História Verso
História do Brasil · Brasil Colonial

A vinda da família real

Em três dias de novembro de 1807, entre dez e quinze mil pessoas embarcaram para o Brasil fugindo de Napoleão. Com elas veio o Estado português inteiro — e a colônia passou a abrigar a metrópole que a governava.

180812 min de leitura4 fontes
O Paço de São Cristóvão · Jean-Baptiste Debret · 2018-09-03 09:32
O Paço de São Cristóvão, residência da família real no Rio, desenhado por Debret. A colônia passou a abrigar a corte que a governava — situação sem paralelo na história colonial americana.
O Paço de São Cristóvão · 2018 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Se a corte veio para o Brasil e trouxe tantos benefícios, por que a Independência aconteceu mesmo assim — e apenas catorze anos depois?

Porque a Coroa mudou de endereço sem mudar de lado. É a tese deste artigo, e quem a enuncia com mais clareza é o próprio Fausto: “ao transferir-se para o Brasil, a Coroa não deixou de ser portuguesa e favorecer os interesses portugueses no Brasil”.1

Três dias para embarcar um Estado

O exército de Napoleão entrou em território português pela fronteira espanhola em novembro de 1807, tendo Lisboa no fim da estrada. Quem respondia pelo reino era Dom João, na condição de regente desde 1792 — a mãe, Dona Maria, havia sido declarada incapaz de governar. A ordem de embarcar a corte saiu em questão de dias.1

O embarque consumiu três dias, de 25 a 27 de novembro, e tirou do país algo entre dez e quinze mil pessoas, com a esquadra britânica dando cobertura. O que atravessou o Atlântico não foi uma comitiva: foi a máquina de governo inteira. Ministros e conselheiros, magistrados do tribunal superior, o pessoal do Tesouro, oficiais das duas armas, o alto clero. Na mesma viagem foram o dinheiro da Coroa, os arquivos oficiais, um prelo e acervos de livros que dariam origem à Biblioteca Nacional.1

A prensa que atravessou o mar
Repare no detalhe da máquina impressora. Até 1808 era proibido imprimir na colônia. O equipamento que criaria a imprensa brasileira chegou na bagagem de quem fugia — e veio junto com a censura que a controlaria.

A medida que encerrou trezentos anos

A medida de maior peso saiu antes mesmo de a corte alcançar o destino final. Ainda em Salvador, onde a frota fez escala, o príncipe assinou em 28 de janeiro de 1808 o decreto que abria os portos brasileiros às nações amigas. Fausto sustenta as duas coisas ao mesmo tempo: naquele momento a expressão significava, na prática, Inglaterra — e mesmo assim o decreto liquidava três séculos de monopólio metropolitano.1

Instalado no Rio, em abril, veio o segundo pacote. Caiu a proibição de manter manufaturas na colônia. Matéria-prima destinada à indústria passou a entrar sem tributo. Lã, seda e ferro ganharam subsídio. E a adoção de maquinário novo foi expressamente estimulada.1

LembreAbertura dos portos: onde e quando?

28 de janeiro de 1808, ainda na Bahia — não no Rio. É pegadinha frequente: a corte só chegaria ao Rio em março. O decreto foi assinado durante a escala em Salvador.

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Sobre a abertura dos portos às nações amigas, é correto afirmar que ela foi decretada:
  1. Incorreta. A corte só chegaria ao Rio em março. O decreto é anterior e foi assinado durante a escala na Bahia.

  2. Correta. É a pegadinha mais frequente do assunto. Mesmo com “nações amigas” equivalendo na prática à Inglaterra, o ato pôs fim a trezentos anos de sistema colonial.

  3. Incorreta. A escolta britânica existiu, mas o decreto foi assinado já em território brasileiro, depois da travessia.

  4. Incorreta. As medidas de abril de 1808, no Rio, foram outras: fim da proibição de manufaturas, isenção para matérias-primas e subsídios a lã, seda e ferro.

  5. Incorreta. São eventos separados por sete anos. A elevação a Reino Unido é de dezembro de 1815; a abertura dos portos, de janeiro de 1808.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

A cidade que dobrou de tamanho

Com a corte instalada, o centro administrativo da colônia mudou de lugar em definitivo — e o Rio mudou de aparência junto. Apareceu ali algo que a colônia não tinha: circulação de livros e de ideias, ainda que limitada, e é essa a marca distintiva do período. O primeiro jornal impresso em solo colonial saiu em setembro de 1808, e vieram teatros, bibliotecas e academias literárias e científicas.1

Um número resume a transformação urbana. Enquanto Dom João VI esteve aqui, a capital passou de cerca de 50 mil para cerca de 100 mil habitantes — dobrou. Boa parte desse crescimento veio de fora, por imigração.1

Interior de uma casa de fortuna comum · Jean-Baptiste Debret · before 1823
Interior de uma casa de “fortuna comum”, por Debret. Conte quantas pessoas escravizadas aparecem numa residência que a legenda da época chamava de modesta.
Interior de uma casa de fortuna comum · 1823 · Wikimedia Commons · Public domain

Não exagere o alcance

Aqui entra a ressalva de Fausto, e ela é direta: não se deve exagerar o alcance dessas transformações. A chegada da corte mexeu no cenário urbano acanhado da colônia — mas o absolutismo veio junto com a reforma, e não em lugar dela.1

A imprensa demonstra isso melhor que qualquer outra coisa. A Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal impresso aqui, era praticamente órgão de governo, e como toda publicação passava por uma comissão de censura: examinava-se antes o que se pretendia imprimir, e vetava-se o que atingisse religião, governo ou bons costumes. Quem criticava a política portuguesa fazia isso de fora — o Correio Braziliense, de Hipólito José da Costa, saiu em Londres, de 1808 a 1822.1

Por que a Independência veio assim mesmo

Ter a corte no Rio ajudou a fazer da Independência uma transição sem grandes saltos. Mas daí a supor que o atrito entre portugueses e nascidos na colônia tivesse evaporado vai distância: a colônia vestiu roupa de metrópole por um tempo, e isso não desfez a hierarquia entre as duas.1

O descontentamento se concentrou onde costuma doer mais — na tropa. Dom João trouxe militares de Portugal para guarnecer as cidades principais e montou o Exército de modo que os postos melhores ficassem com a nobreza portuguesa. Somou-se a isso a conta: sustentar uma corte inteira significou mais imposto sobre quem já morava aqui.1

1817: ninguém apostaria
Fausto observa que, por volta de 1817, quem dissesse que em cinco anos o Brasil seria independente estaria fazendo previsão muito duvidosa. A Revolução Pernambucana fora derrotada, e a Coroa integrava Portugal e Brasil num mesmo reino. A Independência não estava no horizonte — foi precipitada.

Com a derrota de Napoleão, em 1814, o motivo original da travessia deixou de existir. Só que o rei não voltou. Em vez disso, em dezembro de 1815, promoveu o Brasil a Reino Unido a Portugal — o oposto de arrumar as malas.1

Quem forçou a volta foi Lisboa. Diante do risco concreto de perder a coroa se continuasse ausente, o rei embarcou em abril de 1821 levando quatro mil portugueses, e deixou o filho Pedro como regente. Vieram então as eleições para as Cortes — e a quase totalidade dos eleitos havia nascido no Brasil.1

O golpe final veio entre o fim de setembro e outubro de 1821, num pacote de decisões das Cortes que empurrou de vez a opção pela separação. Mandaram de volta a Lisboa as repartições que Dom João VI havia criado aqui. Despacharam mais tropa para o Rio e para Pernambuco. E, o que decidiu tudo, ordenaram que o regente voltasse.1

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Fausto adverte que não se deve exagerar o alcance das transformações do período joanino. O exemplo que ele usa para sustentar essa advertência é:
  1. Incorreta. A escravidão de fato continuou intocada, mas não é esse o exemplo que Fausto mobiliza para medir o alcance das mudanças.

  2. Incorreta. Os subsídios existiram, mas Fausto não os usa como medida do limite das transformações.

  3. Incorreta. É o contrário: Fausto sustenta que a abertura pôs fim a trezentos anos de sistema colonial, mesmo com “nações amigas” significando Inglaterra.

  4. Correta. É o exemplo exato. A marca do absolutismo acompanhou a alteração do cenário urbano: o Correio Braziliense, de Hipólito José da Costa, saía em Londres entre 1808 e 1822.

  5. Incorreta. O Brasil foi elevado a Reino Unido a Portugal em dezembro de 1815, ainda com a corte aqui.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • Lugar que se confunde — a abertura dos portos foi decretada na Bahia, em 28 de janeiro de 1808, durante a escala — não no Rio de Janeiro, onde a corte só chegaria em março.
  • Expressão que esconde um só destinatário — “nações amigas” significava, na prática, Inglaterra. Fausto registra isso e mesmo assim sustenta que o ato encerrou trezentos anos de sistema colonial — as duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.
  • Modernização com limite — houve jornal, teatro, biblioteca e academia — e comissão de censura sobre tudo isso. O jornal verdadeiramente independente da época, o Correio Braziliense, era impresso em Londres.
  • Causalidade que a escola simplifica — a vinda da corte não conduziu naturalmente à Independência. Em 1817 a previsão seria duvidosa, diz Fausto. O que precipitou tudo foram as medidas das Cortes portuguesas em 1821, sobretudo a ordem de volta do príncipe regente.
  • Número com faixa, não com precisão — o contingente que embarcou é estimado entre 10 e 15 mil pessoas. Qualquer cifra exata apresentada como certa é precisão falsa.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De Lisboa ao regresso, em seis marcos

nov 1807Tropas francesascruzam afronteira rumo aLisboa25–27 nov 1807Embarque de 10 a15 mil pessoassob escoltainglesa28 jan 1808Na Bahia,abertura dosportos às naçõesamigasabr 1808No Rio, revogaçãoda proibição demanufaturasdez 1815Brasil elevado aReino Unido aPortugal eAlgarvesabr 1821Dom João VIregressa com 4mil portugueses;Pedro ficaregenteDa fuga ao regresso, treze anos e meio. O que era refúgio virou sede do império — e depois teve de ser desfeito.
Os dois primeiros marcos em destaque são os mais cobrados: o embarque de novembro de 1807 e a abertura dos portos de janeiro de 1808 — esta última assinada na Bahia, não no Rio.

Por que a corte veio, e o que isso mudou

POR QUE A CORTE VEIOO QUE MUDOUNapoleão avançanov 1807: tropas francesascruzam para PortugalAliança inglesaa frota britânica escoltaa travessiaTrono em riscoDom João rege desde 1792,quando a mãe é declarada loucaTransferência da corte · 180710 a 15 mil pessoas e oaparelho de Estado inteiroFim do exclusivo colonialabertura dos portos encerra300 anos de sistemaO eixo vai para o Riopopulação dobra:de ~50 mil a ~100 milCultura sob censurajornais e academias, mascomissão de censuraAtrito luso-brasileiromelhores postos à nobrezalusa; imposto sobe
A quarta caixa da direita é a que explica a Independência: a Coroa mudou de continente sem mudar de lado, e os melhores postos continuaram reservados à nobreza portuguesa.

O Rio dobra de tamanho

Antes da corte≈ 50 milAo fim da estada≈ 100 milhabitantes do Rio de Janeiro
Um único número resume a transformação urbana. E note o que ele não diz: boa parte desse crescimento veio de imigração, e a cidade que dobrou continuou sendo uma cidade escravista.

Dois jornais, duas liberdades

Gazeta do Rio de JaneiroPrimeiro jornal impresso na colôniaSetembro de 1808Caráter quase oficialSubmetido a comissão de censuraNada contra religião, governoou os bons costumesCorreio BrazilienseHipólito José da CostaEditado em Londres, 1808–1822Independente da CoroaContinha críticas à política portuguesaO jornal livre da época eraimpresso fora do país
O contraste responde sozinho à pergunta sobre o alcance da modernização joanina: o jornal que podia criticar o governo português tinha de ser impresso a nove mil quilômetros de distância.

Mapa mental do assunto

Vinda da família real1808–1821A fugaNov 1807, escolta inglesa10 a 15 mil pessoasTesouro, arquivos e bibliotecasAs medidasAbertura dos portos, jan 1808Fim da proibição de manufaturasReino Unido em dez 1815A cidade que mudouEixo administrativo no RioPopulação dobra a ~100 milJornal, teatro, academiasO que NÃO mudouAbsolutismo e censura seguemMelhores postos à nobreza lusaCoroa continua portuguesa
O ramo destacado é o que a redação de vestibular costuma esquecer. Listar o que mudou é fácil; a nota vem de saber o que permaneceu igual.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
O gatilhonovembro de 1807: tropas francesas cruzam para Portugal rumo a Lisboa
Quem decidiuo príncipe Dom João, regente desde 1792, quando Dona Maria foi declarada louca
Datas do embarque25 a 27 de novembro de 1807, sob proteção da frota inglesa
Quantas pessoasestimativa de 10 a 15 mil
O que veio juntoministros, juízes, Tesouro, alto clero, arquivos, bibliotecas e uma máquina impressora
Abertura dos portos28 de janeiro de 1808, na Bahia — encerra 300 anos de exclusivo colonial
“Nações amigas”na prática, a Inglaterra
Medidas de abril de 1808fim da proibição de manufaturas, isenção para matérias-primas, subsídios a lã, seda e ferro
Primeiro jornalGazeta do Rio de Janeiro, setembro de 1808 — quase oficial e censurado
Jornal independenteCorreio Braziliense, de Hipólito José da Costa, impresso em Londres (1808–1822)
População do Riodobra, de cerca de 50 mil para cerca de 100 mil habitantes
Reino Unidodezembro de 1815 — Brasil elevado à condição de Reino Unido a Portugal
Regresso do reiabril de 1821, com 4 mil portugueses; Pedro fica como príncipe regente
O que precipitou a rupturamedidas das Cortes entre setembro e outubro de 1821, sobretudo a ordem de volta do regente
Formato pensado para a véspera da prova: cada linha responde a uma pergunta que a questão costuma fazer.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. SCHWARCZ, Lilia Moritz. A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
  3. GOMES, Laurentino. 1808. São Paulo: Planeta, 2007.
  4. NOVAIS, Fernando A. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial. São Paulo: Hucitec.