História Verso
História do Brasil · Regime Militar

O governo Castelo Branco

Foi eleito para um mandato que acabaria em janeiro de 1966, governou até 1967, apagou todos os partidos do país com uma canetada e entregou o cargo a um sucessor que não era o seu. O primeiro governo do regime já contém suas contradições.

1964–196712 min de leitura4 fontes
Retrato oficial de Castelo Branco · Governo do Brasil · 1964
Retrato oficial do primeiro presidente do regime militar, escolhido por votação indireta no Congresso em 15 de abril de 1964, conforme previa o AI-1.
Retrato oficial de Castelo Branco · 1964 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Castelo Branco recebeu um mandato que terminaria em janeiro de 1966. Ficou no cargo até 1967, apagou do mapa todos os partidos do país e não conseguiu escolher quem viria depois. O que saiu do controle?

A resposta curta é que o regime era mais forte que o presidente. Cada vez que a fachada legal montada em abril de 1964 rangia, a saída adotada foi ampliá-la por decreto — e cada ampliação fortalecia quem defendia endurecer ainda mais. Castelo terminou entregando o cargo justamente a esse grupo.

Terra: uma lei que não pegou

Comecemos pelo campo, onde a repressão de 1964 tinha batido mais forte. O governo não se limitou a perseguir os que chamava de agitadores: tentou também responder ao problema fundiário. Em novembro de 1964 saiu do Congresso o Estatuto da Terra, desenhado para dar execução à reforma agrária e para orientar a política agrícola.1

O desfecho é o que interessa reter. Fausto registra que a lei — e os instrumentos criados depois dela — ficou em grande medida no papel. Repressão a quem cobrava reforma agrária, de um lado; estatuto sem aplicação real, de outro. As duas coisas na mesma gestão.1

LembreO Estatuto da Terra realizou a reforma agrária?

Não. Aprovado em novembro de 1964, ele criou o instrumento legal e permaneceu em grande parte sem aplicação. É um caso exemplar da diferença entre promulgar e executar — e cai em prova exatamente nesse ponto.

A economia: arrumar a casa

No terreno econômico, a marca do período foi o programa conduzido por Campos e Bulhões. Ele atacou dois problemas herdados — a inflação e o desequilíbrio do balanço de pagamentos — e, ao reduzi-los, abriu caminho para a fase de crescimento acelerado que viria entre 1969 e 1973.1

Convém desfazer aqui um engano frequente. Nem tudo mudou depois de 1964: o Estado continuou pesando muito na atividade econômica e na regulação da economia. Esse traço variou de governo para governo, e Fausto observa que ele foi mais acentuado sob Geisel do que sob Castelo.1

Muita coisa, porém, mudou de fato. O modelo que Juscelino esboçara ganhou escala, e dois elementos passaram a ser essenciais para financiar o crescimento: o empréstimo externo e a entrada de capital estrangeiro. Esse arranjo, que ficou conhecido como desenvolvimento associado, favoreceu as grandes empresas — multinacionais, sim, mas também nacionais, públicas e privadas. Era a ruptura explícita com o esquema populista de Goulart e com a tentativa, malograda, de crescer a partir da burguesia nacional.1

Castelo Branco inaugura hospital em Brasília, 1966 · autoria não identificada · 1966
Castelo Branco inaugura um hospital em Brasília, em 1966 — o ano da primeira eleição legislativa disputada sob o bipartidarismo imposto pelo AI-2.
Castelo Branco inaugura hospital em Brasília, 1966 · 1966 · Wikimedia Commons · Public domain
Questão 01múltipla escolha · sem placar
Sobre a política econômica do governo Castelo Branco, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. A forte presença do Estado na atividade econômica e na regulação permaneceu depois de 1964. Fausto observa até que ela seria mais acentuada sob Geisel do que sob Castelo.

  2. Incorreta. O regime rompeu claramente com esse esquema, inclusive com a tentativa de promover desenvolvimento autônomo a partir da burguesia nacional.

  3. Incorreta. Ocorreu o contrário: empréstimos externos e ingresso de capital estrangeiro tornaram-se elementos essenciais do financiamento do crescimento.

  4. Incorreta. O milagre é posterior, de 1969 a 1973. O que o período de Castelo fez foi preparar-lhe o terreno, reduzindo inflação e desequilíbrio externo.

  5. Correta. É a leitura de Fausto. O modelo consolidado então, chamado de desenvolvimento associado, apoiava-se em empréstimo externo e capital estrangeiro e privilegiava as grandes empresas.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

O AI-2 e o apagão partidário

O ato mais consequente do governo veio em 1965. O AI-2 engrossou os poderes presidenciais por duas vias: permitiu ao presidente baixar atos complementares ao próprio ato e editar decretos-leis em matéria de segurança nacional. A partir dali o governo passou a legislar sobre o que quisesse, esticando o conceito de segurança nacional até onde lhe conviesse.1

Mas o golpe mais fundo do AI-2 não estava nos poderes que deu ao presidente. Estava na varredura que fez no sistema partidário: todos os partidos existentes foram extintos. Na leitura dos militares, ter muitos partidos era parte da causa das crises políticas que o país vinha atravessando.1

Desapareceram, assim, as legendas nascidas no fim do Estado Novo — aquelas que, bem ou mal, davam voz a correntes distintas de opinião pública. E veio o detalhe que a prova costuma cobrar errado: a nova legislação não decretou o bipartidarismo com essas palavras. Ela apenas tornou inviável qualquer coisa além de dois, e o resultado prático foi o surgimento da Arena, onde se reuniram os governistas, e do MDB, que abrigou a oposição.1

Dois partidos por consequência, não por decreto
A distinção é fina e vale ponto. O AI-2 extinguiu os partidos; a legislação partidária que veio depois impôs exigências que, na prática, só duas organizações conseguiriam cumprir. Dizer que o ato criou Arena e MDB inverte o mecanismo: ele destruiu o que havia, e o bipartidarismo foi a consequência do vácuo.

1966: a primeira contagem sob duas legendas

A estreia do novo desenho veio nas eleições legislativas de 1966. Para a Câmara dos Deputados, os votos válidos se repartiram assim: 63,9% com a Arena e 36% com o MDB.1

O número que costuma escapar está fora dessa conta. A oposição mais radical não aceitou disputar dentro das regras e fez campanha pelo voto nulo. O resultado apareceu: 14,2% de votos em branco e 6,8% de nulos. Somados, passam de um quinto do eleitorado que compareceu e recusou as duas opções disponíveis.1

De Gaulle e Castelo Branco, 1964 · Unknown Unknown · 1964
De Gaulle recebido por Castelo Branco, em outubro de 1964. A face diplomática de um governo que, no mesmo ano, cassava mandatos e instalava inquéritos policial-militares.
De Gaulle e Castelo Branco, 1964 · 1964 · Wikimedia Commons · Public domain

Com isso, avalia Fausto, o governo Castelo completou as mudanças nas instituições do país — trabalho que se fecharia com a nova Constituição, em 1967.1

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre o Ato Institucional nº 2 e o bipartidarismo, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. O ato extinguiu os partidos existentes; foi a legislação partidária seguinte que, na prática, tornou inviável organizar mais de dois. O bipartidarismo foi consequência, não criação direta.

  2. Incorreta. Esses partidos deixaram de existir. Eram justamente eles que, bem ou mal, exprimiam correntes distintas da opinião pública.

  3. Correta. São as duas faces do ato, e a segunda permitiu ao governo esticar o conceito de segurança nacional até onde lhe conviesse para legislar sobre o que quisesse.

  4. Incorreta. Não houve revogação nesse sentido. As mudanças institucionais do período se consolidaram e se completaram com a Constituição de 1967.

  5. Incorreta. A escolha indireta do presidente foi mantida e aprofundada ao longo do regime, não revertida.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

O sucessor que veio do outro lado

Castelo não conseguiu emplacar quem quisesse no lugar dele. Quem assumiu foi Costa e Silva — e o detalhe saboroso é que ele servira como ministro da Guerra do próprio Castelo sem jamais ter pertencido ao chamado grupo da Sorbonne.1

A ficha militar era sólida: passara por meses de treinamento nos Estados Unidos e comandara o IV Exército nos anos tensos de 1961 e 1962. Os conspiradores de 1964 o chamavam de “tio velho”. Quanto ao temperamento, era o oposto do antecessor: enquanto Castelo tinha perfil intelectualizado, Costa e Silva não se interessava por tratados de estratégia e preferia coisas mais leves e corridas de cavalos.1

A diferença que pesava, porém, não era de personalidade. Nele se depositavam as expectativas da linha-dura e dos nacionalistas autoritários das Forças Armadas, gente descontente com dois traços do castelismo: a aproximação com os Estados Unidos e as facilidades concedidas ao capital estrangeiro.1

Linha-dura e nacionalista, ao mesmo tempo
Fausto desfaz aqui uma confusão comum: não havia incompatibilidade entre ser da linha-dura e ser nacionalista. Havia até tendência a que as duas posições se juntassem. Quem imagina que o regime se dividia entre “duros pró-Estados Unidos” e “brandos nacionalistas” está lendo o tabuleiro pelo eixo errado.

A troca de guarda foi completa. Ao montar o ministério, Costa e Silva cortou o grupo de Castelo Branco: nenhum nome da equipe anterior permaneceu. E o número de militares em postos importantes cresceu.1

Costa e Silva e seus ministros na posse, março de 1967 · Unknown author Unknown author · 15 March 1967
Costa e Silva com seus ministros no dia da posse, 15 de março de 1967. A fotografia documenta a ruptura: nenhum integrante da equipe de Castelo Branco seguiu no governo.
Costa e Silva e seus ministros na posse, março de 1967 · 1967 · Wikimedia Commons · Public domain
Castelo Branco e seu ministério, 1964 · Unknown Unknown · 1964
Castelo Branco e seu ministério, em 1964. Três anos depois, essa equipe inteira estaria fora do governo.
Castelo Branco e seu ministério, 1964 · 1964 · Wikimedia Commons · Public domain
Pontos sensíveis deste artigo
  • O AI-2 não criou Arena e MDB — ele extinguiu os partidos existentes. Foi a legislação partidária seguinte que, ao impor exigências, tornou inviável organizar mais de duas legendas. O bipartidarismo é consequência do vácuo, não criação direta do ato.
  • Promulgar não é executar — o Estatuto da Terra, de novembro de 1964, foi aprovado para dar execução à reforma agrária e ficou em grande medida no papel — como os instrumentos que vieram depois dele.
  • O voto nulo faz parte do resultado de 1966 — além dos 63,9% da Arena e dos 36% do MDB entre os votos válidos, houve 14,2% de brancos e 6,8% de nulos, fruto da campanha da oposição mais radical. Citar só os dois primeiros números é contar metade.
  • O Estado não saiu da economia — a forte presença estatal na atividade econômica permaneceu depois de 1964, e Fausto observa que ela foi mais acentuada sob Geisel do que sob Castelo. O que mudou foi o papel do empréstimo externo e do capital estrangeiro.
  • Linha-dura e nacionalismo não se excluem — Costa e Silva concentrava as esperanças da linha-dura e também dos nacionalistas autoritários, descontentes com a aproximação castelista com os Estados Unidos. Fausto registra até uma tendência à junção das duas posições.
  • Castelo não escolheu o sucessor — Costa e Silva era estranho ao grupo da Sorbonne e, ao assumir, trocou o ministério inteiro. Tratar a sucessão como continuidade dentro do mesmo grupo apaga a disputa interna que atravessa todo o regime.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De abril de 1964 a março de 1967, em seis marcos

15 abr 1964Eleitoindiretamentepelo Congressonov 1964Congresso aprovao Estatuto daTerraout 1964De Gaulle emvisita ao Brasil1965AI-2 extinguetodos os partidos1966Arena faz 63,9%dos votos para aCâmara1967Nova Constituiçãoe posse de Costae SilvaO mandato previsto acabava em janeiro de 1966. Foi esticado por mais de um ano, e mesmo assim o sucessor saiu do outro grupo.
Os dois marcos em destaque delimitam o governo: começa com uma eleição indireta e culmina no ato que apagou o sistema partidário construído desde 1945.

O que levou ao AI-2, e o que ele produziu

O QUE LEVOU AO AI-2O QUE ELE PRODUZIUDiagnóstico militarmuitos partidos seriam causadas crises políticasCongresso resistentea casa mantida abertanem sempre obedeciaPressão da linha-durasetores queriam endurecero que o AI-1 deixara abertoAI-2 · 1965extingue os partidos e ampliao poder do presidenteBipartidarismosobram apenas Arenae MDBGoverno por decreto-leisegurança nacional viraconceito elásticoVitória oficial em 196663,9% dos votos válidospara a CâmaraVoto nulo14,2% em branco e6,8% de nulos
A segunda caixa da esquerda é a que explica o resto: manter o Congresso aberto foi decisão do próprio regime, e conviver com uma casa que às vezes resistia acabou custando o sistema partidário inteiro.

A Câmara dos Deputados em 1966

Arena (governo)63,9%MDB (oposição)36%% dos votos válidos para a Câmara, em 1966
As duas barras somam os votos válidos. Fora delas ficam 14,2% de brancos e 6,8% de nulos — a parcela que a campanha da oposição radical tirou do jogo.

Castelo Branco e Costa e Silva

Castelo BrancoLigado ao grupo da SorbonnePerfil intelectualizadoAproximação com os Estados UnidosFacilidades ao capital estrangeiroMeta declarada de “democracia relativa”Não conseguiu emplacar o sucessorCosta e SilvaEstranho ao grupo da SorbonneSem gosto por teoria militarEsperança da linha-duraApoio dos nacionalistas autoritáriosTrocou toda a equipe anteriorMais militares em postos de comando
Guardar este contraste evita o erro de tratar a sucessão de 1967 como continuidade. Os dois generais respondiam a grupos diferentes dentro da mesma corporação.

Mapa mental do assunto

Governo Castelo Branco1964–1967A políticaAI-2 extingue os partidosBipartidarismo: Arena e MDBDecreto-lei em segurança nacionalA economiaPrograma Campos-BulhõesEmpréstimo externo e capital de foraO “desenvolvimento associado”O campoEstatuto da Terra, nov 1964Repressão aos “agitadores”A lei ficou quase toda no papelO que a prova erraArena e MDB não foram criados por decretoO Estatuto da Terra não fez reformaCosta e Silva não era do grupo dele
O ramo destacado reúne os três enganos mais frequentes, e o primeiro deles é de mecanismo: o ato destruiu os partidos, e o bipartidarismo veio depois, por consequência.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Chegada ao cargoeleição indireta no Congresso, em 15 de abril de 1964, prevista pelo AI-1
Mandato previstoaté 31 de janeiro de 1966 — prorrogado, o governo se estendeu até 1967
Estatuto da Terranovembro de 1964, para execução da reforma agrária e política agrícola
Resultado do Estatutoficou em grande medida no papel, assim como os instrumentos seguintes
Programa econômicoCampos-Bulhões, contra a inflação e o desequilíbrio do balanço de pagamentos
Efeito de médio prazoabriu caminho para a fase de crescimento acelerado de 1969 a 1973
Papel do Estadocontinuou forte na economia; segundo Fausto, mais acentuado sob Geisel do que sob Castelo
Modelo adotadodesenvolvimento associado — empréstimo externo e capital estrangeiro, favorecendo grandes empresas
Ruptura com Goulartabandono do esquema populista e da tentativa de crescer a partir da burguesia nacional
AI-2: poderesatos complementares e decretos-leis em matéria de segurança nacional
AI-2: medida principalextinção de todos os partidos existentes
Justificativa militaro multipartidarismo seria um dos fatores responsáveis pelas crises políticas
BipartidarismoArena, dos governistas, e MDB, da oposição — resultado das exigências da legislação partidária
Eleições de 1966Arena 63,9% e MDB 36% dos votos válidos para a Câmara
Voto de recusa14,2% de brancos e 6,8% de nulos, fruto da campanha da oposição mais radical
Fecho institucionala nova Constituição, de 1967
SucessorCosta e Silva, ministro da Guerra de Castelo, porém estranho ao grupo da Sorbonne
Base de apoio do sucessorlinha-dura e nacionalistas autoritários, contra a aproximação com os Estados Unidos
A troca de 1967nenhum nome da equipe anterior permaneceu; cresceu a presença militar nos postos de comando
Cada linha responde a uma pergunta que a questão de vestibular costuma fazer sobre o primeiro governo do regime militar.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. GASPARI, Elio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
  3. MARTINS FILHO, João Roberto. O Palácio e a Caserna. São Carlos: EdUFSCar, 1995.
  4. SILVA, Ligia Osorio. Terras Devolutas e Latifúndio. Campinas: Editora da Unicamp, 1996.