O governo provisório e a centralização
Vargas tomou posse em 3 de novembro de 1930. No mesmo mês não havia mais um único legislativo funcionando no país — nem o Congresso, nem as assembleias estaduais, nem as câmaras municipais.

A posse de Getúlio Vargas, 3 de novembro de 1930 · 1930 · Wikimedia Commons · Public domain
A Revolução de 1930 venceu em cerca de um mês e derrubou um regime de quarenta anos. Por que o governo que a sucedeu precisou fechar todos os legislativos do país?
Porque ele não veio substituir um presidente: veio substituir uma estrutura. E a estrutura da Primeira República estava montada nos estados, não no Rio. Quem quisesse desmontá-la teria de mexer no mando estadual — e foi exatamente isso que aconteceu, com uma velocidade que costuma surpreender quem estuda o assunto.
De 3 de outubro a 3 de novembro
O levante começou em 3 de outubro de 1930, ao mesmo tempo no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais. Em São Paulo, o Partido Democrático ficou praticamente fora das articulações, e nada se alterou por lá. A resistência mais séria foi mineira: em Belo Horizonte, um regimento de infantaria aguentou cinco dias e só se entregou quando faltaram água e comida.1
No Rio, uma junta provisória tentou se firmar no poder. Não teve como: recuou diante das manifestações populares e da pressão dos revolucionários que vinham do Sul.1

Vargas entre seus seguidores, 1930 · 1930 · Wikimedia Commons · Public domain
A chegada de Vargas foi encenada com cuidado, e vale reparar no detalhe. Ele foi de trem até São Paulo e de lá seguiu ao Rio, precedido por três mil soldados gaúchos. Desembarcou na capital de uniforme militar e chapéu dos pampas. Os gaúchos completaram o gesto amarrando os cavalos num obelisco da Avenida Rio Branco. O homem que passaria os anos seguintes pregando unidade nacional fez questão, naquele dia, de exibir a marca regional da vitória.1
A posse, em 3 de novembro de 1930, é a data que fecha a Primeira República e abre um período que, naquele momento, ninguém sabia definir.1

Populares e revolucionários na avenida Rio Branco · 2022 · Wikimedia Commons · Public domain
O mês em que os legislativos sumiram
Fausto marca que as medidas centralizadoras apareceram desde cedo — e “cedo”, aqui, quer dizer semanas. Já em novembro de 1930 o governo tomou para si o Executivo e também o Legislativo, dissolvendo de uma vez o Congresso Nacional, os legislativos estaduais e os municipais.1
No mesmo movimento caíram os governadores. Todos foram demitidos, com uma única exceção: o novo governador eleito de Minas Gerais. No lugar dos demais entraram interventores federais, nomeados pelo centro.1
LembreHouve alguma exceção na demissão dos governadores em 1930?
Sim, uma. O novo governador eleito de Minas Gerais foi mantido. Minas fora um dos dois focos do levante de 3 de outubro, e a exceção registra essa dívida política. É detalhe fino e cai em prova.
O Código dos Interventores
Nomear interventor resolvia o problema de quem manda. Faltava disciplinar o que essa pessoa poderia fazer — e foi o que veio em agosto de 1931, com o chamado Código dos Interventores. Ele fixou as normas de subordinação dos interventores ao poder central e, de quebra, apertou os próprios estados.1
Três limites merecem ser guardados, porque desenham a lógica da coisa. Buscar dinheiro fora do país passou a exigir autorização federal. O gasto com a polícia militar ganhou teto: 10% da despesa ordinária, e nada acima disso. E as corporações policiais dos estados ficaram proibidas de ter artilharia.1
Os tenentes viram governo
Fausto separa o tenentismo em dois tempos, e a divisória é 1930. Antes, foi movimento de rebeldia contra o governo da República. Depois, os tenentes entraram no governo e trataram de lhe imprimir uma direção.1
Vargas usou esses quadros como instrumento contra o predomínio das oligarquias estaduais, em duas frentes que pouco tinham em comum — São Paulo e o Nordeste. Foi no Nordeste que o método rendeu mais, e por um motivo de origem: muitos tenentes vinham de lá, de uma região de pobreza extrema em que a violência do pequeno círculo dominante era escancarada. Militares ocuparam boa parte das interventorias nordestinas, e a delegacia regional do Norte, criada em novembro de 1930, ficou com Juarez Távora.1

Juarez Távora em 1928 · 1928 · Wikimedia Commons · Public domain
O que esses homens fizeram no cargo retomava, em outro contexto, a tradição do salvacionismo: melhorias por cima, atendendo a algumas reivindicações populares. Na Bahia, Juraci Magalhães montou comissões voltadas à agricultura e esticou a rede de saúde. Távora foi mais longe e quis tomar os bens dos chefes políticos mais identificados com o regime recém-derrubado. E Juraci ainda assinou, ao lado de Lima Cavalcanti, em Pernambuco, um corte obrigatório no valor dos aluguéis.1

Juracy Magalhães assina como representante de Juarez Távora · 1930 · Wikimedia Commons · Public domain
Onde o método não funcionou
São Paulo foi a outra frente — e a que deu errado. Recusando as pretensões do Partido Democrático, Vargas marginalizou a elite paulista e nomeou interventor o tenente João Alberto. O gesto acendeu um estopim adicional: cresceu no estado o preconceito contra nordestinos, de onde vinham muitos tenentes e o próprio João Alberto, que era pernambucano.1
Ele não resistiu. Pressionado por São Paulo e por gente de dentro do próprio governo, demitiu-se em julho de 1931. Até meados de 1932 outros três interventores passariam pelo cargo — rotação que, por si só, mede a gravidade do que se chamou de caso de São Paulo.1
A pressão pela volta da ordem constitucional não vinha só de São Paulo: vinha também do Rio Grande do Sul e de Minas. Em fevereiro de 1932, o governo provisório cedeu em parte e promulgou o Código Eleitoral, que trouxe inovações importantes. Não foi suficiente para evitar o que viria em julho.
Provisório por quanto tempo?
O adjetivo do nome engana, e esse é o último ponto a fixar. Vargas chegou ao poder em outubro de 1930 e ficou quinze anos seguidos — primeiro como chefe do governo provisório, depois como presidente eleito por voto indireto e, por fim, como ditador.1
A queda veio em 1945. Ele ainda retornaria ao poder eleito nas urnas, em 1950, sem chegar ao fim do mandato: matou-se em 1954.1
Guardar esse arco importa por uma razão prática. O que hoje se lê como “fase provisória” foi, na verdade, o momento em que o desenho institucional do país ficou aberto — sem Constituição em vigor, com o Legislativo fechado e com o Executivo legislando sozinho. Foi nesse vazio que se decidiu quase tudo o que viria depois.
- A centralização é de 1930, não de 1937 — a dissolução dos legislativos e a nomeação de interventores vieram em novembro de 1930, no mês da posse. O Estado Novo levou essa inclinação ao limite, mas não a inventou.
- A exceção mineira — todos os antigos governadores foram demitidos, menos o novo governador eleito de Minas Gerais. Responder “todos, sem exceção” é errar por um detalhe que a banca cobra de propósito.
- Provisório não significa breve — Vargas ficou quinze anos seguidos no poder: chefe do governo provisório, depois presidente eleito por voto indireto e por fim ditador. Voltaria pelo voto em 1950 e se mataria em 1954.
- O Código dos Interventores tem conteúdo específico — agosto de 1931, e três limites concretos: proibição de empréstimo externo sem aval federal, teto de 10% da despesa ordinária com polícia militar e proibição de artilharia nas polícias estaduais.
- Dois tenentismos, não um — antes de 1930 o movimento era rebeldia contra o governo da República; depois de 1930 os tenentes ocuparam o governo. Tratar os dois momentos como a mesma coisa apaga o sentido da Revolução.
- São Paulo antes de 1932 — o conflito não nasceu em julho de 1932. Começou com a nomeação do tenente João Alberto, passou pela demissão dele em julho de 1931 e por mais três interventores até meados de 1932.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De outubro de 1930 a fevereiro de 1932, em sete marcos
O que produziu o governo provisório, e o que ele fez
A federação antes e depois de novembro de 1930
Os dois tenentismos
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Início do levante | 3 de outubro de 1930, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul |
| São Paulo em 1930 | o Partido Democrático ficou praticamente à margem das articulações |
| Resistência mais séria | Belo Horizonte: um regimento aguentou cinco dias, até faltarem água e alimentos |
| A junta provisória | tentou permanecer e recuou diante das manifestações e da pressão vinda do Sul |
| A chegada ao Rio | precedida por 3 mil soldados gaúchos; Vargas de uniforme e chapéu dos pampas |
| Fim da Primeira República | a posse de Vargas em 3 de novembro de 1930 |
| Dissolução | Congresso Nacional, legislativos estaduais e câmaras municipais, em novembro de 1930 |
| Governadores | todos demitidos, exceto o novo governador eleito de Minas Gerais |
| Substitutos | interventores federais nomeados pelo poder central |
| Código dos Interventores | agosto de 1931 — subordina os interventores e limita os estados |
| Limite financeiro | proibido empréstimo externo sem autorização federal |
| Limite orçamentário | no máximo 10% da despesa ordinária com serviços de polícia militar |
| Limite militar | proibido dotar as polícias estaduais de artilharia |
| Tenentismo antes de 1930 | movimento de rebeldia contra o governo da República |
| Tenentismo depois de 1930 | os tenentes entram no governo e viram instrumento contra as oligarquias |
| Delegacia do Norte | criada em novembro de 1930 e entregue a Juarez Távora |
| Medidas dos interventores tenentistas | Juraci Magalhães na Bahia: comissões de agricultura e mais saúde; com Lima Cavalcanti, redução compulsória de aluguéis |
| O caso de São Paulo | o tenente João Alberto se demite em julho de 1931; mais três interventores até meados de 1932 |
| Concessão de fevereiro de 1932 | o Código Eleitoral, sob pressão de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas |
| Duração do poder de Vargas | quinze anos seguidos; deposto em 1945, eleito em 1950, morto por suicídio em 1954 |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930: historiografia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
- GOMES, Angela de Castro; PANDOLFI, Dulce; ALBERTI, Verena (orgs.). A República no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.
- CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.