Deodoro e Floriano
O primeiro presidente da República fechou o Congresso onze meses depois de ser eleito por ele — e renunciou vinte dias depois. O segundo enfrentou uma esquadra revoltada dentro da baía da capital. Os quatro primeiros anos do regime novo foram os mais instáveis dele.

A baía do Rio sob bombardeio, setembro de 1893 · 1893 · Wikimedia Commons · Public domain
O Exército derrubou a Monarquia em uma manhã, sem resistência. Por que os quatro anos seguintes foram os mais violentos e instáveis de toda a Primeira República?
Porque derrubar um regime e montar outro são operações diferentes. Fausto resume a distância entre as duas numa observação que vale guardar: como episódio, a passagem do Império à República quase não custou esforço — e justamente por isso os anos posteriores ao 15 de novembro foram de grande incerteza. Os grupos que disputavam o poder queriam coisas diferentes e não concordavam sobre como organizar o regime que acabavam de criar.1
Uma eleição apertada demais para quem fundou o regime
A Constituição promulgada em fevereiro de 1891 abriu uma exceção para o começo: o primeiro presidente e o primeiro vice não seriam escolhidos pelo eleitorado, e sim pelo voto indireto da Assembleia Constituinte convertida em Congresso comum.1
O resultado foi mais apertado do que se esperaria. Deodoro venceu com 129 votos contra 97 dados ao paulista Prudente de Morais — e a votação de Prudente reuniu tanto congressistas dos grandes estados quanto florianistas. Floriano, por sua vez, foi eleito vice-presidente.1
Quem proclamou a República levou 129 votos; quem representava a elite civil dos grandes estados levou 97 — com apoio de parte dos próprios militares. Nessa aritmética já está escrito o que aconteceria nos três anos seguintes: Deodoro governaria sem maioria confortável e sem tropa unida.
O choque com o Congresso
Deodoro entrou em atrito com o Congresso e alimentou suspeitas ao desmontar o ministério herdado do governo provisório para pôr no lugar outro, chefiado pelo Barão de Lucena — um político de carreira feita na Monarquia. Juntos, passaram a trabalhar por um Executivo mais forte, e o modelo que tinham em mente era o extinto Poder Moderador.1
Em 3 de novembro de 1891, o marechal fechou o Congresso. Prometeu, para depois, novas eleições e uma revisão da Constituição.1
Vale conhecer o teor da revisão prometida, porque ela explica o conflito melhor que qualquer adjetivo. Nas palavras do próprio Deodoro, a mudança iria no sentido do “fortalecimento do Poder Executivo da União e de uma comedida autonomia dos Estados, sem os exageros de soberania que trariam fatalmente a dissolução nacional”. Havia mais dois pontos: unidade da magistratura — ou seja, acabar com a Justiça organizada por cada estado — e igualdade de representação dos estados na Câmara, o que anularia o peso que ali tinham os estados grandes.1
LembreContra quem, exatamente, era o projeto de Deodoro?
Contra São Paulo e Minas Gerais. Bancada igual para todos os estados destrói a vantagem de quem tem mais população, e o fim da Justiça estadual retira dos governos locais um instrumento de poder. O projeto era centralizador — o oposto exato do que a Constituição de 1891 tinha acabado de consagrar.

Marechal Deodoro da Fonseca · 1895 · Wikimedia Commons · Public domain
Vinte dias entre o golpe e a renúncia
O plano dependia de uma condição que não existia: unidade das Forças Armadas. Com os florianistas reagindo, a oposição civil em cima e parte da Marinha contra, o marechal renunciou em 23 de novembro de 1891. Quem assumiu foi o vice, Floriano Peixoto.1
Repare no intervalo: entre fechar o Congresso e deixar o cargo passaram-se vinte dias. É o tipo de dado que economiza parágrafos de explicação — o golpe fracassou porque a corporação que o sustentaria estava rachada.1
Que República Floriano tinha na cabeça
Aqui está o ponto que separa a boa resposta da resposta decorada. Floriano não representava as forças econômicas dominantes. O projeto dele era outro: um governo estável, centralizado e vagamente nacionalista, que se sustentasse no Exército e na juventude das escolas — as civis e as militares.1
Esse desenho batia de frente com a chamada “República dos fazendeiros” — liberal, descentralizada, e que olhava com desconfiança tanto o reforço do Exército quanto os movimentos de rua da população carioca.1
E aí acontece o inesperado. Contrariando o que se poderia prever a partir dessa oposição, houve na presidência de Floriano um acordo tático entre ele e o PRP, o partido da burguesia cafeeira paulista. Governar exige base, e nenhum dos dois lados tinha base suficiente sozinho naquele momento.1

Marechal Floriano Peixoto em 1891 · 1891 · Wikimedia Commons · Public domain
A Revolta da Armada
O momento mais grave veio em 1893, com o levante da esquadra. A Revolta da Armada começou nos navios fundeados no Rio de Janeiro e teve duas causas que Fausto apresenta juntas: a rivalidade entre Exército e Marinha e o ressentimento do almirante Custódio José de Melo, que se via frustrado no objetivo de suceder Floriano na presidência.1
Porque o Exército tinha sido o artífice do novo regime e colhia os frutos disso. A rivalidade entre as duas forças vem de antes de 1889 e atravessa toda a fundação da República: quem derrubou o Império ganhou o direito de ocupá-lo, e a outra corporação ficou de fora do arranjo.
Parte da esquadra rebelde desceu para o Sul e ocupou Desterro — a atual Florianópolis. Ali ela se juntou às colunas de maragatos vindas da guerra civil gaúcha, e a soma das duas forças produziu a fase mais perigosa da crise: a rebelião avançou pelo Paraná e chegou a pôr Curitiba sob seu controle, antes do recuo.1

Combate da Armação, em Niterói, fevereiro de 1894 · 1894 · Wikimedia Commons · Public domain
Foi para vencer essa combinação que o governo federal recorreu a quem tinha dinheiro e tropa organizada: as forças de Floriano contaram com o apoio financeiro de São Paulo e com a Força Pública paulista, que era bem montada. O preço político dessa ajuda aparece na composição do governo — a influência militar foi declinando, a pasta da Fazenda ficou com Rodrigues Alves e o PRP passou a comandar as duas casas do Legislativo.1
1894: a República muda de mãos
O acordo tático entre Floriano e a elite paulista durou até a hora de escolher o sucessor. Com poucas bases de apoio — e entre elas os jacobinos, que Fausto descreve como ruidosos e pouco eficazes —, o marechal não conseguiu emplacar candidato próprio. Prevaleceu o nome do paulista Prudente de Morais, eleito em 1º de março de 1894.1
A contrariedade de Floriano ficou registrada num gesto: ele não compareceu à posse do sucessor. As crônicas do tempo contam que ele preferiu passar o dia na sua casa simples, entre as roseiras.1
Aquela sucessão marcou algo maior que a troca de um nome por outro: foi o fim da presença de figuras do Exército na presidência da República — com uma única exceção posterior, o marechal Hermes da Fonseca, eleito para o período de 1910 a 1914. E não foi só a cadeira presidencial: a atividade política dos militares como um todo declinou, e o Clube Militar ficou fechado entre 1896 e 1901.1
1894 é a fronteira. Antes dela, a República é comandada por marechais e sacudida por revoltas; depois, ela vira o arranjo civil e oligárquico que o vestibular costuma chamar de República Velha. Os militares voltam ao centro da cena apenas em 1910, com Hermes, e como força de oposição a partir de 1922.
Os jacobinos: o florianismo sem Floriano
Já no governo de Prudente, ficou aguda uma oposição que vinha da época anterior: de um lado a elite política dos grandes estados, de outro o republicanismo jacobino, concentrado no Rio de Janeiro.1
O nome vem da Revolução Francesa, e o programa é reconhecível. Queriam um Estado forte, capaz de enfrentar as ameaças monarquistas que, na visão deles, estavam em toda parte. Eram adversários da República liberal e cultivavam uma tradição patriótica e antilusitana — os “galegos”, que controlavam boa parte do comércio carioca, viravam alvo de ataques violentos.1
Foram eles que apoiaram Floriano e que, depois da morte do marechal em junho de 1895, transformaram seu nome em bandeira. O desfecho do movimento é sombrio: o jacobinismo se esfacelou depois que alguns de seus integrantes se envolveram numa tentativa de assassinar Prudente de Morais.1

O forte de Villegagnon durante a revolta · 1893 · Wikimedia Commons · Public domain
- Ordem dos fatos em 1891 — Deodoro fechou o Congresso em 3 de novembro e renunciou em 23 de novembro. As eleições e a revisão constitucional que ele prometeu nunca aconteceram.
- Floriano não era o que parece — ele não representava as forças econômicas dominantes. Seu projeto era centralizador e apoiado no Exército, e chocava-se com a “República dos fazendeiros” — o acordo com o PRP foi tático, não programático.
- Causas da Revolta da Armada — duas, e ambas contam: a rivalidade entre Exército e Marinha e o ressentimento pessoal do almirante Custódio José de Melo, frustrado na pretensão de suceder Floriano.
- Quem pagou a conta da vitória — as tropas do governo federal foram sustentadas por dinheiro paulista e pela Força Pública de São Paulo. É por isso que a influência militar no governo declina justamente quando Floriano vence militarmente.
- 1894 como divisor — a eleição de Prudente encerra a presença de militares na presidência até Hermes da Fonseca (1910–1914). O Clube Militar ficaria fechado entre 1896 e 1901.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Quatro anos de instabilidade, em sete marcos
O que gerou a crise, e como ela se resolveu
A eleição indireta de 1891
A Constituição de 1891 e a revisão que Deodoro queria
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Eleição de 1891 | voto indireto do Congresso, em fevereiro; exceção prevista para o início do regime |
| Placar | 129 votos para Deodoro contra 97 para Prudente de Morais |
| Vice-presidente | Floriano Peixoto |
| Ministério de Deodoro | chefiado pelo Barão de Lucena, político de carreira monárquica |
| Modelo buscado | reforço do Executivo tendo como referência o extinto Poder Moderador |
| Fechamento do Congresso | 3 de novembro de 1891, com promessa de eleições e revisão constitucional |
| Pontos da revisão | Executivo forte, autonomia estadual limitada, unidade da magistratura, bancadas iguais |
| Renúncia | 23 de novembro de 1891 — vinte dias depois do fechamento |
| Projeto de Floriano | governo centralizado e vagamente nacionalista, apoiado no Exército e nas escolas |
| Acordo inesperado | entendimento tático entre Floriano e o PRP, partido da burguesia cafeeira |
| Revolta da Armada | 1893; rivalidade Exército–Marinha e ressentimento do almirante Custódio José de Melo |
| Alcance da revolta | esquadra rebelde ocupa Desterro e se une aos maragatos; federalistas tomam Curitiba |
| Quem sustentou o governo | dinheiro de São Paulo e a Força Pública paulista; Rodrigues Alves na Fazenda |
| Sucessão | Prudente de Morais eleito em 1º de março de 1894; Floriano não compareceu à posse |
| Consequência de longo prazo | fim dos militares na presidência até Hermes da Fonseca (1910–1914); Clube Militar fechado de 1896 a 1901 |
| Jacobinos | republicanos radicais do Rio, antilusitanos; fizeram de Floriano bandeira após sua morte, em junho de 1895 |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
- CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
- QUEIROZ, Suely Robles Reis de. Os Radicais da República. São Paulo: Brasiliense, 1986.