O Estado e a burguesia do café
Em 1906, três estados combinaram tomar empréstimo no exterior para o poder público comprar café e tirá-lo do mercado. É o Convênio de Taubaté — e é o momento em que fica visível de quem o Estado brasileiro cuidava.

Colheita de café, por volta de 1900 · 1900 · Wikimedia Commons · Public domain
Quando o preço de uma mercadoria cai no mercado internacional, quem costuma absorver o prejuízo é quem a produz. Por que, no Brasil de 1906, quem absorveu foi o Estado?
Guarde esta pergunta, porque a resposta dela vale mais que a decoreba de datas: existia uma classe capaz de transformar prejuízo privado em política pública. Fausto chama essa classe de burguesia do café, e o nome não é enfeite — designa o processo pelo qual, das últimas décadas do século 19 em diante, a região de São Paulo caminhou para uma economia capitalista, com acumulação de capital, diversificação de negócios e formação de mercados de terra, de produção e de consumo.1
Uma classe que não nasceu pronta — nem sozinha
O primeiro erro a desarmar é uma oposição que o livro escolar adora: de um lado o Vale do Paraíba decadente e aristocrático, de outro o Oeste Paulista moderno e empreendedor. Fausto adverte que enxergar assim é ilusão. As mesmas famílias apareciam nos dois lados do mapa — os Paula Machado e os Alves Porto abriram fazendas nas áreas novas, e o coronel Virgílio Rodrigues Alves, irmão de um futuro presidente da República e dono de terras em Guaratinguetá, montou com parentes lavouras novas nos arredores de Bauru — em São Manuel e em Piratininga.1
A questão de vestibular gosta de pedir a caracterização do “Oeste Paulista” como ruptura com o Vale. Ruptura houve na técnica e na relação de trabalho, não necessariamente nas famílias. Quem migrou de área levou junto o sobrenome e o capital.
Politicamente, essa classe já tinha instrumento próprio antes mesmo da República. O Partido Republicano Paulista, criado em 1873, recrutava seus quadros majoritariamente entre os cafeicultores, e defendia acima de tudo uma bandeira: a federação, isto é, um país cuja unidade básica fosse a província — e depois o estado.1
A Constituição de 1891 como ferramenta de trabalho
Entendida a bandeira, entende-se a lei. A primeira Constituição republicana deixou aos estados tudo aquilo que o texto não lhes negasse expressamente — a redação está no artigo 65, parágrafo 2º. Na prática, isso abriu duas portas que valeriam ouro para São Paulo: um estado podia contrair empréstimo no exterior e podia cobrar imposto sobre o que exportava. Some a isso a permissão para manter força militar própria e você tem a arquitetura jurídica da autonomia paulista.1
Sem essas duas portas não existiria o que veio depois. Comprar colheita inteira custa dinheiro que nenhum tesouro estadual tem parado em caixa — logo, é preciso poder pegar emprestado lá fora. E pagar o empréstimo exige renda constante — que vinha, justamente, do imposto cobrado sobre a saca embarcada.1
LembreQue dois poderes estaduais tornaram a valorização possível?
Tomar empréstimo no exterior e decretar imposto de exportação. Os dois vêm da autonomia desenhada na Constituição de 1891 — e é por isso que a “federação” era a bandeira central do PRP desde 1873.
Dois problemas de uma vez: safra demais, câmbio de menos
A partir da década de 1890 a lavoura paulista cresceu num ritmo que o próprio mercado não absorvia. Daí saíram duas dores simultâneas, e é preciso distinguir uma da outra.1
A primeira é intuitiva: oferta demais derruba preço. Quanto mais café brasileiro chegava, menos valia a saca lá fora. A segunda é a que os estudantes erram, porque é contraintuitiva. O cafeicultor vendia em libras e recebia em mil-réis. Se a moeda brasileira se enfraquecesse na mesma medida em que o preço caía, o estrago se anulava: menos libras, porém convertidas a uma taxa melhor, davam o mesmo tanto de mil-réis no fim. Só que, desde o governo de Campos Sales, a política oficial era fortalecer a moeda nacional. Resultado: o produtor perdia dos dois lados ao mesmo tempo — vendia mais barato e ainda trocava a libra por menos mil-réis.1

Embarque de café no porto de Santos, c. 1880 · 1880 · Wikimedia Commons · Public domain
Fevereiro de 1906: o Convênio de Taubaté
Vários planos de intervenção circularam em São Paulo no começo do século. O que vingou foi assinado em fevereiro de 1906, na cidade paulista que lhe deu nome, por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.1
A engenharia tinha duas peças. A primeira: buscar no exterior um empréstimo de 15 milhões de libras esterlinas para o poder público entrar no mercado comprando café a um preço que remunerasse o produtor. A segunda: segurar o câmbio, de modo que a moeda nacional parasse de trabalhar contra o exportador. O raciocínio econômico por trás era razoável — safra boa e safra ruim se alternam, então o governo compraria o excesso dos anos fartos, guardaria a mercadoria em armazém e a devolveria ao mercado quando a colheita fosse magra. Tirando café de circulação, o preço subiria.1
O plano no papel e o plano na prática
Aqui começa a parte que a redação de vestibular quase sempre pula. O convênio não saiu como estava escrito. O governo federal criou obstáculos, e os dois outros estados signatários pisaram no freio. São Paulo então tocou a operação praticamente sozinho, em parceria com importadores norte-americanos reunidos em torno de Hermann Sielcken e com o que conseguiu levantar em bancos.1
Funcionou em escala impressionante. Até o fim de 1907, o estado havia comprado por volta de 8,2 milhões de sacas. Para dimensionar: a safra brasileira de 1906–1907, a maior já colhida no país até aquele momento, foi de 20 milhões de sacas. Ou seja, o poder público paulista tirou de circulação algo próximo de dois quintos de uma colheita recorde.1
8,2 milhões de sacas parecem um número solto até você colocar ao lado dos 20 milhões da safra. Comparar os dois é o que transforma o dado em argumento — e é exatamente isso que a banca espera de uma resposta boa.
Só que operação desse tamanho não se sustenta com crédito de curto prazo. Foi então que a União entrou. Na segunda metade de 1908, Afonso Pena, então presidente, enviou mensagem ao Congresso pedindo autorização para que o governo federal avalizasse um novo empréstimo paulista, no teto de 15 milhões de libras. Passou sem emenda alguma, apesar da oposição de vários congressistas.1

Mapa das linhas da Companhia Paulista de Estradas de Ferro · 2018 · Wikimedia Commons · Public domain
Quem reclamou, e por quê
A resistência tem endereço e argumento. Os críticos apontavam que a Federação inteira estava sendo chamada a garantir o negócio de um único estado. O deputado mineiro Pandiá Calógeras resumiu a objeção com dureza. Fausto reproduz a fala: para ele, “a nação inteira não podia se responsabilizar pelos desatinos da lavoura paulista, nem o proletariado brasileiro pagar pelos erros de São Paulo”.1
Houve também tentativa de barrar a garantia federal no Congresso já em 1906, num dos raros momentos em que o Nordeste conseguiu agir em bloco — sob a liderança pernambucana de Francisco Rosa e Silva, que exerceu esse papel entre 1896 e 1911. A coalizão não se firmou, e Fausto aponta uma razão estrutural: os estados nordestinos arrecadavam pouco com o imposto de exportação, e por isso disputavam entre si o favor do governo federal em vez de se unirem contra ele.1
Deu certo — e cobrou caro
Com a garantia da União assegurada, São Paulo tomou os 15 milhões de libras e seguiu comprando, agora com a condução da operação nas mãos de banqueiros internacionais. Os efeitos apareceram em 1909: o preço internacional começou a subir e ficou alto até 1912, resultado tanto do estoque retido quanto de safras menores. Em junho de 1913, o empréstimo estava pago.1
Houve segunda valorização, iniciada durante a Primeira Guerra Mundial e estendida até 1919, em condições anormais de comércio internacional e bancada com emissão de papel-moeda pelo governo federal. E houve a terceira, tocada a partir de 1921 pelo presidente paraibano Epitácio Pessoa, sob pressão dos paulistas e com apoio mineiro.1
É na terceira que a conta fica visível para todo mundo. As emissões maciças de moeda feitas entre 1921 e 1923 para financiá-la derrubaram o câmbio e alimentaram a inflação — parte do cenário financeiro complicado que tornou o governo de Artur Bernardes impopular nas cidades. Em 1924, de olho no orçamento federal, Bernardes largou a defesa do produto; São Paulo então assumiu diretamente essa tarefa, em caráter permanente.1
A inflação de 1921–1923 não é assunto só de economia. Ela compõe a impopularidade urbana do governo Bernardes, que é justamente o alvo declarado da revolta tenentista de 1924 em São Paulo. Um assunto explica o outro.
Cuidado com a fórmula fácil
Chegando aqui, é tentador concluir que o Estado brasileiro era um departamento do café. Fausto trava essa conclusão em três pontos, e os três costumam render questão.1
Primeiro: presidente nascido em São Paulo não era garantia de nada. Campos Sales, Rodrigues Alves e Washington Luís — os três paulistas — desagradaram ao setor cafeeiro ou entraram em choque com ele. A razão é simples e vale como princípio geral: quem ocupa a Presidência precisa cuidar também das finanças do país e do acordo com os credores de fora. Rodrigues Alves, ele próprio cafeicultor, não se via em condições de contrariar a Casa Rothschild, principal agente financeiro brasileiro no exterior — que, aliás, se opôs ao Convênio de Taubaté por temer efeitos sobre o pagamento da dívida.1
Segundo: a burguesia do café tinha limite regional. Ela era articulada e sabia falar por si, através do PRP e de associações próprias, e nenhum governo federal podia ignorá-la — mas “não poder ignorar” está longe de “obedecer”.1
Terceiro: há controvérsia historiográfica aberta sobre o câmbio. A ideia de que a moeda era deliberadamente desvalorizada para socorrer o exportador vem sendo bastante contestada. Fausto registra que a tendência de depreciação cambial no longo prazo tem sido lida menos como manobra em favor do café e mais como consequência da situação precária das finanças brasileiras. Se você escrever numa redação que o governo desvalorizava a moeda para beneficiar o café, esteja avisado de que a afirmação está em disputa.1

Campos Sales, retrato oficial · 1898 · Wikimedia Commons · Public domain
Quem segurava tudo isso por baixo
Nenhum plano de valorização se sustentaria se a lavoura parasse de produzir. E ela só continuou produzindo porque dois problemas práticos foram resolvidos depois da Abolição: de onde viria gente para trabalhar, e sob que regra. Quem trouxe os braços foi a imigração. Quem definiu a regra foi um arranjo chamado colonato.1
Ele veio no lugar da parceria, que havia fracassado, e funcionava assim: uma família de imigrantes assumia o cuidado do cafezal e a colheita, recebendo dois pagamentos em dinheiro — um valor anual pelo trato de determinado número de pés, e outro na colheita, proporcional ao que se colhesse. Fora o dinheiro, o fazendeiro dava moradia e cedia pedaços de terra onde a família plantava sua própria comida. Por isso Fausto insiste que não se trata de salário puro: parte da remuneração vinha em coisas, não em moeda.1
Havia ainda o contrato de formação, usado nos cafezais novos. O colono plantava e cuidava do pé por quatro a seis anos — o cafeeiro costuma começar a produzir no quarto — praticamente sem salário, em troca do direito de cultivar alimentos entre as fileiras. Era o arranjo preferido dos colonos, o que sugere que a produção de gêneros ali não abastecia só a casa: sobrava para vender no mercado local.1

Pessoas escravizadas em fazenda de café, c. 1885 · 1885 · Wikimedia Commons · Public domain
Estabilidade, aqui, não quer dizer paz. Atritos entre colonos e fazendeiros eram constantes, houve greves, e os colonos — diferentemente de quem havia sido escravizado — podiam ir embora: trocavam de fazenda ou rumavam para a cidade atrás de coisa melhor.1
- Dicotomia que a escola exagera — Vale do Paraíba “velho” contra Oeste Paulista “novo” é simplificação. Famílias do vale abriram fazendas nas áreas novas — Fausto cita os Paula Machado, os Alves Porto e o coronel Virgílio Rodrigues Alves.
- Mecanismo cambial invertido — moeda nacional FORTE prejudicava o cafeicultor; moeda fraca o compensava. Como a valorização do mil-réis vinha desde Campos Sales, a queda do preço internacional não era amortecida pelo câmbio.
- O convênio não saiu como estava escrito — assinado por São Paulo, Minas e Rio em fevereiro de 1906, foi executado quase só por São Paulo, com importadores norte-americanos liderados por Hermann Sielcken. A garantia federal só veio em 1908, com Afonso Pena.
- Controvérsia historiográfica aberta — a tese de que a desvalorização cambial era opção deliberada para favorecer o café vem sendo contestada; Fausto registra a leitura alternativa, que atribui a depreciação de longo prazo à situação precária das finanças brasileiras.
- Colonato não é salário puro — havia dois pagamentos em dinheiro — um anual pelo trato dos pés e outro pela colheita —, mas também moradia e terra cedida para plantar comida. Chamar de assalariamento simples apaga metade do arranjo.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Meio século de política do café, em sete marcos
Por que o Estado comprou café — e o que isso produziu
O tamanho da intervenção
O convênio no papel e o convênio na prática
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| A classe | burguesia do café — nascida da expansão paulista das últimas décadas do século 19 |
| Instrumento político | Partido Republicano Paulista, fundado em 1873, com a federação como bandeira central |
| Base jurídica | Constituição de 1891, art. 65, §2º: empréstimo externo, imposto de exportação e força pública estadual |
| Problema 1 | superprodução paulista derruba o preço internacional |
| Problema 2 | moeda nacional valorizada desde Campos Sales impede compensar a queda no câmbio |
| Convênio de Taubaté | fevereiro de 1906, assinado por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro |
| Mecanismo | empréstimo de 15 milhões de libras para comprar café, estocar e revender em safra fraca |
| Execução real | São Paulo quase sozinho, com importadores dos EUA liderados por Hermann Sielcken |
| Volume comprado | cerca de 8,2 milhões de sacas até o fim de 1907, contra safra de 20 milhões em 1906–1907 |
| Garantia federal | 1908, pedida ao Congresso por Afonso Pena; crítica de Pandiá Calógeras |
| Resultado | preços em alta de 1909 a 1912; empréstimo pago em junho de 1913 |
| Segunda valorização | durante a Primeira Guerra, até 1919, com emissão de papel-moeda federal |
| Terceira valorização | a partir de 1921, com Epitácio Pessoa; emissões de 1921–1923 geram inflação |
| 1924 | Bernardes abandona a defesa do café e São Paulo a assume em caráter permanente |
| Trabalho na lavoura | imigração resolve o fluxo de mão de obra; colonato estrutura a relação de trabalho |
| Controvérsia | a tese do câmbio manipulado em favor do café é contestada na historiografia recente |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- LOVE, Joseph. A Locomotiva: São Paulo na Federação Brasileira, 1889–1937. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
- HOLLOWAY, Thomas. Imigrantes para o Café. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
- DEAN, Warren. A Industrialização de São Paulo. São Paulo: Difel.