História Verso
História do Brasil · Estado Getulista

A gestação do Estado Novo

Em setembro de 1937 um capitão integralista foi flagrado datilografando um plano de insurreição comunista que ele mesmo redigia. O documento era falso. O medo que ele acionou não era — e foi por isso que funcionou.

193513 min de leitura4 fontes
Luís Carlos Prestes julgado pelo Tribunal de Segurança Nacional · Unknown author Unknown author · Taken on 6 March 1937
Luís Carlos Prestes diante do Tribunal de Segurança Nacional, em 6 de março de 1937. O presidente de honra da ANL julgado pelo tribunal de exceção criado, a princípio, apenas para os envolvidos em 1935.
Luís Carlos Prestes julgado pelo Tribunal de Segurança Nacional · 1937 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Em setembro de 1937, um capitão integralista foi flagrado datilografando um plano de insurreição comunista que ele mesmo escrevia. O documento era forjado. Por que o país acreditou nele?

Porque o medo já estava montado havia dois anos. Quando o tal plano apareceu, o Brasil vivia sob suspensão de garantias ininterruptamente desde novembro de 1935. A falsificação não criou o pânico: encontrou-o pronto e apenas deu a ele uma data. É essa construção que este artigo percorre.

Março de 1935: a ANL

A Aliança Nacional Libertadora veio a público no Rio de Janeiro em 30 de março de 1935. Reunia comunistas, tenentes de esquerda muito próximos deles e agrupamentos menores, e nasceu em paralelo à discussão da Lei de Segurança Nacional — detalhe que já indica o clima da conjuntura.1

A cena de lançamento tem um elenco que vale memorizar. Quem leu o manifesto foi um jovem estudante de direito chamado Carlos Lacerda — o mesmo que, décadas depois, seria o mais célebre adversário do getulismo. Foi ele quem indicou Luís Carlos Prestes para presidente de honra, escolhido por aclamação.1

A presidência ostensiva ficou com Hercolino Cascardo, capitão de Marinha. Ele estivera à frente da revolta do encouraçado São Paulo, em 1924, e depois de 1930 governara o Rio Grande do Norte como interventor. As elites do Centro-Sul o tinham na mira: desde antes de 1932 o acusavam de defender o “socialismo integral”.1

O leitor do manifesto
Guarde esta ironia, porque cai em prova e organiza duas décadas de história: o manifesto da ANL foi lido publicamente por Carlos Lacerda, então estudante. O mesmo Lacerda se tornaria o inimigo mais ruidoso de Vargas nos anos 1950 — e figura central da crise que terminaria no suicídio do presidente.

Do outro lado do tabuleiro havia um movimento montado desde outubro de 1932: a Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado, o primeiro movimento fascista de peso no país. A polarização que produziria 1937 tinha, portanto, dois polos organizados, e não apenas um governo diante de uma ameaça.1

Plínio Salgado na revista Anauê, 1935 · Eurípedes Cardoso de Menezes · 1935-01-01
Plínio Salgado na revista Anauê, em 1935. Retrato de propaganda do chefe integralista, do tipo que se emoldurava nas casas do movimento.
Plínio Salgado na revista Anauê, 1935 · 1935 · Wikimedia Commons · Public domain
Questão 01múltipla escolha · sem placar
Sobre a Aliança Nacional Libertadora, lançada em 1935, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. A ANL surgiu em paralelo à discussão da LSN, mas como adversária dela e do governo — não como frente de apoio.

  2. Incorreta. Além dos comunistas, participaram tenentes de esquerda muito próximos a eles e grupos menores. A presidência ostensiva coube a um capitão de Marinha.

  3. Incorreta. Plínio Salgado liderava a Ação Integralista Brasileira, o polo oposto. O presidente de honra da ANL foi Luís Carlos Prestes.

  4. Correta. É a descrição exata da sessão de lançamento. A presidência ostensiva ficou com o capitão de Marinha Hercolino Cascardo, que liderara a revolta do encouraçado São Paulo em 1924.

  5. Incorreta. A ordem é inversa: a ANL foi lançada em março de 1935, meses antes da insurreição de novembro daquele ano.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Novembro de 1935 e a exceção que não terminou

A insurreição daquele novembro foi derrotada, mas deixou uma marca que duraria décadas: oficiais do Exército foram assassinados. Fausto registra que o episódio calou fundo na corporação e que foi habilmente explorado ao longo do tempo — as cerimônias em homenagem às vítimas passaram a se repetir todos os anos, em 27 de novembro.1

A insurreição de novembro de 1935 · Unknown Unknown · 27 November 1935
Registro fotográfico de 27 de novembro de 1935. A data virou efeméride militar anual e sustentou, por décadas, a leitura do comunismo como ameaça permanente.
A insurreição de novembro de 1935 · 1935 · Wikimedia Commons · Public domain

A resposta institucional veio no mesmo mês. O governo pediu sessenta dias de estado de sítio, e houve resistência: parte dos deputados quis limitar a medida às zonas conflagradas e perdeu a votação — de modo que a exceção passou a valer no país inteiro.1

E não terminou nos sessenta dias. O estado de guerra, ao qual o estado de sítio foi equiparado, seria sucessivamente prorrogado até junho de 1937. São quase vinte meses seguidos de garantias suspensas antes de o golpe acontecer.1

LembreQuando começou o estado de exceção que desembocou no Estado Novo?

Em novembro de 1935, com o estado de sítio pedido após a insurreição — e prorrogado, na forma de estado de guerra, até junho de 1937. Quem começa a contar a exceção em novembro de 1937 perde quase dois anos de história.

Em março de 1936 a repressão alcançou o próprio Legislativo: a polícia entrou no Congresso e levou presos cinco parlamentares que haviam apoiado a ANL ou simplesmente demonstrado simpatia por ela.1

Prestes depõe na delegacia após a prisão, março de 1936 · Unknown author Unknown author · 1936-03-14
Prestes depõe na delegacia após sua prisão, em março de 1936 — o mesmo mês em que a polícia entrou no Congresso e prendeu cinco parlamentares.
Prestes depõe na delegacia após a prisão, março de 1936 · 1936 · Wikimedia Commons · Public domain

Faltava ainda o instrumento judicial. Ele veio em fins de outubro de 1936, com a entrada em funcionamento do Tribunal de Segurança Nacional, criado a princípio para julgar apenas os envolvidos em 1935 e depois transformado em órgão permanente.1

Julgamento dos líderes de 1935 no Tribunal de Segurança Nacional · Unknown Unknown · 1937
O Tribunal de Segurança Nacional em sessão, em 1937, julgando os líderes de 1935. Criado como órgão temporário para um único caso, atravessaria todo o Estado Novo.
Julgamento dos líderes de 1935 no Tribunal de Segurança Nacional · 1937 · Wikimedia Commons · Public domain

Setembro de 1937: o Plano Cohen

Com a máquina repressiva pronta, faltava, nas palavras de Fausto, um pretexto para reacender o clima golpista. Ele apareceu — e sua história verdadeira, adverte o autor, guarda até hoje muitos pontos obscuros.1

O episódio é este. Em setembro de 1937, flagraram o capitão Olímpio Mourão Filho, oficial ligado ao integralismo, datilografando dentro do Ministério da Guerra um roteiro de insurreição comunista. E Fausto acrescenta a ressalva que muda tudo: ele pode muito bem ter se deixado flagrar.1

O suposto autor do documento seria um tal Cohen. O nome, marcadamente judaico, pode ter sido também uma deformação de Béla Kun, dirigente comunista húngaro. Não é detalhe menor: a fraude recorreu ao antissemitismo como parte do seu efeito.1

E o que era, afinal, o tal plano? Ao que tudo indica, uma fantasia escrita para sair num boletim da AIB, descrevendo como seria uma insurreição comunista e como os integralistas reagiriam a ela. O texto prometia massacres, saques, depredações, invasão de lares e incêndios.1

O que o pretexto derrubou

O efeito foi instantâneo. Em votação apressada, e por maioria, os parlamentares entregaram ao governo o que ele queria: noventa dias sem garantias constitucionais, sob estado de guerra.1

O alvo concreto, porém, era outro, e ficava no Sul. O general Daltro Filho, comandante da III Região Militar, decretou a federalização da Brigada Militar rio-grandense — isto é, tirou do governo gaúcho o controle de sua própria força armada.1

Sem meios de reagir, Flores da Cunha largou o governo e atravessou a fronteira rumo ao Uruguai, em 18 de outubro de 1937. Caía assim o último chefe estadual com meios militares para resistir ao centro — o mesmo homem que, cinco anos antes, mandara tropas gaúchas contra São Paulo em nome de Vargas.1

Menos de um mês depois, o golpe se consumaria sem que restasse quem o pudesse enfrentar de armas na mão.

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre o chamado Plano Cohen e seus efeitos, é correto afirmar que:
  1. Correta. É a leitura de Fausto, que ainda adverte restarem muitos pontos obscuros no episódio. O efeito prático foi imediato e abriu caminho para o golpe do mês seguinte.

  2. Incorreta. Não era autêntico nem comunista. Foi datilografado por um capitão integralista dentro do Ministério da Guerra, e o suposto autor era fictício.

  3. Incorreta. Ocorreu o contrário: o Congresso aprovou às pressas, por maioria de votos, o estado de guerra e a suspensão das garantias constitucionais.

  4. Incorreta. O episódio serviu ao clima golpista, não à repressão imediata ao integralismo. Quem caiu naquele outubro foi Flores da Cunha, exilado no Uruguai.

  5. Incorreta. A federalização atingiu a Brigada Militar rio-grandense, decretada pelo general Daltro Filho, comandante da III Região Militar.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • O plano era falso — e integralista — não foi documento comunista apreendido: foi texto datilografado por um capitão integralista no Ministério da Guerra, aparentemente destinado a um boletim da AIB. Fausto ainda registra que muitos aspectos do caso seguem obscuros.
  • A exceção começa em 1935 — o estado de sítio pedido em novembro de 1935 virou estado de guerra e foi prorrogado até junho de 1937. Quando o golpe veio, o país já acumulava quase vinte meses seguidos sem garantias plenas.
  • O antissemitismo da fraude — o nome do autor fictício era marcadamente judaico, e pode ter sido deformação de Béla Kun, dirigente comunista húngaro. A escolha do nome fazia parte do efeito pretendido e não deve ser omitida.
  • Quem leu o manifesto da ANL — Carlos Lacerda, então jovem estudante de direito, e foi ele quem indicou Prestes para presidente de honra. O mesmo Lacerda seria, nos anos 1950, o maior adversário de Vargas.
  • Presidente de honra e presidente ostensivo — Prestes foi aclamado presidente de honra; a presidência ostensiva coube ao capitão de Marinha Hercolino Cascardo, que liderara a revolta do encouraçado São Paulo em 1924.
  • O alvo real de outubro de 1937 — a federalização atingiu a Brigada Militar do Rio Grande do Sul, e o resultado foi a queda de Flores da Cunha, exilado no Uruguai em 18 de outubro — o último governador com força militar para resistir.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De março de 1935 a outubro de 1937, em sete marcos

30 mar 1935ANL vem apúblico no Riode Janeironov 1935Insurreiçãoderrotada;oficiaismortosnov 1935Estado desítio pedidopor sessentadiasmar 1936Polícia invadeo Congresso eprende cincoout 1936Tribunal deSegurançaNacional emaçãoset 1937Plano Cohenreacende oclima golpista18 out 1937Flores daCunha se exilano UruguaiVinte meses de estado de exceção ininterrupto antes do golpe. Quando 1937 chegou, o país já vivia sob suspensão de garantias havia quase dois anos.
Note que entre o segundo e o penúltimo marco não há interrupção da exceção. O golpe de novembro não inaugurou o autoritarismo: encerrou uma transição que já durava dois anos.

Os dois polos da radicalização

Aliança Nacional LibertadoraVem a público em 30 de março de 1935Comunistas e tenentes de esquerdaPrestes, presidente de honraHercolino Cascardo na presidênciaManifesto lido por Carlos LacerdaSurge junto à discussão da LSNAção Integralista BrasileiraFundada em outubro de 1932Movimento fascista brasileiroPlínio Salgado à frenteNasce logo após o levante paulistaAntecedida por grupos pequenos dos anos 1920Fornece o autor do Plano Cohen
Guardar as duas colunas evita o erro mais comum do assunto: trocar Prestes por Plínio Salgado, ou supor que o governo enfrentava um único adversário organizado.

O que alimentou o clima, e o que o pretexto produziu

O QUE ALIMENTOU O CLIMAO QUE O PRETEXTO PRODUZIUDois polos armadosa ANL de um lado,o integralismo do outroNovembro de 1935oficiais mortos; o episódiocala fundo no ExércitoExceção prorrogadaestado de guerra renovadoaté junho de 1937Plano Cohen · set 1937documento forjado de umainsurreição que não existiaGarantias suspensaso Congresso aprova às pressasnoventa dias de exceçãoBrigada federalizadaa força militar gaúcha passaao controle do centroCai o último obstáculoFlores da Cunha deixa ocargo e vai para o UruguaiCaminho abertoem novembro o golpe seconsuma sem resistência
A terceira caixa da direita é a decisiva. Sem a queda de Flores da Cunha, restaria no país uma força militar estadual capaz de resistir ao golpe de novembro.

O documento e o uso do documento

O que o documento aparentemente eraTexto para boletim da AIBDescrição hipotética de uma insurreiçãoAutor fictício de nome judaicoPossível corruptela de Béla KunDatilografado no Ministério da GuerraHistória ainda hoje cheia de pontos obscurosO uso que dele se fezDivulgado como ameaça realEstado de guerra aprovado às pressasGarantias suspensas por noventa diasBrigada Militar gaúcha federalizadaFlores da Cunha empurrado ao exílioPretexto para o golpe de novembro
A coluna da esquerda é o que o papel era; a da direita, o que ele fez. A distância entre as duas é a própria definição de pretexto.

Mapa mental do assunto

Gestação do Estado Novo1935–1937A ANL30 de março de 1935, no RioPrestes presidente de honraCascardo na presidência ostensivaA repressãoEstado de sítio em novembro de 1935Prorrogado até junho de 1937Congresso invadido em março de 1936O pretextoPlano Cohen, setembro de 1937Mourão Filho no Ministério da GuerraNoventa dias sem garantiasO que a prova erraO plano era falso, e integralistaA exceção começa em 1935, não em 1937Lacerda leu o manifesto da ANL
O ramo destacado reúne os três enganos mais caros. O segundo deles — datar a exceção em 1937 — compromete a resposta inteira sobre o período.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Lançamento da ANL30 de março de 1935, no Rio de Janeiro
Composição da ANLcomunistas, tenentes de esquerda próximos a eles e grupos menores
Contexto do lançamentoem paralelo à discussão da Lei de Segurança Nacional
Quem leu o manifestoCarlos Lacerda, então jovem estudante de direito
Presidente de honraLuís Carlos Prestes, escolhido por aclamação
Presidência ostensivaHercolino Cascardo, capitão de Marinha; estivera à frente da revolta do encouraçado São Paulo, em 1924
O polo opostoa Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado, fundada em outubro de 1932
Insurreição de novembro de 1935derrotada; oficiais do Exército assassinados, episódio lembrado todo 27 de novembro
Resposta institucionalestado de sítio por sessenta dias; derrotada a tentativa de restringi-lo às zonas conflagradas
Duração da exceçãoestado de guerra prorrogado até junho de 1937
Março de 1936a polícia entra no Congresso e leva presos cinco parlamentares ligados ou simpáticos à ANL
Outubro de 1936entra em funcionamento o Tribunal de Segurança Nacional
Plano Cohensetembro de 1937 — o capitão integralista Olímpio Mourão Filho datilografa o texto no Ministério da Guerra
O suposto autorum tal Cohen, nome marcadamente judaico, possível deformação de Béla Kun, dirigente comunista húngaro
O que o plano eraaparentemente, fantasia para boletim da AIB: massacres, saques, depredações, invasão de lares e incêndios
Efeito no Congressovotação apressada concede noventa dias sem garantias constitucionais, sob estado de guerra
Efeito no Rio Grande do Sulo general Daltro Filho decreta a federalização da Brigada Militar rio-grandense
Queda de Flores da Cunhadeixa o cargo e se exila no Uruguai em 18 de outubro de 1937
Desdobramento em 1964o mesmo Mourão Filho, já general, precipita o golpe mobilizando tropas de Juiz de Fora em 31 de março
Cada linha responde a uma pergunta que a questão de vestibular costuma fazer sobre o caminho entre 1935 e o golpe de 1937.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. PANDOLFI, Dulce (org.). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: FGV, 1999.
  3. VIANNA, Marly de Almeida Gomes. Revolucionários de 35: sonho e realidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
  4. TRINDADE, Hélgio. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. São Paulo: Difel, 1974.