A vinda da família real
Em três dias de novembro de 1807, entre dez e quinze mil pessoas embarcaram para o Brasil fugindo de Napoleão. Com elas veio o Estado português inteiro — e a colônia passou a abrigar a metrópole que a governava.

O Paço de São Cristóvão · 2018 · Wikimedia Commons · Public domain
Se a corte veio para o Brasil e trouxe tantos benefícios, por que a Independência aconteceu mesmo assim — e apenas catorze anos depois?
Porque a Coroa mudou de endereço sem mudar de lado. É a tese deste artigo, e quem a enuncia com mais clareza é o próprio Fausto: “ao transferir-se para o Brasil, a Coroa não deixou de ser portuguesa e favorecer os interesses portugueses no Brasil”.1
Três dias para embarcar um Estado
O exército de Napoleão entrou em território português pela fronteira espanhola em novembro de 1807, tendo Lisboa no fim da estrada. Quem respondia pelo reino era Dom João, na condição de regente desde 1792 — a mãe, Dona Maria, havia sido declarada incapaz de governar. A ordem de embarcar a corte saiu em questão de dias.1
O embarque consumiu três dias, de 25 a 27 de novembro, e tirou do país algo entre dez e quinze mil pessoas, com a esquadra britânica dando cobertura. O que atravessou o Atlântico não foi uma comitiva: foi a máquina de governo inteira. Ministros e conselheiros, magistrados do tribunal superior, o pessoal do Tesouro, oficiais das duas armas, o alto clero. Na mesma viagem foram o dinheiro da Coroa, os arquivos oficiais, um prelo e acervos de livros que dariam origem à Biblioteca Nacional.1
Repare no detalhe da máquina impressora. Até 1808 era proibido imprimir na colônia. O equipamento que criaria a imprensa brasileira chegou na bagagem de quem fugia — e veio junto com a censura que a controlaria.
A medida que encerrou trezentos anos
A medida de maior peso saiu antes mesmo de a corte alcançar o destino final. Ainda em Salvador, onde a frota fez escala, o príncipe assinou em 28 de janeiro de 1808 o decreto que abria os portos brasileiros às nações amigas. Fausto sustenta as duas coisas ao mesmo tempo: naquele momento a expressão significava, na prática, Inglaterra — e mesmo assim o decreto liquidava três séculos de monopólio metropolitano.1
Instalado no Rio, em abril, veio o segundo pacote. Caiu a proibição de manter manufaturas na colônia. Matéria-prima destinada à indústria passou a entrar sem tributo. Lã, seda e ferro ganharam subsídio. E a adoção de maquinário novo foi expressamente estimulada.1
LembreAbertura dos portos: onde e quando?
28 de janeiro de 1808, ainda na Bahia — não no Rio. É pegadinha frequente: a corte só chegaria ao Rio em março. O decreto foi assinado durante a escala em Salvador.
A cidade que dobrou de tamanho
Com a corte instalada, o centro administrativo da colônia mudou de lugar em definitivo — e o Rio mudou de aparência junto. Apareceu ali algo que a colônia não tinha: circulação de livros e de ideias, ainda que limitada, e é essa a marca distintiva do período. O primeiro jornal impresso em solo colonial saiu em setembro de 1808, e vieram teatros, bibliotecas e academias literárias e científicas.1
Um número resume a transformação urbana. Enquanto Dom João VI esteve aqui, a capital passou de cerca de 50 mil para cerca de 100 mil habitantes — dobrou. Boa parte desse crescimento veio de fora, por imigração.1

Interior de uma casa de fortuna comum · 1823 · Wikimedia Commons · Public domain
Não exagere o alcance
Aqui entra a ressalva de Fausto, e ela é direta: não se deve exagerar o alcance dessas transformações. A chegada da corte mexeu no cenário urbano acanhado da colônia — mas o absolutismo veio junto com a reforma, e não em lugar dela.1
A imprensa demonstra isso melhor que qualquer outra coisa. A Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal impresso aqui, era praticamente órgão de governo, e como toda publicação passava por uma comissão de censura: examinava-se antes o que se pretendia imprimir, e vetava-se o que atingisse religião, governo ou bons costumes. Quem criticava a política portuguesa fazia isso de fora — o Correio Braziliense, de Hipólito José da Costa, saiu em Londres, de 1808 a 1822.1
Por que a Independência veio assim mesmo
Ter a corte no Rio ajudou a fazer da Independência uma transição sem grandes saltos. Mas daí a supor que o atrito entre portugueses e nascidos na colônia tivesse evaporado vai distância: a colônia vestiu roupa de metrópole por um tempo, e isso não desfez a hierarquia entre as duas.1
O descontentamento se concentrou onde costuma doer mais — na tropa. Dom João trouxe militares de Portugal para guarnecer as cidades principais e montou o Exército de modo que os postos melhores ficassem com a nobreza portuguesa. Somou-se a isso a conta: sustentar uma corte inteira significou mais imposto sobre quem já morava aqui.1
Fausto observa que, por volta de 1817, quem dissesse que em cinco anos o Brasil seria independente estaria fazendo previsão muito duvidosa. A Revolução Pernambucana fora derrotada, e a Coroa integrava Portugal e Brasil num mesmo reino. A Independência não estava no horizonte — foi precipitada.
Com a derrota de Napoleão, em 1814, o motivo original da travessia deixou de existir. Só que o rei não voltou. Em vez disso, em dezembro de 1815, promoveu o Brasil a Reino Unido a Portugal — o oposto de arrumar as malas.1
Quem forçou a volta foi Lisboa. Diante do risco concreto de perder a coroa se continuasse ausente, o rei embarcou em abril de 1821 levando quatro mil portugueses, e deixou o filho Pedro como regente. Vieram então as eleições para as Cortes — e a quase totalidade dos eleitos havia nascido no Brasil.1
O golpe final veio entre o fim de setembro e outubro de 1821, num pacote de decisões das Cortes que empurrou de vez a opção pela separação. Mandaram de volta a Lisboa as repartições que Dom João VI havia criado aqui. Despacharam mais tropa para o Rio e para Pernambuco. E, o que decidiu tudo, ordenaram que o regente voltasse.1
- Lugar que se confunde — a abertura dos portos foi decretada na Bahia, em 28 de janeiro de 1808, durante a escala — não no Rio de Janeiro, onde a corte só chegaria em março.
- Expressão que esconde um só destinatário — “nações amigas” significava, na prática, Inglaterra. Fausto registra isso e mesmo assim sustenta que o ato encerrou trezentos anos de sistema colonial — as duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo.
- Modernização com limite — houve jornal, teatro, biblioteca e academia — e comissão de censura sobre tudo isso. O jornal verdadeiramente independente da época, o Correio Braziliense, era impresso em Londres.
- Causalidade que a escola simplifica — a vinda da corte não conduziu naturalmente à Independência. Em 1817 a previsão seria duvidosa, diz Fausto. O que precipitou tudo foram as medidas das Cortes portuguesas em 1821, sobretudo a ordem de volta do príncipe regente.
- Número com faixa, não com precisão — o contingente que embarcou é estimado entre 10 e 15 mil pessoas. Qualquer cifra exata apresentada como certa é precisão falsa.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De Lisboa ao regresso, em seis marcos
Por que a corte veio, e o que isso mudou
O Rio dobra de tamanho
Dois jornais, duas liberdades
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| O gatilho | novembro de 1807: tropas francesas cruzam para Portugal rumo a Lisboa |
| Quem decidiu | o príncipe Dom João, regente desde 1792, quando Dona Maria foi declarada louca |
| Datas do embarque | 25 a 27 de novembro de 1807, sob proteção da frota inglesa |
| Quantas pessoas | estimativa de 10 a 15 mil |
| O que veio junto | ministros, juízes, Tesouro, alto clero, arquivos, bibliotecas e uma máquina impressora |
| Abertura dos portos | 28 de janeiro de 1808, na Bahia — encerra 300 anos de exclusivo colonial |
| “Nações amigas” | na prática, a Inglaterra |
| Medidas de abril de 1808 | fim da proibição de manufaturas, isenção para matérias-primas, subsídios a lã, seda e ferro |
| Primeiro jornal | Gazeta do Rio de Janeiro, setembro de 1808 — quase oficial e censurado |
| Jornal independente | Correio Braziliense, de Hipólito José da Costa, impresso em Londres (1808–1822) |
| População do Rio | dobra, de cerca de 50 mil para cerca de 100 mil habitantes |
| Reino Unido | dezembro de 1815 — Brasil elevado à condição de Reino Unido a Portugal |
| Regresso do rei | abril de 1821, com 4 mil portugueses; Pedro fica como príncipe regente |
| O que precipitou a ruptura | medidas das Cortes entre setembro e outubro de 1821, sobretudo a ordem de volta do regente |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- SCHWARCZ, Lilia Moritz. A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
- GOMES, Laurentino. 1808. São Paulo: Planeta, 2007.
- NOVAIS, Fernando A. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial. São Paulo: Hucitec.