A crise do Segundo Reinado
A partir de 1870, quatro frentes começam a se abrir contra o Império ao mesmo tempo: republicanos, bispos, oficiais e abolicionistas. Nenhuma delas conversava com as outras — e é justamente por isso que o regime levou dezenove anos para cair.

Dom Pedro II fotografado em 1876 · 1876 · Wikimedia Commons · Public domain
Se a partir de 1870 quatro grupos diferentes já estavam em atrito com o Império, por que a Monarquia ainda levou dezenove anos para cair?
Porque as quatro brigas não eram a mesma briga. Republicanos, bispos, oficiais e abolicionistas queriam coisas distintas, em calendários distintos, e nenhum deles fez causa com o outro. É exatamente essa dispersão que explica a duração — e também explica por que, quando o desfecho veio, ele foi resolvido em uma única manhã por quem tinha armas.
Fausto marca a abertura do período com precisão: é da década de 1870 em diante que os sintomas de crise aparecem. Ele nomeia três — a chegada do republicanismo organizado, o azedamento das relações com o quartel e o mesmo azedamento com a Igreja —, somando a eles o desgaste que o tratamento dado à escravidão provocava entre o Estado e suas bases de apoio.1
Frente 1: a República deixa de ser só uma ideia
O ideal republicano não nasceu ali — vinha circulando desde os movimentos pela Independência, no fim do século 18, associado à ideia de revolução e de alguma reforma social. O que muda em 1870 é que ele ganha organização e manifesto, no Rio de Janeiro.1
Dentro do movimento, porém, havia duas respostas para a mesma pergunta — como chegar lá.1
Uma minoria defendia a revolução popular como caminho. Fausto cita dois nomes: Lopes Trovão, que assinou o manifesto de 1870, e Silva Jardim, já nos anos finais do Império. A grande maioria, porém, ficava com Quintino Bocaiúva: passagem sem violência de um regime ao outro, na expectativa — se desse — de que ela viesse depois da morte de Dom Pedro II.1
Repare no que a posição majoritária revela. Ninguém pretendia derrubar Pedro II — a aposta era sobreviver a ele. Isso mede duas coisas ao mesmo tempo: o prestígio pessoal do imperador e a fragilidade de um movimento que preferia esperar um funeral a disputar o poder.
Quem eram esses republicanos nas cidades? Sobretudo profissionais liberais e jornalistas — um grupo que só existia porque o país havia passado por desenvolvimento urbano e por expansão do ensino. E o que eles associavam à República é uma lista de quatro itens: mais representação política para os cidadãos, direitos e garantias individuais, federação e fim do regime escravista.1

Quintino Bocaiúva · 2006 · Wikimedia Commons · Public domain
1873: a novidade vem das províncias
A virada da década foi o surgimento de um movimento republicano conservador nas províncias — e sua expressão máxima é o Partido Republicano Paulista, fundado em 1873. Os quadros do PRP saíam, na maioria, da burguesia cafeeira. E o ponto fundamental do programa era um só: a federação — isto é, um país cujas unidades básicas fossem as províncias.1
Federalismo não implicava necessariamente República, aliás. Um dos grandes inspiradores dessa bandeira, Tavares Bastos, defendia uma monarquia federativa. Os republicanos paulistas é que se convenceram do contrário: para eles, o Império seria incompatível com a autonomia provincial — porque autonomia significava, entre outras coisas, controlar a política bancária, a imigração e a descentralização das rendas.1
As diferenças entre o republicanismo do Rio e o de São Paulo são três, e a terceira é a mais desconfortável. Os paulistas davam mais ênfase à federação; demonstravam menos interesse na defesa das liberdades civis e políticas; e tratavam a escravidão de outro jeito. Fausto não suaviza: dada a composição social do partido, o PRP evitou tomar posição clara sobre a escravatura — ou mesmo discutir o assunto — até as vésperas da Abolição.1
LembreRepublicano era necessariamente abolicionista?
Não. No Rio, as duas bandeiras andavam juntas no mesmo programa. Em São Paulo, o partido formado por cafeicultores fugiu do tema quase até 1888. Tratar “republicanismo” como bloco único é o erro mais comum deste assunto.
As queixas paulistas contra a Corte, por sinal, soam atuais. São Paulo se considerava sub-representado e alegava outra coisa mais concreta: com a economia crescendo, mandava a cada ano mais dinheiro para os cofres imperiais e recebia de volta muito menos do que isso.1
Um contraste fecha o quadro. Na capital, o movimento produzia jornal e propaganda em quantidade — e, mesmo assim, jamais virou partido. Força partidária republicana, até a queda do regime, existiu em duas províncias: São Paulo, à frente, e Minas Gerais. Foi a paulista que, já em 1884, em aliança oposicionista com os conservadores, mandou para a Câmara Prudente de Morais e Campos Sales — os dois futuros primeiros presidentes civis da República.1

Lopes Trovão em ilustração de novembro de 1889 · 1889 · Wikimedia Commons · Public domain
Frente 2: quando o Estado prendeu dois bispos
Esta é a frente que costuma sumir dos resumos, e é a mais reveladora sobre como o Império funcionava.1
Comece pelo desenho institucional. Amarrar altar e trono, como fazia a Constituição de 1824, já era por si só um conflito à espera de acontecer. O catolicismo era a religião do Estado — e o mesmo texto dava ao poder civil a prerrogativa de dizer se um decreto vindo de Roma valia ou não por aqui, contanto que ele não chocasse com a Constituição. Em outras palavras: quem tinha a última palavra sobre o que a Igreja aplicava no país era o governo.1
O que rompeu o equilíbrio veio de fora. A partir de 1848, no pontificado de Pio IX, o Vaticano mudou de rota: condenou as chamadas liberdades modernas e passou a afirmar o predomínio espiritual da Igreja no mundo. Em 1870, um Concílio reforçou o poder papal ao proclamar o dogma da infalibilidade.1
No Brasil, esse endurecimento produziu dois efeitos: padres mais rígidos em matéria de disciplina religiosa e uma reivindicação de autonomia diante do Estado.1
O estopim foi um gesto disciplinar. Obedecendo a determinação do papa, o bispo de Olinda, Dom Vital, decidiu proibir a entrada de maçons nas irmandades religiosas. E aqui é preciso entender por que isso virou crise de Estado: a maçonaria era numericamente pequena, porém influente nos círculos dirigentes — tanto que o Visconde do Rio Branco, então presidente do Conselho de Ministros, era maçom.1
A resposta do governo foi tratar o bispo como “funcionário rebelde”. Dom Vital foi preso e condenado, e em seguida o mesmo aconteceu com outro bispo.1
A tempestade só amainou com um arranjo negociado entre 1874 e 1875, e as três peças dele mostram que ninguém saiu inteiro: houve substituição do gabinete Rio Branco, anistia aos bispos e suspensão, pelo papa, das proibições aplicadas aos maçons.1
As outras duas frentes, e onde elas moram
Falta dizer o que aconteceu nas duas frentes restantes — e aqui este artigo faz um corte deliberado, porque cada uma delas tem página própria neste site.1
O Exército. Ao longo da década de 1880, sucederam-se atritos entre governo, parlamentares e oficiais, com punições a militares que se manifestavam pela imprensa e com a criação do Clube Militar em 1887. O detalhamento desses episódios, e a análise do peso deles, está no artigo sobre a Proclamação.1
A escravidão. Cada passo legal — a Lei do Ventre Livre, os Sexagenários, a Abolição — feriu interesses de proprietários rurais e foi corroendo a relação entre o Estado e sua principal base social. O processo, com a campanha abolicionista e a fuga em massa, está no artigo sobre a Abolição.1

Joaquim Nabuco em 1878 · 1878 · Wikimedia Commons · Public domain
Um artigo sobre “a crise” que reconte tudo vira índice do capítulo. Aqui, as duas frentes desenvolvidas são a republicana e a religiosa; as outras duas aparecem nomeadas, com o peso que têm, e remetem às páginas onde são tratadas a fundo. Se você está revisando para prova, leia as três em sequência.
Por que quatro rachaduras não derrubam sozinhas
Vale terminar medindo o alcance de cada frente, porque a soma engana.1
A questão religiosa terminou em acordo, com anistia e recuo dos dois lados: contribuiu para o desgaste, mas não produziu adversário permanente. O republicanismo, nas cidades, não passou de imprensa e propaganda; nas províncias, virou partido — só que um partido que, em São Paulo, se calava sobre o tema mais explosivo da época. E as duas frentes restantes seguiam calendários próprios: a militar, feita de queixas corporativas; a servil, movida por gente que não votava nem tinha assento em lugar nenhum.1
Some tudo e o resultado é o que a data de 1889 mostra: um regime sem inimigo capaz de derrubá-lo e, ao mesmo tempo, sem aliado disposto a defendê-lo. Quando o empurrão veio, não houve resistência — e a razão está menos na força de quem empurrou do que no vazio que se formara em volta do trono ao longo daqueles dezenove anos.1
- Republicanismo no plural — havia pelo menos duas vertentes: a carioca, urbana, ligada a liberdades e ao fim da escravidão, e a provincial e conservadora do PRP, centrada na federação e silenciosa sobre a escravatura até quase 1888.
- A via majoritária era a espera — revolução popular era posição minoritária, defendida por nomes como Lopes Trovão e Silva Jardim. A maioria seguia Quintino Bocaiúva: transição pacífica, aguardando se possível a morte de Dom Pedro II.
- Federalismo não é sinônimo de República — Tavares Bastos, inspirador do federalismo, defendia uma monarquia federativa. A incompatibilidade entre Império e autonomia provincial foi conclusão dos republicanos paulistas, não um dado óbvio da época.
- O que estava em jogo na questão religiosa — não era teologia, e sim autoridade: a Constituição de 1824 dava ao Estado o direito de validar ou não decretos eclesiásticos. Dom Vital foi tratado como “funcionário rebelde” e preso.
- Desgaste não é queda — a questão religiosa terminou em acordo com anistia, e o republicanismo carioca nunca virou partido. Nenhuma das frentes derrubou o regime sozinha — o que elas produziram foi o isolamento do trono.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Dezenove anos de desgaste, em sete marcos
As quatro frentes e o que elas produzem
Dois republicanismos, no mesmo país
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Marco inicial | a partir da década de 1870 surgem os sintomas de crise |
| As quatro frentes | movimento republicano, Igreja, Exército e encaminhamento da escravidão |
| Manifesto republicano | 1870, no Rio de Janeiro |
| Corrente minoritária | revolução popular — Lopes Trovão e Silva Jardim |
| Corrente majoritária | transição pacífica, com Quintino Bocaiúva, aguardando a morte do imperador |
| Base social urbana | profissionais liberais e jornalistas, vindos do crescimento das cidades e do ensino |
| Programa carioca | representação, garantias individuais, federação e fim da escravidão |
| PRP | fundado em 1873, com quadros da burguesia cafeeira; federação como ponto central |
| Silêncio do PRP | evitou posição sobre a escravidão até as vésperas da Abolição |
| Queixa paulista | sub-representação e contribuição crescente sem retorno proporcional |
| Vitória eleitoral de 1884 | PRP elege Prudente de Morais e Campos Sales para a Câmara |
| Origem da questão religiosa | Vaticano de Pio IX endurece desde 1848; dogma da infalibilidade em 1870 |
| Estopim | Dom Vital, bispo de Olinda, proíbe maçons nas irmandades |
| Reação do governo | trata o bispo como “funcionário rebelde”; dois bispos presos e condenados |
| Desfecho religioso | arranjo de 1874–1875: gabinete Rio Branco cai, bispos anistiados, proibições suspensas pelo papa |
| Balanço | nenhuma frente derruba o regime sozinha; o efeito somado é o isolamento do trono |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
- COSTA, Emília Viotti da. Da Monarquia à República: momentos decisivos. São Paulo: Unesp.
- ALONSO, Angela. Ideias em Movimento: a geração 1870 na crise do Brasil-Império. São Paulo: Paz e Terra, 2002.