O Brasil na Segunda Guerra
A guerra deu ao Estado Novo o melhor negócio de sua história: crédito americano, indústria de aço e um lugar entre os vencedores. E cobrou o preço que o regime não podia pagar — a pergunta de por que se combatia a ditadura na Itália e não no Brasil.

A Força Expedicionária Brasileira na Itália · 1944 · Wikimedia Commons · Public domain
Em 1944, uma ditadura brasileira mandou mais de vinte mil homens à Europa para lutar contra o fascismo. A pergunta que esse fato produz é inevitável, e foi feita na época: por que combater a ditadura na Itália e conviver com ela aqui? Este artigo mostra como a guerra deu ao Estado Novo o seu melhor momento econômico e, ao mesmo tempo, retirou dele a justificativa para existir.
A guerra pesou mais que o golpe
Fausto abre o assunto com uma afirmação que vale guardar inteira: para definir os rumos da política externa brasileira, a eclosão da Segunda Guerra Mundial contou mais do que a implantação do Estado Novo.1 Quer dizer: o que reorientou o Brasil no mundo não foi o regime que se instalou em 1937, e sim o conflito que começou dois anos depois.
O mecanismo é comercial antes de ser político. O bloqueio inglês forçou o recuo comercial da Alemanha na América Latina — mas a Inglaterra não tinha condições de ocupar o espaço que se abriu. Ficou um vazio. E quem entrou nele com força foi a presença americana.1
Do lado de Washington, o cálculo era anterior à própria guerra. Roosevelt já se convencera de que o conflito seria mundial e alcançaria os Estados Unidos. A partir daí, os estrategistas americanos ampliaram o que consideravam o círculo de segurança do país — e nele passaram a incluir a América do Sul, com atenção especial para um ponto do mapa: a “saliência” do Nordeste brasileiro, o trecho de continente mais próximo da África.1
Junto veio uma ofensiva político-ideológica, e é aqui que está o detalhe mais revelador de todo o período. Entre outras iniciativas, promoveram-se as Conferências Pan-americanas, em torno de um objetivo declarado: a defesa das Américas, sob comando dos Estados Unidos — e, independentemente do regime político vigente em cada país.1
Leia essa última cláusula de novo. Ela explica por que uma ditadura brasileira podia ser sócia da maior democracia do Ocidente sem que ninguém em Washington exigisse eleições no Rio de Janeiro. O alinhamento era continental e militar, não democrático.
No plano econômico, os americanos foram bastante conservadores. O que lhes interessava eram os materiais estratégicos — manganês, minério de ferro, borracha e outros —, e a meta era obter o controle da compra desses materiais.1
Vale reter a assimetria por trás da palavra “aliança”. Os Estados Unidos queriam base militar no Nordeste e matéria-prima a preço controlado; o Brasil queria equipamento militar e indústria pesada. Cada lado tinha algo de que o outro precisava — e é essa necessidade mútua, não a simpatia entre governos, que sustenta a relação inteira do período. Quando um dos lados deixa de precisar, a relação muda.
A resposta brasileira: aproximar-se e cobrar
Diante desse conjunto de iniciativas, o Brasil aproximou-se cada vez mais do “colosso do norte” — e o fez, registra a fonte, procurando extrair vantagens da nova situação.1
A hora da definição chegou com a entrada dos Estados Unidos na guerra, em dezembro de 1941. Vargas passou então a falar mais claramente a linguagem do pan-americanismo. Mas não de graça: ao mesmo tempo, insistia no reequipamento econômico e militar do Brasil — e apresentava isso como condição do apoio que daria aos americanos.1
O maior resultado material desse período é a Usina de Volta Redonda, cuja implantação e formato ficaram definidos em julho de 1940. O dinheiro veio de duas fontes combinadas: créditos americanos concedidos pelo Export-Import Bank e recursos do próprio governo brasileiro. O controle ficou nas mãos da Companhia Siderúrgica Nacional, montada em janeiro de 1941 sob a forma de economia mista — dinheiro do Estado e dinheiro privado no mesmo balanço.1
Convém desfazer aqui a impressão de plano bem desenhado. Fausto adverte que essa solução não resultou de uma definição clara do governo desde o início do Estado Novo, e que não havia pensamento uniforme na máquina governamental sobre o assunto. O que os diferentes grupos tinham em comum era só reconhecer a necessidade de ampliar e diversificar a produção de aço.1
As posições, aliás, eram opostas. Getúlio e os grupos privados inclinavam-se por associação com capital estrangeiro, alemão ou americano; quem pressionava por uma indústria fora do controle externo eram as Forças Armadas — que, observe-se, não tiveram condições de impor de imediato a solução final. Durante 1939, o que dominou a cena foram os entendimentos com a United States Steel Corporation, e chegou a haver plano para uma indústria com participação da empresa americana, de grupos privados e do governo brasileiro. Em janeiro de 1940, porém, a United States Steel saiu da mesa — e Fausto trata essa retirada como um episódio que até hoje não se esclareceu por inteiro.1
LembreVargas trocou as bases do Nordeste pelo financiamento de Volta Redonda?
Cuidado com essa fórmula. Ela é popular, mas a fonte não afirma o troco direto. O que ela sustenta é outra coisa, mais defensável: Vargas condicionava seu apoio ao reequipamento econômico e militar do país, e Volta Redonda foi financiada por crédito do Export-Import Bank somado a recursos brasileiros. Numa dissertação, descrever a posição de barganha vale mais do que afirmar um contrato de permuta que a fonte não documenta.

Praças brasileiros em território italiano · 1944 · Wikimedia Commons · Public domain
1942: o ano em que a ambiguidade acabou
O passo militar veio antes do político. Ainda nos fins de 1941, tropas americanas estacionaram no Nordeste.1
O primeiro semestre de 1942 foi de clima ambíguo, embora nele caibam duas decisões pesadas. Em janeiro, o Brasil rompeu relações com o Eixo — e o fez apesar das reticências de Góis Monteiro e de Dutra. Em maio, brasileiros e americanos assinaram um acordo político-militar de caráter secreto.1
A resistência dos dois generais tinha ido longe. Depois do ataque japonês a Pearl Harbor, quando Getúlio decidiu solidarizar-se com os Estados Unidos, tanto Dutra quanto Góis Monteiro apresentaram demissão — e o presidente a recusou. Segundo o subsecretário de Estado americano Sumner Welles, Vargas teria dito aos dois que, para conter atividades subversivas, o povo lhe bastava — as Forças Armadas não lhe eram necessárias.1
Havia ainda um bloqueio do outro lado. Os americanos demoravam a entregar as encomendas de equipamento militar, e o motivo era desconfiança pura: consideravam que boa parte da oficialidade brasileira simpatizava com o Eixo.1
O que rompeu a indefinição não foi diplomacia. Foi torpedo. Entre 5 e 17 de agosto de 1942 — doze dias —, submarinos alemães afundaram cinco navios mercantes brasileiros. Vieram grandes manifestações populares, e sob essa pressão o Brasil entrou na guerra ainda naquele mês.1
A entrada no conflito mudou também a forma de governar a economia. Até 1942, a substituição de importações vinha sendo feita sem planejamento geral, tratando cada setor como caso específico. Em agosto, com a guerra, o governo assumiu a supervisão da economia e criou, para isso, a Coordenação de Mobilização Econômica, entregue ao antigo tenente João Alberto.1
A FEB: uma decisão brasileira
O alinhamento à frente antifascista só se completou com o envio de uma força expedicionária à Europa, começando em 30 de junho de 1944.1
Guarde este ponto, porque ele contraria a intuição de quase todo estudante e é o que a prova mais cobra: a FEB não foi uma iniciativa imposta pelos Aliados. Foi decisão do governo brasileiro, e ela precisou vencer duas resistências: a reserva dos americanos e, mais dura, a oposição aberta dos ingleses. Dirigentes dos dois países duvidavam que fosse possível encaixar tropas brasileiras no esforço de guerra sem problemas.1
O comando coube ao general Mascarenhas de Morais. Sob ele, passaram da marca de 20 mil os homens que combateram em solo italiano, e ali permaneceram até que a guerra terminasse naquele país, em 2 de maio de 1945. Faltavam então poucos dias para o fim do conflito na Europa.1
E o custo: 454 brasileiros morreram em combate, e seus corpos ficaram no cemitério de Pistoia, na Itália. Em 1960 as cinzas deixaram o país — foram levadas ao Rio de Janeiro, para o monumento erguido no aterro da Glória em memória dos brasileiros mortos na Segunda Guerra.1

A tropa brasileira em campanha · 1944 · Wikimedia Commons · Public domain

Soldados da FEB no norte da Itália · 1944 · Wikimedia Commons · Public domain
A contradição volta para casa
Chegamos ao ponto em que a guerra deixa de ser assunto externo. Fausto é categórico quanto à origem da crise: ela nasceu menos da política interna do que do lugar que o Brasil passou a ocupar entre as nações. E esse novo lugar trabalhou por dois caminhos ao mesmo tempo — deu fôlego às oposições e rachou o próprio governo por dentro.1
O gatilho é identificável. Depois da entrada na guerra e dos preparativos para enviar a FEB à Itália, figuras da oposição passaram a explorar a contradição entre o apoio brasileiro às democracias e a ditadura de Vargas.1 A arma da oposição, note-se, não era um argumento novo: era o próprio discurso oficial do governo, aplicado de volta a ele.
A primeira manifestação ostensiva nesse sentido tem data e nome: o Manifesto dos Mineiros, de 24 de outubro de 1943.1
A escolha do dia foi deliberada, e diz mais que o texto. Aquela data comemorava a vitória da Revolução de 1930. Ao assiná-lo naquele dia, os signatários queriam deixar dois recados simultâneos: que não pretendiam voltar às práticas políticas da Primeira República, e que, na leitura deles, a Revolução de 1930 fora desviada de seus objetivos democráticos.1 Não era saudade do passado — era cobrança de uma promessa.
O golpe final na estabilidade do regime foi, ironicamente, uma festa. A volta dos “pracinhas” da FEB, a partir de maio de 1945, provocou grande entusiasmo popular — e esse entusiasmo, escreve Fausto, contribuiu para acelerar as pressões por mudança.1
Faz sentido: os homens que desfilavam sob aplauso haviam sido enviados por uma ditadura para derrubar ditaduras. Cada aplauso repetia, sem precisar dizer, a pergunta que o regime não tinha como responder.

A FEB em operações, 1944 · 1944 · Wikimedia Commons · Public domain
O que a guerra deu, o que a guerra cobrou
Deu ao regime seu melhor momento material. O conflito transformou o Brasil em fornecedor de material estratégico, atraiu crédito americano para a indústria de base, justificou a supervisão estatal direta da economia e colocou o país entre os vencedores — posição que nenhum outro país sul-americano conquistou em campo.
E cobrou a legitimidade. Um governo que se dizia parte da frente antifascista não conseguia explicar por que mantinha, em casa, Congresso fechado, censura e nenhuma eleição. A oposição não precisou inventar uma bandeira: bastou usar a do governo.
É esse o mecanismo que faz do período um caso exemplar de política externa produzindo efeito interno. O Estado Novo não caiu porque perdeu a guerra — caiu, em parte, porque a venceu.
- A FEB foi decisão brasileira — esse é o erro mais frequente sobre o assunto. O governo brasileiro teve de superar restrições dos americanos e a oposição franca dos ingleses, que consideravam problemático integrar tropas brasileiras ao esforço de guerra com sucesso.
- A troca “bases por Volta Redonda” não está na fonte — o que a fonte sustenta é que Vargas condicionava seu apoio ao reequipamento econômico e militar do país, e que a usina foi financiada por créditos do Export-Import Bank somados a recursos do governo brasileiro. Descrever a posição de barganha é seguro; afirmar um contrato de permuta não é.
- O alinhamento americano não exigia democracia — as Conferências Pan-americanas tinham como objetivo a defesa das Américas sob comando dos Estados Unidos, expressamente independentemente do regime político vigente em cada país. É o que explica a sociedade entre Washington e uma ditadura.
- O Brasil não entrou na guerra por ideologia — a entrada veio em agosto de 1942, depois que submarinos alemães afundaram cinco navios mercantes brasileiros entre os dias 5 e 17, e sob pressão de grandes manifestações populares. Antes disso, o primeiro semestre daquele ano foi de clima ambíguo.
- Parte da cúpula militar resistiu ao alinhamento — Góis Monteiro e Dutra tinham reticências, chegaram a apresentar demissão após a solidariedade de Vargas aos Estados Unidos, e os próprios americanos atrasavam entregas de equipamento por considerarem boa parte da oficialidade brasileira simpatizante do Eixo.
- A crise do regime veio de fora para dentro — segundo Fausto, os problemas do Estado Novo resultaram mais da inserção do Brasil no quadro internacional do que das condições políticas internas. Explicar a queda apenas por desgaste interno perde o mecanismo principal.
- As imagens da FEB são de origem oficial — boa parte do registro fotográfico vem do Fundo Agência Nacional, a agência de propaganda do próprio regime. São documentos legítimos, mas com enquadramento interessado. Ao usar imagem como prova, vale sempre perguntar quem a produziu e para quê.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De 1941 ao retorno dos pracinhas
O que a guerra deu, o que ela cobrou
O que empurrou o Brasil, o que a entrada produziu
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Tese de partida | a guerra pesou mais que o Estado Novo na definição da política externa |
| Mecanismo comercial | o bloqueio inglês afasta a Alemanha; a Inglaterra não ocupa o vazio; entram os Estados Unidos |
| Cálculo de Roosevelt | convencido de que a guerra seria mundial e alcançaria os EUA, antes mesmo de começar |
| Círculo de segurança | ampliado para incluir a América do Sul e a “saliência” do Nordeste |
| Ofensiva ideológica | Conferências Pan-americanas — defesa das Américas sob comando dos EUA |
| Cláusula decisiva | independentemente do regime político de cada país |
| Interesse econômico americano | materiais estratégicos — manganês, minério de ferro, borracha — com controle de compra |
| Postura brasileira | aproximar-se do “colosso do norte” procurando extrair vantagens da nova situação |
| A condição de Vargas | reequipamento econômico e militar do Brasil como condição do apoio |
| Volta Redonda | definida em julho de 1940; crédito do Export-Import Bank mais recursos do governo brasileiro |
| Companhia Siderúrgica Nacional | empresa de economia mista, organizada em janeiro de 1941 |
| United States Steel | negociou em 1939 e desistiu em janeiro de 1940 — episódio não inteiramente esclarecido |
| Quem queria capital externo | Getúlio e os grupos privados |
| Quem queria indústria nacional | as Forças Armadas — que não puderam impor de imediato a solução final |
| Fins de 1941 | tropas americanas estacionam no Nordeste |
| Janeiro de 1942 | rompimento com o Eixo, apesar das reticências de Góis Monteiro e Dutra |
| Maio de 1942 | acordo político-militar secreto entre Brasil e Estados Unidos |
| Reação dos generais | Dutra e Góis pediram demissão após a solidariedade a Washington; Vargas recusou |
| Frase atribuída a Vargas | segundo Sumner Welles, disse contar com o povo e não precisar das Forças Armadas |
| Atraso americano | equipamento militar retido por suspeita de que a oficialidade brasileira simpatizasse com o Eixo |
| 5 a 17 de agosto de 1942 | cinco navios mercantes brasileiros afundados por submarinos alemães |
| Entrada na guerra | agosto de 1942, sob pressão de grandes manifestações populares |
| Economia de guerra | Coordenação de Mobilização Econômica, dirigida pelo antigo tenente João Alberto |
| Envio da FEB | a partir de 30 de junho de 1944 |
| Origem da decisão | brasileira — superou restrições americanas e oposição franca dos ingleses |
| Efetivo e comando | mais de 20 mil homens na Itália, sob o general Mascarenhas de Morais |
| Fim do conflito na Itália | 2 de maio de 1945 — faltavam poucos dias para a guerra acabar na Europa |
| Mortos em combate | 454 brasileiros, enterrados no cemitério de Pistoia |
| Traslado das cinzas | 1960, para o Monumento aos Mortos da Segunda Guerra, no aterro da Glória, Rio de Janeiro |
| Manifesto dos Mineiros | 24 de outubro de 1943 — primeira manifestação ostensiva da oposição |
| Por que essa data | comemorava a vitória de 1930: nem volta à Primeira República, nem aceitação do desvio dos objetivos democráticos |
| Retorno dos pracinhas | a partir de maio de 1945, com entusiasmo popular que acelerou as pressões |
| Origem da crise | mais a inserção internacional do país do que as condições políticas internas |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- MORAIS, João Baptista Mascarenhas de. A FEB pelo seu comandante. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército.
- MOURA, Gerson. Autonomia na dependência: a política externa brasileira de 1935 a 1942. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
- PANDOLFI, Dulce (org.). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: Editora FGV.