História Verso
História do Brasil · Primeira República

O Encilhamento

O nome vem do hipódromo: encilhamento é o lugar onde se ajustam os arreios do cavalo antes do páreo. Aplicado à Bolsa do Rio em 1890, virou sinônimo de jogatina — mas por trás da febre havia um problema econômico real, e é ele que este artigo explica primeiro.

189013 min de leitura4 fontes
O prédio da Bolsa de Fundos Públicos do Rio de Janeiro · Núcleo de digitalização / IMS · 2020-04-01 23:24:29
O prédio da Bolsa de Fundos Públicos do Rio de Janeiro. Foi no pregão desta casa que ações de empresas — algumas reais, outras que nunca produziram nada — trocaram de mão em 1890 e desabaram no ano seguinte.
O prédio da Bolsa de Fundos Públicos do Rio de Janeiro · 2020 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Uma economia que acabou de substituir trabalho escravizado por trabalho pago precisa de mais dinheiro em circulação. Por que a tentativa de resolver esse problema real terminou em bolha especulativa?

Este é o assunto mais técnico do capítulo, e por isso a ordem aqui importa: primeiro o mecanismo, depois o julgamento. Quem decora só a palavra “Encilhamento” e a associa a “especulação” aprendeu o rótulo e perdeu o processo — que é justamente o que a questão de vestibular pede.

De onde vem o nome

Fausto registra que não se sabe ao certo por que a expressão pegou. A explicação que ele considera mais plausível vem do turfe: encilhamento é o local onde se dão os últimos retoques nos cavalos de corrida antes de eles disputarem o páreo. Por analogia, o termo passou a nomear o vaivém dos papéis negociados no pregão da Bolsa do Rio de Janeiro — e carregava embutida a ideia de jogatina.1

O nome já é uma interpretação
Repare que a alcunha não é neutra: quem batizou o episódio com vocabulário de hipódromo estava dizendo que aquilo era aposta, não investimento. A palavra que a história guardou já contém o veredito de quem assistiu — e é por isso que vale reconstruir o mecanismo antes de aceitar o rótulo.

O problema era real

Antes da febre, havia um diagnóstico correto. Desde os últimos dias do Império já se constatava que o meio circulante — isto é, a quantidade de moeda em circulação no país — era incompatível com duas novidades que tinham acabado de chegar: o trabalho assalariado e a entrada em massa de imigrantes.1

Vale desdobrar isso, porque é o coração do assunto. Numa fazenda escravista, o trabalhador não recebe dinheiro: ele é propriedade, e a operação econômica se faz quase sem moeda circulando por baixo. Com a Abolição, em 1888, e com a chegada de centenas de milhares de imigrantes, a mesma lavoura passou a precisar de dinheiro vivo toda semana para pagar quem trabalha — e cada trabalhador pago vira um comprador que também precisa de moeda para gastar. A quantidade de dinheiro que servia ao Brasil de 1880 simplesmente não servia ao Brasil de 1890.1

LembrePor que a Abolição pressiona a quantidade de moeda?

Porque trabalho escravizado se sustenta praticamente sem circulação de dinheiro entre patrão e trabalhador, enquanto trabalho assalariado exige pagamento em moeda, repetido. Somando a isso a imigração em massa, o país passou a ter muito mais gente comprando e vendendo com dinheiro na mão.

A solução escolhida, em duas peças

Rui Barbosa, à frente da Fazenda no governo provisório, assinou um conjunto de decretos com dois propósitos declarados: pôr mais moeda em circulação e desburocratizar a abertura de sociedades anônimas.1

Primeira peça: a emissão. A medida mais importante do pacote deu a alguns bancos a faculdade de emitir moeda. Guarde isto, porque é o que confunde a maioria dos estudantes: não era o Tesouro imprimindo dinheiro — eram bancos privados autorizados a fazê-lo. O protagonista da operação foi o Banco dos Estados Unidos do Brasil, casa emissora sediada na capital e comandada por Francisco de Paula Mayrink, nome de peso entre os empresários do tempo.1

Segunda peça: a sociedade anônima. Em paralelo, ficou mais fácil constituir empresas de capital aberto — aquelas que se financiam vendendo ações a terceiros. Sozinha, essa medida seria apenas modernizadora. Combinada com a primeira, virou outra coisa.1

Rui Barbosa em 1890 · L. Wilde · 1890
Rui Barbosa retratado em 1890, ano exato em que, como ministro da Fazenda do governo provisório, autorizou bancos a emitir moeda. O mesmo jurista que redigiria a revisão do projeto constitucional assinou a política monetária do período.
Rui Barbosa em 1890 · 1890 · Wikimedia Commons · Public domain

Como as duas peças, juntas, produzem uma bolha

Acompanhe a engrenagem, um passo de cada vez. É simples quando se enumera.1

Passo 1. Bancos podem emitir. Logo, existe muito mais moeda disponível do que antes, e o crédito se expande: fica fácil e barato tomar dinheiro emprestado.1

Passo 2. Abrir uma sociedade anônima ficou simples. Logo, quem tem crédito na mão pode fundar uma empresa e vender ações dela ao público.1

Passo 3. Instala-se um clima que Fausto sintetiza numa expressão: a sensação de que o regime novo seria “o reino dos negócios”. Companhias brotam às dezenas — parte delas de verdade, parte pura fantasia.1

Passo 4. Com dinheiro sobrando e papéis novos aparecendo todo dia, o preço das ações sobe porque há mais dinheiro perseguindo papel, e não porque as empresas passaram a produzir mais. Quem compra hoje conta com quem vai comprar amanhã por mais. É essa a definição prática de bolha.1

Passo 5. Enquanto isso, o mesmo excesso de moeda encarece o que se compra na rua: a especulação cresceu nas bolsas e o custo de vida subiu fortemente. A conta chega primeiro a quem vive de salário.1

Questão 01múltipla escolha · sem placar
A medida mais importante adotada por Rui Barbosa no Ministério da Fazenda do governo provisório foi:
  1. Incorreta. É quase o inverso do que ocorreu: em vez de concentrar a emissão, a política do período a distribuiu entre bancos autorizados.

  2. Incorreta. As medidas facilitaram, e não proibiram, a criação de sociedades anônimas — foi essa facilidade, somada ao crédito farto, que alimentou a febre.

  3. Incorreta. Não houve conversibilidade plena. O que aconteceu com o câmbio foi o oposto: no início de 1891 a moeda brasileira começou a despencar frente à libra.

  4. Correta. É a medida central do pacote. O banco emissor do Rio, dirigido por Francisco de Paula Mayrink, teve papel fundamental na expansão do crédito.

  5. Incorreta. Nada disso ocorreu. A intervenção se deu na emissão de moeda e nas regras de constituição de empresas, não na propriedade da bolsa.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

O estouro, no início de 1891

A virada veio logo. Nos primeiros meses de 1891 o preço das ações desabou, e vieram as falências de estabelecimentos bancários e de empresas. O valor da moeda brasileira, medido em libras esterlinas, começou a despencar.1

Sobre a causa externa, Fausto é cuidadoso — e vale copiar esse cuidado. Ele diz que é possível que tenha concorrido para a queda um refluxo dos capitais britânicos aplicados na América Latina, depois da grave crise financeira argentina de 1890. Note o verbo: é hipótese apresentada como hipótese, não causa afirmada.1

Um hábito que vale levar para a prova
Quando a fonte escreve “é possível que”, a resposta boa escreve “é possível que”. Transformar hipótese em certeza é o erro mais comum de quem resume — e o corretor que conhece o assunto percebe na hora.
A Praça do Comércio, com a Bolsa em destaque · Núcleo de digitalização / IMS · between circa 1900 and circa 1910
A Praça do Comércio, com o prédio da Bolsa em destaque. Bolsa, bancos e casas comissárias ocupavam poucas quadras da capital — proximidade que ajuda a explicar a velocidade com que o boato virava cotação.
A Praça do Comércio, com a Bolsa em destaque · 1900 · Wikimedia Commons · Public domain

A conta que sobrou para a década

O episódio termina em 1891, mas o rombo não. A situação financeira herdada da Monarquia já era grave e ficou dramática: a República recebeu uma dívida externa que consumia anualmente boa parte do saldo comercial, e ao longo dos anos 1890 o déficit público aumentou — a distância entre arrecadação e despesa foi ficando maior a cada exercício.1

Boa parte da despesa vinha das operações militares daquele período incerto — as revoltas que sacudiram os governos de Deodoro e Floriano. Recorreu-se com frequência ao crédito externo, e a dívida cresceu cerca de 30% entre 1890 e 1897 — sendo que cada empréstimo novo criava obrigação futura.1

Para piorar, o café colaborou contra. A expansão das plantações no começo da década produziu colheitas enormes em 1896 e 1897; a oferta maior derrubou o preço internacional e reduziu a entrada de divisas — moeda estrangeira forte, que naquela época significava sobretudo a libra inglesa.1

No fim de seu governo, ficando claro que o país não teria como continuar pagando o serviço da dívida, Prudente de Morais abriu conversas com os credores internacionais. Houve entendimentos no Rio com o London and River Plate Bank, e Campos Sales — já eleito, mas ainda não empossado — foi pessoalmente a Londres tratar com os Rothschild. Desse processo saiu o acordo conhecido como funding loan, de 1898.1

Rua Primeiro de Março, por volta de 1890 · Núcleo de digitalização / IMS · 1890
Rua Primeiro de Março, por volta de 1890. A rua do dinheiro na capital que acabara de virar republicana — fotografia do próprio ano em que a febre começou.
Rua Primeiro de Março, por volta de 1890 · 1890 · Wikimedia Commons · Public domain

Quem sobrou de pé

Há um efeito de longo prazo que quase nunca aparece no resumo escolar, e ele é o mais revelador. Depois do acordo de 1898, uma leva de bancos brasileiros quebrou — e os estrangeiros ganharam terreno.1

A comparação que Fausto oferece é constrangedora: o maior banco inglês atuando aqui, o London and Brazilian Bank, dispunha de muito mais recursos que o Banco do Brasil. E o desequilíbrio durou: ainda em 1929, os estabelecimentos bancários estrangeiros respondiam por metade das transações no país.1

Junte as duas pontas e o balanço fica claro. Uma política que pretendia dotar o Brasil de moeda e de empresas próprias terminou, uma década depois, com o sistema bancário nacional enfraquecido e o crédito do país nas mãos de quem estava fora dele. Fausto aponta, aliás, que os maiores lucros das empresas estrangeiras aqui foram, ao que parece, os dos bancos — que ganhavam especulando com a instabilidade da moeda brasileira ou com a recessão.1

A rua do Ouvidor · Núcleo de digitalização / IMS · 2022-09-22 19:40:25
A rua do Ouvidor, via do comércio fino e dos jornais do Rio. É na vitrine desse tipo de rua que a alta do custo de vida provocada pela expansão monetária aparecia para quem vivia de salário.
A rua do Ouvidor · 2022 · Wikimedia Commons · Public domain
Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre os efeitos financeiros da década de 1890 no Brasil, é correto afirmar que:
  1. Correta. É a sequência correta. As despesas com operações militares, o recurso frequente ao crédito externo e a queda do preço do café em 1896–1897 tornaram impossível manter o serviço da dívida.

  2. Incorreta. Foi o contrário: a oferta maior derrubou o preço internacional do produto e reduziu justamente a entrada de divisas.

  3. Incorreta. Depois do funding loan muitos bancos nacionais faliram. O London and Brazilian Bank dispunha de muito mais recursos que o Banco do Brasil, e em 1929 os bancos estrangeiros ainda respondiam por metade das transações.

  4. Incorreta. Emitir moeda não elimina déficit. Ao longo da década de 1890 cresceu a desproporção entre o que o governo gastava e o que arrecadava.

  5. Incorreta. Houve vários: a Revolta da Armada e a Revolução Federalista, entre outros. Boa parte das despesas do período veio justamente do custo dessas operações.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • Quem emitia a moeda — a medida central não foi o Tesouro imprimir dinheiro, e sim a concessão a alguns bancos da faculdade de emitir — com destaque para o Banco dos Estados Unidos do Brasil, de Francisco de Paula Mayrink.
  • O problema por trás da febre era legítimo — o meio circulante herdado do Império era incompatível com o trabalho assalariado e com a imigração em massa. Tratar o Encilhamento apenas como irresponsabilidade apaga o diagnóstico correto que estava na origem.
  • Hipótese apresentada como hipótese — sobre a influência da crise argentina de 1890 e do refluxo de capitais britânicos, Fausto escreve que “é possível” que tenha concorrido para a queda. Não é causa afirmada.
  • Duas medidas, um efeito — emissão bancária e facilidade para abrir sociedades anônimas só produzem bolha quando combinadas: uma cria o dinheiro, a outra cria o papel onde aplicá-lo.
  • O efeito que sobrevive ao episódio — depois do funding loan de 1898 muitos bancos nacionais quebraram e os estrangeiros se fortaleceram — em 1929 ainda respondiam por metade das transações bancárias do país.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Do diagnóstico à conta final

1888Aboliçãoamplia otrabalho pagoem dinheiro1889Repúblicaherda um meiocirculanteinsuficiente1890Decretos deRui Barbosa:bancos passama emitir1890Febre defundação deempresas ealta nasbolsasinício 1891Ações desabam;bancos eempresasquebram1890–1897Dívida externacresce cercade 30%1898Funding loanrenegocia adívida com osRothschildDo diagnóstico correto ao desastre em pouco mais de um ano — e à conta final oito anos depois, com o acordo de 1898.
Os dois marcos em destaque estão a poucos meses de distância: a política que criou a euforia e o ano em que ela virou crise.

O problema real e o que a solução produziu

O PROBLEMA REALO QUE A SOLUÇÃO PRODUZIUFalta dinheiro em circulaçãomeio circulante herdado doImpério é pequeno demaisAbolição muda o pagamentotrabalho assalariado exigemoeda toda semanaImigração em massamais gente comprando evendendo com dinheiroDecretos de Rui Barbosa · 1890bancos autorizados a emitir esociedade anônima facilitadaCrédito fartodinheiro barato procuraonde ser aplicadoEmpresas de papelmuitas reais, muitaspuramente fantásticasEspeculação e carestiaações disparam na bolsa;custo de vida sobe forteO estouro, em 1891ações caem, bancos quebram,a moeda despenca
Leia a coluna da esquerda antes de julgar: as três caixas de causa descrevem um problema legítimo. O desastre está no encadeamento da direita, não na intenção.

Remédio e efeito colateral

O que as medidas queriam resolverPouco dinheiro em circulaçãoEconomia que passou a pagar salárioImigração aumentando a demandapor moedaDificuldade de abrir empresasFalta de crédito para produzirO que de fato aconteceuCrédito farto e baratoEmpresas reais e empresaspuramente fantásticasEspeculação nas bolsas de valoresCusto de vida em forte altaAções desabam no início de 1891Bancos e empresas vão à falência
Cada item da esquerda tem um correspondente torto na direita. É assim que uma política monetária bem-intencionada vira jogatina de bolsa.

A dívida externa na década de 1890

1890base 1001897≈ 130 (+30%)dívida externa brasileira, índice com base 100 em 1890
Índice construído a partir do crescimento de cerca de 30% informado pela fonte. É esse aumento, somado à queda do preço do café, que torna inevitável o acordo de 1898.

Mapa mental do assunto

Encilhamento1890–1891O diagnósticoMeio circulante insuficienteTrabalho assalariado após 1888Imigração em massaAs medidasBancos autorizados a emitirSociedade anônima facilitadaBanco dos Estados Unidos do BrasilA febreEmpresas reais e fantásticasEspeculação na Bolsa do RioCusto de vida em altaA contaCrash no início de 1891Dívida externa +30% até 1897Funding loan de 1898
O ramo destacado é o que separa a resposta completa da resposta pela metade: o Encilhamento não termina em 1891, termina em 1898 — e cobra juros até 1929.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Origem do nomedo turfe: o lugar onde se ajustam os cavalos antes do páreo — a ideia embutida é a de jogatina
Períodoprimeiro ano da República; a crise vem no início de 1891
Problema de origemmeio circulante insuficiente para o trabalho assalariado e a imigração em massa
Responsável pela políticaRui Barbosa, ministro da Fazenda do governo provisório
Medida centralconcessão a alguns bancos da faculdade de emitir moeda
Medida complementarfacilitação da criação de sociedades anônimas
Banco decisivoBanco dos Estados Unidos do Brasil, dirigido por Francisco de Paula Mayrink
Efeito imediatoexpansão do crédito e clima de que a República seria “o reino dos negócios”
Empresas criadasmuitas reais e muitas fantásticas — existiam na cotação, não na produção
Efeito sobre os preçosespeculação nas bolsas e forte alta do custo de vida
A criseinício de 1891: ações desabam, bancos e empresas quebram, a moeda despenca frente à libra
Hipótese externapossível refluxo de capitais britânicos após a crise financeira argentina de 1890
Dívida externacrescimento de cerca de 30% entre 1890 e 1897
Café contra o câmbiosafras enormes em 1896 e 1897 derrubam o preço e reduzem a entrada de divisas
Funding loan1898; Prudente inicia as conversas, Campos Sales vai a Londres tratar com os Rothschild
Efeito de longo prazofalência de bancos nacionais e predomínio dos estrangeiros — metade das transações ainda em 1929
Cada linha responde a uma pergunta que a prova costuma fazer sobre a política monetária do início da República.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. FRANCO, Gustavo H. B. Reforma Monetária e Instabilidade durante a Transição Republicana. Rio de Janeiro: BNDES, 1983.
  3. LEVY, Maria Bárbara. História da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IBMEC, 1977.
  4. SCHULZ, John. A Crise Financeira da Abolição. São Paulo: Edusp, 1996.