Canudos
A explicação pelo fanatismo religioso é a que mais se repete — e é a que a própria fonte desmonta. A palavra “fanáticos” foi de quem atacou, o estopim foi um negócio de madeira, e a conspiração monarquista era fantasia. Entender por que essa versão pegou é entender o episódio.

A população sobrevivente de Canudos, 1897 · 1897 · Wikimedia Commons · Public domain
Se você já estudou Canudos, provavelmente ouviu que foi um surto de fanatismo religioso no sertão. Essa explicação tem um problema sério: a palavra “fanáticos” não é do historiador — é de quem atacou. Vale examinar por que ela pegou, e o que ela serviu para justificar.
Fausto abre o assunto situando a escala. Foi um acontecimento muito distante do Rio de Janeiro que, mesmo assim, teve consequências na política da República, marcando os anos do governo de Prudente de Morais. Para entendê-lo é preciso ir ao norte do sertão da Bahia.1
Um arraial de trinta mil pessoas numa fazenda abandonada
O povoado surgiu em 1893, à margem do rio Vaza-Barris, ocupando o terreno de uma fazenda abandonada. Ficou conhecido como Arraial de Canudos.1
O homem à frente dele chamava-se Antônio Vicente Mendes Maciel — e entrou na história pelo apelido: Antônio Conselheiro. A biografia que a fonte traça dele não é a de um místico de nascença. Ele veio do Ceará, era filho de um comerciante que queria fazer dele um padre, e teve uma vida comum antes de virar o que virou: enfrentou problemas financeiros e complicações domésticas, e passou por vários ofícios — foi professor, foi vendedor ambulante — até se converter em beato.1
A definição que Fausto dá dessa figura é precisa e desconfortável: um misto de sacerdote e chefe de jagunços. Antes de se fixar, levava vida nômade pelo sertão, reunindo gente para tarefas concretas: levantar muro de cemitério, erguer igreja e reerguer a que estivesse caída — tudo isso sob a disciplina de uma vida ascética.1
Quando finalmente parou em Canudos, o arraial atraiu população sertaneja em quantidade que a fonte estima entre 20 mil e 30 mil habitantes.1 Guarde esse número: é gente suficiente para fazer de Canudos uma das maiores concentrações urbanas da Bahia naquele momento. Não se junta essa quantidade de pessoas num sertão pobre sem que haja alguma coisa que elas estejam buscando — e sem que haja alguma coisa de que elas estejam fugindo.

A única fotografia conhecida de Antônio Conselheiro · 1897 · Wikimedia Commons · Public domain
O estopim foi um negócio de madeira
Havia um atrito de fundo, e ele não era com o Estado: a pregação do Conselheiro concorria com a da Igreja.1
Mas o que desencadeou a guerra foi outra coisa, e a fonte é desconcertante ao descrevê-la — um incidente sem maior importância, em torno do corte de madeira. Foi esse episódio banal que levou o governador da Bahia a decidir dar uma lição nos “fanáticos”.1
Repare em duas coisas nessa frase, porque elas comandam o resto do artigo. A primeira: a origem do conflito é uma questão de madeira, não uma profecia. A segunda: a palavra “fanáticos” aparece aqui como o rótulo de quem decidiu atacar — não como a descrição do que existia em Canudos.
E então veio o resultado que ninguém previu. Fausto usa o advérbio que o momento merece: surpreendentemente, a força baiana foi derrotada. O governador recorreu então às tropas federais.1
Também elas perderam. Duas expedições, ambas municiadas com canhões e metralhadoras, foram batidas — e em uma delas morreu o comandante, o coronel Moreira César. A notícia produziu, no Rio de Janeiro, uma onda de protestos e de violência.1
LembreCanudos representava uma ameaça militar à República?
A ameaça foi construída depois das derrotas, não antes delas. O conflito começa por um incidente sobre corte de madeira, e a decisão inicial é do governo da Bahia, não da União. O que transforma um caso local em causa nacional é a humilhação militar: tropas com canhão e metralhadora derrotadas por sertanejos, e um coronel morto. Foi a derrota que criou a comoção — e a comoção que pediu o extermínio.
A fantasia monarquista
Foi nesse clima que se montou a explicação que serviria de justificativa. Os jacobinos passaram a enxergar o dedo oculto dos políticos monarquistas por trás de Canudos.1
Fausto não deixa isso passar como interpretação possível. Ele chama a tese de fantasia, e põe outra explicação no lugar dela. O que estava em causa, escreve, eram as condições em que se vivia no sertão e o universo mental daquela gente.1
De onde vinha o combustível da fantasia? De dois fatos, ambos reais, ambos mal lidos. O primeiro: o Conselheiro de fato pregava a volta da Monarquia. O segundo: circulava a convicção de que a República era coisa de ateus e maçons. Como “prova”, apontavam-se duas medidas: uma suposta interdição da Companhia de Jesus e a criação do casamento civil.1
Vale distinguir o que se dizia de o que aquilo significava. Que o Conselheiro pregasse o retorno do rei é fato registrado. Mas repare no que a própria fonte lista como motivo da desconfiança em relação à República: a perseguição que se supunha haver contra uma ordem religiosa, e a retirada do casamento das mãos da Igreja. Ou seja — o que estava em causa, para aquela população, era um regime que parecia estar mudando as regras da vida religiosa. Tratar isso como partido político, e não como reação de um mundo social ameaçado, é o erro que produziu a versão da conspiração.
Agosto de 1897
A quarta investida foi de outra ordem. Sob o comando do general Arthur Oscar, reuniu 8 mil homens e equipamento moderno. O arraial resistiu um mês e meio e foi arrasado em agosto de 1897.1
O que aconteceu com quem estava lá precisa ser dito sem rodeio, porque a fonte também não usa nenhum: os defensores morreram em combate e, quando feitos prisioneiros, foram degolados.1
Não se trata de excesso isolado de tropa em campo. Trata-se de execução de gente rendida, praticada por forças regulares do Estado, ao fim de uma campanha que o próprio Estado apresentava como missão civilizadora.

Ruínas da igreja do Bom Jesus, em Canudos · 1897 · Wikimedia Commons · Public domain
“Civilização contra barbárie” — e a frase que desmonta a frase
Terminada a campanha, veio a narrativa. Para os oficiais positivistas e para os políticos republicanos, aquilo tinha sido uma luta da civilização contra a barbárie.1
É a frase mais citada sobre Canudos, e costuma ser reproduzida como se fosse o veredito da história. Não é — é o veredito dos vencedores. Fausto responde a ela na frase seguinte, e a resposta inverte a acusação: para ele “havia ‘barbárie’ em ambos os lados”, com a parte maior cabendo aos letrados — porque nem sequer tentaram compreender o povo do sertão.1
Repare no rigor dessa formulação. Ela não diz que os sertanejos eram inocentes de toda violência — houve guerra, e guerra dos dois lados. O que ela diz é outra coisa, mais dura: a maior barbárie foi a dos instruídos, e a falha deles não foi militar. Foi não terem sequer tentado compreender quem estavam destruindo.
Onde Canudos se encaixa
Ao tratar dos movimentos sociais no campo da Primeira República, Fausto os separa em três grupos: os que juntam conteúdo religioso com carência social; os que juntam conteúdo religioso com reivindicação social; e os que apresentam reivindicação social sem conteúdo religioso.1
Canudos é o exemplo que ele dá do primeiro grupo.1 E essa classificação é, sozinha, a refutação da leitura pelo fanatismo: na definição do próprio autor, a religião entra como uma das duas metades. A outra metade — a carência social — não é pano de fundo nem detalhe pitoresco. É constitutiva do fenômeno.

Cena encenada da prisão de sertanejos pela cavalaria · 1897 · Wikimedia Commons · Public domain

O 40º Batalhão de Infantaria em Canudos · 1897 · Wikimedia Commons · Public domain
- “Fanáticos” é termo de quem atacou — a palavra aparece na fonte entre aspas, na decisão do governador da Bahia de dar uma lição no arraial. Usá-la como descrição neutra é adotar, sem perceber, o vocabulário de um dos lados do conflito.
- A conspiração monarquista era fantasia — é o termo empregado pela fonte. A tese dos jacobinos se alimentava de dois fatos reais — a pregação monarquista do Conselheiro e a crença de que a República era coisa de ateus e maçons —, mas a explicação está nas condições em que se vivia no sertão e no universo mental daquela gente.
- LACUNA: a estrutura fundiária não está na fonte — Fausto atribui o episódio às condições de vida do sertão e classifica Canudos entre os movimentos que combinam religião com carência social — mas não desenvolve concentração de terra, seca, pecuária nem dados demográficos da região. Este artigo não preenche essa lacuna de memória. Para trabalhá-la, é preciso ir a bibliografia específica sobre o sertão baiano.
- LACUNA: o número de mortos não é dado pela fonte — a fonte informa que o arraial tinha de 20 mil a 30 mil habitantes e que a expedição final reuniu 8 mil homens, mas não fornece total de mortos. Números de vítimas circulam largamente e variam muito entre autores; nenhum deles vem daqui, e por isso nenhum é afirmado.
- A degola de prisioneiros é fato registrado — não é acusação de uma corrente historiográfica: a fonte afirma que os defensores morreram em combate e, quando prisioneiros, foram degolados. Trata-se de execução de gente rendida por forças regulares do Estado.
- Havia barbárie dos dois lados — a formulação de Fausto é exata e não deve ser suavizada em nenhuma das duas direções. Ele não absolve os sertanejos de violência; atribui a parte maior aos letrados, cuja falha não foi militar — foi não terem tentado compreender quem destruíam.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De 1893 a agosto de 1897
A versão que se contou e o que a fonte sustenta
O que estava em jogo, o que o ataque produziu
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Onde | norte do sertão da Bahia, às margens do rio Vaza-Barris |
| Quando se formou | 1893, sobre uma fazenda abandonada |
| Governo federal | Prudente de Morais |
| Líder | Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro |
| Origem | cearense, filho de comerciante que pretendia fazê-lo padre |
| Ofícios anteriores | professor e vendedor ambulante, antes de se converter em beato |
| Definição da fonte | um misto de sacerdote e chefe de jagunços |
| Atividades da vida nômade | levantar muros de cemitério, erguer e reerguer igrejas, sob disciplina ascética |
| População do arraial | de 20 mil a 30 mil habitantes |
| Atrito de fundo | a pregação do Conselheiro concorria com a da Igreja |
| Estopim | um incidente sem maior importância, sobre corte de madeira |
| Primeira decisão | do governador da Bahia, para dar uma lição nos “fanáticos” |
| Resultado inesperado | a força baiana foi derrotada |
| Expedições federais | duas derrotadas, com canhões e metralhadoras; morre o coronel Moreira César |
| Repercussão no Rio | onda de protestos e de violência |
| A tese dos jacobinos | o “dedo oculto” dos monarquistas — que a fonte chama de fantasia |
| O que alimentava a tese | o Conselheiro pregava a volta da Monarquia |
| Provas alegadas | a suposta interdição dos jesuítas e a criação do casamento civil |
| Explicação da fonte | as condições em que se vivia no sertão e o universo mental daquela gente |
| Expedição final | general Arthur Oscar, 8 mil homens, equipamento moderno |
| Desfecho | arraial arrasado em agosto de 1897, após um mês e meio de luta |
| Prisioneiros | foram degolados |
| Narrativa dos vencedores | luta da civilização contra a barbárie |
| Resposta de Fausto | a barbárie estava nos dois lados, com a parte maior cabendo aos letrados |
| Classificação | movimento que combina conteúdo religioso com carência social |
| Lacuna da fonte (1) | não desenvolve estrutura fundiária, seca nem demografia do sertão |
| Lacuna da fonte (2) | não fornece número total de mortos |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- CUNHA, Euclides da. Os Sertões. Rio de Janeiro, 1902. Relato de quem cobriu a campanha como correspondente.
- LEVINE, Robert M. O sertão prometido: o massacre de Canudos. São Paulo: Edusp.
- VILLA, Marco Antonio. Canudos: o povo da terra. São Paulo: Ática.