História Verso
História do Brasil · Primeira República

Movimentos sociais e o operariado

Em julho de 1917, cinquenta mil trabalhadores pararam São Paulo e bairros inteiros ficaram nas mãos dos grevistas. Quatro anos depois, o Congresso respondia com duas leis — de repressão. O que a maior greve da Primeira República conseguiu, e o que não conseguiu.

191714 min de leitura4 fontes
Manifestação com bandeiras vermelhas na greve de 1917 · Unknown author Unknown author · 1917
Manifestação com bandeiras vermelhas durante a greve geral de 1917 em São Paulo. A multidão desmente a ideia de um operariado insignificante — e, ao mesmo tempo, é excepcional: cenas como esta foram raras na Primeira República.
Manifestação com bandeiras vermelhas na greve de 1917 · 1917 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Cinquenta mil pessoas pararam a maior cidade industrial do país em 1917. Por que, quatro anos depois, o saldo legislativo do episódio era uma lei de indenização por acidente e duas leis de repressão?

A resposta não está na falta de coragem de quem parou. Está na posição que a fábrica ocupava num país cuja riqueza saía da lavoura — e é por aí que Fausto começa a tratar do assunto, com uma advertência que vale como chave de leitura: não se deve exagerar. Ao longo de toda a Primeira República, o movimento da classe trabalhadora urbana foi limitado, e só em situações excepcionais chegou a vencer.1

Por que rendia tão pouco

Fausto enumera as razões, e elas se encaixam umas nas outras.1

Peso econômico. A indústria ainda representava pouco diante do complexo agroexportador. Uma paralisação só abalava o país quando era geral, ou quando atingia as engrenagens de que a exportação dependia — ferrovias e portos. Parar uma tecelagem incomodava o dono da tecelagem; parar a estrada de ferro que levava café a Santos incomodava o país inteiro.1

Peso político. O jogo entre oligarquias podia ser jogado inteiro sem que ninguém precisasse agradar ao operariado nascente. Numa República em que se votava pouco e sob controle do chefe local, a massa urbana simplesmente não era eleitorado a ser disputado.1

Divisão interna e medo concreto. Rivalidades étnicas separavam os trabalhadores entre si. E havia um custo imediato para quem se organizasse: bastava se sindicalizar para cair na lista negra dos industriais. Além disso, boa parte era de imigrantes que ainda não tinham desistido de fazer a América e voltar para a Europa — quem se pensa de passagem não constrói organização de longo prazo.1

O detalhe que explica muita coisa
Direito conquistado por pressão, e não escrito em lei, dura enquanto dura a pressão. Fausto observa que os ganhos obtidos dos patrões nesse período se perdiam assim que o momento de força passava. É por isso que a discussão sobre legislação trabalhista importa mais do que parece.

Estrangeiros nas duas pontas

O imigrante aparece na indústria brasileira dos dois lados do balcão: como dono de empresa e como operário, além de fornecer boa parte dos técnicos especializados. Os números da presença estrangeira no chão de fábrica são altos e desiguais entre as duas grandes cidades: nas empresas manufatureiras da capital paulista, 70% dos integrantes eram estrangeiros em 1893; na indústria carioca, a proporção era menor, mas ainda assim expressiva — 39% em 1890.1

Grevistas aguardam audiência com o secretário de Justiça · Unknown author Unknown author · 1917-07
Grevistas aguardam audiência com o secretário de Justiça, em julho de 1917. A legenda de época registra que a maioria ali era de operárias — dado que o resumo escolar do assunto quase sempre apaga.
Grevistas aguardam audiência com o secretário de Justiça · 1917 · Wikimedia Commons · Public domain

Duas capitais, dois movimentos

Não existia um movimento operário brasileiro, no singular. Existiam pelo menos dois, com métodos e objetivos distintos.1

No Distrito Federal, quando surgiram os primeiros partidos operários no fim do século 19, o que predominou foi um socialismo de contornos vagos combinado a um sindicalismo que hoje se chamaria de resultados: melhorar salário, encurtar jornada, exigir condições salubres e, num horizonte pouco mais distante, conseguir que patrões e Estado reconhecessem os sindicatos. Virar a sociedade do avesso não estava na pauta.1

Em São Paulo prevaleceu outra corrente: o anarco-sindicalismo, versão do anarquismo que teve seu auge na Europa e nos Estados Unidos entre as últimas décadas do século 19 e o começo da Primeira Guerra. O objetivo era declaradamente máximo — transformar a sociedade e implantar o socialismo.1

A ideia de como chegar lá tinha uma elegância própria. Não haveria longo período de transição depois da tomada do poder: um ato único e enorme, a greve geral revolucionária, derrubaria a burguesia. E o próprio sindicato anarquista, conduzido por comissões que deviam exprimir a vontade dos sindicalizados em vez da sua própria, já era o rascunho da sociedade almejada — sem Estado, sem desigualdade, organizada como federação livre de trabalhadores.1

A recusa que parece contraditória
Para o anarquista, conquistar direito por lei era perigoso: qualquer vantagem garantida pelo Estado comprometeria o objetivo estratégico. Reivindicação imediata servia como instrumento da ação revolucionária, não como fim. Isso explica a diferença de método em relação ao sindicalismo carioca.

Havia aí uma ironia que Fausto não deixa passar. Adversários do marxismo, os anarquistas levavam ao pé da letra uma frase de Marx — a de que emancipar os trabalhadores é tarefa dos próprios trabalhadores. E, na prática, a distância entre o programa e o Brasil real os obrigou a brigar pelas mesmas reivindicações que seus rivais defendiam. Mesmo assim, as duas correntes gastaram energia guerreando entre si, o que enfraquecia um movimento já frágil.1

LembrePor que o anarquismo pegou em São Paulo e não no Rio?

O Rio tinha estrutura social mais complexa — classe média profissional e burocrática, militares de carreira, estudantes —, o que favorecia arranjos de colaboração entre classes. Em São Paulo a classe média orbitava a burguesia do café, não havia militares inquietos dispostos a se aliar aos de baixo, e a maioria dos operários era estrangeira e sem raízes: patrões e sobretudo governo eram o outro.

Uma ressalva importante, e Fausto faz questão dela: isso são tendências, não fronteiras. Houve sindicalistas contrários ao anarquismo em São Paulo, e houve anarquistas no Rio — a influência deles na capital ficou mais visível justamente entre 1917 e 1920.1

1917: por que naquele momento

Desde o início da República existiam sindicatos, greves e partidos que se diziam operários — e que, aliás, tinham poucos operários e logo desapareciam. Os anarquistas chegaram a tentar organização de alcance nacional, criando em 1906 a Confederação Operária Brasileira. Nada disso era desprezível, e nada disso escondia a fragilidade: o movimento era esparso e raramente incomodava a elite.1

Esse quadro se rompe no intervalo de 1917 a 1920. Paralisações de grande porte se sucedem nas principais cidades, com destaque para Rio e São Paulo, e duas causas se somam para produzir isso.1

A primeira é de bolso: a carestia disparou, resultado das perturbações trazidas pela Primeira Guerra e da especulação com gêneros alimentícios. A segunda é de horizonte: a Europa vivia uma onda revolucionária, aberta pela revolução de fevereiro de 1917 e seguida, no mesmo ano, pela Revolução de Outubro na Rússia. Fome no presente e exemplo no horizonte, ao mesmo tempo.1

Os números confirmam a virada. Pelas estimativas mais confiáveis, São Paulo beirou uma centena de greves no intervalo, e o Rio passou de sessenta, sem contar as paralisações pequenas que a imprensa não registrou. A sindicalização também ganhou impulso: a União dos Operários em Fábricas de Tecidos do Rio de Janeiro dizia ter, em 1918, 19 mil filiados. E o assunto passou a ocupar a primeira página dos jornais, preocupando a elite dirigente pela primeira vez.1

Questão 01múltipla escolha · sem placar
O ciclo de greves de 1917 a 1920 no Brasil resultou principalmente da combinação entre:
  1. Incorreta. Estado Novo e Justiça do Trabalho são das décadas de 1930 e 1940 — vinte anos depois do ciclo em questão, e num contexto político oposto.

  2. Incorreta. Abolição e início da grande imigração são anteriores, e dizem respeito ao mundo rural. O ciclo de 1917 é urbano e industrial.

  3. Incorreta. A COB é de 1906 e a lei de 1907 ficou no papel, sem efeito prático. Nenhuma das duas explica por que a explosão ocorreu justamente em 1917.

  4. Correta. São exatamente os dois fatores que Fausto aponta: pressão material imediata sobre o custo de vida e o exemplo das revoluções russas de fevereiro e outubro.

  5. Incorreta. Inverte a ordem dos fatos: o PCB nasceu em março de 1922, depois do ciclo grevista, e em boa parte como consequência da crise do anarquismo.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

A greve geral de São Paulo

Foram três greves gerais no período, e Fausto adverte que a concentração dos historiadores na de São Paulo acaba encobrindo o quadro maior das mobilizações. Feita a ressalva, ele reconhece: a de junho e julho de 1917 merece tratamento à parte pelo impacto e pelo dramatismo.1

Começou em duas fábricas têxteis e se espalhou até abranger praticamente toda a classe trabalhadora da cidade — algo em torno de 50 mil pessoas. Por alguns dias, três bairros de operários ficaram sob controle de quem parou: Brás, Mooca e Ipiranga. A resposta foi militar: o governo mobilizou tropas e a Marinha despachou dois navios de guerra para Santos.1

Força Pública dispersa grevistas em 1917 · Unknown author Unknown author · 1917-07
Força Pública dispersa grevistas em julho de 1917. A mesma greve que ocupou bairros inteiros foi enfrentada com tropa na rua e navios de guerra enviados a Santos.
Força Pública dispersa grevistas em 1917 · 1917 · Wikimedia Commons · Public domain

O desfecho veio por acordo, e o mediador é curioso: um Comitê de Jornalistas costurou o entendimento entre grevistas, industriais e governo. Saiu aumento de salários — que a inflação logo comeu — e promessas imprecisas sobre o resto das reivindicações.1

Enterro do sapateiro Martinez, julho de 1917 · Unknown author Unknown author · 1917-07-11
Enterro do sapateiro Martinez, morto pela polícia no início da greve. O funeral virou ato político e eletrizou a paralisação — o prenome aparece grafado de formas diferentes nas fontes da época.
Enterro do sapateiro Martinez, julho de 1917 · 1917 · Wikimedia Commons · Public domain

O que os grevistas pediam

Aqui está o dado que desmonta a caricatura do operário revolucionário. Fausto é direto: os trabalhadores não pretendiam virar a sociedade, e sim melhorar a vida e garantir um mínimo de direitos — o que não impede que muitos fossem embalados pelo sonho de uma sociedade igualitária.1

O Comitê de Defesa Proletária, formado em São Paulo durante a greve, publicou um programa que se lê hoje como uma pauta sindical reconhecível: salário maior; nada de trabalho para menores de 14 anos; fim do trabalho noturno de mulheres e de menores de 18; jornada de oito horas, com acréscimo de 50% na hora extra; fim do expediente nas tardes de sábado; garantia de emprego; respeito ao direito de associação. Havia ainda dois pontos contra a carestia — e um deles é revelador: intervenção do Estado nos preços, além de redução de 50% nos aluguéis.1

Onde a doutrina cedeu
Pedir que o Estado intervenha contra a carestia é, do ponto de vista anarquista, heresia — o Estado era o inimigo. Fausto marca esse ponto: no calor da greve, o comitê se afastou da pureza doutrinária. A fome pesou mais que a teoria.
Comício do Comitê de Defesa Proletária, 16 de julho de 1917 · Unknown author Unknown author · 1917-07-16
Comício do Comitê de Defesa Proletária, em 16 de julho de 1917, no Brás. Foi esse comitê que redigiu a lista de reivindicações discutida ao lado.
Comício do Comitê de Defesa Proletária, 16 de julho de 1917 · 1917 · Wikimedia Commons · Public domain

Quem estava na fábrica — e por que isso enfraquecia a greve

Fausto aponta um ponto fraco pouco intuitivo da onda grevista: ela se concentrou no proletariado de fábrica, sobretudo nas têxteis, onde havia grande número de mulheres e crianças. As mulheres eram muito combativas — a observação é dele —, mas tanto elas quanto as crianças estavam mais expostas à retaliação. E os setores de maior poder de pressão, ferrovias e portos, só pararam quando o movimento geral já estava em declínio, entre 1920 e 1921.1

Em outras palavras: parou primeiro quem tinha mais a perder e menos capacidade de constranger o governo; quem podia estrangular a exportação parou tarde demais.1

O refluxo e as duas leis de 1921

A partir de 1920 a onda arrefeceu, por dois motivos: as greves rendiam pouco e a repressão apertou. Ela recaiu sobretudo sobre os dirigentes operários estrangeiros, que cumpriam papel central como organizadores — muitos acabaram expulsos do país.1

Em janeiro de 1921, o Congresso aprovou duas leis que armaram o governo. Uma delas permitia expulsar do país o estrangeiro tido como ameaça à ordem pública ou à segurança do Estado. A outra tratava do combate ao anarquismo, e é a mais grave: além dos atos violentos, criminalizava também “fazer a apologia dos delitos praticados contra a organização da sociedade”. Fausto anota a consequência óbvia — por essa fórmula, atingia-se o direito de expressão.1

E o que veio de direito, afinal?

Seria exagero dizer que o Estado ignorava por completo o mundo do trabalho antes de 1917. Havia iniciativas soltas: uma lei de 1907 previa a forma legal de organizar sindicatos, mas não saiu do papel. Em 1912, o deputado baiano Mário Hermes — tenente, e filho do presidente da República — convocou um congresso operário no Rio ao qual quase ninguém relevante compareceu: só os ferroviários da capital tinham algum peso, e sindicato paulista nenhum apareceu. No mesmo ano, o governo de São Paulo criou o Patronato Agrícola, que arbitrou muitas disputas entre colonos e fazendeiros.1

Foi só sob o impacto das greves que se cogitou legislação trabalhista de verdade. As principais propostas partiram do deputado Maurício de Lacerda e se reuniram num projeto de Código do Trabalho, com jornada de oito horas, limites ao trabalho de mulheres e menores e licença para gestantes. Industriais e a maioria do Congresso o destruíram. Do naufrágio sobrou uma única peça: a lei de indenização por acidentes de trabalho, aprovada em 1919.1

Do anarquismo ao comunismo

No começo dos anos 1920 o anarquismo entrou em crise, por dois motivos que se reforçam. Internamente, o ímpeto das greves havia produzido resultado pequeno, e isso abriu espaço para a dúvida sobre as próprias concepções. Externamente, chegavam notícias do rompimento entre anarquistas e comunistas na Rússia — e a Revolução de Outubro parecia anunciar, na expressão da época, a “aurora de novos tempos”, o que fazia as correntes críticas a ela parecerem estar remando contra a História.1

Daí nasceu, em março de 1922, o Partido Comunista do Brasil. E com uma marca de nascença incomum: a maioria dos fundadores vinha do anarquismo. Fausto destaca que isso foi excepcional na América Latina, onde os partidos comunistas em geral surgiram de dissidências socialistas.1

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre o programa do Comitê de Defesa Proletária, formado durante a greve geral de 1917 em São Paulo, é correto afirmar que ele:
  1. Incorreta. Fausto é explícito no contrário: os trabalhadores buscavam melhorar as condições de vida e garantir um mínimo de direitos, não revolucionar a sociedade naquele ato.

  2. Incorreta. O programa tinha vários pontos: jornada, trabalho de menores e de mulheres, sábado à tarde, garantia de emprego, direito de associação, carestia e aluguéis.

  3. Incorreta. O acordo trouxe aumento de salários, logo corroído pela inflação, e promessas vagas quanto ao restante — não o atendimento integral da pauta.

  4. Incorreta. É o oposto do que ocorreu, e esse é o ponto mais interessante do documento: o comitê pediu intervenção estatal contra a carestia, afastando-se da pureza doutrinária.

  5. Correta. É a descrição correta. Jornada de oito horas com 50% na hora extra, proibição do trabalho de menores de 14 anos, fim do trabalho noturno de mulheres e de menores de 18 — e, fora da ortodoxia anarquista, intervenção estatal nos preços.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • Escala que se confunde — a greve de 1917 mobilizou cerca de 50 mil pessoas em São Paulo. As “cem greves” do período não são de 1917: é a contagem do intervalo de 1917 a 1920, contra mais de sessenta no Rio.
  • Movimento no plural — no Rio predominou o sindicalismo de resultados e um socialismo vago; em São Paulo, o anarco-sindicalismo. Tratar “o operariado da Primeira República” como bloco único apaga a diferença que explica os métodos.
  • Contradição que é o ponto alto — o Comitê de Defesa Proletária pediu intervenção do Estado contra a carestia — algo incompatível com a doutrina anarquista. Fausto registra o afastamento da pureza doutrinária, e é justamente aí que a fonte fica interessante.
  • Quem parou, e quando — a onda se concentrou nas têxteis, com muitas mulheres e crianças. Ferrovias e portos — os setores capazes de estrangular a exportação — só pararam entre 1920 e 1921, quando o movimento já declinava.
  • Origem incomum do PCB — o Partido Comunista do Brasil nasceu em março de 1922 com fundadores vindos majoritariamente do anarquismo — caso excepcional na América Latina, onde os partidos comunistas costumam derivar de cisões socialistas.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Da Confederação Operária ao Partido Comunista

1906Anarquistascriam aConfederaçãoOperáriaBrasileira1907Lei prevêorganizaçãosindical, masfica no papeljun–jul 1917Greve geralparalisa SãoPaulo com 50mil pessoas1919Aprovada a leide indenizaçãopor acidentede trabalho1920A ondagrevistacomeça arefluirjan 1921Congressoaprova duasleisrepressivasmar 1922Fundado oPartidoComunista, porex-anarquistasNote o intervalo entre a maior mobilização e a resposta legal: o que veio do Congresso em 1921 não foram direitos, foram instrumentos de repressão.
Os dois marcos em destaque contam a história inteira em duas datas: a maior greve do período e a resposta legislativa que ela recebeu quatro anos depois.

Por que 1917, e o que sobrou de 1917

POR QUE EXPLODIU EM 1917O QUE RESULTOUCarestia da guerrapreço dos alimentos sobe;especulação agravaEco da Rússiarevoluções de fevereiro eoutubro de 1917Fábrica concentra gentetêxteis reúnem centenassob a mesma condiçãoCiclo de greves · 1917–1920cerca de 100 greves em SPe mais de 60 no RioO tema vira notíciaprimeira página dos jornais;a elite passa a se preocuparGanho que evaporaaumento salarial corroídopela inflação seguinteRepressão em leijan 1921: expulsão deestrangeiros e caça ao anarquismoRealinhamento da esquerdacrise do anarquismo levaao PCB, em março de 1922
Leia a coluna da direita de cima para baixo: visibilidade, ganho que evapora, repressão em lei, realinhamento político. É o retrato do que uma mobilização consegue quando não tem peso econômico por trás.

Dois movimentos, dois programas

Rio de Janeiro (Distrito Federal)Vago socialismo e sindicalismo“de resultados”Alvos: salário, jornada, salubridadeBusca reconhecimento do sindicatoMais trabalhadores nacionaisTransformar a sociedade não estavaentre as preocupaçõesSão PauloAnarco-sindicalismoMeta: derrubar a burguesia do poderMétodo: greve geral revolucionáriaSem transição: sociedade sem EstadoMaioria de operários estrangeirosDireito garantido em lei era vistocomo ameaça à estratégia
O contraste responde à pergunta de por que a mesma classe agia de modo tão diferente em duas cidades do mesmo país — e por que a briga entre as duas correntes enfraquecia as duas.

Quem estava no chão de fábrica

São Paulo, 189370%Rio de Janeiro, 189039%% de estrangeiros entre os trabalhadores da indústria
A barra destacada explica a nacionalidade da repressão de 1921: quando a maioria dos organizadores é estrangeira, a expulsão de estrangeiros vira instrumento de política trabalhista.

Mapa mental do assunto

Operariado e greves1890–1922Quem eraMaioria estrangeira em SPTêxteis com mulheres e criançasFerroviários e portuários no RioComo se organizouCOB, de 1906Sindicatos e partidos efêmerosComitê de Defesa Proletária, 1917O que pediu em 1917Jornada de oito horasFim do trabalho de menor de 14Aluguel reduzido pela metadePor que rendeu poucoIndústria pesava pouco na economiaSindicalizar dava lista negraDireito sem lei se perdia depois
O ramo destacado é o que a redação costuma esquecer. Descrever a greve é fácil; explicar por que ela rendeu pouco é o que separa a resposta boa da mediana.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Avaliação geralmovimento limitado, com êxitos excepcionais — a advertência é do próprio Fausto
Por que pesava poucoindústria com pouco peso econômico e operariado com pouco peso político
Greve que repercutiaa geral, ou a que atingisse ferrovias e portos
Obstáculo internorivalidades étnicas, lista negra dos industriais e o sonho de voltar à Europa
Estrangeiros na indústriaSão Paulo: 70% em 1893 · Rio de Janeiro: 39% em 1890
Corrente do Riosocialismo vago e sindicalismo “de resultados”
Corrente de São Pauloanarco-sindicalismo, com a greve geral revolucionária como método
Organização nacionalConfederação Operária Brasileira, criada pelos anarquistas em 1906
Causas do ciclo 1917–1920carestia da guerra com especulação, e a onda revolucionária russa de 1917
Volume de grevescerca de 100 em São Paulo e mais de 60 no Rio entre 1917 e 1920
Greve geral de 1917junho e julho, começou em duas têxteis, cerca de 50 mil pessoas, Brás, Mooca e Ipiranga
Repressão do Estadotropas mobilizadas e dois navios de guerra enviados a Santos
Desfechoacordo mediado por um Comitê de Jornalistas: aumento salarial corroído pela inflação
Pauta do Comitê de Defesa Proletáriaoito horas, fim do trabalho de menor de 14, aluguel reduzido pela metade, intervenção do Estado na carestia
Leis de janeiro de 1921expulsão de estrangeiros e combate ao anarquismo, com criminalização da apologia
O que virou direitosó a lei de indenização por acidentes de trabalho, de 1919; o Código do Trabalho foi derrubado
Março de 1922fundação do Partido Comunista do Brasil, com fundadores vindos do anarquismo
Cada linha responde a uma pergunta recorrente sobre o operariado da Primeira República.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. FAUSTO, Boris. Trabalho Urbano e Conflito Social (1890–1920). São Paulo: Difel, 1976.
  3. BATALHA, Claudio. O Movimento Operário na Primeira República. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
  4. HALL, Michael M.; PINHEIRO, Paulo Sérgio. A Classe Operária no Brasil: documentos. São Paulo: Alfa-Ômega.