História Verso
História do Brasil · Primeiro Reinado

A Confederação do Equador

Quatro meses depois de o imperador outorgar a Constituição, Pernambuco proclamou uma república federativa e chamou quatro províncias vizinhas. A resposta veio na forma de tribunal montado pelo próprio trono — e Frei Caneca acabou fuzilado porque o carrasco se recusou a enforcá-lo.

182412 min de leitura4 fontes
Frei Joaquim do Amor Divino, o Frei Caneca · Unknown author Unknown author · 18--
Frei Joaquim do Amor Divino, o Frei Caneca. O apelido vem da infância pobre, quando vendia canecas nas ruas do Recife. Formado no Seminário de Olinda, tornou-se um dos escritores políticos mais combativos do Império — e foi condenado à morte aos 45 anos.
Frei Joaquim do Amor Divino, o Frei Caneca · 0 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

A Constituição outorgada desagradou meio país. Por que foi em Pernambuco, e não na Corte, que ela virou proclamação de república e guerra aberta?

Porque ali havia lenha acumulada. Ao dissolver a Constituinte e decretar a Carta de 1824, o imperador deu uma demonstração clara do poder que detinha — e, no Recife, esses atos caíram numa fogueira que não parava de arder desde 1817, e mesmo de antes.1

O que ganhou impulso naquele momento foi um conjunto específico de ideias: republicanas, antiportuguesas e federativas — estas últimas, contrárias à concentração do poder no Rio de Janeiro. E o combustível chegou em pessoa, com a presença de Cipriano Barata na cidade, recém-vindo da Europa.1

Três jornais, três frentes de ataque

Vale organizar a oposição daquele momento não por província, mas por redação — porque foi na imprensa que ela se articulou. E Fausto faz questão de destacar o papel do jornal num período em que a própria imprensa brasileira estava nascendo.1

O Tamoio era a trincheira dos Andradas, que haviam passado à oposição depois das medidas autoritárias do imperador. A Sentinela da Liberdade era o jornal de Cipriano Barata. E o Typhis Pernambucano era o de Frei Caneca. Os dois últimos tinham o mesmo alvo: a monarquia centralizada.1

Jornal como partido
Repare que não havia partidos, nem eleições livres, nem tribuna parlamentar disponível — a assembleia tinha acabado de ser fechada. Restava o prelo. É por isso que, neste assunto, os nomes dos jornais importam tanto quanto os nomes dos líderes: eles eram a organização política possível.

Quem era Frei Caneca

O apelido conta a origem. Frei Joaquim do Amor Divino ficou conhecido como Caneca porque, quando garoto, vendia canecas nas ruas do Recife — sinal de procedência humilde num país onde isso fechava portas.1

A formação veio depois, no Seminário de Olinda, que Fausto descreve como centro de difusão das ideias liberais. Foi ali que o vendedor ambulante se converteu em intelectual erudito e homem de ação. E ele já tinha ficha corrida: participara ativamente da insurreição de 1817.1

O Seminário de Olinda · Luiz Eugenio Teixeira Leite · 2013-04-19 15:33:07
O Seminário de Olinda, centro de difusão das ideias liberais no Nordeste e casa de formação de Frei Caneca. A revolta de 1824 tem endereço intelectual — e ele fica aqui.
O Seminário de Olinda · 2013 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

O estopim, e a proclamação

Faltava um motivo local, e ele apareceu na forma mais banal possível: a província ficou contrariada com a nomeação de um governador que não desejava. Foi essa contrariedade que abriu caminho para a revolta.1

O chefe ostensivo do movimento foi Manuel de Carvalho, que proclamou a Confederação do Equador em 2 de julho de 1824.1

Fausto o descreve como figura curiosa: tinha esposa norte-americana e admirava profundamente os Estados Unidos. E essa admiração teve uso prático. Ainda antes de proclamar a Confederação, Carvalho mandou ofício ao cônsul americano no Recife apontando o risco que navios de guerra ingleses e franceses representavam para a liberdade ali — e apoiou o argumento na doutrina que o presidente Monroe acabara de enunciar, segundo a qual potência europeia não devia intervir no continente americano.1

LembrePor que a Doutrina Monroe aparece aqui?

Porque ela era novidade em 1824 — havia sido enunciada no ano anterior. Um líder rebelde pernambucano invocando-a mostra duas coisas: que o modelo político daquele movimento era declaradamente norte-americano, e que ele buscava respaldo externo contra a esquadra que poderia sufocá-lo.

O mapa que a Confederação desenhava

O projeto tinha forma definida: federativa e republicana. E tinha território pretendido. Além de Pernambuco, a Confederação deveria reunir a Paraíba, o Rio Grande do Norte e o Ceará — com a possibilidade de incorporar ainda o Piauí e o Pará.1

Bandeira da revolução pernambucana de 1817, aquarelada · Unknown author Unknown author · 1817-05-14
Bandeira da revolução pernambucana de 1817, aquarelada e colada no verso de uma carta da época. A fogueira que 1824 reacende vinha ardendo desde este levante — e desde antes dele.
Bandeira da revolução pernambucana de 1817, aquarelada · 1817 · Wikimedia Commons · Public domain

Quem estava nas ruas: 1824 não é 1817

Aqui está a diferença que este artigo considera decisiva. O levante de 1824 teve conteúdo acentuadamente urbano e popular — e isso o separa do movimento anterior. A Revolução de 1817 havia sido uma ampla frente regional, com liderança de proprietários rurais e de alguns comerciantes.1

O testemunho mais vívido dessa diferença vem de fora. Esteve no Recife, tentando aproximar os lados, a viajante inglesa Maria Graham — e ela achou no palácio tomado pelos rebeldes um clima que lembrava, com as devidas proporções, o da Convenção Nacional francesa. Descreveu salas do governo ocupadas por gente simples, sans-culottes de verdade, atentos a cada ruído e desconfiados de cilada.1

Questão 01múltipla escolha · sem placar
A Confederação do Equador, proclamada em 1824, distinguiu-se da Revolução Pernambucana de 1817 principalmente por:
  1. Incorreta. O conteúdo do movimento era antilusitano e republicano. A ruptura com Portugal não estava em disputa em 1824 — o alvo era a centralização monárquica no Rio de Janeiro.

  2. Incorreta. O projeto previa reunir também Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, com possibilidade de Piauí e Pará.

  3. Correta. É a diferença central. Maria Graham comparou o palácio ocupado pelos rebeldes ao ambiente da Convenção Nacional francesa, com gente do povo tomando as dependências.

  4. Incorreta. Manuel de Carvalho invocou a Doutrina Monroe em ofício ao cônsul norte-americano, mas isso não significou apoio militar dos Estados Unidos ao movimento.

  5. Incorreta. Vários estrangeiros participaram, entre eles o liberal português João Guilherme Ratcliff, filho de polonês, que seria condenado à morte.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

A derrota, e a conta cobrada

Militarmente, o movimento não tinha como durar. Faltou-lhe condição de se enraizar e de resistir às tropas do governo: foi derrotado nas várias províncias do Nordeste e terminou por completo em novembro de 1824.1

O que veio depois é o que torna este episódio memorável. Fausto usa uma expressão exata: a punição dos revolucionários foi além das expectativas.1

A corte de justiça montada para julgar os rebeldes estava sob controle do imperador, e dela saíram sentenças de morte. Três nomes convém guardar juntos: Frei Caneca, o português Ratcliff e o major de pretos Agostinho Bezerra Cavalcanti.1

Sobre este último houve um gesto raro. Quem escreveu ao rei pedindo que a vida dele fosse poupada foram os adversários — comerciantes portugueses entre eles —, alegando que o major havia contido excessos e evitado mortes durante a revolta. O apelo não foi atendido.1

Quando nem o inimigo quer a execução
Guarde este detalhe para medir a dureza da repressão. Quem pediu clemência não foram aliados do condenado: foram adversários dele, entre os quais comerciantes portugueses — exatamente o grupo que a revolta atacava. O pedido foi recusado assim mesmo.

A execução de Frei Caneca entrou para a história pelo modo como terminou. Ele foi levado à forca — mas acabou fuzilado, diante da recusa do carrasco em realizar o enforcamento.1

Cipriano José Barata · autoria não identificada · 2021-01-21 19:22:31
Cipriano José Barata. Revolucionário de 1817, recusou-se a tomar posse na Constituinte e combateu a monarquia centralizada pela Sentinela da Liberdade. Sua chegada ao Recife deu impulso às ideias que levariam ao levante.
Cipriano José Barata · 2021 · Wikimedia Commons · Public domain

O que ficou

As marcas de 1824 não se apagariam facilmente. Fausto sugere ler aquele episódio como um elo de corrente: os levantes que sacudiram Pernambuco ao longo de três décadas, de 1817 até 1848, transformaram a província no ponto de onde a insatisfação nordestina se espalhava.1

Trinta e um anos, várias revoltas, uma mesma província. Não é coincidência regional: é o retrato de um lugar onde a ordem imperial nunca conseguiu se firmar sem uso repetido da força.1

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre a repressão à Confederação do Equador, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. Não houve anistia: um tribunal manipulado pelo imperador condenou vários revolucionários à morte, entre eles Frei Caneca.

  2. Incorreta. O português João Guilherme Ratcliff, filho de polonês, esteve entre os condenados à morte.

  3. Incorreta. Faltou-lhe condição de se enraizar e de resistir às tropas do governo: proclamado em julho, estava totalmente derrotado em novembro de 1824.

  4. Incorreta. Os pedidos existiram e foram feitos em favor do major de pretos Agostinho Bezerra Cavalcanti, que evitara excessos — mas não foram ouvidos.

  5. Correta. É a avaliação da fonte. Entre os condenados estavam Frei Caneca, Ratcliff e o major de pretos Agostinho Bezerra Cavalcanti.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • A revolta não nasce só de 1824 — os atos do imperador caíram numa fogueira que ardia em Pernambuco desde 1817 e antes. Tratar a Confederação como reação isolada à Constituição outorgada perde metade da explicação.
  • 1824 é mais popular que 1817 — o levante de 1824 teve conteúdo acentuadamente urbano e popular, enquanto a Revolução de 1817 fora ampla frente regional com liderança de proprietários rurais e comerciantes.
  • O modelo era norte-americano — Manuel de Carvalho era admirador declarado dos Estados Unidos e invocou a Doutrina Monroe, então recentíssima, em ofício ao cônsul americano no Recife.
  • Antilusitano não é antiportuguês individual — a rebelião contou com estrangeiros em suas fileiras, entre eles o liberal português João Guilherme Ratcliff — que acabou condenado à morte junto com Frei Caneca.
  • A forma da execução — Frei Caneca foi levado à forca e terminou fuzilado, porque o carrasco se recusou a enforcá-lo. O detalhe costuma ser tratado como anedota, mas mede a repercussão moral da condenação.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De 1817 à forca, em sete marcos

1817Revoluçãopernambucanadeixa brasaacesa naprovíncia1823Dissolução daConstituinteirrita oRecifemar 1824Constituiçãooutorgadaconfirma acentralização1824Nomeação degovernador nãoaceito abrecaminho àrevolta2 jul 1824Manuel deCarvalhoproclama aConfederaçãonov 1824Movimento éderrotado nasprovíncias doNordeste1824–1825Condenações àmorte, entreelas a de FreiCanecaDo ato do imperador à forca, dez meses. A revolta que se proclamou em julho estava liquidada em novembro do mesmo ano.
Os dois marcos em destaque estão a quatro meses de distância: a Carta é outorgada em março e a república é proclamada em julho do mesmo ano.

O que acendeu, e o que sobrou

O QUE ACENDEUO QUE SOBROUDemonstração de forçaassembleia fechada eCarta imposta de cimaIdeias em circulaçãorepública, federação eantilusitanismo na imprensaGovernador rejeitadonomeação não aceita pelaprovíncia abre a brechaConfederação do Equador · 1824república federativa proclamadaem 2 de julho, no RecifeDerrota rápidasem raiz e sem força militar,acaba em novembroPunição exemplartribunal do imperador mandatrês à morte, entre outrosClemência negadanem pedido de adversáriosalvou o major de pretosPernambuco marcadoprovíncia vira foco derevolta de 1817 a 1848
A última caixa da direita é a que liga este assunto ao resto do século: o ciclo pernambucano de revoltas só se encerraria em 1848, com a Praieira.

1817 e 1824, lado a lado

Revolução de 1817Ampla frente regionalLiderança de proprietários ruraisParticipação de alguns comerciantesBase social mais alta e mais estreitaDeixou a província marcada comofoco de rebeldiaConfederação do Equador, 1824Conteúdo acentuadamente urbanoe popularGente pobre ocupando asdependências do palácioComparada por uma viajante inglesaà Convenção da Revolução FrancesaProjeto explícito: repúblicafederativa com cinco ou seis províncias
Duas revoltas na mesma província, a sete anos de distância, com bases sociais diferentes. Confundir as duas é o erro mais comum deste assunto.

Mapa mental do assunto

Confederação do EquadorPernambuco, 1824As causasDissolução da ConstituinteCarta outorgada em marçoGovernador imposto à provínciaQuem escreviaFrei Caneca, no Typhis PernambucanoCipriano Barata, na SentinelaOs Andradas, em O TamoioO projetoRepública e federaçãoParaíba, Rio Grande do Norte e CearáPossivelmente Piauí e ParáO desfechoDerrota em novembro de 1824Tribunal manipulado pelo imperadorFrei Caneca fuzilado
O ramo destacado guarda o desfecho, que é a parte mais cobrada: quem julgou, quem foi condenado e como a execução terminou.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Causa imediatadissolução da Constituinte, outorga da Carta e nomeação de governador rejeitado
Causa de fundofogueira acesa em Pernambuco desde 1817 e antes
Ideias em circulaçãorepublicanas, antiportuguesas e federativas
Papel da imprensaO Tamoio (Andradas), Sentinela da Liberdade (Barata), Typhis Pernambucano (Frei Caneca)
Frei Canecaorigem humilde, vendedor de canecas; formado no Seminário de Olinda; veterano de 1817
Proclamação2 de julho de 1824, por Manuel de Carvalho
Perfil do lídercasado com uma americana e admirador dos Estados Unidos
Apelo externoofício ao cônsul americano invocando a Doutrina Monroe contra intervenção europeia
Forma de Estado pretendidafederativa e republicana
Províncias visadasPernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará; possivelmente Piauí e Pará
Base socialacentuadamente urbana e popular — diferente da frente regional de 1817
Testemunho externoMaria Graham comparou o palácio ocupado ao ambiente da Convenção Nacional francesa
Estrangeiros na revoltaentre eles o liberal português João Guilherme Ratcliff
Derrotaencerrada por completo em novembro de 1824
Puniçãotribunal manipulado pelo imperador; condenados à morte Frei Caneca, Ratcliff e Agostinho Bezerra Cavalcanti
Execução de Frei Canecalevado à forca, terminou fuzilado após recusa do carrasco
Cada linha responde a uma pergunta recorrente sobre o levante pernambucano de 1824.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. MELLO, Evaldo Cabral de. A Outra Independência: o federalismo pernambucano de 1817 a 1824. São Paulo: Editora 34, 2004.
  3. BERNARDES, Denis Antônio de Mendonça. O Patriotismo Constitucional: Pernambuco, 1820–1822. São Paulo: Hucitec.
  4. MOREL, Marco. Frei Caneca: entre Marília e a pátria. Rio de Janeiro: Vozes.