A Revolução Constitucionalista
São Paulo esperava Minas e o Rio Grande do Sul, e nenhum dos dois veio. Lutou quase três meses praticamente sozinho, rendeu-se em 1º de outubro de 1932 — e mesmo assim o país voltou a ter Constituição dois anos depois.

Soldados na estação de Cascata, agosto de 1932 · 1932 · Wikimedia Commons · Public domain
São Paulo lutou praticamente sozinho, perdeu no campo de batalha e se rendeu em 1º de outubro de 1932. Por que esse levante costuma ser lembrado como uma vitória?
A fórmula escolar diz que ele perdeu a guerra e ganhou a paz. Ela tem algo de verdade e um problema de calendário que este artigo vai expor: a maior concessão do governo veio antes do primeiro tiro. Comecemos pelo que levou o estado às armas.
Antes da guerra, quatro interventores
O atrito não nasceu em julho. Vinha desde que Vargas, recusando as pretensões do Partido Democrático, marginalizou a elite paulista e entregou a interventoria ao tenente João Alberto. Ele se demitiu em julho de 1931, e outros três interventores passaram pelo cargo até meados de 1932 — rotação que mede sozinha o tamanho do impasse.1
O que a elite paulista queria estava enunciado com clareza: constitucionalizar o país segundo princípios de democracia liberal e, como passo imediato, obter um interventor civil e paulista. Essa bandeira — soma de constitucionalização e autonomia — pegou em setores amplos da população e produziu o improvável: aproximou o PRP e o PD, adversários de longa data, na Frente Única paulista, formada em fevereiro de 1932.1
No mesmo mês em que nasceu a Frente Única, o governo provisório cedeu à pressão — que vinha de São Paulo, mas também do Rio Grande do Sul e de Minas — e promulgou o Código Eleitoral, com inovações importantes. Ou seja: a constitucionalização já estava sendo negociada cinco meses antes de o levante começar.
Em março de 1932, Getúlio deu o passo seguinte na tentativa de pacificar o estado, nomeando o interventor civil e paulista que se pedia: Pedro de Toledo. O gesto rendeu pouco, porque o nome rendia pouco — Toledo não tinha grande prestígio ali. Nos anos 1910 integrara o grupo “hermista” do PRP, o que o punha longe do centro da liderança regional daquele momento.1
Duas coisas aceleraram a conspiração. Ainda em março, a Frente Única Gaúcha — reunião dos partidos regionais do Sul — rompeu com Getúlio, o que animou quem já conspirava em São Paulo, em sua maioria ligado ao PD. E havia a irritação com a leniência do governo diante de um grupo tenentista que empastelou o Diário Carioca, no Rio, logo depois de promulgado o Código Eleitoral.1
9 de julho
O levante contra o governo federal estourou em 9 de julho de 1932. E o cálculo que o sustentava desmanchou quase de imediato: o apoio esperado de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul não veio.1
Pior que a ausência foi a inversão. O interventor gaúcho Flores da Cunha, depois de hesitar, decidiu ficar com Getúlio e mandou tropas contra São Paulo. No Sul houve apenas uma rebelião, rapidamente derrotada.1
Do Mato Grosso viria o reforço militar. O general Bertoldo Klinger havia se envolvido na articulação prometendo ajuda significativa em homens e munição; chegou a São Paulo com algumas centenas de soldados. Ainda assim assumiu o comando das operações a partir de 12 de julho.1

Cena da Revolução Constitucionalista · 1932 · Wikimedia Commons · Public domain
A explicação de Fausto para o abandono é fria e convincente. As elites regionais do Rio Grande e de Minas tinham divergências reais com o poder central — mas não estavam dispostas a enfrentar de armas na mão um governo que elas próprias haviam ajudado a instalar havia menos de dois anos.1
LembrePor que Minas e o Rio Grande do Sul não apoiaram São Paulo?
Porque haviam colocado aquele governo no poder em 1930, havia menos de dois anos. Divergir dele era uma coisa; pegar em armas contra a própria obra era outra. Sem esses dois estados, São Paulo ficou praticamente sozinho.
Quem de fato lutou
Sem aliados de peso, São Paulo contou basicamente com a Força Pública e com uma mobilização popular intensa. E aqui está o dado que corrige a leitura preguiçosa do episódio: o movimento de 1932 não foi só de elite. Uniu a cafeicultura, a classe média e os industriais.1
Houve uma ausência significativa, porém, e ela também cai em prova: a classe operária organizada ficou à margem — e não por apatia, já que havia protagonizado greves importantes no primeiro semestre de 1932. Estava mobilizada; apenas não era aquela a sua causa.1

Colonos paulistas em 1932 · 1932 · Wikimedia Commons · Public domain
A campanha foi construída com dois instrumentos que valem nota. O primeiro é uma imagem: São Paulo seria a locomotiva, e os outros vinte estados, vagões vazios rebocados por ela. O segundo é técnico — foi ali que o rádio se empregou pela primeira vez em grande escala, enchendo comícios e alimentando o fluxo de voluntários rumo à frente.1

Combatente paulista de 1932 · 2018 · Wikimedia Commons · Public domain
Quase três meses
O desequilíbrio era grande e mesmo assim a luta durou quase três meses. As forças federais atacaram por três direções: pelo sul do estado, pela fronteira com Minas e pelo Vale do Paraíba.1
A partir da segunda metade de setembro, a posição dos revoltosos foi ficando insustentável. Os mineiros tomaram Jundiaí e Itu; no Vale do Paraíba, as tropas federais avançaram entre marchas e contramarchas. A ocupação da capital paulista passou a ser ameaça concreta.1
O desfecho foi negociado. Em 1º de outubro de 1932, representantes da Força Pública foram até Cruzeiro, no Vale do Paraíba, onde Góis Monteiro mantinha seu quartel-general, e ali decidiram render-se — decisão que, na avaliação de Fausto, poupou vidas e encerrou as últimas esperanças de resistência.1

Enterro de Euclides Miragaia, 24 de maio de 1932 · 1932 · Wikimedia Commons · Public domain
O que a derrota produziu
A consequência mais imediata foi dentro dos quartéis. O levante acelerou uma limpeza nas fileiras do Exército: ainda em 1932, 48 oficiais tomaram o caminho do exílio, e sete deles eram generais.1
O número seguinte mostra o tamanho da reconfiguração. Ao fim de 1933, 36 dos 40 generais na ativa deviam a promoção ao governo instalado em 1930. Consolidou-se ali um grupo leal a Vargas, no qual se destacaram duas figuras: Góis Monteiro, formulador da política do Exército, e Eurico Gaspar Dutra, seu principal executor.1
Houve ainda um efeito no campo ideológico. A Ação Integralista Brasileira nasceu em São Paulo naquele mesmo outubro de 1932, poucas semanas depois da rendição, reunindo Plínio Salgado e outros intelectuais. Foi o primeiro movimento fascista de expressão no país — antes dele houvera apenas pequenas organizações, surgidas nos anos 1920.1
Perdeu a guerra e ganhou a paz?
Voltemos à pergunta do começo. O país de fato voltou à ordem constitucional, e a bandeira levantada em 1932 era exatamente essa. Mas atribuir a constitucionalização à derrota militar inverte uma sequência que o próprio calendário desmente: o Código Eleitoral é de fevereiro de 1932, cinco meses antes do levante, e foi promulgado sob pressão de três estados, não de um.1
A leitura mais honesta é outra, e é mais interessante: a constitucionalização já vinha sendo negociada e concedida em parcelas, e o levante paulista foi o episódio mais violento de uma pressão que era anterior a ele e maior que ele. Dizer que São Paulo “ganhou a paz” dá ao estado o crédito de um processo que ele acelerou, mas não iniciou sozinho.
- A ordem dos fatos — o Código Eleitoral foi promulgado em fevereiro de 1932, antes do levante de 9 de julho, sob pressão de São Paulo, do Rio Grande do Sul e de Minas. Tratá-lo como conquista do movimento inverte a cronologia.
- Não foi movimento só de elite — uniu cafeicultura, classe média e industriais, com mobilização popular intensa, comícios e uso do rádio em larga escala pela primeira vez. Reduzi-lo à oligarquia do café empobrece o episódio.
- A ausência do operariado — a classe operária organizada ficou à margem, e não por desmobilização: fizera greves importantes no primeiro semestre daquele mesmo ano. A causa é que não era dela.
- O Rio Grande do Sul lutou contra — Flores da Cunha hesitou e depois enviou tropas gaúchas contra São Paulo. Supor que o Sul apoiou o levante por causa do rompimento da Frente Única Gaúcha em março é erro comum.
- Klinger prometeu mais do que trouxe — o general havia prometido ajuda significativa em homens e munição e chegou com algumas centenas de soldados — assumindo mesmo assim o comando das operações a partir de 12 de julho.
- A consequência mais duradoura foi militar — 48 oficiais exilados em 1932, sete deles generais; ao fim de 1933, trinta e seis dos quarenta generais na ativa haviam sido promovidos pelo governo de 1930. É daí que sai o comando leal que sustentaria 1937.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De fevereiro a outubro de 1932, em sete marcos
O que São Paulo esperava e o que aconteceu
O que levou ao levante, e o que ele deixou
O Exército depois da depuração
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Antecedente | o tenente João Alberto na interventoria e mais três interventores até meados de 1932 |
| Bandeiras | constitucionalização do país e autonomia; como passo imediato, um interventor civil e paulista |
| Frente Única paulista | fevereiro de 1932 — aproxima PRP e PD |
| Código Eleitoral | fevereiro de 1932, antes do levante, sob pressão de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas |
| Pedro de Toledo | março de 1932, interventor civil e paulista, sem grande prestígio no estado |
| Frente Única Gaúcha | rompe com Getúlio em março de 1932, acelerando a conspiração paulista |
| Início do levante | 9 de julho de 1932 |
| Apoios esperados | Minas Gerais e Rio Grande do Sul — nenhum dos dois veio |
| Flores da Cunha | hesitou, apoiou Getúlio e enviou tropas gaúchas contra São Paulo |
| Bertoldo Klinger | prometeu ajuda significativa, chegou com algumas centenas; assume o comando em 12 de julho |
| Quem lutou | a Força Pública e uma mobilização popular intensa |
| Composição social | cafeicultura, classe média e industriais; a classe operária organizada ficou à margem |
| Propaganda | a locomotiva puxando vinte vagões vazios; primeiro uso do rádio em grande escala |
| Duração | quase três meses |
| Eixos do ataque federal | sul do estado, fronteira com Minas e Vale do Paraíba |
| Avanço decisivo | de meados de setembro; mineiros ocupam Jundiaí e Itu |
| Rendição | 1º de outubro de 1932, em Cruzeiro, diante do general Góis Monteiro |
| Depuração do Exército | 48 oficiais exilados, sete generais entre eles; 36 dos 40 generais na ativa promovidos até o fim de 1933 |
| Comando consolidado | Góis Monteiro, formulador, e Eurico Gaspar Dutra, executor |
| Efeito ideológico | outubro de 1932: Plínio Salgado funda a Ação Integralista Brasileira em São Paulo |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930: historiografia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
- DEL ROIO, José Luiz. 1932: guerra civil no Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 2003.
- CAPELATO, Maria Helena. O Movimento de 1932: a causa paulista. São Paulo: Brasiliense, 1981.