História Verso
História do Brasil · Segundo Reinado

Abolição: resistência negra e a Lei Áurea

Antes de 13 de maio de 1888, o trabalho nas fazendas paulistas já havia desmoronado — não por decisão do Parlamento, mas porque as pessoas escravizadas fugiam em massa. A lei de duas frases chegou depois disso, e é essa ordem que muda o entendimento do assunto.

188815 min de leitura4 fontes
Luís Gama, por volta de 1880 · Unknown author Unknown author · 2013-11-26 06:57:02
Luís Gama por volta de 1880. Vendido ilegalmente como escravo pelo próprio pai, fugiu, tornou-se advogado e passou a arrancar cartas de liberdade nos tribunais. Ele abre este artigo no lugar que a memória escolar costuma reservar à princesa que assinou a lei.
Luís Gama, por volta de 1880 · 2013 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

A lei que acabou com a escravidão no Brasil tem duas frases e foi aprovada por larga maioria. Se era tão fácil, por que só aconteceu em 1888 — e o que mudou a cabeça de quem votou?

Comece pela ordem dos acontecimentos, porque é nela que o assunto se resolve. Sobre os anos finais do sistema, Fausto é categórico ao apontar qual foi o fato mais importante do período — e não é uma lei. É a fuga em massa de pessoas escravizadas, que desorganizou o trabalho nas fazendas de São Paulo.1

Guarde essa frase. Ela significa que, quando o Parlamento votou, o sistema já havia parado de funcionar onde mais importava economicamente. A lei não interrompeu a escravidão em pleno vigor: ela certificou um colapso que já estava em curso — e o motor desse colapso foram os próprios escravizados.

1871: a lei que assustou os senhores

A extinção foi conduzida por etapas. E há um dado que surpreende quem chega ao assunto pelo 13 de maio: a maior controvérsia legal não foi em 1888, e sim em 1871, com a Lei do Ventre Livre.1

O mecanismo dela precisa ser lido com atenção, porque é menos generoso do que o nome sugere. Ficavam livres os filhos de mulher escravizada nascidos depois da lei — mas essas crianças permaneceriam em poder do senhor da mãe até os oito anos. Chegada essa idade, o senhor escolhia: receber uma indenização do Estado ou usar os serviços do menor até os 21 anos. Quem levou a proposta adiante foi o gabinete conservador do Visconde do Rio Branco — e o efeito político veio na hora: os liberais perderam para os adversários a bandeira que julgavam sua.1

Livre até os 21 anos de trabalho
Leia de novo o mecanismo: a criança nasce livre e pode ser obrigada a trabalhar para o dono da mãe até os 21 anos. A lei chama isso de liberdade. É o tipo de detalhe que separa quem decorou o nome da lei de quem entendeu o que ela fazia.

Por que um governo proporia uma lei que irritava sua própria base? A explicação que Fausto considera mais plausível põe a decisão na conta do próprio imperador e do círculo em volta dele, por escolha deliberada. O cálculo teria se formado logo depois da Guerra do Paraguai: resolver a questão servil era o custo de reduzir uma fraqueza interna que incomodava quem governava.1

A reação da classe proprietária, essa sim, é o que ilumina o período inteiro. Para ela, o projeto trazia um risco grave de subversão da ordem — e o argumento usado merece ser lido devagar. Libertar por generosidade do senhor produzia no beneficiado gratidão e obediência. Abrir caminho para a liberdade por força da lei produzia outra coisa: a ideia, na cabeça de quem era escravizado, de um direito. E daí, temiam eles, viria a guerra entre as raças.1

LembreDo que exatamente os senhores tinham medo em 1871?

De que a liberdade fosse entendida como direito, e não como favor. Enquanto a alforria dependia da vontade do proprietário, ela reforçava a hierarquia. Uma lei geral transformava a mesma liberdade em algo devido — e é isso que a elite escravista considerava perigoso.

A votação de 1871 revela a geografia do problema. Os deputados do Nordeste apoiaram a proposta em peso — 39 votos a favor contra 6 —, enquanto os do Centro-Sul fizeram o inverso: 30 contra e 12 a favor. Parte da explicação está no tráfico interprovincial, que vinha reduzindo a dependência nordestina em relação ao braço escravo. Pesou também a profissão: havia muitos funcionários públicos, sobretudo magistrados, em geral vindos do Norte e do Nordeste, e esse grupo votou com o governo. Divisão partidária nítida, essa não houve — deputados dos dois partidos votaram dos dois lados.1

E o resultado prático? Escasso. Poucos meninos chegaram a ser entregues ao poder público, e os proprietários seguiram usando seus serviços.1

Quem fez a campanha

A partir da década de 1880 o abolicionismo ganhou força, com associações, jornais e propaganda, e reunindo gente de camadas sociais variadas. Entre os parlamentares, o nome mais conhecido é o de Joaquim Nabuco, escritor nascido em berço de política e latifúndio em Pernambuco.1

Mas a fonte registra, com nome e sobrenome, quem fazia a campanha a partir de baixo. Três figuras se destacam entre os militantes negros e mestiços de origem pobre: José do Patrocínio, André Rebouças e Luís Gama.1

Líderes da Confederação Abolicionista · desconhecido · 1890
Líderes da Confederação Abolicionista, com José do Patrocínio e André Rebouças entre os retratados. A existência de uma organização nacional, com imprensa e diretoria, desfaz sozinha a ideia de abolição concedida de cima.
Líderes da Confederação Abolicionista · 1890 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

José do Patrocínio nasceu do encontro entre dois mundos opostos: o pai era padre, e ao mesmo tempo fazendeiro com pessoas escravizadas em sua propriedade; a mãe, uma mulher negra que vendia frutas. Ele viria a comandar, como dono, a Gazeta da Tarde — folha abolicionista da capital — e ficou na memória pela oratória inflamada.1

André Rebouças era o oposto no temperamento: figura retraída, engenheiro, professor de botânica, cálculo e geometria na Escola Politécnica da Corte. E era o mais radical no programa. Para ele, o fim da escravidão devia vir junto com uma “democracia rural”: distribuição de terras às pessoas libertadas e um imposto territorial capaz de forçar a venda e a divisão dos latifúndios.1

André Rebouças em 1870 · Desconhecido · 1870
André Rebouças em 1870. Engenheiro e professor, defendia que a liberdade viesse acompanhada de terra e de um imposto que obrigasse a dividir os latifúndios. Nada disso entrou na lei de 1888.
André Rebouças em 1870 · 1870 · Wikimedia Commons · Public domain

Luís Gama tem a trajetória mais impressionante das três. Do lado paterno vinha uma família portuguesa abastada, na Bahia. A mãe era Luísa Mahin, que o próprio filho descreveria com orgulho como “uma negra africana livre que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã”.1

O que aconteceu com ele é o retrato do país que este artigo descreve: o pai, arruinado, vendeu o próprio filho como escravo — e a venda era ilegal. Levado ao Rio e em seguida a Santos, cruzou a Serra do Mar a pé com outras cem pessoas escravizadas, sem calçado e passando fome. Escapou da casa do senhor, serviu como soldado e depois se fez poeta, advogado e jornalista em São Paulo.1

José do Patrocínio, retratado antes de 1882 · Alberto Henschel · before 1882
José do Patrocínio, retratado por Alberto Henschel antes de 1882. Dono da Gazeta da Tarde, foi a voz mais conhecida da campanha na capital do Império.
José do Patrocínio, retratado antes de 1882 · 1882 · Wikimedia Commons · Public domain

1884 e 1885: o Norte desiste, o Parlamento tenta segurar

Enquanto a campanha crescia, as províncias do Norte foram perdendo o interesse em manter o sistema — a ponto de, em 1884, o Ceará não esperar pela Corte e acabar com a escravidão dentro de seus próprios limites, quatro anos antes da lei nacional.1

A resposta do Parlamento veio em 1885, com a Lei dos Sexagenários — também chamada de Saraiva-Cotejipe, e que não deve ser confundida com a Lei Saraiva, de 1881, que era eleitoral. Ela nasceu sob um gabinete liberal, o do conselheiro Saraiva, mas só passou pelo Senado quando os conservadores já haviam retomado o governo, com Cotejipe no comando. Ela libertava os cativos com mais de sessenta anos e fixava regras para uma libertação gradual do restante, mediante indenização.1

O propósito, Fausto declara sem rodeios: a lei foi pensada para deter o abolicionismo radical. E não alcançou o objetivo.1

Libertar quem já não rende
Faça a conta de quem tinha mais de sessenta anos numa população submetida a trabalho forçado, com expectativa de vida baixíssima. A lei de 1885 alforriava justamente quem já não servia à lavoura — e ainda transferia ao ex-senhor o problema de sustentar essa pessoa, ou não.

1885–1888: o sistema desaba de baixo

Depois de uma pausa curta, a campanha ganhou ímpeto novo entre 1885 e 1888. E aqui está o núcleo do assunto — o que determinou o desfecho não foi um discurso no Senado, foi o que acontecia dentro das fazendas.1

Antônio Bento, que vinha ele mesmo de família paulista de posses, liderava militantes que percorriam fazenda por fazenda e cidade por cidade do interior, chamando à desobediência. O mapa mudou rápido: Santos virou o ponto de acolhimento de quem fugia.1

É essa fuga contínua que produz o dado decisivo: o trabalho nas fazendas paulistas se desorganizou. A elite cafeeira leu o sinal sem se iludir — viu que a escravidão estava ruindo em velocidade e tratou de acelerar o plano de imigração que já tinha na gaveta.1

Quem tomou a iniciativa
Junte as duas pontas desta seção. Quem agiu primeiro foram as pessoas escravizadas, fugindo. Quem reagiu foram os fazendeiros, acelerando a importação de trabalhadores europeus. O Parlamento aparece por último na sequência — e é ele que a memória escolar coloca em primeiro lugar.
Questão 01múltipla escolha · sem placar
Segundo a fonte principal deste site, o fato mais importante do período final da escravidão no Brasil (1885–1888) foi:
  1. Incorreta. A princesa sancionou a lei na condição de regente, mas não é ela que explica a mudança. Atribuir o desfecho à vontade dela é justamente a versão que o artigo desmonta.

  2. Incorreta. A pressão britânica foi decisiva contra o tráfico, décadas antes, e não no desfecho de 1888 — assunto tratado no artigo sobre o fim do tráfico.

  3. Incorreta. A lei de 1885 foi pensada para conter o abolicionismo radical, e Fausto registra que ela não alcançou seu objetivo.

  4. Correta. É a formulação da fonte. A lei de maio de 1888 chega depois do colapso do trabalho no campo — e é essa ordem que explica a votação quase unânime.

  5. Incorreta. Foi um gabinete conservador, presidido por João Alfredo, que acabou propondo a abolição sem restrições — e diante da oposição dos liberais a um projeto intermediário.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Maio de 1888

No último ano, a resistência tinha endereço: o Vale do Paraíba, região cafeeira antiga cujos senhores viam a riqueza encolher — e cujo patrimônio restante estava aplicado, literalmente, em seres humanos.1

Houve uma tentativa de meio-termo. O senador conservador paulista Antônio Prado, ligado ao Oeste Paulista, preparou um projeto que previa libertação imediata sujeita a indenização e a três meses de prestação de serviços — o suficiente para garantir a colheita seguinte.1

Os liberais barraram a proposta. Diante disso, o conservador João Alfredo, então à frente do Conselho, foi ao extremo oposto e apresentou o fim da escravidão sem condição nenhuma. O texto passou com ampla maioria no Parlamento, e a sanção veio em 13 de maio de 1888, pela mão da princesa Isabel, que ocupava a regência.1

Dois detalhes da votação valem mais que qualquer adjetivo. O voto contrário reuniu nove deputados, e oito deles vinham de uma província só: o Rio de Janeiro — o Vale. E, no Senado, o Barão de Cotejipe chefiou o que restava da resistência, lançando uma ameaça que diz tudo sobre o que estava realmente em jogo: “Daqui a pouco se pedirá a divisão das terras e o Estado poderá decretar a expropriação sem indenização”.1

O documento da Lei Áurea · Agência Senado from Brasilia, Brazil · 2022-05-12 10:10
O documento da Lei Áurea. Duas frases revogaram três séculos e meio de cativeiro legal — e não trataram de terra, de indenização, de escola nem de trabalho para quem saía do cativeiro.
O documento da Lei Áurea · 2022 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0

O que veio depois, região por região

O destino de quem saiu do cativeiro variou conforme o lugar — e nenhum dos caminhos foi bom.1

No Nordeste, em regra as pessoas libertadas se tornaram dependentes dos grandes proprietários. O Maranhão foi exceção: ali muitos abandonaram as fazendas e se instalaram como posseiros em terras desocupadas.1

No Vale do Paraíba, a saída foi a parceria nas fazendas de café já em decadência; com o tempo, essa gente virou pequeno sitiante ou foi tocar gado como peão.1

No Oeste Paulista, onde a fuga já marcara os anos anteriores, o movimento não parou em 1888: a saída de pessoas negras rumo à capital paulista e a outras áreas se estendeu por uma década, no mínimo.1

A vaga que já estava ocupada

Nas cidades, a diferença entre Rio e São Paulo é o dado mais eloquente do pós-abolição.1

Em São Paulo, quem ficou com o trabalho fixo foi o imigrante; a quem saía do cativeiro restaram as ocupações intermitentes. No Rio de Janeiro o quadro foi outro: havia tradição de trabalhadores livres nas oficinas artesanais e manufaturas, e a imigração pesava menos — de modo que o trabalhador negro encontrou oportunidades relativamente maiores.1

Os números fecham o argumento. No Rio de 1891, pessoas negras respondiam por cerca de 30% da mão de obra fabril. Em São Paulo, dois anos depois, 84% dos postos da indústria estavam com imigrantes. O Rio Grande do Sul repetiu o modelo paulista de substituição.1

A conclusão de Fausto é direta: a abolição não eliminou o problema do negro. A escolha pelo imigrante nas áreas economicamente dinâmicas, somada às oportunidades escassas nas demais, produziu uma desigualdade social profunda — que, sendo em parte fruto do preconceito, acabou reforçando o próprio preconceito. Sobretudo onde a imigração foi forte, o negro passou a ser tratado como inferior, perigoso, vadio e propenso ao crime; e útil quando subserviente.1

Um circuito, não um acidente
Preste atenção na forma do argumento: o preconceito empurra a população negra para as piores posições; a posição pior é depois usada como prova da inferioridade que justificava o preconceito. É um circuito que se alimenta — e é por isso que ele não se desfaz sozinho com o tempo.
Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre a situação da população negra após 1888, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. A lei não previu nada disso. A proposta de distribuição de terras era de André Rebouças e ficou fora do texto — e o Barão de Cotejipe usou justamente essa hipótese como ameaça.

  2. Incorreta. O destino variou muito por região: dependência no Nordeste, posse de terras no Maranhão, parceria no Vale do Paraíba, deslocamento para as cidades no Oeste Paulista.

  3. Correta. É o que os números mostram: cerca de 30% dos trabalhadores fabris cariocas eram negros em 1891, enquanto imigrantes ocupavam 84% dos empregos na indústria paulistana em 1893.

  4. Incorreta. Fausto descreve o contrário: a desigualdade, fruto em parte do preconceito, acabou por reforçar o próprio preconceito contra a população negra.

  5. Incorreta. No Vale eles se tornaram parceiros nas fazendas em decadência e, mais tarde, pequenos sitiantes ou peões — não proprietários por transferência das fazendas.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • A ordem dos fatos — a fuga em massa desorganizou o trabalho nas fazendas paulistas ANTES da lei. Segundo a fonte, esse é o fato mais importante do período final — a votação de maio de 1888 vem depois do colapso, não antes.
  • A lei mais polêmica não é a de 1888 — a maior controvérsia legal ocorreu em 1871, com a Lei do Ventre Livre. E o mecanismo dela é menos generoso do que o nome: a criança podia servir ao dono da mãe até os 21 anos.
  • Duas leis Saraiva — a Lei dos Sexagenários (1885) é também chamada Saraiva-Cotejipe e não deve ser confundida com a Lei Saraiva de 1881, que era reforma eleitoral.
  • O que estava em jogo além da liberdade — André Rebouças defendia terra para os libertos e imposto territorial contra o latifúndio. A ameaça de Cotejipe no Senado — de que pediriam a divisão das terras — mostra que a elite entendia esse programa e o rejeitava.
  • Quem votou contra — foram nove deputados, e oito representavam a província do Rio de Janeiro. A resistência final era a do Vale do Paraíba, cujas fortunas estavam imobilizadas em pessoas escravizadas.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De 1871 a 1898, em sete marcos

1871Lei do VentreLivre divide oParlamentoanos 1880Campanhacresce comjornais eassociações1884Ceará extinguea escravidãopor contaprópria1885Lei dosSexagenáriostenta conter omovimento1885–1888Fuga em massadesorganiza asfazendaspaulistas13 mai 1888Aboliçãoaprovada semrestriçõesaté 1898Fluxo denegros para ascidades seguepor dez anosRepare na ordem: a desagregação do trabalho vem antes da lei. Quando o Parlamento vota, em maio de 1888, o sistema já havia deixado de funcionar no campo.
Os dois marcos em destaque estão na ordem que importa: primeiro a fuga em massa desorganiza as fazendas, depois o Parlamento vota.

O que tornou a lei inevitável, e o que ela deixou

O QUE TORNOU A LEI INEVITÁVELO QUE A LEI DEIXOUFuga em massao trabalho nas fazendaspaulistas se desorganizaCampanha organizadajornais, associações eativistas no interiorNorte perde o interesseCeará extingue a escravidãosozinho, em 1884Existe substitutoa imigração subvencionadajá estava montada13 de maio de 1888abolição sem restrições,sem indenização a ninguémLiberdade sem terranenhuma medida de acessoà terra ou à escolaO emprego estável somenas áreas dinâmicas, a vagafica com o imigranteDesigualdade que se realimentao preconceito produz adesvantagem, e vice-versaO Vale quebraa fortuna dos barões estavaimobilizada em cativos
Leia a primeira caixa da esquerda e a primeira da direita juntas: quem derrubou o sistema não recebeu nada quando ele caiu.

A lei de 13 de maio: o que fez e o que não fez

O que a lei fezExtinguiu a escravidão de imediatoSem prazo, sem prestação de serviçosSem indenizar proprietáriosAprovada por larga maioria: apenasnove deputados votaram contraEncerrou três séculos e meio decativeiro legal em duas frasesO que a lei não fezNenhum acesso à terra para os libertosNenhuma indenização a quem foiescravizadoNenhuma política de escola ou trabalhoNada contra a substituição pelotrabalhador imigrante subvencionadoA proposta de terra, de Rebouças,ficou fora do texto
A coluna da direita é a agenda que ficou pendente — e que segue explicando a desigualdade brasileira mais de um século depois.

Quem ocupou o emprego industrial

Negros na indústria do Rio, 1891≈ 30%Imigrantes na indústria de SP, 189384%composição do trabalho fabril nas duas capitais
Duas cidades, dois anos próximos, dois resultados opostos. A barra destacada mostra o que “substituição por trabalhador imigrante” significa na prática.

Mapa mental do assunto

Abolição1871–1888As leis por etapasVentre Livre, 1871Sexagenários, 1885Lei Áurea, 13 de maio de 1888Quem fez a campanhaLuís Gama, advogado e ex-escravizadoJosé do Patrocínio, na imprensaAndré Rebouças, e a terraO que derrubou o sistemaFuga em massa das fazendasSantos como refúgioCeará abole sozinho, em 1884O que NÃO explica 1888Generosidade da princesaConsenso das elitesFim natural de um sistema caro
O ramo destacado reúne as três explicações que a memória escolar oferece e que a fonte não sustenta. Guardar esse ramo vale mais do que decorar as três leis.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Fato decisivo do período finala fuga em massa, que desorganizou o trabalho nas fazendas paulistas entre 1885 e 1888
Lei do Ventre Livre1871: filhos livres, mas em poder do senhor da mãe até os 8 anos, e serviços até os 21
Autor do projeto de 1871gabinete conservador do Visconde do Rio Branco
Argumento dos proprietáriosliberdade por lei criaria nos escravizados a ideia de direito; por generosidade, criaria gratidão
Votação de 1871Nordeste 39 a favor × 6 contra; Centro-Sul 30 contra × 12 a favor
Efeito prático de 1871escasso: poucos menores entregues ao Estado, serviços seguiram sendo usados
Abolicionistas negros citadosJosé do Patrocínio, André Rebouças e Luís Gama
Programa de Rebouças“democracia rural”: terra para os libertos e imposto territorial contra o latifúndio
Cearáextinguiu a escravidão por conta própria em 1884
Lei dos Sexagenários1885, ou Saraiva-Cotejipe; libertava maiores de 60 anos mediante indenização
Antônio Bentoliderou ativistas que iam às fazendas incentivar a rebeldia; Santos virou refúgio dos fugidos
Tentativa de meio-termoprojeto de Antônio Prado: libertação com indenização e três meses de serviços
Lei Áurea13 de maio de 1888, proposta por João Alfredo e sancionada pela princesa Isabel
Resistência finalnove deputados contra, oito deles do Rio de Janeiro; Cotejipe liderou no Senado
Destino dos libertosdependência no Nordeste; posse no Maranhão; parceria no Vale; migração urbana em São Paulo
Trabalho urbanonegros = 30% da indústria carioca (1891); imigrantes = 84% da indústria paulistana (1893)
Cada linha responde a uma pergunta recorrente sobre o fim da escravidão no Brasil.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. AZEVEDO, Elciene. Orfeu de Carapinha: a trajetória de Luiz Gama na imperial cidade de São Paulo. Campinas: Unicamp.
  3. MACHADO, Maria Helena. O Plano e o Pânico: os movimentos sociais na década da abolição. São Paulo: Edusp.
  4. ALONSO, Angela. Flores, Votos e Balas: o movimento abolicionista brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.