A gestação do Estado Novo
Em setembro de 1937 um capitão integralista foi flagrado datilografando um plano de insurreição comunista que ele mesmo redigia. O documento era falso. O medo que ele acionou não era — e foi por isso que funcionou.

Luís Carlos Prestes julgado pelo Tribunal de Segurança Nacional · 1937 · Wikimedia Commons · Public domain
Em setembro de 1937, um capitão integralista foi flagrado datilografando um plano de insurreição comunista que ele mesmo escrevia. O documento era forjado. Por que o país acreditou nele?
Porque o medo já estava montado havia dois anos. Quando o tal plano apareceu, o Brasil vivia sob suspensão de garantias ininterruptamente desde novembro de 1935. A falsificação não criou o pânico: encontrou-o pronto e apenas deu a ele uma data. É essa construção que este artigo percorre.
Março de 1935: a ANL
A Aliança Nacional Libertadora veio a público no Rio de Janeiro em 30 de março de 1935. Reunia comunistas, tenentes de esquerda muito próximos deles e agrupamentos menores, e nasceu em paralelo à discussão da Lei de Segurança Nacional — detalhe que já indica o clima da conjuntura.1
A cena de lançamento tem um elenco que vale memorizar. Quem leu o manifesto foi um jovem estudante de direito chamado Carlos Lacerda — o mesmo que, décadas depois, seria o mais célebre adversário do getulismo. Foi ele quem indicou Luís Carlos Prestes para presidente de honra, escolhido por aclamação.1
A presidência ostensiva ficou com Hercolino Cascardo, capitão de Marinha. Ele estivera à frente da revolta do encouraçado São Paulo, em 1924, e depois de 1930 governara o Rio Grande do Norte como interventor. As elites do Centro-Sul o tinham na mira: desde antes de 1932 o acusavam de defender o “socialismo integral”.1
Guarde esta ironia, porque cai em prova e organiza duas décadas de história: o manifesto da ANL foi lido publicamente por Carlos Lacerda, então estudante. O mesmo Lacerda se tornaria o inimigo mais ruidoso de Vargas nos anos 1950 — e figura central da crise que terminaria no suicídio do presidente.
Do outro lado do tabuleiro havia um movimento montado desde outubro de 1932: a Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado, o primeiro movimento fascista de peso no país. A polarização que produziria 1937 tinha, portanto, dois polos organizados, e não apenas um governo diante de uma ameaça.1

Plínio Salgado na revista Anauê, 1935 · 1935 · Wikimedia Commons · Public domain
Novembro de 1935 e a exceção que não terminou
A insurreição daquele novembro foi derrotada, mas deixou uma marca que duraria décadas: oficiais do Exército foram assassinados. Fausto registra que o episódio calou fundo na corporação e que foi habilmente explorado ao longo do tempo — as cerimônias em homenagem às vítimas passaram a se repetir todos os anos, em 27 de novembro.1

A insurreição de novembro de 1935 · 1935 · Wikimedia Commons · Public domain
A resposta institucional veio no mesmo mês. O governo pediu sessenta dias de estado de sítio, e houve resistência: parte dos deputados quis limitar a medida às zonas conflagradas e perdeu a votação — de modo que a exceção passou a valer no país inteiro.1
E não terminou nos sessenta dias. O estado de guerra, ao qual o estado de sítio foi equiparado, seria sucessivamente prorrogado até junho de 1937. São quase vinte meses seguidos de garantias suspensas antes de o golpe acontecer.1
LembreQuando começou o estado de exceção que desembocou no Estado Novo?
Em novembro de 1935, com o estado de sítio pedido após a insurreição — e prorrogado, na forma de estado de guerra, até junho de 1937. Quem começa a contar a exceção em novembro de 1937 perde quase dois anos de história.
Em março de 1936 a repressão alcançou o próprio Legislativo: a polícia entrou no Congresso e levou presos cinco parlamentares que haviam apoiado a ANL ou simplesmente demonstrado simpatia por ela.1

Prestes depõe na delegacia após a prisão, março de 1936 · 1936 · Wikimedia Commons · Public domain
Faltava ainda o instrumento judicial. Ele veio em fins de outubro de 1936, com a entrada em funcionamento do Tribunal de Segurança Nacional, criado a princípio para julgar apenas os envolvidos em 1935 e depois transformado em órgão permanente.1

Julgamento dos líderes de 1935 no Tribunal de Segurança Nacional · 1937 · Wikimedia Commons · Public domain
Setembro de 1937: o Plano Cohen
Com a máquina repressiva pronta, faltava, nas palavras de Fausto, um pretexto para reacender o clima golpista. Ele apareceu — e sua história verdadeira, adverte o autor, guarda até hoje muitos pontos obscuros.1
O episódio é este. Em setembro de 1937, flagraram o capitão Olímpio Mourão Filho, oficial ligado ao integralismo, datilografando dentro do Ministério da Guerra um roteiro de insurreição comunista. E Fausto acrescenta a ressalva que muda tudo: ele pode muito bem ter se deixado flagrar.1
O suposto autor do documento seria um tal Cohen. O nome, marcadamente judaico, pode ter sido também uma deformação de Béla Kun, dirigente comunista húngaro. Não é detalhe menor: a fraude recorreu ao antissemitismo como parte do seu efeito.1
E o que era, afinal, o tal plano? Ao que tudo indica, uma fantasia escrita para sair num boletim da AIB, descrevendo como seria uma insurreição comunista e como os integralistas reagiriam a ela. O texto prometia massacres, saques, depredações, invasão de lares e incêndios.1
O que o pretexto derrubou
O efeito foi instantâneo. Em votação apressada, e por maioria, os parlamentares entregaram ao governo o que ele queria: noventa dias sem garantias constitucionais, sob estado de guerra.1
O alvo concreto, porém, era outro, e ficava no Sul. O general Daltro Filho, comandante da III Região Militar, decretou a federalização da Brigada Militar rio-grandense — isto é, tirou do governo gaúcho o controle de sua própria força armada.1
Sem meios de reagir, Flores da Cunha largou o governo e atravessou a fronteira rumo ao Uruguai, em 18 de outubro de 1937. Caía assim o último chefe estadual com meios militares para resistir ao centro — o mesmo homem que, cinco anos antes, mandara tropas gaúchas contra São Paulo em nome de Vargas.1
Menos de um mês depois, o golpe se consumaria sem que restasse quem o pudesse enfrentar de armas na mão.
- O plano era falso — e integralista — não foi documento comunista apreendido: foi texto datilografado por um capitão integralista no Ministério da Guerra, aparentemente destinado a um boletim da AIB. Fausto ainda registra que muitos aspectos do caso seguem obscuros.
- A exceção começa em 1935 — o estado de sítio pedido em novembro de 1935 virou estado de guerra e foi prorrogado até junho de 1937. Quando o golpe veio, o país já acumulava quase vinte meses seguidos sem garantias plenas.
- O antissemitismo da fraude — o nome do autor fictício era marcadamente judaico, e pode ter sido deformação de Béla Kun, dirigente comunista húngaro. A escolha do nome fazia parte do efeito pretendido e não deve ser omitida.
- Quem leu o manifesto da ANL — Carlos Lacerda, então jovem estudante de direito, e foi ele quem indicou Prestes para presidente de honra. O mesmo Lacerda seria, nos anos 1950, o maior adversário de Vargas.
- Presidente de honra e presidente ostensivo — Prestes foi aclamado presidente de honra; a presidência ostensiva coube ao capitão de Marinha Hercolino Cascardo, que liderara a revolta do encouraçado São Paulo em 1924.
- O alvo real de outubro de 1937 — a federalização atingiu a Brigada Militar do Rio Grande do Sul, e o resultado foi a queda de Flores da Cunha, exilado no Uruguai em 18 de outubro — o último governador com força militar para resistir.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De março de 1935 a outubro de 1937, em sete marcos
Os dois polos da radicalização
O que alimentou o clima, e o que o pretexto produziu
O documento e o uso do documento
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Lançamento da ANL | 30 de março de 1935, no Rio de Janeiro |
| Composição da ANL | comunistas, tenentes de esquerda próximos a eles e grupos menores |
| Contexto do lançamento | em paralelo à discussão da Lei de Segurança Nacional |
| Quem leu o manifesto | Carlos Lacerda, então jovem estudante de direito |
| Presidente de honra | Luís Carlos Prestes, escolhido por aclamação |
| Presidência ostensiva | Hercolino Cascardo, capitão de Marinha; estivera à frente da revolta do encouraçado São Paulo, em 1924 |
| O polo oposto | a Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado, fundada em outubro de 1932 |
| Insurreição de novembro de 1935 | derrotada; oficiais do Exército assassinados, episódio lembrado todo 27 de novembro |
| Resposta institucional | estado de sítio por sessenta dias; derrotada a tentativa de restringi-lo às zonas conflagradas |
| Duração da exceção | estado de guerra prorrogado até junho de 1937 |
| Março de 1936 | a polícia entra no Congresso e leva presos cinco parlamentares ligados ou simpáticos à ANL |
| Outubro de 1936 | entra em funcionamento o Tribunal de Segurança Nacional |
| Plano Cohen | setembro de 1937 — o capitão integralista Olímpio Mourão Filho datilografa o texto no Ministério da Guerra |
| O suposto autor | um tal Cohen, nome marcadamente judaico, possível deformação de Béla Kun, dirigente comunista húngaro |
| O que o plano era | aparentemente, fantasia para boletim da AIB: massacres, saques, depredações, invasão de lares e incêndios |
| Efeito no Congresso | votação apressada concede noventa dias sem garantias constitucionais, sob estado de guerra |
| Efeito no Rio Grande do Sul | o general Daltro Filho decreta a federalização da Brigada Militar rio-grandense |
| Queda de Flores da Cunha | deixa o cargo e se exila no Uruguai em 18 de outubro de 1937 |
| Desdobramento em 1964 | o mesmo Mourão Filho, já general, precipita o golpe mobilizando tropas de Juiz de Fora em 31 de março |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- PANDOLFI, Dulce (org.). Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: FGV, 1999.
- VIANNA, Marly de Almeida Gomes. Revolucionários de 35: sonho e realidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
- TRINDADE, Hélgio. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. São Paulo: Difel, 1974.