Coronelismo e a política dos governadores
O arranjo que deu estabilidade à Primeira República não estava em nenhuma lei: estava numa alteração no regimento interno da Câmara dos Deputados. Somada ao poder local dos “coronéis”, ela permitiu que 1,4% da população elegesse um presidente sem que ninguém contestasse o resultado.

O batalhão do coronel Horácio de Matos, na Chapada Diamantina · 1930 · Wikimedia Commons · Public domain
Se a Constituição de 1891 instituiu voto direto e universal, por que em 1906 apenas 1,4% da população elegeu o presidente — e por que ninguém contestou o resultado?
Este artigo responde a essa pergunta em duas camadas que precisam ser lidas juntas. Embaixo, o poder local do coronel, que controla quem vota e como vota. Em cima, um arranjo institucional montado em 1898 que decide quem, entre os eleitos, vai efetivamente tomar posse. Uma camada sozinha não explica o sistema; as duas encaixadas explicam.
De onde vem a patente
A expressão “República dos coronéis” remete aos coronéis da antiga Guarda Nacional — em sua maioria proprietários rurais com base local de poder. E Fausto abre o assunto com uma advertência que vale como aviso de prova: a expressão presta-se a equívocos. O coronelismo de fato se associa à Primeira República, mas seria errôneo afirmar que a República pertenceu aos coronéis.1
A patente vinha da Guarda Nacional, milícia de cidadãos organizada no Império — e não do Exército. Por isso o coronel é tipicamente um fazendeiro, não um militar de carreira. Quem confunde as duas coisas erra o retrato social do personagem.
Coronelismo é um caso particular de outra coisa
Aqui está a definição que organiza o assunto inteiro. O coronelismo é uma variante de uma relação sociopolítica mais ampla, o clientelismo — que existia tanto no campo quanto nas cidades.1
E o clientelismo, por sua vez, tem causas estruturais que Fausto lista com precisão. São quatro, e nenhuma delas é “atraso cultural”: a desigualdade social; a impossibilidade de os cidadãos efetivarem seus direitos; a precariedade ou inexistência de serviços assistenciais do Estado; e a inexistência de uma carreira no serviço público.1
Leia essa lista de novo pensando em quem vivia no interior em 1900. Se não há hospital público, quem consegue a vaga? Se não há concurso, quem indica a professora? Se o direito escrito não se efetiva sozinho, quem resolve? A resposta é sempre a mesma pessoa — e é ela que pede o voto depois.1
LembrePor que o clientelismo não é “atraso”, e sim estrutura?
Porque ele preenche vazios reais do Estado. Onde não existe serviço público universal nem carreira administrativa, o favor pessoal vira o único caminho para obter o que deveria ser direito. Mude a estrutura e a relação muda; mantenha a estrutura e ela se reproduz, inclusive na cidade.
O que a República acrescentou
Todas essas características vinham desde a Colônia. O que a República fez foi criar condições para que os chefes locais concentrassem mais poder — e Fausto aponta dois mecanismos concretos: a ampliação da fatia de impostos destinada aos municípios e a eleição dos prefeitos.1
Ou seja, o regime novo colocou dinheiro e cargo eletivo ao alcance de quem já mandava na região. Não é que o coronelismo tenha nascido em 1889; é que ele ganhou instrumentos que a Monarquia centralizada não oferecia.1
Como funcionava a troca
No plano eleitoral, o coronel controlava os votantes de sua área de influência. E a moeda dessa troca é o detalhe que fixa o assunto na memória. Fausto enumera o que se dava em troca do voto no candidato indicado: “um par de sapatos, uma vaga no hospital ou um emprego de professora”.1
Repare no tamanho desses favores. Não se compra consciência política com fortuna: compra-se com o que falta. É a medida da carência que explica a eficácia do sistema.1
Mas eles não mandavam sozinhos
Este é o ponto em que a maioria dos resumos escolares erra. Fausto afirma que seria errôneo imaginar que os coronéis dominaram a cena política da Primeira República, e dá duas razões.1
Primeira: outros grupos, representando interesses urbanos diversos, tiveram papel significativo na condução da política.1
Segunda, e mais importante: eles eram peça essencial da sustentação do sistema oligárquico e, ainda assim, precisavam de outras instâncias para se manter no lugar. Nos grandes estados essa instância tinha nome — o governo estadual, que não era um ajuntamento de coronéis.1
A relação, portanto, tinha mão dupla. O coronel fornecia votos aos chefes políticos do estado; em troca, dependia deles para entregar boa parte dos benefícios que seus eleitores esperavam — sobretudo os coletivos, como consertar uma estrada ou instalar uma escola. Um par de sapatos o coronel paga do bolso; uma escola, não.1

Padre Cícero em 1899 · 1899 · Wikimedia Commons · Public domain
Não havia um coronelismo, havia vários
O fenômeno teve marcas distintas conforme a realidade sociopolítica de cada região. O caso extremo ficava no sertão nordestino, na faixa do rio São Francisco: ali se formaram chefias que Fausto chama de “nações de coronéis” — mandos locais com tropa armada própria.1
Na Bahia, o governo estadual — formado sobretudo por políticos profissionais, representantes do comércio e produtores para exportação — precisava se harmonizar com os coronéis do sertão. Sem isso, não havia como governar.1
E quando o acerto falhou, o resultado foi guerra. Em 1920, um desentendimento provocou uma insurreição dos coronéis: eles derrotaram as forças estaduais em vários combates e chegaram a ameaçar entrar em Salvador. Coube ao presidente Epitácio Pessoa arbitrar o conflito, e ele o fez por intermédio do comandante militar do estado.1
O resultado da arbitragem mostra quem tinha força de fato. O coronel mais famoso do estado, Horácio de Matos, saiu do acerto com o direito de manter armamento e munição e com o controle de doze municípios sob sua influência. Ao longo dos anos 1920 o poder estadual enfraqueceu na Bahia, e o grande árbitro das disputas deixou de ser o governador: passou a ser o presidente da República.1

Comissão de desarmamento das Lavras Diamantinas · 1930 · Wikimedia Commons · Public domain
Nos estados mais importantes, o quadro era outro: ali os coronéis dependiam de estruturas mais amplas, a máquina do governo e o Partido Republicano estadual. Em Minas, a subordinação cabia numa sentença que praticamente ninguém contestava em voz alta: “Fora do PRM não há salvação” — e ela vale desde a formação do partido, em 1897. No Rio Grande do Sul, o requisito principal para ser coronel era obedecer às ordens de cima, vindas do governo estadual, o que rendeu ao grupo o apelido de “coronéis burocratas”. E em São Paulo cresceu o aparelho de Estado como corpo administrativo: sob Washington Luís, em 1921, veio o estímulo à profissionalização do Judiciário, com exame de ingresso à magistratura, critérios de promoção e aumento de salários — medidas que, apesar da distância entre a lei e a prática, tornaram polícia e juízes menos dependentes dos grandes proprietários rurais.1
A camada de cima: a política dos governadores
Vencida a fase das revoltas armadas, a elite política dos grandes estados havia triunfado — mas faltava criar instrumentos para que essa República de poucos se assentasse num sistema estável.1
Os problemas eram concretos. O peso atribuído aos estados provocara em vários deles lutas entre grupos rivais, e o governo federal intervinha usando poderes controvertidos da Constituição — o que tornava incerto o controle do poder em alguns estados e atrapalhava qualquer acerto duradouro com a União. Além disso, o Executivo tinha dificuldade de se impor ao Legislativo.1
Foi a partir desse diagnóstico que Campos Sales concebeu o arranjo conhecido como política dos governadores. Eram três as metas: apaziguar as brigas internas de cada estado, dando prestígio a quem já era mais forte lá dentro; costurar um entendimento estável entre o governo federal e os estados; e domar o Legislativo, interferindo em quem chegava à Câmara.1
A troca era simples de enunciar: o governo central sustentaria os grupos dominantes nos estados, e estes, em contrapartida, apoiariam a política do presidente da República.1

Campos Sales, presidente entre 1898 e 1902 · 1898 · Wikimedia Commons · Public domain
O truque estava no regimento interno
Aqui está a parte que mais impressiona quando se entende, e que Fausto recomenda conhecer justamente por ser exemplo vivo de como se manipulava a representação popular.1
Passo 1. As eleições para a Câmara eram feitas nos estados com todo tipo de ilegalidade. O candidato eleito recebia um diploma — e esse diploma era frequentemente contestado.1
Passo 2. Como não existia justiça eleitoral, quem decidia se o diploma valia era uma comissão de verificação de poderes, formada por deputados escolhidos pelo plenário da Câmara.1
Passo 3. Quem tinha papel decisivo na escolha dos membros dessa comissão era o presidente temporário da nova Câmara. E é exatamente aí que a reforma mexeu.1
Passo 4. Antes, o presidente temporário era o mais velho entre os deputados diplomados — ou seja, um nome imprevisível. Depois da mudança, o cargo passou a caber ao deputado que havia presidido a Câmara na legislatura encerrada, desde que tivesse se reelegido. Em regra, uma figura afinada com o presidente da República.1
Passo 5. Com um presidente temporário de confiança influindo na composição da comissão, garantia-se o mandato a quem representasse os grupos dominantes nos estados e fosse fiel ao governo federal. Quem não merecesse essa confiança era excluído — ou “degolado”, como se dizia na gíria política da época.1
É o detalhe mais elegante e mais perturbador do assunto. A Constituição continuou a mesma. O que mudou foi quem preside a sessão de abertura da Câmara — e isso bastou para decidir quem toma posse. Sistemas de poder raramente precisam alterar a lei: basta controlar quem aplica o procedimento.
O eleitorado que sobrava
À primeira vista, pareceria que a massa da população poderia quebrar o domínio das oligarquias pelo voto. Fausto explica por que isso não acontecia.1
O voto não era obrigatório, e o povo em regra encarava a política como jogo entre os grandes ou como troca de favores. O desinteresse aumentava quando os partidos estaduais se acertavam e lançavam candidatura única, ou quando a oposição não tinha chance alguma.1
O resultado está nos números, e eles se movem numa faixa estreita. No piso, 1,4% de toda a população do país compareceu à eleição de Afonso Pena, em 1906. No teto, 5,7% na de Júlio Prestes, em 1930.1
E o número apurado dizia pouco sobre a vontade de quem votou. Como se votava a descoberto, o eleitor ficava exposto ao chefe político da sua região — a quem, ainda por cima, convinha agradar. Some a isso a fraude escancarada: ata falsificada, defunto votando, estrangeiro votando. Nada disso era invenção republicana — era herança direta das práticas do Império.1
Duas ressalvas que valem nota
Fausto faz questão de não deixar o retrato completamente escuro, e quem responde bem repete as duas ressalvas.1
Primeira: comparativamente, o comparecimento cresceu em relação ao Império. Confrontando a eleição para a legislatura imperial de 1886 com a eleição presidencial de 1898, a participação eleitoral aumentou 400%.1
Segunda: nem toda eleição presidencial foi simples ratificação de um nome combinado. Houve bastante disputa em 1910, 1922 e 1930 — os pleitos que elegeram, respectivamente, Hermes da Fonseca, Artur Bernardes e Júlio Prestes.1
A frase pronta “na Primeira República ninguém votava e tudo era fraude” perde ponto por imprecisão. A formulação correta é outra: a participação era baixíssima e o voto era controlado, e ainda assim ela cresceu em relação ao Império e houve disputa real em 1910, 1922 e 1930.
- A expressão engana — “República dos coronéis” é rótulo útil e impreciso. Fausto adverte que seria errôneo dizer que a República pertenceu aos coronéis: eles sustentavam a base do sistema, mas dependiam do governo estadual.
- Definição que costuma ser mal dada — coronelismo é uma variante do clientelismo, e o clientelismo nasce da desigualdade social, da inefetividade dos direitos, da ausência de serviços assistenciais e da falta de carreira no serviço público.
- O que a República acrescentou — não criou o fenômeno, que vinha da Colônia. Deu a ele dois instrumentos novos: mais impostos para os municípios e a eleição dos prefeitos.
- O arranjo de 1898 não é lei — a política dos governadores operava por uma alteração no regimento interno da Câmara, que definia quem presidia a sessão de abertura e, por consequência, quem compunha a comissão de verificação de poderes.
- Os números do voto, com as ressalvas — de 1,4% da população em 1906 a 5,7% em 1930. Ainda assim, a participação cresceu 400% em relação ao Império (comparando 1886 e 1898), e houve disputa real em 1910, 1922 e 1930.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Do município fortalecido à eleição de 1930
O problema que Campos Sales tinha, e o que o arranjo produziu
Quem votava na Primeira República
Dois coronelismos, no mesmo país
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Origem da patente | coronéis da antiga Guarda Nacional, em geral proprietários rurais com base local |
| Definição | variante do clientelismo, relação existente tanto no campo quanto nas cidades |
| Causas estruturais | desigualdade, direitos inefetivos, ausência de serviços assistenciais, serviço público sem carreira |
| O que a República acrescentou | mais impostos aos municípios e eleição dos prefeitos |
| A troca eleitoral | votos por favores: um par de sapatos, uma vaga no hospital, um emprego de professora |
| Limite do poder do coronel | dependia do governo estadual para os benefícios coletivos — estradas, escolas |
| Caso extremo | “nações de coronéis” no sertão do São Francisco, com forças militares próprias |
| Bahia, 1920 | insurreição derrota as forças estaduais; Epitácio Pessoa arbitra; Horácio de Matos fica com doze municípios |
| Minas Gerais | “Fora do PRM não há salvação”, desde a formação do partido em 1897 |
| Rio Grande do Sul | “coronéis burocratas”, obedientes ao governo estadual |
| São Paulo | profissionalização da magistratura sob Washington Luís, em 1921 |
| Política dos governadores | arranjo de Campos Sales: a União apoia quem domina o estado, e o estado apoia o presidente |
| Instrumento | mudança no regimento da Câmara sobre quem preside a sessão de abertura |
| Comissão de verificação | validava os diplomas na ausência de justiça eleitoral; excluía os hostis — a “degola” |
| Comparecimento | de 1,4% da população (1906) a 5,7% (1930) |
| Ressalvas | participação cresceu 400% em relação ao Império (1886 × 1898); houve disputa real em 1910, 1922 e 1930 |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, Enxada e Voto. São Paulo: Companhia das Letras.
- CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
- QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. O Mandonismo Local na Vida Política Brasileira. São Paulo: Alfa-Ômega.