O governo Dutra
Diante de uma decisão duvidosa, o general queria saber o que dizia o “livrinho” — a Constituição. Foi também o governo que cassou um partido com quase 200 mil militantes e tornou ilegal quase toda greve possível.

A posse de Dutra, 31 de janeiro de 1946 · 1946 · Wikimedia Commons · Public domain
Dutra entrou para a memória conservadora como o presidente que consultava a Constituição antes de decidir. Como o mesmo governo cassou um partido com quase 200 mil militantes e tornou ilegal quase toda greve possível?
Fausto responde sem rodeios, e a resposta é a espinha deste artigo. O legalismo era real — e tinha destinatário. Quando o assunto envolvia comunistas ou trabalhadores organizados, ele era muitas vezes esquecido.1
Como ele chegou lá
A disputa de 1945 opunha Dutra ao brigadeiro Eduardo Gomes, cuja campanha ficou conhecida pelos lenços brancos agitados nos comícios e atraiu a classe média dos grandes centros em torno de duas bandeiras: democracia e liberalismo econômico.1
Dutra, por sua vez, não entusiasmava ninguém — chegou-se a cogitar trocá-lo por nome de maior apelo. O que virou o jogo foi um gesto de 28 de novembro: Getúlio declarou publicamente apoio à candidatura, com uma ressalva que só ele conseguiria fazer — ficaria ao lado do povo contra o presidente caso este não cumprisse o combinado.1
O resultado surpreendeu a oposição, que numa época sem pesquisa eleitoral não o via chegando: 55% contra 35%, descontados brancos e nulos. Fausto lê nesses números três coisas ao mesmo tempo — a força da máquina do PSD, montada a partir dos interventores; o prestígio de Getúlio entre os trabalhadores; e a rejeição popular ao antigetulismo, então colado ao interesse dos ricos. Daí, aliás, o apelido que o brigadeiro carregou: “candidato pó-de-arroz”.1
É a leitura fácil, e Fausto a descarta. A vitória não foi do atraso sobre a modernidade nem do interior sobre o litoral: Dutra foi bem votado nos três estados de maior peso — São Paulo, Minas Gerais e o Rio Grande do Sul. Já o brigadeiro teve seu melhor desempenho no Nordeste, onde a derrota foi por pequena diferença.
Vale registrar uma manobra que mostra o tamanho do capital político guardado por quem fora deposto. A lei da época permitia disputar vários cargos em várias unidades ao mesmo tempo, e Getúlio usou isso à exaustão: inscreveu-se para o Senado em cinco estados e para a Câmara em nove. Saiu de lá com duas cadeiras de senador — a gaúcha e a paulista — e com mandatos de deputado em sete estados, engordando as bancadas do PSD e do PTB. Ficou com o Senado pelo Rio Grande do Sul e quase não apareceu por lá.1
O decreto que veio antes da Constituição
Dutra tomou posse no fim de janeiro de 1946, e a Assembleia Constituinte começou a trabalhar em seguida. A nova Carta seria promulgada em 18 de setembro daquele ano.1
Só que, enquanto os constituintes ainda debatiam, o governo editou, em março de 1946, o Decreto-lei 9.070, para regulamentar o direito de greve. O truque estava na definição de “atividades essenciais” — aquelas em que a paralisação ficava proibida. A lista era tão larga que quase nenhum ramo ficava de fora.1
Cesarino Júnior, professor de direito do trabalho, apontou o resultado óbvio: cumprido à risca, o decreto praticamente não deixava greve legal.1
E ele durou. Mesmo depois de a Constituição de 1946 assegurar o direito de greve como princípio geral, foi o decreto que continuou regulando a matéria ao longo dos anos. Fausto resume o saldo numa frase que vale decorar: “A democratização ficou assim a meio caminho quando se tratava de direitos dos trabalhadores”.1

Capa da Constituição de 1946 · 1946 · Wikimedia Commons · Public domain
LembreO que veio primeiro: a Constituição de 1946 ou a lei que restringiu a greve?
A restrição. O Decreto-lei 9.070 é de março de 1946; a Constituição, de setembro. E o decreto não caiu com a promulgação: seguiu como o texto que de fato regulava as greves. Inverter essa ordem é o erro mais comum do assunto.
Maio de 1947: um partido cassado por um voto
A repressão ao Partido Comunista começou nesse governo, e Fausto aponta três causas somadas: o peso das concepções conservadoras, o crescimento do próprio partido e a mudança nas relações entre as grandes potências.1
O crescimento não era retórica. Em 1946, o PCB já ocupava a quarta posição entre os partidos brasileiros, com dezessete cadeiras na Câmara, uma no Senado e a maioria entre os vereadores do Distrito Federal. Nas estaduais paulistas de 1947 chegou ao terceiro lugar em votos, superando a UDN. Calcula-se que reunisse, em 1946, entre 180 e 200 mil militantes.1
O desfecho veio em maio de 1947. Dois deputados obscuros do PTB apresentaram denúncias, e o Supremo Tribunal Federal cassou o registro do partido. O placar diz muito sobre o quanto a decisão era disputada: três votos a dois — um voto de diferença.1
O fundamento invocado foi o dispositivo constitucional que vedava partido cujo programa ou ação contrariassem o regime democrático, assentado na pluralidade partidária e na garantia dos direitos fundamentais. Usou-se, portanto, a cláusula de defesa da pluralidade para reduzir a pluralidade.
E o alcance foi além do partido. Fausto observa que a influência comunista em muitos sindicatos era real — e que, apesar disso, ficava claro o outro objetivo: sob a bandeira anticomunista, o governo ia desmontando as entidades operárias que lhe faziam oposição.1

Dutra na Itália, como ministro da Guerra, em 1944 · 1944 · Wikimedia Commons · Public domain
A economia que mudou de ideia no meio do caminho
O começo foi liberal, e explicitamente. A intervenção do Estado passou a ser condenada, os controles herdados do Estado Novo foram sendo desmontados, e instalou-se a crença de que desenvolvimento e fim da inflação viriam da liberdade dos mercados — sobretudo da importação livre. O ministro da Fazenda, Correia e Castro, chegou a descrever o Brasil como país essencialmente agrícola, formulação que soava como eco de antes de 1930.1
As condições pareciam favoráveis: o país havia acumulado divisas com as exportações do tempo da guerra. E ainda assim a aposta fracassou. Com a moeda valorizada, veio uma onda de importação de tudo quanto era bem, que esgotou as divisas praticamente sem contrapartida.1
A correção veio em junho de 1947, com a criação de um sistema de licenças para importar. Na prática, as licenças abriram passagem para equipamento, maquinaria e combustível e fecharam a porta ao bem de consumo. Como o cruzeiro seguiu alto diante do dólar, o efeito duplo foi desestimular a exportação e estimular a produção para o mercado interno.1
E aqui está o achado que o assunto guarda. A mudança nasceu como resposta a balanço de pagamentos e inflação — problemas de curto prazo — mas acabou favorecendo o avanço da indústria. A substituição de importações avançou, nesse governo, como efeito colateral de uma decisão tomada por outro motivo.1

Dutra em visita a Barra do Piraí, 1947 · 1947 · Wikimedia Commons · Public domain
Quem pagou o crescimento
Os números do produto foram bons. Tomando 1947 como base, o produto avançou, entre 1948 e 1950, a uma média de 8% ao ano.1
A conta, porém, tem outro lado, e Fausto o coloca lado a lado com o crescimento: a repressão ao movimento sindical permitiu comprimir salários. Entre 1949 e 1951, o custo de vida subiu 15% em São Paulo e 23% no Rio, enquanto o salário médio avançou apenas 10,5% e 12%, respectivamente. Quem perdeu poder de compra não pôde parar para reclamar — e é essa a ligação entre as duas metades do governo.1
A sucessão, e um verbo novo
As manobras pelo sucessor começaram antes da metade do mandato, e Getúlio já era o polo de atração. Praticamente ausente do Senado, ele viajava aos estados quando convinha e, em São Borja, recebia o beija-mão de quem vinha pedir bênção.1
Dutra recusou-se a apoiá-lo. Manobrou dentro do PSD e conseguiu lançar um político mineiro quase desconhecido, o advogado Cristiano Machado. O problema é que a maioria dos grandes chefes do partido — inclusive Amaral Peixoto, genro de Getúlio — abandonou o próprio candidato.1
O resultado da eleição de 3 de outubro de 1950 confirmou o estrago: Getúlio com 48,7%, o brigadeiro com 29,7% e Cristiano Machado com 21,5%. Cerca de um quarto dos votos de Getúlio veio de São Paulo — sinal, anota Fausto, de que o antigetulismo paulista já era resquício do passado.1
Ainda em 1950, dentro do governo Dutra, a eleição do Clube Militar deu um recado. Venceram dois generais nacionalistas: Estillac Leal e Horta Barbosa. Este segundo vinha defendendo, desde a década de 1930, que o petróleo devia ser monopólio do Estado. Derrotaram a chapa de Cordeiro de Farias, adversário militante do comunismo. A disputa dentro do Exército já prenunciava o conflito do mandato seguinte.

Dutra em cerimônia oficial · 0 · Wikimedia Commons · Public domain
- Legalista não é sinônimo de democrático — o hábito de consultar o “livrinho” convive, no mesmo governo, com a cassação de um partido e com a restrição quase total ao direito de greve. Fausto registra que o legalismo desaparecia diante de comunistas e de operários organizados.
- A ordem dos atos importa — o Decreto-lei 9.070 é de março de 1946 e a Constituição, de setembro. O decreto sobreviveu à Carta que garantia o direito de greve e continuou sendo o texto que regulava a matéria.
- O PCB foi cassado por um voto — a decisão do STF, em maio de 1947, saiu por três a dois, a partir de denúncias de dois deputados do PTB. O fundamento foi a cláusula constitucional de defesa da pluralidade partidária.
- A industrialização foi efeito colateral — as licenças de importação de junho de 1947 nasceram para resolver balanço de pagamentos e inflação, e acabaram protegendo a indústria instalada. Não houve, nesse governo, projeto industrializante deliberado.
- Crescimento e compressão salarial andaram juntos — o PIB cresceu 8% ao ano entre 1948 e 1950, e no mesmo período o custo de vida subiu mais que o salário médio — 15% contra 10,5% em São Paulo, 23% contra 12% no Rio. A repressão sindical é o elo entre as duas séries.
- A eleição de 1945 não foi campo contra cidade — Dutra venceu bem em Minas, no Rio Grande do Sul e em São Paulo, e o brigadeiro teve seu melhor desempenho no Nordeste. Ler o resultado como atraso contra modernidade inverte o mapa.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De 1945 a 1950, em sete marcos
O legalista e a prática
O que produziu a repressão, e o que ela deixou
Duas economias em cinco anos
A eleição presidencial de 1950
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Adversário em 1945 | o brigadeiro Eduardo Gomes, da campanha dos lenços brancos |
| Base do brigadeiro | classe média dos grandes centros, em torno da democracia e do liberalismo econômico |
| Gesto decisivo | apoio público de Getúlio em 28 de novembro, com ressalva de ficar ao lado do povo contra o presidente |
| Resultado | 55% contra 35%, descontados brancos e nulos |
| O que o resultado mostrou | força da máquina do PSD, prestígio de Getúlio entre trabalhadores e rejeição ao antigetulismo |
| Geografia do voto | Dutra venceu bem em Minas, no Rio Grande do Sul e em São Paulo; o brigadeiro foi melhor no Nordeste |
| Posse | fim de janeiro de 1946, com a Constituinte começando os trabalhos |
| Nova Constituição | promulgada em 18 de setembro de 1946 |
| Decreto-lei 9.070 | março de 1946 — “atividades essenciais” abrangem quase todos os ramos |
| Avaliação de Cesarino Júnior | cumprido à risca, o decreto quase não deixava greve legal |
| Vida do decreto | sobreviveu à Constituição e seguiu regulando a matéria por anos |
| Balanço de Fausto | a democratização ficou a meio caminho quando se tratava de direitos dos trabalhadores |
| Força do PCB em 1946 | quarto partido; 17 deputados, um senador e maioria na Câmara do Distrito Federal |
| Militantes do PCB | entre 180 e 200 mil, em 1946 |
| Cassação do registro | maio de 1947, pelo STF, por três votos a dois |
| Fundamento invocado | cláusula que vedava partido cujo programa contrariasse o regime democrático e a pluralidade partidária |
| Economia até 1947 | liberal: controles do Estado Novo abolidos e importação livre |
| Por que fracassou | a onda de importações esgotou as divisas acumuladas na guerra |
| Virada de junho de 1947 | licenças de importação favorecem máquina e combustível e restringem bem de consumo |
| Efeito não pretendido | proteção do mercado interno e avanço da indústria |
| PIB | média de 8% ao ano entre 1948 e 1950, tomando 1947 como base |
| Salários | custo de vida sobe 15% em SP e 23% no Rio (1949–1951); salário médio, 10,5% e 12% |
| Candidato do PSD em 1950 | Cristiano Machado, abandonado pelo próprio partido — daí o verbo “cristianizar” |
| Eleição de 1950 | Getúlio 48,7%, Eduardo Gomes 29,7% e Cristiano Machado 21,5% |
| Clube Militar em 1950 | vitória dos nacionalistas Estillac Leal e Horta Barbosa sobre Cordeiro de Farias |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- GOMES, Angela de Castro. A Invenção do Trabalhismo. Rio de Janeiro: FGV, 2005.
- SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio a Castello. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
- SANTOS, Wanderley Guilherme dos. Que Brasil É Este? Rio de Janeiro: Vértice, 1990.