição nas Antilhas
Fevereiro de 1794a França revolucionária extingue a escravidão nas colônias — Napoleão revoga em 1802
1807a Inglaterra faz o mesmo
Contraste dos EUAescravidão extinta só em alguns Estados do norte, onde os cativos pouco pesavam economicamente
Advertência de métodocuidado com a associação simplista entre capitalismo industrial e ascensão da burguesia
Portugal em 1750país atrasado e dependente da Inglaterra, que lhe dava proteção diante de França e Espanha
O marco de 1750Dom José I no trono — mas o que importa é o ministro Sebastião José de Carvalho e Melo
Carreira anteriorobscura: representante em Londres e diplomata na Corte austríaca; assumiu com mais de cinquenta anos
Período de governo1750 a 1777
Fórmula da reformaabsolutismo ilustrado mais aplicação consequente do mercantilismo
Companhia de 1755a do Grão-Pará e Maranhão — cacau, cravo, canela, algodão e arroz, só em navios dela
Efeito colateralescravos introduzidos foram, na maior parte, reexportados para as minas de Mato Grosso
Companhia de 1759Pernambuco e Paraíba, para reativar o Nordeste
Quem foi prejudicadoos setores comerciais brasileiros marginalizados pelas companhias
A elite colonialnão foi alvo — ganhou lugar na farda, na toga e nos postos de administração e fazenda
Por que o programa falhoudepressão de meados do século até o fim da década de 1770
Causas da depressãoo açúcar em crise e, desde 1760, cada vez menos ouro extraído
Despesas extraordináriaserguer Lisboa de novo depois de 1755 e bancar a guerra com a Espanha no extremo sul
Aperto fiscal em Minaso quinto do ouro substitui a capitação, exigindo cem arrobas por ano
Diamantesapós série de falências, a Coroa passa a explorar as minas diretamente, em 1771
Expulsão dos jesuítas1759, com confisco; por volta de 1765 os mercedários sofrem o mesmo na Amazônia
Destino dos bensleiloados a fazendeiros e comerciantes; colégios viraram palácios e hospitais; bibliotecas tidas por coisa de pouco valor
Política indígenaescravidão indígena extinta em 1757; aldeias amazônicas viram vilas civis; incentivo a casamentos mistos
Ensinoa Coroa temia uma elite letrada na colônia: nenhuma universidade em todo o período
Comparaçãosob domínio espanhol já havia três universidades no século XVI — 1538 e 1551
Imprensauma oficina funcionou no Rio desde 1747 até ordem régia mandar fechá-la; só começa no XIX, com Dom João
Remédiossubsídio literário, seminário de Olinda e pequenos clubes de intelectuais no Rio e na Bahia
1777morte de Dom José e queda de Pombal: começa a “viradeira”
O que mudoufim das companhias e porta fechada à indústria têxtil, salvo o pano grosso que vestia os escravizados
A ressalvanos trinta anos até 1808 o esforço de reforma não parou, para salvar o colonialismo mercantilista
Conjuntura favorávelo açúcar se valoriza com a insurreição em São Domingos; o algodão faz do Maranhão a zona mais próspera
Cada linha responde a uma pergunta que a prova costuma fazer sobre o esgotamento do pacto colonial.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. NOVAIS, Fernando A. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial. São Paulo: Hucitec.
  3. MAXWELL, Kenneth. Marquês de Pombal: paradoxo do Iluminismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
  4. FALCON, Francisco. A época pombalina. São Paulo: Ática.