História Verso
História do Brasil · Primeira República

A Revolução Federalista

Dois anos e meio de guerra civil no Rio Grande do Sul, milhares de mortos — e boa parte deles não caiu em combate: foi degolada depois de se render. É o episódio mais violento da Primeira República, e nasceu de uma disputa sobre como escrever uma constituição estadual.

189312 min de leitura4 fontes
Gumercindo Saraiva e seus comandantes, 1893 · Unknown author Unknown author · 1893
Gumercindo Saraiva e Aparício Saravia, ao centro, com seus comandantes, em 1893. A liderança maragata circulava entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai — a fronteira era um dado da guerra, não um limite dela.
Gumercindo Saraiva e seus comandantes, 1893 · 1893 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Por que uma briga sobre o texto de uma constituição estadual terminou em dois anos e meio de guerra civil, com prisioneiros degolados e uma capital de outro estado ocupada?

Comece pelo dado que dimensiona tudo. Do 15 de novembro de 1889 até Júlio de Castilhos assumir a presidência do estado, em novembro de 1893, o Rio Grande do Sul trocou de comando dezessete vezes. Fausto abre o assunto observando que poucas áreas do país conheceram, naqueles primeiros anos do regime, instabilidade política comparável — e o número explica por quê.1

Dezessete governos, quatro anos
Faça a conta: dá menos de três meses de duração média por governo. Nenhuma administração tem tempo de fazer coisa alguma nesse ritmo. Quando a disputa política não consegue produzir autoridade estável, a saída pelas armas deixa de ser impensável.

Dois blocos, duas ideias de poder

De um lado estavam os republicanos históricos, adeptos do positivismo e organizados no Partido Republicano Rio-Grandense (PRR). Do outro, os liberais, que em março de 1892 fundaram o Partido Federalista e aclamaram como líder Silveira Martins, figura de prestígio do Partido Liberal nos tempos do Império.1

A pauta do novo partido tinha dois pontos, e os dois são institucionais: revogar a constituição estadual assentada nas ideias positivistas e instaurar um governo parlamentar no lugar do arranjo existente.1

Vale saber o que havia naquele texto para entender a revolta contra ele. A constituição gaúcha previa concentração de poderes no Executivo, deixando ao Legislativo apenas a tarefa de aprovar a legislação financeira. E não estabelecia limite para a reeleição do presidente do estado — que era como se chamavam, então, os atuais governadores.1

LembreO que os federalistas queriam, exatamente?

Revogar a constituição estadual positivista e adotar governo parlamentar. O nome do partido engana quem lê rápido: a briga não era pela federação contra a União, e sim contra a concentração de poder dentro do próprio estado.

Quem estava de cada lado

A divisão política corresponde a uma divisão social e geográfica, e é aí que o assunto fica inteligível.1

Os federalistas tinham base principalmente entre os estancieiros da Campanha — a elite política tradicional, com raízes fincadas no Império. Os republicanos se apoiavam na população do litoral e da serra, área de forte presença de imigrantes, e formavam uma elite mais recente, que chegava à política disposta a monopolizar o poder.1

Ou seja: de um lado o pecuarista de fronteira, herdeiro do prestígio imperial; de outro o grupo novo, doutrinariamente coeso, que via o Estado como instrumento a ser ocupado por inteiro. Não é briga de sobrenomes — é disputa entre duas elites com trajetórias diferentes.1

Por que o positivismo pegou no Sul
Fausto é honesto: não são claras as razões pelas quais o Rio Grande do Sul, sob Castilhos, virou a principal área de influência positivista do país. Ele levanta duas possibilidades — a tradição militar da região e o fato de os republicanos gaúchos serem uma minoria que precisava de doutrina capaz de lhes dar coesão para enfrentar a corrente tradicional. Hipótese apresentada como hipótese.

A guerra

O conflito armado entre os dois grupos começou em fevereiro de 1893 e só se encerraria trinta meses adiante, quando Prudente de Morais já ocupava a Presidência da República. Fausto qualifica a luta com uma palavra: implacável. Dela resultaram milhares de mortos.1

E há um detalhe que não se pode omitir, porque é o que distingue este episódio dos demais conflitos do período: muitos desses mortos não caíram em combate. Foram degolados depois de aprisionados.1

Batalhão de lanceiros na Revolução Federalista · Unknown author Unknown author · 1893
Batalhão de lanceiros na Revolução Federalista, 1893. A lança é o dado material do assunto: numa guerra travada a cavalo e com arma branca, quem se rendia ficava à mercê da faca.
Batalhão de lanceiros na Revolução Federalista · 1893 · Wikimedia Commons · Public domain

A prática tem nome próprio na memória do conflito, e é preciso registrá-la sem espetáculo e sem eufemismo. Executar prisioneiro rendido é o oposto de combate: é decisão tomada depois que o adversário deixou de ser ameaça. Foi assim que boa parte das mortes desta guerra aconteceu.1

Quando a guerra gaúcha vira crise nacional

O momento mais grave chegou nos últimos meses de 1893. Colunas de maragatos — apelido pelo qual os federalistas ficaram conhecidos — avançaram sobre Santa Catarina e ali se juntaram aos integrantes da Revolta da Armada.1

É a soma que assusta. A esquadra revoltada no Rio já havia mandado parte de seus navios para o Sul, ocupando Desterro — a atual Florianópolis. Com as duas forças unidas, os federalistas invadiram o Paraná e chegaram a tomar Curitiba. Desse ponto em diante tiveram de recuar, concentrando-se novamente no Rio Grande do Sul.1

A baía do Rio durante a Revolta da Armada, 1893 · Henri bernard · 1893
A baía do Rio de Janeiro durante a Revolta da Armada, em 1893. O outro foco da crise ficava a mais de mil quilômetros do Sul — e foi o encontro entre os dois que produziu o pior momento do governo Floriano.
A baía do Rio durante a Revolta da Armada, 1893 · 1893 · Wikimedia Commons · Public domain
Questão 01múltipla escolha · sem placar
A Revolução Federalista opôs, no Rio Grande do Sul:
  1. Incorreta. A disputa não era entre Monarquia e República. Os dois lados atuavam dentro do regime republicano, divergindo sobre a organização do poder no estado.

  2. Correta. É a descrição correta. O Partido Federalista foi fundado em março de 1892 pelos liberais, e sua pauta era institucional: derrubar a constituição positivista e instaurar governo parlamentar.

  3. Incorreta. As bases sociais eram outras: estancieiros da Campanha do lado federalista, população do litoral e da serra — inclusive imigrantes — do lado republicano.

  4. Incorreta. Inverte os fatos. Parte da esquadra revoltada se juntou aos maragatos em Santa Catarina, e Floriano, à frente do governo federal, apoiou o PRR desde o início.

  5. Incorreta. Nenhuma relação com o episódio. O conflito foi regional, no Sul, com desdobramento em Santa Catarina e Paraná.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

De que lado ficou o governo federal

Desde o começo da luta, Floriano Peixoto colocou-se ao lado do PRR. E há aí uma ironia que Fausto faz questão de anotar: Júlio de Castilhos havia sido partidário de Deodoro — ou seja, do marechal cujo projeto Floriano ajudara a derrubar. Na política real, a aliança do momento pesou mais que a lealdade anterior.1

As tropas do governo federal contaram ainda com o apoio financeiro de São Paulo e com a Força Pública paulista, bem organizada. Enquanto isso, a influência dos militares dentro do governo declinava: Rodrigues Alves estava no Ministério da Fazenda, e as presidências da Câmara e do Senado ficaram em mãos do PRP.1

Vitória militar, derrota política
Vale reparar no paradoxo. O governo Floriano vence a guerra — e sai dela mais dependente do dinheiro e da tropa paulista, com civis ocupando os postos-chave. Ganhar a batalha e perder o comando do processo é uma das coisas mais frequentes na política.

O fim: acordo, não rendição incondicional

Os combates prosseguiram no Rio Grande do Sul até que os revoltosos depuseram as armas em agosto de 1895. E o desfecho tem uma característica que merece destaque: a rendição resultou de um acordo, com mediação do presidente Prudente de Morais.1

Ou seja, quem encerrou a guerra não foi o marechal que a combateu, e sim o presidente civil eleito em 1894 — e o instrumento não foi a aniquilação do adversário, foi a negociação.1

Sabre de Gumercindo Saraiva · Guilmann · 2014-10-01 14:25:15
Sabre de Gumercindo Saraiva, hoje no Museu Paranaense. Objeto de acervo, não representação: é o instrumento real de um conflito que matou milhares de pessoas.
Sabre de Gumercindo Saraiva · 2014 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

O que sobrou no estado

Vencida a guerra, o PRR ficou com o controle do Rio Grande do Sul — e o modo como exerceu esse controle deixou marca. No estado, os “coronéis” eram, como em outras áreas, proprietários rurais; só que o requisito principal para sê-lo era outro: obedecer às ordens do governo estadual. Daí o apelido de “coronéis burocratas” aplicado aos gaúchos.1

O partido controlava a eleição dos prefeitos e forçava a demissão daqueles que não atendessem às exigências partidárias. Fausto aponta a consequência direta disso: a falta de autonomia municipal foi causa de desentendimentos políticos constantes depois da Revolução Federalista. A guerra acabou; o conflito que a gerou, não.1

Canhões usados na Revolução Federalista · Rpadula · 2015-09-02 16:00:29
Canhões utilizados na Revolução Federalista. Não se tratava de escaramuça de fronteira: houve guerra convencional, com artilharia, dentro do território brasileiro.
Canhões usados na Revolução Federalista · 2015 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre o desfecho e as consequências da Revolução Federalista, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. Os revoltosos é que depuseram as armas. A constituição permaneceu, e o PRR consolidou seu controle sobre o estado.

  2. Incorreta. Os combates seguiram até agosto de 1895, já sob Prudente de Morais — e o fim veio por acordo, não por aniquilação.

  3. Correta. É a descrição correta. Note quem encerra a guerra: o presidente civil eleito em 1894, e por negociação.

  4. Incorreta. Ocorreu o oposto: o PRR controlava a eleição dos prefeitos e forçava demissões, e a falta de autonomia municipal virou fonte de conflitos posteriores.

  5. Incorreta. Castilhos foi eleito presidente do estado em novembro de 1893, no curso da guerra, e o partido dele saiu vitorioso do conflito.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • O nome do partido engana — os federalistas não brigavam por mais federação contra a União. A pauta era estadual: revogar a constituição positivista do Rio Grande do Sul e instaurar governo parlamentar.
  • Datas do conflito — começou em fevereiro de 1893 e terminou em agosto de 1895, já sob Prudente de Morais — mais de dois anos e meio, e não alguns meses.
  • A violência tem forma específica — milhares morreram, e boa parte deles foi degolada depois de cair prisioneira. Tratar o episódio como guerra convencional apaga justamente o que o distingue.
  • Alianças cruzadas — Floriano apoiou o PRR embora Júlio de Castilhos tivesse sido partidário de Deodoro. As lealdades do período não seguem linha reta.
  • Hipótese, não explicação fechada — sobre por que o positivismo se enraizou no Rio Grande do Sul, Fausto diz que as razões não são claras, e levanta duas possibilidades: a tradição militar da região e a necessidade de coesão de uma minoria política.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Trinta meses de guerra, em sete marcos

1889–1893Dezessetegovernos sesucedem no RioGrande do Sulmar 1892Liberaisfundam oPartidoFederalistafev 1893Começa aguerra civilno estadofins de 1893Maragatos eRevolta daArmada sejuntam em SC1893–1894Federalistasinvadem oParaná e tomamCuritibanov 1893Júlio deCastilhos éeleitopresidente doestadoago 1895Revoltososdepõem asarmas emacordo mediadoDa instabilidade crônica à guerra aberta, e desta a um acordo mediado pelo presidente da República — trinta meses depois do primeiro tiro.
Os dois marcos em destaque delimitam o conflito. Entre eles cabem a junção com a Revolta da Armada e a ocupação de Curitiba — a guerra gaúcha que virou crise nacional.

O que levou à guerra, e o que ficou dela

O QUE LEVOU À GUERRAO QUE FICOU DELAEstado ingovernáveldezessete governos entre1889 e novembro de 1893Constituição concentradoraExecutivo forte e reeleiçãosem limite para o presidenteElite tradicional alijadaestancieiros da Campanhafora do novo arranjoGuerra civil · 1893–1895dois anos e meio decombates no SulMilhares de mortosmuitos degolados depoisde caírem prisioneirosA crise vira nacionaljunção com a Revolta daArmada; Curitiba é tomadaO governo federal escolhe ladoFloriano apoia o PRRdesde o início da lutaHegemonia castilhistaPRR consolidado; municípiossem autonomia real
Note a primeira caixa da esquerda: antes de qualquer tiro, o estado já era ingovernável. As causas institucionais vêm antes das militares.

PRR e federalistas, lado a lado

PRR — os republicanos históricosLiderança de Júlio de CastilhosDoutrina positivistaBase no litoral e na serra,com muitos imigrantesElite nova, disposta amonopolizar o poderDefende a constituição estadualFederalistas — os maragatosLiderança de Silveira MartinsFundado em março de 1892Base nos estancieiros da CampanhaElite tradicional, com raízesno ImpérioQuer revogar a constituiçãoe instaurar governo parlamentar
Leia as linhas de base social: a guerra opõe duas elites com origens diferentes — a tradicional da Campanha e a nova, do litoral e da serra.

Mapa mental do assunto

Revolução Federalista1893–1895Os dois ladosPRR positivista, de CastilhosFederalistas de Silveira MartinsMaragatos, o apelido dos segundosO que se disputavaConstituição estadual de 1891Executivo forte × parlamentarismoReeleição sem limiteComo se alastrouColunas avançam sobre SCJunção com a Revolta da ArmadaCuritiba tomada, e depois recuoA marca do conflitoMilhares de mortosDegola de prisioneirosFim por acordo, em agosto de 1895
O ramo destacado guarda o que não pode faltar em nenhuma resposta sobre o episódio: a escala das mortes e a forma que elas tomaram.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Instabilidade préviadezessete governos no Rio Grande do Sul entre 1889 e novembro de 1893
PRRrepublicanos históricos, positivistas, liderados por Júlio de Castilhos
Partido Federalistafundado em março de 1892, com Silveira Martins aclamado líder
Pauta federalistarevogar a constituição estadual positivista e instaurar governo parlamentar
Constituição contestadaExecutivo concentrando poderes; Legislativo só na área financeira; reeleição sem limite
Base federalistaestancieiros da Campanha — elite tradicional com raízes no Império
Base republicanapopulação do litoral e da serra, com muitos imigrantes; elite mais recente
Início e fimde fevereiro de 1893 a agosto de 1895
Natureza da violênciamilhares de mortos; muitos degolados depois de aprisionados
Apelido dos federalistasmaragatos
Ponto altofins de 1893: avanço sobre Santa Catarina, junção com a Revolta da Armada, tomada de Curitiba
Posição do governo federalFloriano apoiou o PRR desde o início, embora Castilhos tivesse sido deodorista
Quem sustentou as tropas federaisapoio financeiro de São Paulo e a Força Pública paulista
Desfechoacordo mediado pelo presidente Prudente de Morais
Legado no estadohegemonia do PRR e “coronéis burocratas”; falta de autonomia municipal gera conflitos posteriores
Cada linha responde a uma pergunta recorrente sobre a guerra civil gaúcha.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. LOVE, Joseph. O Regionalismo Gaúcho e as Origens da Revolução de 1930. São Paulo: Perspectiva, 1975.
  3. PESAVENTO, Sandra Jatahy. História do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto.
  4. FRANCO, Sérgio da Costa. Júlio de Castilhos e sua Época. Porto Alegre: Editora da UFRGS.