As revoltas provinciais
Quatro rebeliões grandes em dez anos, do Pará ao Rio Grande do Sul, e nenhuma delas parecida com a outra. Na mais mortífera, morreu cerca de um quinto da população da província — e mesmo ali a escravidão não foi abolida pelos rebeldes.

Belém do Pará, por volta de 1825 · 1825 · Wikimedia Commons · Public domain
Quatro rebeliões enormes explodem em dez anos, em províncias que quase não se falavam. O que elas tinham em comum — e o que a resposta fácil, “eram revoltas contra a centralização”, deixa de fora?
Comece pelo aviso que Fausto dá antes de qualquer narrativa: as revoltas do período regencial não cabem numa moldura única. Todas têm relação com as dificuldades da vida cotidiana e com a incerteza da organização política do país, mas cada uma nasceu de uma realidade específica, provincial ou local.1
Quem decora “as revoltas regenciais foram contra a centralização” leva meia resposta. Duas delas começam em brigas internas das elites locais; uma é conduzida pela elite mais rica de sua província; e nenhuma delas rompe com o imperador menino em nome de quem o país era governado.
Antes das quatro grandes
Até meados da década de 1830, boa parte das rebeliões acontece nas capitais mais importantes, e tem dois protagonistas: a tropa e o povo. Em pouco mais de um ano, entre 1831 e 1832, a capital do Império viu cinco deles.1
O tamanho do susto aparece numa cena de gabinete. Em 1832, a situação ficou tão séria que o Conselho de Estado foi consultado sobre como proteger o menino imperador em duas hipóteses concretas: a de a capital cair na desordem e a de o Norte romper com o Sul.1
Guarde esta: em 1832, o governo estudava formalmente o cenário de divisão do país em dois. A unidade territorial brasileira não era destino garantido — era problema em aberto, discutido em ata por quem governava.
Depois do Ato Adicional de 1834 vêm as quatro maiores, e vale percorrê-las de norte a sul. No Pará, a Cabanagem arde de 1835 a 1840 — e Fausto avisa que ela não deve ser tomada pela Guerra dos Cabanos, de Pernambuco. Na Bahia, a Sabinada toma Salvador em 1837 e cai no ano seguinte. No Maranhão, a Balaiada corre de 1838 a 1840. E no extremo sul a Farroupilha atravessa a década inteira, encerrada apenas em 1845.1
Cabanagem: a mais mortífera
O Pará era província frouxamente ligada ao Rio de Janeiro. A minoria branca e estrangeira se concentrava em Belém, cidade de cerca de 12 mil habitantes, por onde escoava a produção modesta de tabaco, cacau, borracha e arroz.1
O estopim é revelador: uma disputa entre grupos da elite local a respeito da nomeação do presidente da província abriu o caminho para a rebelião popular. Proclamou-se ali a independência do Pará, e a força que marchou sobre Belém tinha na base gente negra, mestiça e indígena. A cidade caiu depois de dias de combate duro, e do litoral a rebelião se derramou pelo interior.1
Entre os líderes destacou-se Eduardo Angelim, cearense de 21 anos que havia migrado para o Pará depois da grande seca de 1827 no Ceará. Ele tentou organizar um governo — e o detalhe que escolheu para secretário diz muito sobre a província: um padre, uma das poucas pessoas capazes de escrever com fluência.1
Mas nenhum projeto alternativo de governo chegou a ser montado para a província. A energia da revolta foi para outro lado: atacar estrangeiros e maçons e defender quatro bandeiras — a fé católica, os brasileiros, o nome de Dom Pedro II e a liberdade, com o Pará no meio delas.1
E aqui está o dado que Fausto qualifica como curioso — e que este site trata como central: havia muitos escravizados entre os cabanos, e a escravidão não foi abolida. Mais que isso: uma insurreição de escravos chegou a ser reprimida por Angelim.1
LembreRevolta popular abolia a escravidão?
Não automaticamente — e a Cabanagem é a prova. Uma rebelião de gente pobre, com escravizados nas fileiras, pode manter a escravidão e até reprimir um levante de escravizados. Projetar sobre o passado a lógica que nos parece óbvia é o erro mais comum neste assunto.
O fim veio pelas armas do governo, depois de a entrada do rio Amazonas ser bloqueada e de choques longos e cruéis. A capital saiu em ruínas, e a economia da província, arrasada. As estimativas falam em 30 mil mortes ali, somando os dois lados — perto de um quinto de toda a gente que vivia no Pará.1

Tropas brasileiras em 1835, por Rugendas · 1835 · Wikimedia Commons · Public domain
Sabinada: o que a fonte sustenta
Este é o ponto em que o material de apoio consultado fica curto, e o honesto é dizer isso em vez de encher linguiça.1
Sabino Barroso, que dava aulas na Escola de Medicina de Salvador e escrevia em jornal, deu nome ao movimento. Antes dele, a província já colecionava revoltas urbanas desde a Independência — inclusive levantes de escravizados, ou com participação deles. O apoio à Sabinada foi largo, e alcançou a classe média e o comércio da capital.1
O destino do movimento se decidiu no que ele não alcançou: o Recôncavo permaneceu fechado aos sabinos, e os senhores de engenho de lá apoiaram o governo. Sitiada por terra e por água, Salvador foi retomada num combate casa a casa que custou cerca de 1.800 vidas.1
Sobre a Sabinada, a fonte principal deste site oferece pouco mais que isso: liderança, base social, o bloqueio no Recôncavo e o número de mortos. Preferimos registrar a lacuna a preencher com dedução — quem precisar de mais deve procurar bibliografia específica sobre a Bahia do período.
Balaiada: três lideranças, nenhuma igual
No Maranhão, o começo repete o padrão paraense: disputas entre grupos da elite local que acabam desembocando em revolta popular. O foco ficou no sul da província, na divisa com o Piauí — terra de gente que criava gado e plantava algodão em pequena escala.1
À frente estavam três figuras muito diferentes entre si. Raimundo Gomes, cafuzo envolvido na política local. Francisco dos Anjos Ferreira, que vivia de fazer e vender balaios — daí o nome do movimento — e entrou na luta para desagravar a filha violentada por um capitão de polícia. E, correndo por fora, Cosme, líder negro que os relatos históricos registram sem sobrenome, à frente de 3 mil escravizados fugidos.1
Os balaios chegaram a ocupar Caxias, a segunda cidade da província. E o pouco que puseram por escrito é instrutivo: os papéis saúdam a fé católica, a Constituição, Dom Pedro II e a “santa causa da liberdade”. Reivindicação social ou econômica, nenhuma — ainda que, como pondera Fausto, custe acreditar que Cosme e seus homens não estivessem brigando pela própria liberdade, santa ou não.1
O desfecho foi rápido e duro. As correntes internas se desentenderam, e a repressão do governo central veio depressa e sem falhar: em meados de 1840 os rebeldes estavam batidos. Veio então a anistia, com uma cláusula que precisa ser dita por inteiro — os negros que haviam pegado em armas seriam devolvidos ao cativeiro. Em 1842, Cosme foi enforcado.1
Quem chefiava a tropa imperial naquela campanha era um oficial que reapareceria em quase todos os conflitos do Segundo Reinado: Luís Alves de Lima e Silva, que saiu dali com o título de Barão de Caxias.1
Farroupilha: a revolta dos que não eram farrapos
O apelido nasceu na boca do inimigo. “Farrapo” e “farroupilha” são a mesma palavra e significam maltrapilho — quem anda de roupa esfiapada. A origem, registra Fausto, estaria no traje que Cipriano Barata exibia em Lisboa, chapéu de palha incluído, para parecer um matuto brasileiro em vez de um português. Quem combatia os rebeldes do Sul pegou o termo emprestado para rebaixá-los.1
E é aqui que o nome engana. A tropa até podia andar maltrapilha — a direção do movimento, não. Quem mandava ali era a elite das estâncias, os grandes criadores de gado da província.1

Carga de cavalaria farroupilha, por Guilherme Litran · 1893 · Wikimedia Commons · Public domain
O Rio Grande do Sul era, desde a Colônia, um caso à parte. Geografia, economia e parentesco o amarravam ao mundo do Prata, e ao Uruguai em especial. Os caudilhos — chefes armados da fronteira, que também criavam gado — tinham propriedades e famílias dos dois lados da linha.1
Ao mesmo tempo, era o mercado interno brasileiro que comprava o que a província produzia. Antes dos trilhos, o transporte do Centro-Sul andava sobre mulas criadas ali. Os açorianos haviam plantado trigo para o resto do país. E havia o charque, item de primeira necessidade na mesa dos pobres e dos escravizados do Sul e do Centro-Sul.1
Guarde a distinção seguinte, porque ela explica o desfecho da guerra: criadores e charqueadores eram grupos separados. Os criadores ficavam na Campanha, na fronteira; os charqueadores tinham suas instalações no litoral, na região das lagoas.1
As queixas eram antigas — os gaúchos se consideravam explorados por impostos pesados —, e pedidos de autonomia, ou mesmo de separação, já haviam sido feitos tanto por conservadores quanto por liberais. Nem a Regência nem o Ato Adicional resolveram o problema: províncias incapazes de cobrir as próprias despesas recebiam recursos do centro, vindos em parte de outras províncias — e o Rio Grande do Sul mandava fundos repetidamente para cobrir despesas de Santa Catarina e de outras regiões.1
Os estancieiros tinham ainda duas razões próprias. A primeira, fiscal: queriam derrubar ou reduzir a taxação do gado na fronteira com o Uruguai, para fazer circular livremente os rebanhos que possuíam nos dois países. A segunda, militar: cada um deles já dispunha de tropa própria, obediente a um chefe que ninguém contestava — e por isso via ameaça, e não progresso, numa Guarda Nacional cujos oficiais seriam escolhidos por voto.1
Repare no argumento, porque ele é contraintuitivo. O que ameaçava o estancieiro não era um exército imperial forte — era uma milícia local com oficiais escolhidos por eleição, que poderia pôr a chefia armada da região nas mãos de outro. Menos de dez anos depois, o Regresso resolveria esse problema para eles, acabando com a eleição de oficiais.
A revolta não uniu a província. Quem a armou foram estancieiros da fronteira, com adesão de parte da classe média urbana — e é aí que ela teve base. Já os charqueadores escolheram o outro lado: vendiam para o Rio de Janeiro, maior comprador de charque e couro do país, e ficaram com o governo central.1
Uma república de dez anos
Entre os rebeldes houve oficiais do Exército recém-chegados à província, como João Manuel de Lima e Silva, tio de Caxias e irmão de um dos primeiros regentes. Somaram-se a eles cerca de vinte revolucionários italianos refugiados no país — e o mais famoso desse grupo atende por Giuseppe Garibaldi.1
No centro de tudo estava Bento Gonçalves, herdeiro de estância rica e com longa folha de serviço nas guerras da região. Um detalhe de método revela o personagem: ele abriu lojas maçônicas ao longo da fronteira e passou a despachar sua correspondência secreta pelo correio dos maçons.1
Foi guerra longa, e decidida em cima do cavalo. Garibaldi e Davi Canabarro empurraram o conflito para o norte e chegaram a mandar em Santa Catarina por um período. Dentro do território rebelde, a cidade de Piratini viu nascer, em 1838, uma República com o nome dela, presidida por Bento Gonçalves. Fausto faz questão de anotar que aquilo não ficou no papel: funcionou de fato, e chegou a incentivar a criação de gado e a venda de charque e couro para fora.1

Porto Alegre e suas trincheiras, 1839 · 1839 · Wikimedia Commons · Public domain
Como o Império encerrou a guerra
A Corte alternou tiro e acordo, por um motivo prático: não estava lidando com miseráveis, e o território em disputa valia muito para o Império do ponto de vista estratégico.1
A prova apareceu no começo de 1840: atendendo a uma das principais exigências econômicas dos rebeldes, a Corte taxou em 25% a entrada da carne salgada platina, que fazia concorrência à produção daqui.1
O passo decisivo é de 1842, quando Caxias acumulou a presidência da província com o comando das armas. A fórmula dele juntou ofensiva militar e gestos de apaziguamento.1
Em 1845, negociado chefe a chefe, o acordo final foi assinado por Caxias e Canabarro. E convém sublinhar o que Fausto sublinha: ninguém se rendeu sem condições. Saiu anistia geral; a oficialidade farroupilha entrou para o Exército brasileiro com as patentes que tinha; e as dívidas da República de Piratini foram para a conta do Império.1

Disposição das forças em Ponche Verde, 1843 · 1843 · Wikimedia Commons · Public domain
Sobre o objetivo final, os historiadores divergem: não há acordo sobre se aqueles homens queriam mesmo sair do Brasil para montar um país novo junto com o Uruguai e as províncias platinas. O denominador comum que Fausto identifica é mais modesto e mais seguro: garantir ao Rio Grande do Sul autonomia provincial, com renda própria, fora do aperto centralizador da Corte.1
A guerra teve ainda um efeito de política externa. Enquanto durou, o Brasil foi obrigado a agir com moderação no Prata e a buscar acordos com Buenos Aires — justamente porque tinha uma revolução dentro das próprias fronteiras para resolver.1
O que se repete, e o que não
Encerrado o ciclo, é possível arriscar uma síntese — desde que ela respeite o aviso do início: não há moldura única.1
O que se repete: em pelo menos dois casos, o rastilho é uma briga entre grupos da elite local, e não uma insurgência popular espontânea. Em vários deles, os rebeldes dizem lutar pela religião e pelo imperador — e não contra eles. E em todos, a repressão do governo central chega, mais cedo ou mais tarde.1
O que não se repete: quem lidera. De um lado, tropa de negros, mestiços e indígenas atacando a capital do Pará; de outro, estancieiros ricos proclamando uma república no Sul. Chamar as duas coisas de “revolta provincial” é correto — e insuficiente, se o estudante não souber essa diferença.1
E há o que nenhuma fez: nenhuma delas aboliu a escravidão. É o dado mais desconfortável do conjunto, e o que mais ensina sobre os limites daquelas rebeliões.1
- Divergência de datas na própria fonte — para a Farroupilha, o livro traz num trecho o período de 1836 a 1845 e, em outro, informa que ela eclodiu em 1835. Registramos a divergência em vez de escolher uma data em silêncio.
- Nenhuma aboliu a escravidão — na Cabanagem havia muitos escravizados entre os rebeldes, e uma insurreição de escravos chegou a ser reprimida por Angelim. Na Balaiada, a anistia foi condicionada à reescravização dos negros revoltosos.
- Duas revoltas homônimas — a Cabanagem do Pará não deve ser confundida com a Guerra dos Cabanos, de Pernambuco. Fausto faz a ressalva explicitamente.
- O apelido veio do inimigo — “farrapos” e “farroupilhas” significam maltrapilhos, e foram usados pelos adversários para depreciar. A direção do movimento era da elite dos estancieiros.
- Controvérsia sobre o separatismo — não há acordo entre historiadores sobre se os farrapos queriam separar-se do Brasil. O ponto comum registrado é a defesa de autonomia provincial com rendas próprias.
- Cobertura desigual — a Sabinada é, neste artigo, o movimento com tratamento mais curto — reflexo do material disponível na fonte principal, não de menor importância histórica.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Quatorze anos de rebelião, em sete marcos
Por que explodem, e o que deixam
A escala da Cabanagem
Duas pontas do mesmo período
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Advertência de método | as revoltas não cabem numa moldura única; cada uma tem origem provincial ou local |
| Antes de 1834 | levantes nas capitais, com tropa e povo; cinco só no Rio, entre 1831 e 1832 |
| O susto de 1832 | Conselho de Estado consultado sobre salvar o imperador menino e sobre a separação Norte–Sul |
| Cabanagem | Pará, 1835–1840; não confundir com a Guerra dos Cabanos, de Pernambuco |
| Belém | cerca de 12 mil habitantes; foi tomada pelos rebeldes e ficou praticamente destruída |
| Mortos no Pará | cerca de 30 mil, entre rebeldes e legalistas — algo como 20% da população da província |
| Liderança cabana | Eduardo Angelim, cearense de 21 anos, migrado após a seca de 1827 |
| Escravidão na Cabanagem | não foi abolida; uma insurreição de escravizados foi reprimida por Angelim |
| Sabinada | Bahia, 1837–1838; líder Sabino Barroso, professor da Escola de Medicina |
| Fim da Sabinada | os sabinos não entraram no Recôncavo; Salvador retomada em luta corpo a corpo, com cerca de 1.800 mortos |
| Balaiada | Maranhão, 1838–1840; Raimundo Gomes, Francisco dos Anjos Ferreira e Cosme |
| Anistia maranhense | só valia devolvendo os negros revoltosos ao cativeiro; Cosme enforcado em 1842 |
| Farroupilha | Rio Grande do Sul; dirigida pela elite dos estancieiros, não por gente pobre |
| República de Piratini | proclamada em 1838, presidida por Bento Gonçalves; teve existência real, não só no papel |
| Concessão de 1840 | taxa de importação de 25% sobre a carne salgada vinda do Prata |
| Paz de 1845 | acordo com anistia geral, oficiais integrados ao Exército e dívidas de Piratini assumidas pelo Império |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras.
- DI PAOLO, Pasquale. Cabanagem: a revolução popular da Amazônia. Belém: Cejup.
- PESAVENTO, Sandra Jatahy. A Revolução Farroupilha. São Paulo: Brasiliense.