O Regresso e a centralização
Em julho de 1840 os liberais entregaram o trono a um adolescente de catorze anos — e fizeram isso para deter os conservadores. É o paradoxo que abre o Segundo Reinado: a manobra que devolveu o poder ao imperador partiu de quem dizia querer limitá-lo.

A declaração da maioridade de Dom Pedro II, 1840 · 1840 · Wikimedia Commons · Public domain
Os liberais defendiam limitar o poder do imperador. Por que foram justamente eles que, em 1840, correram para colocar um adolescente no trono?
Porque haviam perdido a disputa anterior, e essa era a única jogada que restava. Fausto trata o episódio como um daqueles paradoxos frequentes na política — e mais ainda na política brasileira: superados pelas iniciativas dos adversários, os liberais promoveram no Congresso a antecipação da maioridade. Pedro II assumiu o trono aos catorze anos, em julho de 1840.1
Para entender por que isso pareceu uma boa ideia a quem a executou, é preciso voltar seis anos.
O que havia sido concedido em 1834
A Regência tentou responder às queixas antigas das províncias. O Ato Adicional, de 1834, deu alguma autonomia às Assembleias Provinciais e tratou de repartir rendas entre o centro e as províncias.1
E aqui aparece o problema que move todo o assunto. Se as províncias reclamavam da centralização e a Regência afrouxou o controle, seria de esperar que as revoltas diminuíssem. Aconteceu o oposto: o período que se segue ao Ato Adicional é o mais revoltoso da história imperial. Fausto oferece uma explicação — ao agir naquele sentido, os regentes acabaram incentivando as disputas entre chefias regionais, num momento em que faltava a aura de legitimidade que a presença de um imperador no trono, bem ou mal, garantia. Algumas escolhas equivocadas de presidentes de província fizeram o resto.1
O enunciado costuma vir assim: “as revoltas regenciais se explicam pela centralização”. Cuidado. Elas explodem depois de uma medida descentralizadora, e é essa coincidência que a fonte se dá ao trabalho de explicar.
Feijó, e a eleição de seis mil pessoas
O sistema político ainda não havia encontrado equilíbrio. Em abril de 1835, na eleição para o cargo de regente único, o padre Feijó derrotou Holanda Cavalcanti, proprietário rural pernambucano. Os números merecem atenção: o corpo eleitoral do país inteiro somava por volta de 6 mil eleitores, e o placar foi de 2.826 votos a 2.251.1
Feijó durou pouco mais de dois anos. Em setembro de 1837 renunciou, pressionado pelo Congresso e acusado de não reprimir os farrapos com energia suficiente — acusação temperada por um detalhe constrangedor: entre os chefes da revolta gaúcha havia um primo seu. Na eleição seguinte venceu Pedro de Araújo Lima, futuro Marquês de Olinda, que já havia presidido a Câmara e era senhor de engenho em Pernambuco.1

Pedro de Araújo Lima, futuro Marquês de Olinda · 1835 · Wikimedia Commons · Public domain
O que a palavra “regresso” quer dizer
A vitória de Araújo Lima simboliza o início do regresso. E o termo é literal: designa a atuação da corrente conservadora que queria voltar à centralização política e ao reforço da autoridade — desfazer, na prática, o que 1834 havia montado.1
A primeira peça jurídica veio em maio de 1840: uma “interpretação” do Ato Adicional que retirava das províncias várias de suas atribuições, com destaque para a de nomear funcionários públicos.1
LembrePor que “interpretação”, e não “revogação”?
Porque revogar exigiria enfrentar o texto de frente. Chamar de interpretação permite mudar o alcance da lei mantendo a lei — o mesmo tipo de manobra que os liberais usariam poucas semanas depois para antecipar a maioridade. É a forma jurídica que a disputa política assumiu naquele ano.
Julho de 1840: o golpe da maioridade
Encurralados pelo avanço regressista, os liberais jogaram a carta que tinham. Recorreram, eles também, a mais uma interpretação arranjada do Ato Adicional, e fizeram passar no Congresso a antecipação da maioridade do monarca. Em julho de 1840, ainda adolescente, Pedro II assumiu.1
O cálculo era simples: com o imperador coroado, quem ocupasse a confiança dele governaria — e os liberais apostaram que essa confiança seria sua. O que veio depois mostrou o tamanho do erro.1
Depois de 1840: onde o poder foi parar
As medidas continuaram, e a melhor forma de entendê-las não é listá-las na ordem em que saíram, e sim perguntar quem perdeu poder e quem ganhou.1
Voltou a existir o Conselho de Estado, restabelecido depois de 1840, e o Código de Processo Criminal foi modificado em 1841. O efeito somado das duas coisas é o que interessa: a máquina administrativa e a judiciária foram devolvidas ao controle do centro. A exceção formal eram os juízes de paz — e ela durou pouco, porque eles perderam importância para a polícia.1
A polícia, aliás, é a peça mais reveladora do arranjo. Cada capital de província ganhou um chefe de polícia — e quem o apontava era o ministro da Justiça. Abaixo dele surgiram os delegados e subdelegados, espalhados por paróquias e municípios, que herdaram boa parte do que antes cabia ao juiz de paz — inclusive julgar pequenas causas criminais.1
Pare um segundo nessa frase, porque ela costuma passar batida. Significa que, em certos casos, a mesma autoridade investigava, processava e aplicava a pena. Não é detalhe técnico: é a supressão da distância entre quem acusa e quem julga, num município do interior do Império.1
Compare os dois cargos e o Regresso fica visível sem nenhum adjetivo. O juiz de paz era escolhido localmente. O delegado vem de uma cadeia que termina no ministro da Justiça, no Rio de Janeiro. A mesma função, com origem de autoridade invertida.
A Guarda Nacional deixa de eleger seus oficiais
O processo se completou com a reforma da Guarda Nacional — e Fausto é explícito ao dizer que os objetivos principais do regresso eram dois: centralização política e reforço da figura do imperador.1
O princípio eletivo, que na prática já não funcionava, desapareceu de vez. Quem passou a apontar os oficiais foi o centro: o governo geral, ou o presidente da província. E as exigências de renda para ocupar os postos subiram. Duas consequências caminham juntas: a hierarquia ficou reforçada, e o recrutamento dos oficiais passou a se dar em círculos mais restritos.1
Daí saiu também uma divisão de funções que valeria pelo restante do Império. Em vez de concorrerem entre si, Guarda Nacional e Exército passaram a ter papéis distintos: à Guarda cabia manter a ordem e defender os grupos dominantes no nível local; ao Exército, arbitrar disputas, garantir as fronteiras e sustentar a estabilidade geral do país.1

Uniformes da Guarda Nacional das províncias · 1851 · Wikimedia Commons · Public domain
Um governo sem base social
Vencida a batalha institucional, faltava a parte difícil. No começo dos anos 1840, o Império ainda não tinha base social sólida em que se firmar.1
Quem enunciou o problema com clareza foi Justiniano José da Rocha, descrito por Fausto como o mais brilhante jornalista conservador do período. Escrevendo em 1843, ele argumentava que o apoio não viria da massa inquieta e desiludida — nem no campo, nem nas cidades —, e sim de duas classes: o grande comércio e a grande agricultura. Nas palavras dele: “dê o governo a essas duas classes toda a consideração, vincule-as por todos os modos à ordem estabelecida, identifique-as com as instituições do país, e o futuro estará em máxima parte consolidado”.1
É um programa político em duas linhas, e o Império o seguiu. Note quem fica de fora dele: exatamente a população que aparecia em armas nas revoltas provinciais.1
Vale guardar essa citação para questões sobre o Segundo Reinado inteiro. Ela responde antecipadamente a várias perguntas: por que a Lei de Terras favorece o grande proprietário, por que a abolição demora tanto, por que o regime só cai quando perde essas duas classes.
A preocupação do jornalista não era abstrata. Ele escrevia com as revoltas liberais de maio e junho de 1842 na cabeça — levantes ocorridos em São Paulo e Minas Gerais, duas províncias até então pouco atingidas por rebeliões, com ramificações no Rio de Janeiro. Entre os líderes estava Breves, um dos proprietários mais ricos de sua província, e o motivo do rompimento dele com o governo central é instrutivo: a Corte vinha tentando combater a sonegação de impostos sobre o café e havia tomado medidas contra o tráfico de escravizados.1
O saldo: um modelo que virou consenso
Aqui está a conclusão que fecha o assunto, e ela é mais interessante do que a narrativa dos episódios. A divisão entre centralizadores e descentralizadores só foi de fato relevante na década de 1830, quando as duas correntes ainda nem eram partidos formados.1
As medidas do regresso e a maioridade de Pedro II — promovida, lembre-se, pelos próprios liberais — assinalaram a vitória do modelo centralizador. Daí em diante, os dois partidos aderiram a ele, ainda que os liberais seguissem insistindo no discurso descentralizador apenas “da boca para fora”, na expressão do próprio Fausto.1
A bandeira da descentralização só voltaria com força a partir da década de 1860, quando o Partido Liberal retomou o tema junto com a defesa das liberdades e de representação política mais ampla. O “novo” Partido Liberal, organizado em 1870, já defendia eleição direta nas cidades maiores, Senado temporário, redução das atribuições do Conselho de Estado e abolição gradual da escravidão.1

A sagração de Dom Pedro II, por Moreaux · 1842 · Wikimedia Commons · Public domain
- Ordem invertida das causas — as grandes revoltas regenciais explodem depois do Ato Adicional de 1834, que era descentralizador. Fausto explica o aparente contrassenso: a medida acirrou disputas entre chefias regionais num momento sem imperador no trono.
- Quem antecipou a maioridade — foram os liberais, não os conservadores — e por uma interpretação arranjada do mesmo Ato Adicional que os regressistas vinham estreitando. É o paradoxo central do assunto.
- Duas leis diferentes, o mesmo ano — a Lei de Interpretação é de maio de 1840 e retira atribuições das províncias; a antecipação da maioridade é de julho de 1840. Confundir as duas custa a questão.
- O que a mudança na polícia significou — delegados e subdelegados absorveram funções dos juízes de paz, inclusive julgar pequenas causas criminais. Em certos casos, a mesma autoridade investigava, processava e aplicava a pena.
- A Guarda Nacional muda de natureza — com o fim do princípio eletivo e o aumento da exigência de renda, ela deixa de concorrer com o Exército e passa a ter função definida: manter a ordem e defender os grupos dominantes no plano local.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De 1834 a 1842, em sete marcos
O que alimentou a reação, e o que ela fez
A eleição regencial de 1835
Antes e depois: quem nomeia quem
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Ponto de partida | Ato Adicional de 1834: autonomia às Assembleias Provinciais e partilha de rendas com o centro |
| O contrassenso aparente | as grandes revoltas explodem depois da descentralização, não antes dela |
| Eleição de 1835 | Feijó 2.826 votos × Holanda Cavalcanti 2.251, num eleitorado de cerca de 6 mil |
| Queda de Feijó | setembro de 1837, acusado de fraqueza na repressão aos farrapos |
| Marco inicial do Regresso | a vitória de Pedro de Araújo Lima, futuro Marquês de Olinda |
| Significado do termo | corrente conservadora que queria “regressar” à centralização e ao reforço da autoridade |
| Lei de Interpretação | maio de 1840: províncias perdem atribuições, sobretudo a de nomear funcionários |
| Maioridade antecipada | julho de 1840, promovida pelos liberais; Pedro II assume aos catorze anos |
| Conselho de Estado | restabelecido após 1840 |
| Código de Processo Criminal | modificado em 1841; aparelho administrativo e judiciário volta ao centro |
| Polícia | chefe de polícia nomeado pelo ministro da Justiça; delegados e subdelegados nas paróquias e municípios |
| Juízes de paz | formalmente preservados, mas esvaziados em favor da polícia |
| Guarda Nacional | fim do princípio eletivo; oficiais nomeados de cima; exigência de renda maior |
| Divisão de funções | Guarda mantém a ordem local; Exército arbitra disputas, guarda fronteiras e sustenta a estabilidade |
| Base social buscada | grande comércio e grande agricultura, na formulação de Justiniano José da Rocha (1843) |
| Saldo | vitória do modelo centralizador, aceito pelos dois partidos; descentralização só volta nos anos 1860 |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- CARVALHO, José Murilo de. A Construção da Ordem / Teatro de Sombras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
- MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema. São Paulo: Hucitec.
- DOLHNIKOFF, Miriam. O Pacto Imperial: origens do federalismo no Brasil. São Paulo: Globo, 2005.