História Verso
História do Brasil · Regência

A política no período regencial

Com o trono vazio, o Brasil descobriu que suas elites não sabiam que país queriam. Três correntes disputaram o vazio deixado por Dom Pedro I — e da briga entre elas nasceram os dois partidos que governariam o Império inteiro.

183712 min de leitura4 fontes
O padre Diogo Antônio Feijó em 1830 · Hércules Florence · 1830
O padre Diogo Antônio Feijó retratado por Hércules Florence em 1830, no ano anterior à abdicação. Líder moderado, viria a ser o primeiro regente único eleito do país.
O padre Diogo Antônio Feijó em 1830 · 1830 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

A Regência tentou dar mais liberdade, mais autonomia às províncias e mais poder local. Por que o resultado foi choque violento entre elites e revolta em quase todo o território?

Fausto responde com uma frase que vale como chave do período inteiro: as classes e os grupos que mandavam no país não chegavam a acordo sobre qual desenho institucional servia aos próprios interesses. E faltava mais do que acordo — faltava clareza sobre para que serve o Estado quando o trabalho dele é organizar os interesses do conjunto, tarefa que às vezes exige sacrificar a vantagem particular de um setor.1

Ou seja: não era um lado querendo liberdade e outro querendo ordem. Era um conjunto de gente poderosa que não sabia que país queria — e descobriu isso quando o imperador saiu de cena.

O que significa “Regência”

O nome do período vem do arranjo de governo. Saído Dom Pedro I, o país ficou nas mãos de políticos que exerciam o poder em nome do imperador criança, situação que duraria até a antecipação da maioridade, em 1840. E o formato mudou no meio do caminho: de três regentes no arranque para um só, a partir de 1834.1

O saldo do período é descrito por Fausto sem meio-termo: foi tempo de grande turbulência, com a unidade territorial do país em risco, e com o debate político tomado pelos temas da organização do Estado.1

A Regência não termina em 1840
Fausto sugere esticar a periodização por mais dez anos. Só por volta de 1850 a Monarquia centralizada se consolidou de fato — quando cessaram as últimas rebeliões provinciais. A data de 1840 encerra o cargo de regente; não encerra o problema que o período abriu.

E há um paradoxo que o período expõe com clareza. As reformas feitas pelos regentes mostram como era difícil adotar uma prática liberal que ao mesmo tempo escapasse dos vícios do absolutismo. Nas condições brasileiras daquele momento, boa parte das medidas criadas para dar flexibilidade ao sistema político e garantir liberdades individuais acabou produzindo duas coisas bem diferentes: choques violentos entre as elites e o predomínio de interesses de grupos locais.1

Corrente 1: os moderados, que ganharam

Quem saiu por cima do 7 de abril foram os liberais moderados. Eles se organizaram segundo a tradição maçônica, numa entidade de nome comprido e programático: Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional.1

O perfil desse grupo diz muito sobre o que ele viria a fazer no poder. Havia alta proporção de políticos de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro; presença significativa de padres e de alguns formados em Coimbra; e — o dado decisivo — muitos eram proprietários de terras e de escravos.1

Três nomes se destacam nessa lista. O magistrado mineiro Bernardo Pereira de Vasconcelos, com diploma de Coimbra. O padre Diogo Feijó, paulista de nascimento, que ainda ocuparia a regência. E Evaristo da Veiga, que tocava no Rio a Aurora Fluminense — a folha liberal de maior peso naquele momento.1

Evaristo da Veiga · Sébastien Auguste Sisson · 1861
Evaristo da Veiga. Editava a Aurora Fluminense, o mais importante jornal liberal do período — num tempo em que a imprensa fazia o trabalho que ainda não cabia a partidos formalmente constituídos.
Evaristo da Veiga · 1861 · Wikimedia Commons · Public domain
LembrePor que a imprensa importa tanto neste período?

Porque não havia partidos organizados. As correntes se reconheciam por jornal, por sociedade política e por loja maçônica — e é por isso que um editor como Evaristo da Veiga aparece na mesma lista de nomes que um magistrado e um futuro regente.

Corrente 2: os exaltados, que queriam mais

À esquerda dos moderados ficavam os exaltados. A bandeira deles tinha dois pontos: a federação — entendida como autonomia efetiva das províncias — e as liberdades individuais.1

E alguns iam além do que a Monarquia poderia comportar: havia entre eles adeptos da República, como Cipriano Barata e Borges da Fonseca.1

Corrente 3: os caramurus, que queriam voltar

Do outro extremo estavam os absolutistas, apelidados de caramurus. Muitos deles eram portugueses, e ocupavam postos na burocracia, no Exército e no alto comércio. O objetivo era explícito: recolocar Dom Pedro I no trono.1

Esse projeto teve vida curta, e por uma razão que nenhuma articulação política resolve: Dom Pedro I morreu em Portugal em 1834. Com ele, morreu a causa restauradora.1

Os apelidos, e o que eles medem

A hostilidade aos portugueses tinha vocabulário próprio, que variava conforme a época e a região: marinheiros, pés-de-chumbo, marotos, caramurus. E havia troco: em represália, eles chamavam os brasileiros de “cabras”.1

Apelido como termômetro
Uma lista de xingamentos não é curiosidade folclórica. Ela mede quanto o conflito com o português seguia vivo uma década depois da Independência — e explica por que os levantes urbanos do período começam, tantas vezes, em briga de rua contra comerciantes lusos.

Das correntes aos partidos

É deste racha que sai o sistema partidário do Império. No centro dirigente, as tendências foram se separando, e nelas aparecem em germe os dois grandes partidos imperiais.1

No campo conservador ajuntaram-se quatro grupos: magistrados, gente de carreira na burocracia, uma fatia dos donos de terra — com peso no Rio de Janeiro, na Bahia e em Pernambuco — e o grande comércio, boa parte dele portuguesa.1

No campo liberal o desenho era outro: gente da pequena classe média das cidades, um punhado de padres e donos de terra vindos de regiões de tradição mais recente — com São Paulo, Minas e o Rio Grande do Sul à frente.1

Bernardo Pereira de Vasconcelos · Sébastien Auguste Sisson (1824-1893) · circa 1858
Bernardo Pereira de Vasconcelos, magistrado mineiro formado em Coimbra. Nome de destaque entre os liberais moderados nos anos 1830, tornou-se depois o principal ideólogo do Partido Conservador — trajetória que resume a virada do período.
Bernardo Pereira de Vasconcelos · 1858 · Wikimedia Commons · Public domain
Questão 01múltipla escolha · sem placar
Sobre as correntes políticas do período regencial, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. Está trocado. Os caramurus eram os absolutistas que queriam Dom Pedro I de volta; entre os exaltados é que havia adeptos da República, como Cipriano Barata e Borges da Fonseca.

  2. Correta. É a descrição correta. A entidade seguia a tradição maçônica, e entre seus nomes estavam Bernardo Pereira de Vasconcelos, o padre Feijó e Evaristo da Veiga.

  3. Incorreta. Defendiam o oposto: federação, entendida como autonomia efetiva das províncias, além das liberdades individuais.

  4. Incorreta. A causa restauradora se desfez em 1834, com a morte de Dom Pedro I em Portugal. Quem venceu a eleição de 1835 para regente único foi o padre Feijó.

  5. Incorreta. É justamente o contrário, e esse é o ponto central do assunto: Fausto destaca a ausência de consenso e de clareza sobre o papel do Estado.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

O sistema que não se firmou

Faltava ao arranjo político do período aquilo que nenhuma lei entrega por decreto: estabilidade. A disputa pela regência única, em 1835, e a renúncia do regente eleito, dois anos depois, mostram um sistema que ainda não havia encontrado forma — e é justamente essa instabilidade que abre caminho para a virada conservadora conhecida como Regresso.1

Este site conta esses dois episódios — a eleição de 1835 e a queda de Feijó — no artigo dedicado ao Regresso, onde eles funcionam como ponto de partida. Aqui, o que importa reter é o quadro que os tornou possíveis: três correntes em disputa, nenhum consenso e um trono vazio.1

Feijó em litografia de Sisson · Sebastien Auguste Sisson · 2018-01-24
Feijó em litografia de Sisson, feita décadas depois. Comparar com o retrato de 1830, na abertura do artigo, mostra como a imagem de um político é construída bem depois dos fatos.
Feijó em litografia de Sisson · 2018 · Wikimedia Commons · Public domain
Questão 02múltipla escolha · sem placar
A composição social dos dois partidos imperiais que se formavam durante a Regência pode ser assim descrita:
  1. Incorreta. Está invertido: magistrados e burocratas ficaram do lado conservador, e a pequena classe média urbana, do lado liberal.

  2. Incorreta. A tese da indiferenciação foi defendida por contemporâneos, mas a fonte registra composições sociais distintas — inclusive com bases regionais diferentes.

  3. Incorreta. Os grandes comerciantes, muitos deles portugueses, integravam o campo conservador, ao lado de magistrados e burocratas.

  4. Correta. É a descrição da fonte, e ela mostra que a divisão tinha também uma geografia: as áreas mais tradicionais de um lado, as menos tradicionais de outro.

  5. Incorreta. Proprietários rurais estavam nos dois campos — o que muda é a região de origem e o grau de tradição de cada área.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • O ponto central não é ideológico — o que define o período, segundo a fonte, é a ausência de consenso entre as classes dominantes sobre o arranjo institucional que lhes convinha — e a falta de clareza sobre o papel do Estado.
  • Três correntes, não duas — moderados (vencedores em 1831), exaltados (federação, liberdades, alguns republicanos) e caramurus (absolutistas restauradores). Reduzir o período a liberais contra conservadores apaga a corrente que queria Dom Pedro I de volta.
  • A restauração morre em 1834 — a causa caramuru se desfez com a morte de Dom Pedro I em Portugal, e não por derrota política. Depois disso, a disputa se dá entre as duas correntes restantes.
  • Liberais moderados eram proprietários — muitos deles possuíam terras e pessoas escravizadas. O liberalismo do período não implicava, em nenhuma medida, crítica à escravidão.
  • A periodização é elástica — o cargo de regente termina em 1840, mas Fausto sugere estender a análise até cerca de 1850, quando a Monarquia centralizada se consolida com o fim das últimas rebeliões.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Nove anos sem imperador, em sete marcos

7 abr 1831Abdicação deDom Pedro Iabre o período1831Moderados seorganizam naSociedadeDefensora1834Morte de DomPedro Iencerra osonhorestaurador1834Regência passade trêspessoas parauma só1835Feijó vence aeleição pararegente único1837Renúncia deFeijó abrecaminho aoRegresso1840Maioridadeantecipadaencerra aRegênciaNove anos sem imperador no trono. Repare que a corrente restauradora morre antes do período acabar — e literalmente.
Os dois marcos em destaque abrem e fecham a hegemonia moderada: a organização da Sociedade Defensora, em 1831, e a renúncia que entrega o período aos conservadores, em 1837.

De onde vem o impasse, e o que ele produz

DE ONDE VEM O IMPASSEO QUE ELE PRODUZTrono vazioo país é regido em nomede uma criançaElites sem acordonão há consenso sobre queEstado convém a elasProvíncia cobraautonomia e rendas própriassão reivindicação antigaPolítica regencial · 1831–1840disputa aberta sobre a formade organizar o paísTrês correntesmoderados, exaltados ecaramurus restauradoresPartidos em germedo racha nascem o Conservadore o LiberalRebelião em sérieas províncias pegam em armasde norte a sulVitória do centroem 1840 o modelocentralizador se impõe
Note a segunda caixa da esquerda: o problema não era falta de autoridade, era falta de acordo sobre que autoridade construir.

Os dois partidos, antes de existirem

Conservadores, em formaçãoMagistrados e burocratas do EstadoParte dos proprietários rurais,sobretudo Rio de Janeiro, Bahiae PernambucoGrandes comerciantes, muitosdeles portuguesesLiberais, em formaçãoPequena classe média urbanaAlguns padresProprietários rurais de áreasmenos tradicionaisBase regional em São Paulo,Minas Gerais e Rio Grande do Sul
Compare as bases regionais nas últimas linhas: as áreas mais antigas de um lado, as mais novas de outro. A geografia da disputa imperial nasce aqui.

Mapa mental do assunto

Política regencial1831–1840Os moderadosVenceram depois do 7 de abrilSociedade Defensora, de tradição maçônicaVasconcelos, Feijó e Evaristo da VeigaOs exaltadosFederação e autonomia provincialLiberdades individuaisAlguns republicanos, como Cipriano BarataOs caramurusAbsolutistas, muitos portuguesesQueriam Dom Pedro I de voltaPerderam a causa em 1834O que faltava a todosConsenso sobre o arranjo institucionalClareza sobre o papel do EstadoUm projeto de país compartilhado
O ramo destacado é o que organiza o período inteiro: nenhuma das três correntes tinha, sozinha, um projeto de país capaz de se impor.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Definição do períodopaís regido em nome do imperador menino, de 1831 até a maioridade antecipada, em 1840
Formato da regênciatrês regentes no início; um só a partir de 1834
Problema centralausência de consenso entre as classes dominantes sobre o arranjo institucional
Paradoxo das reformasmedidas liberalizantes produziram choques entre elites e predomínio de grupos locais
Moderadosvencedores do 7 de abril; Sociedade Defensora, de tradição maçônica; muitos proprietários de terras e escravos
Nomes moderadosBernardo Pereira de Vasconcelos, padre Diogo Feijó e Evaristo da Veiga
Aurora Fluminensejornal liberal mais importante do período, editado por Evaristo da Veiga
Exaltadosfederação e liberdades individuais; alguns republicanos, como Cipriano Barata e Borges da Fonseca
Caramurusabsolutistas, muitos portugueses na burocracia, no Exército e no alto comércio; queriam Dom Pedro I de volta
Fim da restauraçãomorte de Dom Pedro I em Portugal, em 1834
Apelidos aos portuguesesmarinheiros, pés-de-chumbo, marotos, caramurus — e “cabras” como troco
Conservadores em germemagistrados, burocratas, proprietários do RJ, BA e PE, grandes comerciantes
Liberais em germepequena classe média urbana, alguns padres, proprietários de SP, MG e RS
Instabilidadea eleição de 1835 e a renúncia de Feijó, em 1837, abrem caminho ao Regresso
Periodização estendidaa Monarquia centralizada só se consolida por volta de 1850, com o fim das rebeliões
Cada linha responde a uma pergunta recorrente sobre a política do período regencial.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. BASILE, Marcello. O Império em Construção: projetos de Brasil e ação política na Corte regencial. Rio de Janeiro: UFRJ.
  3. MOREL, Marco. O Período das Regências (1831–1840). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
  4. CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem: a elite política imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.