História Verso
História do Brasil · Estado Getulista

O governo provisório e a centralização

Vargas tomou posse em 3 de novembro de 1930. No mesmo mês não havia mais um único legislativo funcionando no país — nem o Congresso, nem as assembleias estaduais, nem as câmaras municipais.

193012 min de leitura4 fontes
A posse de Getúlio Vargas, 3 de novembro de 1930 · Unknown author Unknown author · 1930-11-03
A posse de Vargas e a formação de seu ministério, em reportagem de O Cruzeiro. A data — 3 de novembro de 1930 — é o marco do fim da Primeira República.
A posse de Getúlio Vargas, 3 de novembro de 1930 · 1930 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

A Revolução de 1930 venceu em cerca de um mês e derrubou um regime de quarenta anos. Por que o governo que a sucedeu precisou fechar todos os legislativos do país?

Porque ele não veio substituir um presidente: veio substituir uma estrutura. E a estrutura da Primeira República estava montada nos estados, não no Rio. Quem quisesse desmontá-la teria de mexer no mando estadual — e foi exatamente isso que aconteceu, com uma velocidade que costuma surpreender quem estuda o assunto.

De 3 de outubro a 3 de novembro

O levante começou em 3 de outubro de 1930, ao mesmo tempo no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais. Em São Paulo, o Partido Democrático ficou praticamente fora das articulações, e nada se alterou por lá. A resistência mais séria foi mineira: em Belo Horizonte, um regimento de infantaria aguentou cinco dias e só se entregou quando faltaram água e comida.1

No Rio, uma junta provisória tentou se firmar no poder. Não teve como: recuou diante das manifestações populares e da pressão dos revolucionários que vinham do Sul.1

Vargas entre seus seguidores, 1930 · Claro Jansson (1877-1954) · 1930
Vargas cercado por seus seguidores, fotografado por Claro Jansson durante a marcha. Registro feito em campo, enquanto a revolução ainda estava em curso.
Vargas entre seus seguidores, 1930 · 1930 · Wikimedia Commons · Public domain

A chegada de Vargas foi encenada com cuidado, e vale reparar no detalhe. Ele foi de trem até São Paulo e de lá seguiu ao Rio, precedido por três mil soldados gaúchos. Desembarcou na capital de uniforme militar e chapéu dos pampas. Os gaúchos completaram o gesto amarrando os cavalos num obelisco da Avenida Rio Branco. O homem que passaria os anos seguintes pregando unidade nacional fez questão, naquele dia, de exibir a marca regional da vitória.1

A posse, em 3 de novembro de 1930, é a data que fecha a Primeira República e abre um período que, naquele momento, ninguém sabia definir.1

Populares e revolucionários na avenida Rio Branco · Núcleo de digitalização / IMS · 2022-11-07 18:38:41
Populares e revolucionários na avenida Rio Branco. É esta a avenida em cujo obelisco os gaúchos amarraram os cavalos, no gesto simbólico que fechou a campanha.
Populares e revolucionários na avenida Rio Branco · 2022 · Wikimedia Commons · Public domain

O mês em que os legislativos sumiram

Fausto marca que as medidas centralizadoras apareceram desde cedo — e “cedo”, aqui, quer dizer semanas. Já em novembro de 1930 o governo tomou para si o Executivo e também o Legislativo, dissolvendo de uma vez o Congresso Nacional, os legislativos estaduais e os municipais.1

No mesmo movimento caíram os governadores. Todos foram demitidos, com uma única exceção: o novo governador eleito de Minas Gerais. No lugar dos demais entraram interventores federais, nomeados pelo centro.1

LembreHouve alguma exceção na demissão dos governadores em 1930?

Sim, uma. O novo governador eleito de Minas Gerais foi mantido. Minas fora um dos dois focos do levante de 3 de outubro, e a exceção registra essa dívida política. É detalhe fino e cai em prova.

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Sobre as medidas centralizadoras adotadas pelo governo provisório, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. Fausto registra que as medidas centralizadoras surgiram desde cedo — já em novembro de 1930, no mesmo mês da posse, dois anos antes do levante paulista.

  2. Incorreta. A dissolução foi geral e atingiu os três níveis: Congresso Nacional, legislativos estaduais e câmaras municipais.

  3. Correta. É a descrição exata, e a exceção mineira é o detalhe que separa a resposta decorada da resposta estudada.

  4. Incorreta. O Código dos Interventores, de agosto de 1931, foi explicitamente financeiro além de político: proibiu empréstimo externo sem aval federal e limitou o gasto com polícia militar.

  5. Incorreta. A inclinação centralizadora que apareceu já nos primeiros meses após 1930 não foi revertida — ela se realizaria plenamente no Estado Novo.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

O Código dos Interventores

Nomear interventor resolvia o problema de quem manda. Faltava disciplinar o que essa pessoa poderia fazer — e foi o que veio em agosto de 1931, com o chamado Código dos Interventores. Ele fixou as normas de subordinação dos interventores ao poder central e, de quebra, apertou os próprios estados.1

Três limites merecem ser guardados, porque desenham a lógica da coisa. Buscar dinheiro fora do país passou a exigir autorização federal. O gasto com a polícia militar ganhou teto: 10% da despesa ordinária, e nada acima disso. E as corporações policiais dos estados ficaram proibidas de ter artilharia.1

Os tenentes viram governo

Fausto separa o tenentismo em dois tempos, e a divisória é 1930. Antes, foi movimento de rebeldia contra o governo da República. Depois, os tenentes entraram no governo e trataram de lhe imprimir uma direção.1

Vargas usou esses quadros como instrumento contra o predomínio das oligarquias estaduais, em duas frentes que pouco tinham em comum — São Paulo e o Nordeste. Foi no Nordeste que o método rendeu mais, e por um motivo de origem: muitos tenentes vinham de lá, de uma região de pobreza extrema em que a violência do pequeno círculo dominante era escancarada. Militares ocuparam boa parte das interventorias nordestinas, e a delegacia regional do Norte, criada em novembro de 1930, ficou com Juarez Távora.1

Juarez Távora em 1928 · Unknown Unknown · 1928
Juarez Távora em 1928, dois anos antes de receber a delegacia regional do Norte. Era o tenente encarregado de enfrentar as oligarquias nordestinas.
Juarez Távora em 1928 · 1928 · Wikimedia Commons · Public domain

O que esses homens fizeram no cargo retomava, em outro contexto, a tradição do salvacionismo: melhorias por cima, atendendo a algumas reivindicações populares. Na Bahia, Juraci Magalhães montou comissões voltadas à agricultura e esticou a rede de saúde. Távora foi mais longe e quis tomar os bens dos chefes políticos mais identificados com o regime recém-derrubado. E Juraci ainda assinou, ao lado de Lima Cavalcanti, em Pernambuco, um corte obrigatório no valor dos aluguéis.1

Juracy Magalhães assina como representante de Juarez Távora · Unknown author Unknown author · 1930-11
Juracy Magalhães assina como representante de Juarez Távora, em novembro de 1930. A cena mostra o mecanismo funcionando: tenentes ocupando, por delegação, o lugar dos antigos chefes estaduais.
Juracy Magalhães assina como representante de Juarez Távora · 1930 · Wikimedia Commons · Public domain

Onde o método não funcionou

São Paulo foi a outra frente — e a que deu errado. Recusando as pretensões do Partido Democrático, Vargas marginalizou a elite paulista e nomeou interventor o tenente João Alberto. O gesto acendeu um estopim adicional: cresceu no estado o preconceito contra nordestinos, de onde vinham muitos tenentes e o próprio João Alberto, que era pernambucano.1

Ele não resistiu. Pressionado por São Paulo e por gente de dentro do próprio governo, demitiu-se em julho de 1931. Até meados de 1932 outros três interventores passariam pelo cargo — rotação que, por si só, mede a gravidade do que se chamou de caso de São Paulo.1

A concessão de fevereiro de 1932
A pressão pela volta da ordem constitucional não vinha só de São Paulo: vinha também do Rio Grande do Sul e de Minas. Em fevereiro de 1932, o governo provisório cedeu em parte e promulgou o Código Eleitoral, que trouxe inovações importantes. Não foi suficiente para evitar o que viria em julho.

Provisório por quanto tempo?

O adjetivo do nome engana, e esse é o último ponto a fixar. Vargas chegou ao poder em outubro de 1930 e ficou quinze anos seguidos — primeiro como chefe do governo provisório, depois como presidente eleito por voto indireto e, por fim, como ditador.1

A queda veio em 1945. Ele ainda retornaria ao poder eleito nas urnas, em 1950, sem chegar ao fim do mandato: matou-se em 1954.1

Guardar esse arco importa por uma razão prática. O que hoje se lê como “fase provisória” foi, na verdade, o momento em que o desenho institucional do país ficou aberto — sem Constituição em vigor, com o Legislativo fechado e com o Executivo legislando sozinho. Foi nesse vazio que se decidiu quase tudo o que viria depois.

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre a relação entre o tenentismo e o governo provisório, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. É justamente a inversão que define o período. Fausto separa dois tenentismos: antes de 1930, rebeldia contra o governo; depois, os tenentes entram no governo.

  2. Incorreta. Foram usados em duas regiões muito diferentes, e o Nordeste — não São Paulo — foi o campo de ação predileto, inclusive por origem dos próprios tenentes.

  3. Incorreta. Atuaram em política concreta: comissões de agricultura e ampliação da saúde na Bahia, tentativa de expropriar oligarcas e redução compulsória de aluguéis.

  4. Correta. É a leitura de Fausto. Vários interventores nordestinos eram militares, e a delegacia regional do Norte, criada em novembro de 1930, ficou com Juarez Távora.

  5. Incorreta. Ocorreu o contrário. A nomeação do tenente João Alberto marginalizou a elite paulista e alimentou até preconceito regional, levando à sua demissão em julho de 1931.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • A centralização é de 1930, não de 1937 — a dissolução dos legislativos e a nomeação de interventores vieram em novembro de 1930, no mês da posse. O Estado Novo levou essa inclinação ao limite, mas não a inventou.
  • A exceção mineira — todos os antigos governadores foram demitidos, menos o novo governador eleito de Minas Gerais. Responder “todos, sem exceção” é errar por um detalhe que a banca cobra de propósito.
  • Provisório não significa breve — Vargas ficou quinze anos seguidos no poder: chefe do governo provisório, depois presidente eleito por voto indireto e por fim ditador. Voltaria pelo voto em 1950 e se mataria em 1954.
  • O Código dos Interventores tem conteúdo específico — agosto de 1931, e três limites concretos: proibição de empréstimo externo sem aval federal, teto de 10% da despesa ordinária com polícia militar e proibição de artilharia nas polícias estaduais.
  • Dois tenentismos, não um — antes de 1930 o movimento era rebeldia contra o governo da República; depois de 1930 os tenentes ocuparam o governo. Tratar os dois momentos como a mesma coisa apaga o sentido da Revolução.
  • São Paulo antes de 1932 — o conflito não nasceu em julho de 1932. Começou com a nomeação do tenente João Alberto, passou pela demissão dele em julho de 1931 e por mais três interventores até meados de 1932.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De outubro de 1930 a fevereiro de 1932, em sete marcos

3 out 1930Revoluçãoestoura emMinas e no RioGrande do Sul3 nov 1930Posse deVargas encerraa PrimeiraRepúblicanov 1930Dissolução detodos oslegislativosdo paísnov 1930Delegacia doNorte entreguea JuarezTávorajul 1931João Albertodeixa ainterventoriade São Pauloago 1931Código dosInterventoressubordina osestadosfev 1932CódigoEleitoral, sobpressão porconstitucionalizaçãoRepare no intervalo entre o segundo e o terceiro marco: a centralização veio no mesmo mês da posse, não anos depois.
Os dois marcos em destaque estão a semanas de distância. É essa proximidade que responde à pergunta orientadora: a centralização não foi um desdobramento tardio, foi o primeiro ato.

O que produziu o governo provisório, e o que ele fez

O QUE PRODUZIU O GOVERNO PROVISÓRIOO QUE ELE FEZVitória militar rápidaa junta recua diante dapressão vinda do SulSem ordem substitutaa Constituição de 1891 caie nada ocupa o lugarAlvo: as oligarquiasquebrar o mando estadualda Primeira RepúblicaGoverno provisório · nov 1930Vargas acumula o Executivoe o LegislativoLegislativos dissolvidosCongresso, assembleiase câmaras municipaisInterventoresgovernadores demitidos,menos o de MinasCódigo dos Interventoresago 1931: limites durosà ação dos estadosAtrito com São Pauloquatro interventores emmenos de dois anos
A segunda caixa da esquerda costuma passar despercebida: com a Constituição de 1891 derrubada e nenhuma outra no lugar, o governo legislava por decreto sem que nada o contivesse.

A federação antes e depois de novembro de 1930

Até outubro de 1930Governadores eleitos nos estadosCongresso Nacional em funcionamentoAssembleias estaduais ativasCâmaras municipais ativasEstados contraem empréstimo externoPolícias estaduais fortemente armadasA partir de novembro de 1930Interventores nomeados pelo centroCongresso dissolvidoAssembleias dissolvidasCâmaras dissolvidasEmpréstimo externo só com aval federalTeto de 10% da despesa com polícia militar
Leia as seis linhas em pares. Cada uma mostra uma atribuição que saiu do estado e foi parar no governo federal — e a última explica por que São Paulo ainda pôde lutar em 1932.

Os dois tenentismos

Tenentismo antes de 1930Rebeldia contra o governo da RepúblicaEnfrenta o poder quase sozinhoNão arrasta o Exército consigoSem apoio da elite civilRadical no método, não no conteúdoDerrotado repetidas vezesTenentismo depois de 1930Os tenentes entram no governoInstrumento contra as oligarquiasInterventores militares no NordesteDelegacia do Norte com Juarez TávoraRetoma a tradição do salvacionismoVira alvo, por sua vez, em São Paulo
A divisória é 1930. Quem trata o tenentismo como um bloco só não consegue explicar como os mesmos homens passaram de perseguidos a interventores.

Mapa mental do assunto

Governo provisório1930–1934A tomada do poder3 de outubro: Minas e Rio GrandeA junta recua3 de novembro: posse de VargasA centralizaçãoTodos os legislativos dissolvidosInterventores no lugar dos eleitosCódigo dos Interventores, ago 1931O instrumentoTenentes ocupam o governoNordeste é o campo prediletoJuraci Magalhães e Lima CavalcantiO que a prova erraMinas teve exceção: manteve o eleitoProvisório não quer dizer curtoA centralização é de 1930, não de 1937
O ramo destacado reúne os três enganos mais frequentes. O primeiro deles — a exceção de Minas — é o que mais aparece como pegadinha.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Início do levante3 de outubro de 1930, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul
São Paulo em 1930o Partido Democrático ficou praticamente à margem das articulações
Resistência mais sériaBelo Horizonte: um regimento aguentou cinco dias, até faltarem água e alimentos
A junta provisóriatentou permanecer e recuou diante das manifestações e da pressão vinda do Sul
A chegada ao Rioprecedida por 3 mil soldados gaúchos; Vargas de uniforme e chapéu dos pampas
Fim da Primeira Repúblicaa posse de Vargas em 3 de novembro de 1930
DissoluçãoCongresso Nacional, legislativos estaduais e câmaras municipais, em novembro de 1930
Governadorestodos demitidos, exceto o novo governador eleito de Minas Gerais
Substitutosinterventores federais nomeados pelo poder central
Código dos Interventoresagosto de 1931 — subordina os interventores e limita os estados
Limite financeiroproibido empréstimo externo sem autorização federal
Limite orçamentáriono máximo 10% da despesa ordinária com serviços de polícia militar
Limite militarproibido dotar as polícias estaduais de artilharia
Tenentismo antes de 1930movimento de rebeldia contra o governo da República
Tenentismo depois de 1930os tenentes entram no governo e viram instrumento contra as oligarquias
Delegacia do Nortecriada em novembro de 1930 e entregue a Juarez Távora
Medidas dos interventores tenentistasJuraci Magalhães na Bahia: comissões de agricultura e mais saúde; com Lima Cavalcanti, redução compulsória de aluguéis
O caso de São Pauloo tenente João Alberto se demite em julho de 1931; mais três interventores até meados de 1932
Concessão de fevereiro de 1932o Código Eleitoral, sob pressão de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas
Duração do poder de Vargasquinze anos seguidos; deposto em 1945, eleito em 1950, morto por suicídio em 1954
Cada linha responde a uma pergunta que a questão de vestibular costuma fazer sobre o período 1930–1932.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930: historiografia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
  3. GOMES, Angela de Castro; PANDOLFI, Dulce; ALBERTI, Verena (orgs.). A República no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.
  4. CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.