História Verso
História do Brasil · Brasil Colonial

Ouro e diamantes

O ouro deslocou o eixo da colônia, criou cidades no meio da montanha e trouxe o Estado português mais perto do que nunca. A vida útil de um escravizado nas minas era estimada em sete a doze anos.

1695–178012 min de leitura4 fontes
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Ouro Preto · MrElvio · 03/05/2014
A igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em Ouro Preto, erguida pela irmandade de pessoas negras — que não eram admitidas nas igrejas das elites brancas. O ouro pagou o barroco mineiro, e a arquitetura registra quem podia entrar onde.
Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Ouro Preto · 2014 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Pergunta orientadora

Por que o Estado português só apareceu de corpo inteiro na colônia quando encontrou ouro?

Porque antes disso não havia muito a fiscalizar. Durante dois séculos a máquina administrativa lusa manteve-se rala e grudada no litoral do açúcar. Achado o metal, no começo do século 18, isso muda: o controle estatal se aperta, por duas razões declaradas — dar forma a uma sociedade que crescia depressa demais, e garantir que o tributo sobre a riqueza nova chegasse ao cofre.1

Uma descoberta que começou como raciocínio

Fausto trata a busca como dedução, e não como sorte. Os paulistas embrenhados no sertão estavam testando uma hipótese que se resume numa pergunta: se o lado espanhol do continente transbordava metal precioso, por que o lado português não teria o mesmo?1

A resposta veio em 1695, às margens do Rio das Velhas, na região das atuais Sabará e Caeté — e a tradição credita o achado a Borba Gato, genro de Fernão Dias. Nas quatro décadas seguintes o ouro apareceria também na Bahia, em Goiás e no Mato Grosso. Já os diamantes, que pesaram bem menos na economia, saíram do Serro Frio, ao norte de Minas, por volta de 1730.1

Diamante rende menos que se imagina
Fausto registra que a importância econômica dos diamantes foi menor que a do ouro. A fama do Distrito Diamantino vem menos da riqueza que gerou e mais do aparato de controle que a Coroa montou em torno dela.

A guerra por quem podia entrar

Logo no começo da corrida, a Câmara de São Paulo levou ao rei um pedido de reserva de mercado: só quem morasse na Vila de São Paulodeveria receber licença para explorar, já que o achado fora obra dos paulistas. A realidade desmontou a proposta em pouco tempo — gente demais estava chegando, portugueses e brasileiros, com forte presença baiana.1

O choque virou guerra civil: a Guerra dos Emboabas, entre 1708 e 1709, com paulistas de um lado e o conjunto de baianos e forasteiros do outro. No que motivou a briga, os paulistas saíram derrotados. Levaram, em troca, prêmios de natureza política: em 1709 ganharam a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, desmembrada do Rio de Janeiro, e em 1711 viram sua vila promovida a cidade. Onze anos depois, em 1720, Minas Gerais viraria capitania à parte.1

LembreQuem venceu a Guerra dos Emboabas?

Os paulistas perderam a disputa pelo monopólio das concessões. Em compensação, ganharam capitania própria em 1709 e a elevação de São Paulo a cidade em 1711. Derrota econômica, vitória administrativa.

Dois impostos, duas lógicas

O quinto era a quinta parte dos metais extraídos, que devia pertencer ao rei — deduzido do ouro em pó ou em pepitas levado às casas de fundição. Ele incidia sobre o que era declarado, e por isso mesmo convivia com o contrabando.1

A capitação veio depois, quando a Coroa quis arrecadar mais, e substituiu o quinto por algo de alcance muito maior. Para o minerador, a conta passou a ser feita por cabeça de pessoa escravizada — homem ou mulher, acima de doze anos, rendendo ou não rendendo. Quem trabalhava sozinho, o faiscador, também entrava na conta: pagava por si próprio. E a cobrança ainda se espalhava sobre oficinas, lojas, hospedarias e matadouros.1

A diferença entre os dois é conceitual e cai em prova: o quinto tributa a produção; a capitação tributa a posse. Quem não achasse ouro naquele ano pagava do mesmo jeito.

Mais tarde, Pombal tentaria coibir o contrabando de ouro e diamantes e melhorar a arrecadação. Em Minas Gerais, a capitação foi substituída pelo antigo quinto, com a exigência de que rendesse anualmente pelo menos cem arrobas do metal.1

Questão 01múltipla escolha · sem placar
A Coroa substituiu o quinto pela capitação na região das minas. A diferença essencial entre os dois tributos é que:
  1. Correta. É a distinção que decide a questão. Quem não achasse ouro no ano pagava capitação do mesmo jeito, e o faiscador sem escravizados pagava sobre si mesmo.

  2. Incorreta. A forma de pagamento não é a distinção relevante. O que muda é o que está sendo tributado: produção num caso, posse no outro.

  3. Incorreta. Ao contrário: os faiscadores pagavam o imposto por cabeça sobre si mesmos. A capitação não deixava ninguém de fora.

  4. Incorreta. Inverte os dois. Era a capitação que alcançava estabelecimentos como oficinas, lojas, hospedarias e matadouros.

  5. Incorreta. Pombal fez o movimento inverso: substituiu a capitação pelo antigo quinto, com exigência de render pelo menos cem arrobas anuais.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Vigiar frades, ourives e todo mundo

Em nome da “lei e da ordem”, a Coroa montou juntas de julgamento e despachou ouvidores — que frequentemente acumulavam a função de julgar com a de vigiar a cobrança do quinto. Já em 1719desembarcaram em Minas, vindas de Portugal, duas companhias de Dragões, tropa profissional encarregada de manter os escravizados sob controle, comboiar o metal e apagar distúrbios. Ao lado delas foram organizadas milícias para emergências, sob chefia branca e formadas por brancos, negros e mulatos livres.1

A desconfiança pegava profissões inteiras. Frades caíram sob suspeita de contrabando desde as primeiras explorações: um documento do período reclama da “grande multidão de frades que sobem às minas”, acusando-os de sonegar o próprio quinto e ainda de orientar leigos a fazer igual. Com os ourives foi pior — o ofício em si virou motivo de suspeita, e eles tiveram de abandoná-lo sob ameaça de expulsão da zona mineradora.1

O extremo do controle
Fausto faz uma ressalva importante: mesmo com todo esse aparato, só o Distrito Diamantino, instalado na Comarca do Serro Frio, correspondeu de fato à imagem de um Estado sobreposto à sociedade, “amputando todos os membros que resistissem a seu domínio”. No resto da colônia, o Estado era bem menos onipresente do que se imagina.

Sete a doze anos

Quem sustentava tudo isso estava na base da pirâmide, e a mineração era o pior serviço que havia. Piorou ainda mais quando o metal do leito dos rios acabou e foi preciso descer em galerias. Disenteria, malária, doença de pulmão e morte por desabamento faziam parte da rotina.1

As estimativas apontam que quem trabalhava nas minas escravizado durava entre sete e doze anos. A economia respondia a isso do único jeito que sabia: repondo. Não por acaso, o volume de pessoas trazidas ao Brasil subiu justamente entre 1720 e 1750.1

Vale ler a expressão “vida útil” pelo que ela é: um termo de contabilidade aplicado a seres humanos. Ele aparece nas fontes porque era exatamente assim que o sistema calculava — reposição de um insumo consumido.

Igrejas de Minas Gerais · Mauricio Maranhão · 2004-03-13 16:39:52
Igrejas de Minas. A concentração de construções monumentais numa região de montanha é o retrato mais direto do que o ouro fez com a paisagem e a demografia da colônia.
Igrejas de Minas Gerais · 2004 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Por que Minas não virou ruína

Com a queda da produção esperava-se o desastre, que não veio por inteiro — e a razão ensina algo. Minas nunca foi só mina: mesmo no auge do metal, era comum a fazenda da região tocar gado, engenho e farinha em paralelo à lavra.1

Foram o gado, o cereal e, mais tarde, a manufatura que impediram a queda geral: a capitania não regrediu como um todo. No século 19 ela ampliou essas frentes e seguiu comprando pessoas escravizadas sem interrupção. Daí a formulação de Fausto para o caso mineiro — uma curiosa combinação de regime escravista com uma economia que não era de plantation.1

Houve ainda um efeito social. Achar metal em Minas, Goiás e Mato Grosso diversificou a sociedade colonial e reorganizou a relação entre o campo e a cidade: apareceram, na zona mineradora e em praças como Salvador e Rio de Janeiro, burocratas, administradores, gente de letras e profissionais liberais.1

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Com o declínio da produção aurífera, a Capitania de Minas Gerais não entrou em colapso econômico. A explicação de Fausto para isso é que:
  1. Incorreta. Fausto registra que a importância econômica dos diamantes foi menor que a do ouro. Eles não substituíram a receita.

  2. Incorreta. Minas manteve importação constante de escravizados no século 19, mas por demanda própria — não por monopólio concedido.

  3. Correta. É o argumento de Fausto: nem tudo em Minas era mineração, mesmo nos tempos de glória do ouro. Daí a província ser uma curiosa combinação de regime escravista com economia que não era de plantation.

  4. Incorreta. Houve deslocamentos, mas a explicação de Fausto para a não-decadência é a diversificação produtiva interna, e não o esvaziamento.

  5. Incorreta. A troca de tributo não gerou industrialização. A manufatura mineira aparece bem depois, e como um dos fatores da diversificação, não como causa dela.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • Distinção que cai em prova — o quinto tributava a produção declarada; a capitação tributava a posse — por cabeça de pessoa escravizada, produtiva ou não, e até sobre o faiscador que não tinha nenhuma. Confundir os dois é erro clássico.
  • Vitória que foi derrota — os paulistas perderam a Guerra dos Emboabas na questão que a motivou — o monopólio das concessões. As compensações foram administrativas: capitania própria em 1709 e São Paulo elevada a cidade em 1711.
  • Peso relativo dos diamantes — a importância econômica dos diamantes foi menor que a do ouro. O que impressiona no Distrito Diamantino é o aparato de controle, não a receita.
  • Estado menos onipresente do que parece — Fausto ressalva que só o Distrito Diamantino correspondeu à imagem de um Estado sobreposto à sociedade. Generalizar esse modelo para toda a colônia é exagero.
  • Termo que precisa ser lido devagar — “vida útil de sete a doze anos” é linguagem contábil aplicada a pessoas. Aparece porque era assim que o sistema calculava — e é isso que a expressão documenta.
  • Decadência que não foi total — com o declínio do ouro, Minas não colapsou: a fazenda mineira já combinava pecuária, açúcar e farinha, e a província manteve importação de escravizados no século 19 sem ser economia de plantation.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Do primeiro achado à capitania própria

1695Primeirasdescobertas noRio das Velhas,perto de Sabará eCaeté1708–1709Guerra dosEmboabas opõepaulistas abaianos eforasteiros1709Criada aCapitania de SãoPaulo e Minas doOuro1719Duas companhiasde Dragões chegamde Portugal aMinas1720Minas Gerais setorna capitaniaseparadac. 1730Diamantesdescobertos noSerro Frio, nortede MinasEm vinte e cinco anos, a região saiu do sertão desconhecido para capitania própria, com tropa profissional e tributo por cabeça.
Os dois marcos em destaque delimitam o essencial: 1695, quando o ouro aparece, e 1720, quando Minas Gerais já é capitania separada. Vinte e cinco anos entre o sertão e a burocracia.

O que levou ao ouro, e o que o ouro trouxe

O QUE LEVOU AO OUROO QUE O OURO TROUXEFausto apresenta a busca como resposta a essa pergunta, e não como acaso.Um raciocínio lógicose a América espanhola temmetais, por que a lusa não?Bandeiras pelo sertãodécadas de penetraçãopaulista no interiorOuro · 1695Rio das Velhas, perto deSabará e CaetéCorrida e conflitoportugueses e baianos chegam;Emboabas em 1708–1709Estado mais pertoouvidores, Dragões e oDistrito DiamantinoTributo que perseguequinto e depois capitação,cobrada por cabeçaMais tráficoexportação cresce entre1720 e 1750
A caixa da esquerda merece atenção: Fausto apresenta a descoberta como conclusão de um raciocínio — se a América espanhola tinha metais, a portuguesa deveria ter — e não como sorte.

Quinto e capitação: duas lógicas de cobrança

O QUINTOA quinta parte do metal ao reiDeduzido do ouro em pó ou pepitasCobrado nas casas de fundiçãoIncide sobre o que é declaradoPor isso, fácil de sonegarA CAPITAÇÃOCobrada por cabeça de escravizadoProdutivo ou não, homem ou mulher,maior de doze anosFaiscador paga sobre si mesmoAlcança oficina, loja, hospedariaCobra-se pela posse, não pela produção
A diferença conceitual está na base de cálculo. Um tributa o que se produz; o outro, o que se possui — e por isso a capitação alcançava até quem não tivesse achado nada naquele ano.

A conta que o sistema fazia

Estimativa mínima7 anosEstimativa máxima12 anosanos de vida útil estimada nas minas
A faixa estimada para a sobrevida de uma pessoa escravizada nas minas. O gráfico é desconfortável de propósito: “vida útil” é o termo das fontes, e mostra que a reposição por novas importações era parte do cálculo econômico.

Mapa mental do assunto

Ouro e diamantesséculo 18Onde e quando1695, Rio das VelhasDepois Bahia, Goiás e Mato GrossoDiamantes no Serro Frio, c. 1730Como o Estado cobrouQuinto nas casas de fundiçãoCapitação por cabeçaPombal volta ao quinto: 100 arrobasComo o Estado vigiouOuvidores e juntas de julgamentoDragões de Portugal, 1719Distrito Diamantino, o extremoQuem pagou o preçoVida útil de 7 a 12 anosGalerias após o ouro dos riosDisenteria, malária, acidente
Três ramos descrevem o aparato do Estado; o destacado lembra quem sustentava tudo isso. Uma resposta que descreve o quinto e esquece a mortalidade nas galerias está incompleta.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Primeira descoberta1695, no Rio das Velhas, perto das atuais Sabará e Caeté
Nome associadoBorba Gato, genro de Fernão Dias — por tradição
Onde mais houve ouronos 40 anos seguintes: Minas Gerais, Bahia, Goiás e Mato Grosso
DiamantesSerro Frio, norte de Minas, por volta de 1730 — importância econômica menor que a do ouro
Guerra dos Emboabas1708–1709; paulistas contra baianos e forasteiros
Resultado da guerrapaulistas perdem o monopólio pretendido; ganham capitania em 1709 e São Paulo cidade em 1711
Capitania de Minasseparada em 1720
O quintoquinta parte do metal ao rei, deduzida nas casas de fundição
A capitaçãopor cabeça de escravizado, produtivo ou não, acima de 12 anos; faiscador paga sobre si; incide também sobre estabelecimentos
Reforma pombalinacapitação substituída pelo quinto, com exigência mínima de 100 arrobas anuais
Aparato de controleouvidores, juntas de julgamento, duas companhias de Dragões em 1719 e milícias locais
Alvos de suspeitafrades, acusados de contrabando; ourives, obrigados a abandonar a profissão nas áreas de mineração
Distrito Diamantinoúnico caso, segundo Fausto, de Estado realmente sobreposto à sociedade
Vida útil nas minasestimada em 7 a 12 anos; exportação de pessoas cresce entre 1720 e 1750
Por que Minas não colapsoua fazenda mineira combinava pecuária, açúcar e farinha; depois veio a manufatura
Formato pensado para a véspera da prova: cada linha responde a uma pergunta que a questão costuma fazer.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. FURTADO, Júnia Ferreira. Chica da Silva e o Contratador de Diamantes. São Paulo: Companhia das Letras.
  3. BOXER, Charles R. A Idade de Ouro do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
  4. PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense.