A política no período regencial
Com o trono vazio, o Brasil descobriu que suas elites não sabiam que país queriam. Três correntes disputaram o vazio deixado por Dom Pedro I — e da briga entre elas nasceram os dois partidos que governariam o Império inteiro.

O padre Diogo Antônio Feijó em 1830 · 1830 · Wikimedia Commons · Public domain
A Regência tentou dar mais liberdade, mais autonomia às províncias e mais poder local. Por que o resultado foi choque violento entre elites e revolta em quase todo o território?
Fausto responde com uma frase que vale como chave do período inteiro: as classes e os grupos que mandavam no país não chegavam a acordo sobre qual desenho institucional servia aos próprios interesses. E faltava mais do que acordo — faltava clareza sobre para que serve o Estado quando o trabalho dele é organizar os interesses do conjunto, tarefa que às vezes exige sacrificar a vantagem particular de um setor.1
Ou seja: não era um lado querendo liberdade e outro querendo ordem. Era um conjunto de gente poderosa que não sabia que país queria — e descobriu isso quando o imperador saiu de cena.
O que significa “Regência”
O nome do período vem do arranjo de governo. Saído Dom Pedro I, o país ficou nas mãos de políticos que exerciam o poder em nome do imperador criança, situação que duraria até a antecipação da maioridade, em 1840. E o formato mudou no meio do caminho: de três regentes no arranque para um só, a partir de 1834.1
O saldo do período é descrito por Fausto sem meio-termo: foi tempo de grande turbulência, com a unidade territorial do país em risco, e com o debate político tomado pelos temas da organização do Estado.1
Fausto sugere esticar a periodização por mais dez anos. Só por volta de 1850 a Monarquia centralizada se consolidou de fato — quando cessaram as últimas rebeliões provinciais. A data de 1840 encerra o cargo de regente; não encerra o problema que o período abriu.
E há um paradoxo que o período expõe com clareza. As reformas feitas pelos regentes mostram como era difícil adotar uma prática liberal que ao mesmo tempo escapasse dos vícios do absolutismo. Nas condições brasileiras daquele momento, boa parte das medidas criadas para dar flexibilidade ao sistema político e garantir liberdades individuais acabou produzindo duas coisas bem diferentes: choques violentos entre as elites e o predomínio de interesses de grupos locais.1
Corrente 1: os moderados, que ganharam
Quem saiu por cima do 7 de abril foram os liberais moderados. Eles se organizaram segundo a tradição maçônica, numa entidade de nome comprido e programático: Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional.1
O perfil desse grupo diz muito sobre o que ele viria a fazer no poder. Havia alta proporção de políticos de Minas, São Paulo e Rio de Janeiro; presença significativa de padres e de alguns formados em Coimbra; e — o dado decisivo — muitos eram proprietários de terras e de escravos.1
Três nomes se destacam nessa lista. O magistrado mineiro Bernardo Pereira de Vasconcelos, com diploma de Coimbra. O padre Diogo Feijó, paulista de nascimento, que ainda ocuparia a regência. E Evaristo da Veiga, que tocava no Rio a Aurora Fluminense — a folha liberal de maior peso naquele momento.1

Evaristo da Veiga · 1861 · Wikimedia Commons · Public domain
LembrePor que a imprensa importa tanto neste período?
Porque não havia partidos organizados. As correntes se reconheciam por jornal, por sociedade política e por loja maçônica — e é por isso que um editor como Evaristo da Veiga aparece na mesma lista de nomes que um magistrado e um futuro regente.
Corrente 2: os exaltados, que queriam mais
À esquerda dos moderados ficavam os exaltados. A bandeira deles tinha dois pontos: a federação — entendida como autonomia efetiva das províncias — e as liberdades individuais.1
E alguns iam além do que a Monarquia poderia comportar: havia entre eles adeptos da República, como Cipriano Barata e Borges da Fonseca.1
Corrente 3: os caramurus, que queriam voltar
Do outro extremo estavam os absolutistas, apelidados de caramurus. Muitos deles eram portugueses, e ocupavam postos na burocracia, no Exército e no alto comércio. O objetivo era explícito: recolocar Dom Pedro I no trono.1
Esse projeto teve vida curta, e por uma razão que nenhuma articulação política resolve: Dom Pedro I morreu em Portugal em 1834. Com ele, morreu a causa restauradora.1
Os apelidos, e o que eles medem
A hostilidade aos portugueses tinha vocabulário próprio, que variava conforme a época e a região: marinheiros, pés-de-chumbo, marotos, caramurus. E havia troco: em represália, eles chamavam os brasileiros de “cabras”.1
Uma lista de xingamentos não é curiosidade folclórica. Ela mede quanto o conflito com o português seguia vivo uma década depois da Independência — e explica por que os levantes urbanos do período começam, tantas vezes, em briga de rua contra comerciantes lusos.
Das correntes aos partidos
É deste racha que sai o sistema partidário do Império. No centro dirigente, as tendências foram se separando, e nelas aparecem em germe os dois grandes partidos imperiais.1
No campo conservador ajuntaram-se quatro grupos: magistrados, gente de carreira na burocracia, uma fatia dos donos de terra — com peso no Rio de Janeiro, na Bahia e em Pernambuco — e o grande comércio, boa parte dele portuguesa.1
No campo liberal o desenho era outro: gente da pequena classe média das cidades, um punhado de padres e donos de terra vindos de regiões de tradição mais recente — com São Paulo, Minas e o Rio Grande do Sul à frente.1

Bernardo Pereira de Vasconcelos · 1858 · Wikimedia Commons · Public domain
O sistema que não se firmou
Faltava ao arranjo político do período aquilo que nenhuma lei entrega por decreto: estabilidade. A disputa pela regência única, em 1835, e a renúncia do regente eleito, dois anos depois, mostram um sistema que ainda não havia encontrado forma — e é justamente essa instabilidade que abre caminho para a virada conservadora conhecida como Regresso.1
Este site conta esses dois episódios — a eleição de 1835 e a queda de Feijó — no artigo dedicado ao Regresso, onde eles funcionam como ponto de partida. Aqui, o que importa reter é o quadro que os tornou possíveis: três correntes em disputa, nenhum consenso e um trono vazio.1

Feijó em litografia de Sisson · 2018 · Wikimedia Commons · Public domain
- O ponto central não é ideológico — o que define o período, segundo a fonte, é a ausência de consenso entre as classes dominantes sobre o arranjo institucional que lhes convinha — e a falta de clareza sobre o papel do Estado.
- Três correntes, não duas — moderados (vencedores em 1831), exaltados (federação, liberdades, alguns republicanos) e caramurus (absolutistas restauradores). Reduzir o período a liberais contra conservadores apaga a corrente que queria Dom Pedro I de volta.
- A restauração morre em 1834 — a causa caramuru se desfez com a morte de Dom Pedro I em Portugal, e não por derrota política. Depois disso, a disputa se dá entre as duas correntes restantes.
- Liberais moderados eram proprietários — muitos deles possuíam terras e pessoas escravizadas. O liberalismo do período não implicava, em nenhuma medida, crítica à escravidão.
- A periodização é elástica — o cargo de regente termina em 1840, mas Fausto sugere estender a análise até cerca de 1850, quando a Monarquia centralizada se consolida com o fim das últimas rebeliões.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Nove anos sem imperador, em sete marcos
De onde vem o impasse, e o que ele produz
Os dois partidos, antes de existirem
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Definição do período | país regido em nome do imperador menino, de 1831 até a maioridade antecipada, em 1840 |
| Formato da regência | três regentes no início; um só a partir de 1834 |
| Problema central | ausência de consenso entre as classes dominantes sobre o arranjo institucional |
| Paradoxo das reformas | medidas liberalizantes produziram choques entre elites e predomínio de grupos locais |
| Moderados | vencedores do 7 de abril; Sociedade Defensora, de tradição maçônica; muitos proprietários de terras e escravos |
| Nomes moderados | Bernardo Pereira de Vasconcelos, padre Diogo Feijó e Evaristo da Veiga |
| Aurora Fluminense | jornal liberal mais importante do período, editado por Evaristo da Veiga |
| Exaltados | federação e liberdades individuais; alguns republicanos, como Cipriano Barata e Borges da Fonseca |
| Caramurus | absolutistas, muitos portugueses na burocracia, no Exército e no alto comércio; queriam Dom Pedro I de volta |
| Fim da restauração | morte de Dom Pedro I em Portugal, em 1834 |
| Apelidos aos portugueses | marinheiros, pés-de-chumbo, marotos, caramurus — e “cabras” como troco |
| Conservadores em germe | magistrados, burocratas, proprietários do RJ, BA e PE, grandes comerciantes |
| Liberais em germe | pequena classe média urbana, alguns padres, proprietários de SP, MG e RS |
| Instabilidade | a eleição de 1835 e a renúncia de Feijó, em 1837, abrem caminho ao Regresso |
| Periodização estendida | a Monarquia centralizada só se consolida por volta de 1850, com o fim das rebeliões |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- BASILE, Marcello. O Império em Construção: projetos de Brasil e ação política na Corte regencial. Rio de Janeiro: UFRJ.
- MOREL, Marco. O Período das Regências (1831–1840). Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
- CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem: a elite política imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.