O governo Médici e o milagre econômico
Os anos de maior crescimento econômico do século foram também os mais violentos do regime. Não é contradição: Fausto mostra que o governo tratava de dois públicos distintos, e tinha um instrumento para cada um.

Retrato oficial de Emílio Garrastazu Médici · 1969 · Wikimedia Commons · Public domain
Como um mesmo governo pode ser lembrado como o mais popular e o mais violento do regime? Fausto responde que ele não falava com um país — falava com dois, e tinha um instrumento para cada um.
A formulação é dele e vale reproduzir o raciocínio. O governo separou de um lado um setor expressivo, mas minoritário, que se opunha ao regime; de outro, a massa da população, que atravessava aqueles anos com alguma esperança de melhora. Ao primeiro grupo aplicou a repressão, e ela o desmontou. Ao segundo aplicou a propaganda, que ao menos o neutralizou.1
Como ele chegou ao cargo
A escolha do sucessor de Costa e Silva foi disputada dentro da caserna. O nome mais querido entre os oficiais jovens era o do general nacionalista Albuquerque Lima, que tinha até pontes no meio civil, inclusive no MDB. Ele foi tirado da corrida sob o pretexto de ser general de apenas três estrelas.1
Restaram os quatro-estrelas, e entre eles o Alto Comando das Forças Armadas apontou Emílio Garrastazu Médici, com o ministro da Marinha Augusto Rademaker na vice-presidência. Gaúcho como Costa e Silva, descendente de italianos pelo lado paterno e de mãe de origem basca, Médici já servira ao antecessor: fora seu chefe de Estado-Maior na III Região Militar, nos anos 1950.1

A posse de Médici, 30 de outubro de 1969 · 1969 · Wikimedia Commons · Public domain
Um governo repartido em três
Médici organizou a gestão dividindo-a por áreas, cada uma com um dono. A militar ficou com o ministro do Exército, Orlando Geisel. A econômica seguiu com Delfim Netto, que permaneceu na Fazenda desde o governo anterior. E a política ficou com Leitão de Abreu, professor de direito que chefiava a Casa Civil.1
Fausto extrai daí um paradoxo que vale guardar: um dos períodos mais repressivos da história do país foi conduzido por um comando presidencial dividido — o que ajuda a entender por que os órgãos de segurança operavam com tanta autonomia.1

Delfim Netto em 1970 · 1970 · Wikimedia Commons · Public domain
A liquidação da luta armada
Foi sob Médici que os grupos armados de esquerda foram desmontados, e o método aparece com clareza no primeiro caso. Em novembro de 1969, a polícia armou a cilada que matou Carlos Marighella — e a informação que permitiu montá-la saiu de uma sessão de tortura.1
No começo de 1971 a VPR já estava reduzida a quase nada. Lamarca, aconselhado pelos companheiros a deixar o país, preferiu ficar. Moveu-se de esconderijo em esconderijo até entrar no sertão da Bahia, e foi lá que o cercaram e o mataram, em setembro.1
Restou o foco rural que o PC do B vinha montando no Araguaia, e cujos militantes conviviam com a população local, ensinando técnicas de cultivo e cuidados de saúde. O Exército localizou o grupo em 1972, mas ali não se mostrou tão eficaz quanto fora contra a guerrilha das cidades. Só em 1975, depois de converter a região em zona de segurança nacional, conseguiu prender ou matar os guerrilheiros.1
Onde a tortura era praticada
O aparelho tem uma cronologia própria. Até 1969, o órgão mais associado à prática da tortura era o Cenimar, ligado à Marinha. Naquele ano nasceu em São Paulo a Operação Bandeirantes — a Oban —, vinculada ao II Exército e atuando sobretudo no eixo São Paulo–Rio.1
A Oban foi substituída pelos DOI-CODI, sigla dupla do Destacamento de Operações e Informações e do Centro de Operações de Defesa Interna. Espalhados por vários estados, eles se tornaram, na formulação de Fausto, os principais centros de tortura do regime militar.1
Sobre as mortes, o registro precisa ser exato. Formalmente, a pena de morte nunca chegou a ser aplicada. O que houve em lugar dela foram execuções sumárias e mortes ocorridas durante a tortura — e cada uma recebeu uma versão oficial: ora um confronto entre subversivos e forças da ordem, ora um desaparecimento misterioso.1
Não é eufemismo nem licença literária. O desaparecimento forçado descreve um procedimento específico: matar sem admitir a morte, ocultar o corpo e negar oficialmente qualquer conhecimento do caso. Serve a dois propósitos ao mesmo tempo — elimina o adversário e impede que exista um crime a apurar, já que sem corpo e sem registro não há o que investigar.
Os números do milagre
O crescimento começou antes de Médici assumir. O PIB subiu 11,2% em 1968 e 10,0% em 1969 — o que dá 8,1% e 6,8% quando se divide por habitante.1
O período que ficou conhecido como milagre vai de 1969 a 1973 e combinou crescimento excepcional com inflação comportada: 11,2% de média anual no PIB, com pico de 13% em 1973, e inflação que não passou de 18% ao ano na média. Parecia mesmo um milagre — e Fausto avisa em seguida que o fenômeno tinha explicação terrena e prazo de validade.1
A explicação terrena
O primeiro fator estava fora do país. A economia mundial oferecia, naquele momento, recursos abundantes para empréstimo, e os países em desenvolvimento mais adiantados aproveitaram. O tamanho dessa tomada de crédito aparece numa série que convém memorizar: a dívida externa desses países, os que não produziam petróleo, em 1967 não chegava a 40 bilhões de dólares; cinco anos depois já era 97 bilhões; e em 1980 alcançava 375 bilhões.1
O segundo fator foi o capital estrangeiro. Só em 1973 entraram 4,3 bilhões de dólares — perto do dobro de 1971 e mais do que o triplo de 1970. Boa parte foi para a indústria automobilística, que puxou o setor industrial com taxas anuais acima de 30%. Dois estímulos explicam o apetite de General Motors, Ford e Chrysler: a oferta maior de crédito ao consumidor e a mudança nas normas de produção, que liberou a fabricação de carros de tamanho médio.1
LembreO milagre econômico foi obra de uma receita brasileira original?
Não. Fausto aponta que os planejadores se beneficiaram, em primeiro lugar, de uma conjuntura mundial com dinheiro farto para emprestar. O crescimento veio acompanhado de endividamento externo — e a conta apareceria na década seguinte.
E não era receita de manual ortodoxo: o FMI criticou a fórmula em relatório de 1971, apontando que ela facilitava conviver com a inflação no presente à custa de tornar o problema mais difícil no futuro.1
O que o PIB não conta
Aqui entra uma advertência metodológica de Fausto que serve muito além deste assunto. O PIB mede bem o estado geral de uma economia, mas não diz nada sobre distribuição. Nem mesmo o PIB por habitante resolve isso: ele apenas reparte o produto igualmente pela população, ignorando o que cada grupo social de fato ganhou. E tampouco informa o volume ou a qualidade dos serviços coletivos disponíveis.1
Por isso os efeitos negativos do período foram, sobretudo, de natureza social. Houve desproporção entre o avanço econômico e o atraso — quando não o abandono — dos programas sociais pelo Estado. O resultado é o retrato que o Brasil carregaria por décadas: destaque no potencial industrial ao lado de indicadores baixíssimos de saúde, educação e habitação.1
Capitalismo selvagem
Fausto usa a expressão para descrever aqueles anos e os seguintes: grandes projetos tocados sem consideração pela natureza nem pelas populações locais. Ele lembra o contexto de época: a palavra ecologia mal havia entrado nos dicionários, e a fumaça de fábrica e de carro passava por bênção.1
O exemplo que ele escolhe no governo Médici é a Rodovia Transamazônica, aberta com dois objetivos: garantir o controle brasileiro sobre a região — o que Fausto chama de eterno fantasma na óptica dos militares — e assentar trabalhadores em agrovilas.1

A Transamazônica hoje, no sudeste do Pará · 2007 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
A outra metade: a televisão
Voltemos ao raciocínio de abertura. Se a repressão deu conta da minoria opositora, a propaganda tratou do resto — e ela contou com uma infraestrutura nova, fruto do avanço das telecomunicações após 1964.1
O salto é impressionante: com facilidades de crédito pessoal, a televisão passou de 9,5% dos domicílios urbanos em 1960 para 40% em 1970. Nesse período, apoiada pelo governo e convertida em porta-voz dele, a TV Globo cresceu até cobrir o país como rede nacional, dominando quase todo o setor. Com isso a propaganda oficial passou a ter um alcance sem precedentes na história do país.1
O conteúdo dessa campanha era a promoção do “Brasil grande potência”, conduzida pela AERP, a Assessoria Especial de Relações Públicas — criada ainda sob Costa e Silva, mas sem importância naquele governo. Foi a época dos slogans que ficaram: “Ninguém segura este país” e a marchinha “Pra Frente Brasil”.1

Médici inaugura a rodovia Belém–Brasília · 1974 · Wikimedia Commons · Public domain
O efeito eleitoral apareceu. Somando condições econômicas favoráveis, repressão e, em menor medida, a campanha pelo voto nulo, a oposição legal chegou ao seu ponto mais baixo. Nas eleições de 1970, quando se renovaram dois terços do Senado, a Arena ficou com 41 cadeiras e o MDB, com cinco.1
O fim da festa
Ainda no período Médici, em outubro de 1973, veio a primeira crise internacional do petróleo, desdobramento da Guerra do Yom Kippur, em que Estados árabes atacaram Israel. Os produtores da região combinaram então cortar a oferta de petróleo.1
E, como acontecera com Castelo Branco, Médici também não conseguiu fazer o próprio sucessor. Em meados de 1973, as Forças Armadas escolheram o nome do general Ernesto Geisel.1
- Repressão e propaganda são a mesma política — Fausto lê os dois lados como partes de um cálculo único: repressão para o setor minoritário que se opunha, propaganda para a massa que vivia a prosperidade. Tratar o milagre e a violência como assuntos separados desmonta o argumento.
- O PIB não mede distribuição — advertência explícita do autor: nem o PIB nem o PIB per capita exprimem como a renda se reparte, e tampouco o volume e a qualidade dos serviços coletivos. É a chave para responder qualquer questão sobre os custos sociais do período.
- O milagre tem explicação externa — veio de uma conjuntura mundial de crédito abundante e de forte entrada de capital estrangeiro, não de uma fórmula nacional inédita. O FMI, aliás, criticou a receita em 1971.
- Pena de morte formal não houve — o que existiu foram execuções sumárias e mortes durante a tortura, apresentadas oficialmente como confronto entre subversivos e forças da ordem ou como desaparecimentos misteriosos. A distinção entre o que a lei previa e o que o Estado fez é o ponto.
- O Araguaia não termina em 1972 — o Exército localizou o foco em 1972 e só concluiu a operação em 1975, depois de transformar a região em zona de segurança nacional. E o país não soube: a divulgação era proibida.
- Uma lacuna que este artigo não preenche — não há aqui número total de mortos e desaparecidos do período, porque a fonte principal deste artigo não o fornece. Essa contabilidade pertence aos relatórios de comissões de investigação, e citá-la de memória seria inventar precisão.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De 1969 a 1973, em sete marcos
Repressão e propaganda: dois públicos
O que sustentou o crescimento, e o que ele deixou
A conta que veio junto
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Escolha do presidente | pelo Alto Comando das Forças Armadas, com Rademaker na vice |
| Quem foi barrado | Albuquerque Lima, popular entre oficiais jovens, afastado por ter três estrelas |
| Divisão do governo | militar (Orlando Geisel), economia (Delfim Netto) e política (Leitão de Abreu) |
| O paradoxo | comando presidencial dividido em um dos períodos mais repressivos |
| Marighella | morto em novembro de 1969, em emboscada montada com informação obtida sob tortura |
| Lamarca | morto em setembro de 1971, no sertão da Bahia, após recusar deixar o país |
| Araguaia | foco do PC do B localizado em 1972 e liquidado só em 1975, sob censura total |
| Aparelho repressivo | Cenimar até 1969, depois a Oban no II Exército e, em seguida, os DOI-CODI |
| Mortes | sem pena de morte formal: execuções sumárias e mortes sob tortura, dadas como confronto ou desaparecimento |
| PIB em 1968 e 1969 | 11,2% e 10,0% (8,1% e 6,8% por habitante) |
| O milagre | 1969–1973: média de 11,2% ao ano, pico de 13% em 1973 |
| Inflação do período | média que não passou de 18% ao ano |
| Fator externo | crédito abundante no mundo; dívida dos países em desenvolvimento sem petróleo vai de 40 bi (1967) a 375 bi (1980) |
| Capital estrangeiro | 4,3 bilhões de dólares em 1973, quase o dobro de 1971 |
| Setor líder | automobilística, acima de 30% ao ano, com GM, Ford e Chrysler |
| Avaliação do FMI | relatório de 1971 critica a fórmula por adiar o problema inflacionário |
| Custo social | programas sociais retardados ou abandonados; indicadores baixos de saúde, educação e habitação |
| Transamazônica | controle militar da região e assentamento em agrovilas — exemplo do “capitalismo selvagem” |
| Televisão | de 9,5% dos domicílios urbanos em 1960 a 40% em 1970; TV Globo vira rede nacional e porta-voz |
| Propaganda | AERP e o “Brasil grande potência”; “Ninguém segura este país” e “Pra Frente Brasil” |
| Eleições de 1970 | Arena com 41 cadeiras no Senado, MDB com cinco |
| Fim do ciclo | crise do petróleo em outubro de 1973; Geisel escolhido sucessor em meados daquele ano |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- GASPARI, Elio. A Ditadura Escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
- ARQUIDIOCESE DE SÃO PAULO. Brasil: Nunca Mais. Petrópolis: Vozes, 1985.
- SINGER, Paul. A Crise do “Milagre”. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.