O segundo governo Vargas
Para derrubá-lo, faltava à oposição um choque grave o bastante para empurrar as Forças Armadas para fora da legalidade. Quem entregou esse choque foi a roda mais próxima do próprio presidente.

Vargas desfila em Vitória, setembro de 1951 · 1951 · Wikimedia Commons · Public domain
Apesar da pressão e sem base sólida de apoio, Getúlio se equilibrava no poder. O que faltava à oposição para derrubá-lo — e quem acabou entregando isso a ela?
Faltava um choque: algo grave o bastante para empurrar as Forças Armadas para fora dos limites da legalidade e depor um presidente eleito. E a resposta de Fausto à segunda pergunta é a espinha deste artigo — o episódio que forneceu esse choque saiu do círculo mais próximo do próprio Getúlio.1
Uma posse contestada
Getúlio assumiu em 31 de janeiro de 1951, e a UDN tentou — sem sucesso — impugnar a eleição. O argumento era que só poderia ser declarado vencedor quem obtivesse maioria absoluta, metade mais um dos votos. Só que essa exigência não existia na legislação da época.1
Fausto usa o episódio para expor o que chama de contradição dos liberais. Defensores em princípio da legalidade democrática, eles não conseguiam atrair o voto da grande massa nas eleições que importavam — e passaram, a partir dali, a pôr em dúvida resultados de urna ou, com frequência cada vez maior, a bater à porta dos quartéis.1
1º de maio de 1951: a volta ao sindicato
Ele começara tentando reunir em torno de si as forças conservadoras, mas não abandonou a base que o havia levado ao poder. Foi o que mostrou o comício de 1º de maio de 1951, encenado — não por acaso — no velho estádio do Vasco da Gama.1
Não ficou nas palavras genéricas. Estimulou os trabalhadores a se organizarem em sindicatos para ajudá-lo, segundo suas palavras, na luta contra “os especuladores e os gananciosos”. E tomou uma medida de efeito prático imediato: aboliu o “atestado de ideologia” exigido para participar da vida sindical.1
O atestado de ideologia era o instrumento que mantinha comunistas e outros indesejados fora da estrutura sindical desde o governo anterior. Ao derrubá-lo, Getúlio reabriu a porta a quem Dutra havia excluído. É uma decisão pequena no papel e enorme na consequência — e explica boa parte da desconfiança conservadora que se acumularia contra ele.
O governo, porém, jamais teria o mundo do trabalho todo sob controle. A abertura sindical somada à alta do custo de vida produziu uma série de paralisações em 1953. Duas se destacaram: em março, a greve geral paulista; em junho, a dos marítimos, no Rio, em Santos e em Belém. Fausto anota que as duas tinham sentido muito diferente.1

Vargas visita uma siderúrgica, janeiro de 1951 · 1951 · Wikimedia Commons · Public domain
O petróleo é nosso — e a conta é do café
No terreno econômico, Getúlio acentuou deliberadamente a substituição de importações que o governo anterior havia iniciado por acidente. O instrumento foi cambial: com a receita das exportações ampliada pela Guerra da Coreia, o mecanismo do confisco cambial permitiu ao governo concentrar recursos e direcioná-los ao incentivo à indústria.1
A peça mais duradoura veio em outubro de 1953, com a criação da Petrobras. Ela não surgiu do nada: a política do Conselho Nacional do Petróleo já vinha, desde o Estado Novo, bloqueando as iniciativas das grandes empresas estrangeiras, e a atuação do general Horta Barbosa servira de ponto de apoio e referência aos grupos que, nos anos 50, pressionariam por essa linha.1
O preço apareceu no custo de vida. A inflação anual saiu de 11,9% em 1951 para 12,9% em 1952 e 20,8% em 1953. Getúlio, escreve Fausto, manobrava em um mar de correntes contraditórias: de um lado as reivindicações de trabalhadores atingidos pela alta; de outro, a necessidade de medidas impopulares para segurar os preços.1
1954: o ano em que tudo se acumulou
Em fevereiro de 1954, Getúlio remontou o ministério. João Goulart deixou o Ministério do Trabalho, substituído por um nome sem expressão — mas não antes de apresentar a proposta de dobrar o salário mínimo. Saiu, portanto, com a imagem de ministro derrubado por querer dar benefícios a trabalhador.1
No mesmo movimento caiu o ministro da Guerra, Espírito Santo Cardoso, desgastado pelo episódio inesperado do manifesto dos coronéis. Para tentar acalmar a caserna, Getúlio escolheu Zenóbio da Costa — homem de sua confiança e, ao mesmo tempo, adversário conhecido do comunismo.1
LembreO que os coronéis reclamavam no manifesto?
Pediam reequipar o Exército, rever vencimentos e adotar critérios mais justos de promoção. E faziam uma comparação que doía: com a proposta de elevação do salário mínimo, o piso nos grandes centros quase alcançaria o soldo máximo de um graduado do Exército. A política trabalhista de Vargas batia, ali, no bolso da caserna.
Os cuidados não seguraram o rumo. O presidente foi adotando discurso e medidas que colidiam com os interesses conservadores, atribuindo ao capital estrangeiro a culpa pelo desequilíbrio externo.1
As companhias de energia elétrica — canadenses e americanas — hesitavam em fazer novos investimentos. A resposta veio em abril de 1954: um projeto de lei para criar uma estatal do setor, a Eletrobrás.1
Naquele mesmo abril, o ex-chanceler João Neves da Fontoura deu uma entrevista que deu corpo às acusações da oposição. Ele afirmou que presidente e vice haviam firmado um acordo secreto com Argentina e Chile para barrar a presença americana no Cone Sul. A suposta aliança — sobretudo com a Argentina de Perón — soava como mais um degrau rumo à temida “República sindicalista”.1
E veio o 1º de maio. O anúncio do aumento de 100% no salário mínimo provocou tempestade de protestos. Fausto examina o argumento econômico e o desmonta: a medida gerava ganho real e, nesse sentido, tendia a pressionar os preços — só que as causas básicas da inflação eram outras, e não estavam em salário alto. Ao contrário, a remuneração dos trabalhadores vinha se deteriorando havia anos.1
5 de agosto: o tiro que saiu de dentro
Chegamos ao ponto. Apesar de tudo, Getúlio continuava se equilibrando no poder. À oposição faltava aquele acontecimento traumático capaz de levar os militares a romper a legalidade.1
Ele foi fornecido pelos íntimos do presidente. Nesse círculo havia se firmado a ideia de que, para Getúlio continuar no poder, Lacerda precisava sair de cena. Apurou-se depois que pessoas próximas sugeriram ao chefe da guarda presidencial do Catete, Gregório Fortunato, que “desse um jeito” no adversário. Gaúcho negro que servia a Vargas havia mais de trinta anos, Gregório montou o atentado com a ajuda de outro homem da guarda.1
A ideia já era desastrada; a execução foi pior. Já de madrugada, em 5 de agosto de 1954, o pistoleiro Alcino do Nascimento atirou em Lacerda quando este se aproximava da entrada do prédio em que morava, na rua Tonelero, em Copacabana. Lacerda saiu apenas levemente ferido. Quem morreu foi seu acompanhante, o major da Aeronáutica Rubens Vaz.1

A rua Tonelero hoje, em Copacabana · 2021 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
O saldo para Getúlio foi ruinoso em três frentes ao mesmo tempo: um crime que provocou indignação geral, um adversário agora munido de trunfos e a Aeronáutica em estado de rebelião — porque o morto era um oficial dela.1

Carlos Lacerda em 1954 · 1954 · Wikimedia Commons · Public domain
23 e 24 de agosto
O movimento pela renúncia cresceu, e o presidente resistiu — apoiado por Zenóbio da Costa e insistindo em que ele encarnava o princípio da legalidade constitucional.1
Em 23 de agosto ficou claro que o governo havia perdido o apoio das Forças Armadas. Veio a público um manifesto à nação com a assinatura de 27 generais, cobrando a renúncia. E o dado que mais pesa está na lista: além dos adversários previsíveis, assinaram nomes que não faziam oposição sistemática — Peri Bevilacqua, Machado Lopes e Henrique Lott, este último que, pouco mais de um ano depois, viraria porta-voz da legalidade.1
Com o cerco fechado, veio a resposta final. Na manhã de 24 de agosto, Getúlio matou-se em seus aposentos no Palácio do Catete, com um tiro no coração.1

Vargas no Palácio do Catete, julho de 1954 · 1954 · Wikimedia Commons · Public domain
A carta que inverteu o resultado
O suicídio exprimia desespero pessoal, mas carregava também, avalia Fausto, um profundo significado político: o gesto tinha carga dramática suficiente para eletrizar a grande massa.1
E havia o texto. Na carta-testamento, o presidente se apresentava ao mesmo tempo como vítima e como acusador de inimigos impopulares. Responsabilizava os grupos internacionais aliados a inimigos internos, que estariam contra as garantias sociais aos trabalhadores, contra as propostas de limitar lucros excessivos e contra a defesa das fontes de energia — Petrobrás e Eletrobrás. Afirmava ainda que o lucro das empresas estrangeiras chegava a 500% ao ano, enquanto o Brasil era forçado a recuar nas medidas para sustentar o preço internacional do café.1
O fecho é a passagem mais conhecida da política brasileira: “Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. […] Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”.1
O efeito foi imediato e violento. A massa foi às ruas em todas as grandes cidades, atacando os alvos mais simbólicos de sua raiva: caminhões que transportavam a edição de O Globo foram queimados, e houve quem tentasse invadir a sede diplomática americana no Rio.1
Entre os manifestantes estavam os comunistas — e aqui há uma virada que vale registrar. Eles haviam ficado na oposição do começo ao fim do mandato, chegando a defender que o presidente renunciasse, e mudaram de lado da noite para o dia. Dali em diante, abandonaram a linha radical que, segundo Fausto, frequentemente acabava beneficiando seus maiores inimigos, e passaram a apoiar o esquema do nacionalismo populista.1
- O choque veio de dentro — Fausto é explícito: faltava à oposição um fato traumático que levasse as Forças Armadas a romper a legalidade, e esse fato foi proporcionado pelo círculo íntimo do próprio Getúlio. Tratar o atentado como manobra da oposição inverte o episódio.
- Quem morreu na rua Tonelero — o alvo era Carlos Lacerda, que saiu levemente ferido. A vítima foi o major da Aeronáutica Rubens Vaz — e é justamente por ser oficial da Aeronáutica que a força entrou em rebelião.
- “Mar de lama” é expressão do próprio Vargas — a frase costuma ser atribuída à oposição, mas foi cunhada pelo presidente. E as apurações, embora expusessem o governo, não conseguiram comprometê-lo pessoalmente.
- O manifesto não era só de udenistas — entre os 27 generais que exigiram a renúncia em 23 de agosto havia nomes distantes da oposição sistemática, incluindo Henrique Lott — que pouco mais de um ano depois seria porta-voz da legalidade.
- A morte inverteu o resultado político — a oposição venceu o confronto e perdeu o desfecho. A carta-testamento, a comoção popular e a reviravolta dos comunistas rumo ao nacionalismo populista deram alento aos herdeiros de Getúlio.
- A imagem que ficou é simplificadora — Fausto reconhece que Getúlio permaneceu na memória operária como quem ouviu a voz dos “humildes” e implantou a legislação trabalhista — e observa que essa imagem é simplificadora e concentrada demais em um homem, ainda que tenha sido assim que ocorreu.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De 1951 a 1954, em sete marcos
O Vargas que une e o Vargas que rompe
O que tensionou o governo, e o que a crise produziu
A inflação no segundo mandato
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Posse | 31 de janeiro de 1951, após tentativa frustrada de impugnação pela UDN |
| Argumento da UDN | exigência de maioria absoluta que não constava da legislação da época |
| Leitura de Fausto sobre os liberais | sem votos da massa, passaram a contestar resultados e a apelar para as Forças Armadas |
| Comício de 1º de maio de 1951 | no velho estádio do Vasco da Gama |
| Medida sindical decisiva | abolição do atestado de ideologia, que reabriu espaço a comunistas e excluídos |
| Greves de 1953 | greve geral de março em São Paulo e greve dos marítimos em junho, no Rio, Santos e Belém |
| Financiamento da indústria | confisco cambial sobre a receita ampliada pela Guerra da Coreia |
| Petrobras | outubro de 1953, com precedente na política do Conselho Nacional do Petróleo |
| Inflação | 11,9% em 1951, 12,9% em 1952 e 20,8% em 1953 |
| Fevereiro de 1954 | Goulart sai do Trabalho após propor dobrar o mínimo; Zenóbio da Costa assume a Guerra |
| Manifesto dos coronéis | reequipamento, vencimentos e promoção; comparava o mínimo ao soldo de graduado |
| Abril de 1954 | projeto de lei da Eletrobrás e acusação de acordo secreto com Argentina e Chile |
| 1º de maio de 1954 | anúncio de aumento de 100% do salário mínimo, seguido de tempestade de protestos |
| O que faltava à oposição | um fato traumático que levasse os militares a romper a legalidade |
| Quem forneceu o fato | o círculo íntimo do presidente, por meio do chefe da guarda Gregório Fortunato |
| Atentado | 5 de agosto de 1954, rua Tonelero; Lacerda ferido de leve, morto o major Rubens Vaz |
| Consequência imediata | Aeronáutica em rebelião e apuração paralela conduzida pela própria força |
| “Mar de lama” | expressão do próprio Vargas; a apuração não conseguiu comprometê-lo pessoalmente |
| 23 de agosto | manifesto de 27 generais exige a renúncia; entre eles Bevilacqua, Machado Lopes e Lott |
| 24 de agosto | suicídio no Palácio do Catete, com um tiro no coração |
| Carta-testamento | acusa grupos internacionais e inimigos internos; cita lucro estrangeiro de 500% ao ano |
| Reação popular | caminhões de O Globo queimados e tentativa de assalto à representação americana no Rio |
| Virada dos comunistas | da oposição ao apoio ao nacionalismo populista, da noite para o dia |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- GOMES, Angela de Castro. A Invenção do Trabalhismo. Rio de Janeiro: FGV, 2005.
- SKIDMORE, Thomas. Brasil: de Getúlio a Castello. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
- D’ARAUJO, Maria Celina. O Segundo Governo Vargas. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.