A Revolução Federalista
Dois anos e meio de guerra civil no Rio Grande do Sul, milhares de mortos — e boa parte deles não caiu em combate: foi degolada depois de se render. É o episódio mais violento da Primeira República, e nasceu de uma disputa sobre como escrever uma constituição estadual.

Gumercindo Saraiva e seus comandantes, 1893 · 1893 · Wikimedia Commons · Public domain
Por que uma briga sobre o texto de uma constituição estadual terminou em dois anos e meio de guerra civil, com prisioneiros degolados e uma capital de outro estado ocupada?
Comece pelo dado que dimensiona tudo. Do 15 de novembro de 1889 até Júlio de Castilhos assumir a presidência do estado, em novembro de 1893, o Rio Grande do Sul trocou de comando dezessete vezes. Fausto abre o assunto observando que poucas áreas do país conheceram, naqueles primeiros anos do regime, instabilidade política comparável — e o número explica por quê.1
Faça a conta: dá menos de três meses de duração média por governo. Nenhuma administração tem tempo de fazer coisa alguma nesse ritmo. Quando a disputa política não consegue produzir autoridade estável, a saída pelas armas deixa de ser impensável.
Dois blocos, duas ideias de poder
De um lado estavam os republicanos históricos, adeptos do positivismo e organizados no Partido Republicano Rio-Grandense (PRR). Do outro, os liberais, que em março de 1892 fundaram o Partido Federalista e aclamaram como líder Silveira Martins, figura de prestígio do Partido Liberal nos tempos do Império.1
A pauta do novo partido tinha dois pontos, e os dois são institucionais: revogar a constituição estadual assentada nas ideias positivistas e instaurar um governo parlamentar no lugar do arranjo existente.1
Vale saber o que havia naquele texto para entender a revolta contra ele. A constituição gaúcha previa concentração de poderes no Executivo, deixando ao Legislativo apenas a tarefa de aprovar a legislação financeira. E não estabelecia limite para a reeleição do presidente do estado — que era como se chamavam, então, os atuais governadores.1
LembreO que os federalistas queriam, exatamente?
Revogar a constituição estadual positivista e adotar governo parlamentar. O nome do partido engana quem lê rápido: a briga não era pela federação contra a União, e sim contra a concentração de poder dentro do próprio estado.
Quem estava de cada lado
A divisão política corresponde a uma divisão social e geográfica, e é aí que o assunto fica inteligível.1
Os federalistas tinham base principalmente entre os estancieiros da Campanha — a elite política tradicional, com raízes fincadas no Império. Os republicanos se apoiavam na população do litoral e da serra, área de forte presença de imigrantes, e formavam uma elite mais recente, que chegava à política disposta a monopolizar o poder.1
Ou seja: de um lado o pecuarista de fronteira, herdeiro do prestígio imperial; de outro o grupo novo, doutrinariamente coeso, que via o Estado como instrumento a ser ocupado por inteiro. Não é briga de sobrenomes — é disputa entre duas elites com trajetórias diferentes.1
Fausto é honesto: não são claras as razões pelas quais o Rio Grande do Sul, sob Castilhos, virou a principal área de influência positivista do país. Ele levanta duas possibilidades — a tradição militar da região e o fato de os republicanos gaúchos serem uma minoria que precisava de doutrina capaz de lhes dar coesão para enfrentar a corrente tradicional. Hipótese apresentada como hipótese.
A guerra
O conflito armado entre os dois grupos começou em fevereiro de 1893 e só se encerraria trinta meses adiante, quando Prudente de Morais já ocupava a Presidência da República. Fausto qualifica a luta com uma palavra: implacável. Dela resultaram milhares de mortos.1
E há um detalhe que não se pode omitir, porque é o que distingue este episódio dos demais conflitos do período: muitos desses mortos não caíram em combate. Foram degolados depois de aprisionados.1

Batalhão de lanceiros na Revolução Federalista · 1893 · Wikimedia Commons · Public domain
A prática tem nome próprio na memória do conflito, e é preciso registrá-la sem espetáculo e sem eufemismo. Executar prisioneiro rendido é o oposto de combate: é decisão tomada depois que o adversário deixou de ser ameaça. Foi assim que boa parte das mortes desta guerra aconteceu.1
Quando a guerra gaúcha vira crise nacional
O momento mais grave chegou nos últimos meses de 1893. Colunas de maragatos — apelido pelo qual os federalistas ficaram conhecidos — avançaram sobre Santa Catarina e ali se juntaram aos integrantes da Revolta da Armada.1
É a soma que assusta. A esquadra revoltada no Rio já havia mandado parte de seus navios para o Sul, ocupando Desterro — a atual Florianópolis. Com as duas forças unidas, os federalistas invadiram o Paraná e chegaram a tomar Curitiba. Desse ponto em diante tiveram de recuar, concentrando-se novamente no Rio Grande do Sul.1

A baía do Rio durante a Revolta da Armada, 1893 · 1893 · Wikimedia Commons · Public domain
De que lado ficou o governo federal
Desde o começo da luta, Floriano Peixoto colocou-se ao lado do PRR. E há aí uma ironia que Fausto faz questão de anotar: Júlio de Castilhos havia sido partidário de Deodoro — ou seja, do marechal cujo projeto Floriano ajudara a derrubar. Na política real, a aliança do momento pesou mais que a lealdade anterior.1
As tropas do governo federal contaram ainda com o apoio financeiro de São Paulo e com a Força Pública paulista, bem organizada. Enquanto isso, a influência dos militares dentro do governo declinava: Rodrigues Alves estava no Ministério da Fazenda, e as presidências da Câmara e do Senado ficaram em mãos do PRP.1
Vale reparar no paradoxo. O governo Floriano vence a guerra — e sai dela mais dependente do dinheiro e da tropa paulista, com civis ocupando os postos-chave. Ganhar a batalha e perder o comando do processo é uma das coisas mais frequentes na política.
O fim: acordo, não rendição incondicional
Os combates prosseguiram no Rio Grande do Sul até que os revoltosos depuseram as armas em agosto de 1895. E o desfecho tem uma característica que merece destaque: a rendição resultou de um acordo, com mediação do presidente Prudente de Morais.1
Ou seja, quem encerrou a guerra não foi o marechal que a combateu, e sim o presidente civil eleito em 1894 — e o instrumento não foi a aniquilação do adversário, foi a negociação.1

Sabre de Gumercindo Saraiva · 2014 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
O que sobrou no estado
Vencida a guerra, o PRR ficou com o controle do Rio Grande do Sul — e o modo como exerceu esse controle deixou marca. No estado, os “coronéis” eram, como em outras áreas, proprietários rurais; só que o requisito principal para sê-lo era outro: obedecer às ordens do governo estadual. Daí o apelido de “coronéis burocratas” aplicado aos gaúchos.1
O partido controlava a eleição dos prefeitos e forçava a demissão daqueles que não atendessem às exigências partidárias. Fausto aponta a consequência direta disso: a falta de autonomia municipal foi causa de desentendimentos políticos constantes depois da Revolução Federalista. A guerra acabou; o conflito que a gerou, não.1

Canhões usados na Revolução Federalista · 2015 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
- O nome do partido engana — os federalistas não brigavam por mais federação contra a União. A pauta era estadual: revogar a constituição positivista do Rio Grande do Sul e instaurar governo parlamentar.
- Datas do conflito — começou em fevereiro de 1893 e terminou em agosto de 1895, já sob Prudente de Morais — mais de dois anos e meio, e não alguns meses.
- A violência tem forma específica — milhares morreram, e boa parte deles foi degolada depois de cair prisioneira. Tratar o episódio como guerra convencional apaga justamente o que o distingue.
- Alianças cruzadas — Floriano apoiou o PRR embora Júlio de Castilhos tivesse sido partidário de Deodoro. As lealdades do período não seguem linha reta.
- Hipótese, não explicação fechada — sobre por que o positivismo se enraizou no Rio Grande do Sul, Fausto diz que as razões não são claras, e levanta duas possibilidades: a tradição militar da região e a necessidade de coesão de uma minoria política.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Trinta meses de guerra, em sete marcos
O que levou à guerra, e o que ficou dela
PRR e federalistas, lado a lado
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Instabilidade prévia | dezessete governos no Rio Grande do Sul entre 1889 e novembro de 1893 |
| PRR | republicanos históricos, positivistas, liderados por Júlio de Castilhos |
| Partido Federalista | fundado em março de 1892, com Silveira Martins aclamado líder |
| Pauta federalista | revogar a constituição estadual positivista e instaurar governo parlamentar |
| Constituição contestada | Executivo concentrando poderes; Legislativo só na área financeira; reeleição sem limite |
| Base federalista | estancieiros da Campanha — elite tradicional com raízes no Império |
| Base republicana | população do litoral e da serra, com muitos imigrantes; elite mais recente |
| Início e fim | de fevereiro de 1893 a agosto de 1895 |
| Natureza da violência | milhares de mortos; muitos degolados depois de aprisionados |
| Apelido dos federalistas | maragatos |
| Ponto alto | fins de 1893: avanço sobre Santa Catarina, junção com a Revolta da Armada, tomada de Curitiba |
| Posição do governo federal | Floriano apoiou o PRR desde o início, embora Castilhos tivesse sido deodorista |
| Quem sustentou as tropas federais | apoio financeiro de São Paulo e a Força Pública paulista |
| Desfecho | acordo mediado pelo presidente Prudente de Morais |
| Legado no estado | hegemonia do PRR e “coronéis burocratas”; falta de autonomia municipal gera conflitos posteriores |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- LOVE, Joseph. O Regionalismo Gaúcho e as Origens da Revolução de 1930. São Paulo: Perspectiva, 1975.
- PESAVENTO, Sandra Jatahy. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto.
- FRANCO, Sérgio da Costa. Júlio de Castilhos e sua Época. Porto Alegre: Editora da UFRGS.