História Verso
História do Brasil · Segundo Reinado

A Guerra do Paraguai

Cinco anos de guerra, metade da população paraguaia morta e quatro explicações rivais para o que provocou tudo aquilo. Este artigo apresenta as quatro com nome e endereço — inclusive a mais famosa delas no Brasil, a do imperialismo inglês, que é contestada.

186415 min de leitura4 fontes
Combate naval do Riachuelo, por Victor Meirelles · Victor Meirelles · from 1882 until 1883
Combate naval do Riachuelo, por Victor Meirelles. A tela é dos anos 1880 — quase duas décadas depois do combate de junho de 1865. Vale como documento da imagem que o Império encomendou de si mesmo, não como registro do que se viu naquele dia.
Combate naval do Riachuelo, por Victor Meirelles · 1882 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Um país com cerca de 400 mil habitantes segurou por cinco anos uma aliança de três vizinhos muito maiores. Como isso foi possível — e por que circulam quatro explicações rivais para o começo dessa guerra?

É neste assunto que Fausto mais fala sobre o próprio ofício de escrever História, e a razão aparece rápido: aqui, mais que em qualquer outro episódio do Império, o relato depende de quem conta. Ele resume a questão dizendo que o conflito mostra bem como a História, sem ser arbitrária, é trabalho de criação — e pode servir a finalidades muito diferentes.1

Um detalhe de vocabulário já anuncia o problema. O que no Brasil se chama Guerra do Paraguai aparece na América espanhola sob outro nome: Guerra da Tríplice Aliança. O batismo do conflito depende do lado da fronteira em que ele é lembrado.1

Quatro versões, com nome e endereço

Primeira: a versão que o Brasil contou a si mesmo. Nela, a origem de tudo está na ambição desmedida do governante paraguaio e em seus projetos de expansão territorial. Os episódios de combate viram demonstração do valor militar brasileiro, com destaque para Tamandaré, Osório e, acima de todos, Caxias. Fausto registra o efeito escolar disso: por muito tempo, o aluno brasileiro aprendeu a admirar esses nomes e a olhar com desdém para a figura barbada e séria de Solano López.1

Segunda: a versão do outro lado da fronteira. No Paraguai, aquilo é lembrado como o ataque de vizinhos poderosos contra um país pequeno e independente. E Fausto acrescenta o dado incômodo: essa leitura foi aproveitada politicamente para dar brilho ao ditador Alfredo Stroessner, chefe do Partido Colorado, que gostava de se apresentar como herdeiro do general Bernardino Caballero — oficial da confiança de López.1

Duas memórias nacionais, o mesmo vício
As duas primeiras versões têm algo em comum que vale mais que o conteúdo delas: cada uma cumpre função no presente. Uma honra a tradição militar brasileira; a outra deu lastro a uma ditadura paraguaia. Isso não as torna falsas de saída — obriga a perguntar a quem servem antes de assiná-las.

Terceira: a versão revisionista, que no Brasil ficou famosa justamente por contrariar a primeira. Ela apareceu nos anos 1960, entre historiadores de esquerda — Fausto cita o argentino León Pomer —, e aponta a Inglaterra como instigadora do conflito. O argumento funciona assim: o Paraguai teria escolhido crescer por conta própria, apoiado em pequenos proprietários e sem depender de fora; Brasil e Argentina, ao contrário, viviam de comércio exterior e de recursos e tecnologia importados. Sendo dependentes, teriam sido usados por Londres para liquidar um vizinho cujo modelo não interessava aos ingleses — que ainda por cima cobiçariam o algodão paraguaio, insumo da indústria têxtil britânica.1

Fausto não descarta essa leitura sem antes situá-la. Ele a amarra ao tempo em que nasceu: o repertório que circulava na esquerda do continente entre os anos 1960 e 1970, quando se atribuía o atraso latino-americano, no essencial, à exploração imperialista — e a guerra entrava como mais uma prova de um continente que teria apenas mudado de dono ao longo do tempo.1

Quarta: a leitura mais recente, vinda de historiadores como Francisco Doratioto e Ricardo Salles. Aqui é preciso reproduzir a avaliação de Fausto com cuidado, porque ela tem dois lados. De um, o aviso: aquilo não é “a última palavra no campo da História”. De outro, o elogio: é uma versão menos marcada por ideologia e mais bem amarrada à documentação. O foco dela recai sobre o que se passava entre os países — cada um examinado a partir da sua própria formação, e sem apagar o peso que o capitalismo inglês de fato tinha na região. O que ganha destaque, nessa chave, é a construção dos Estados nacionais latino-americanos e a disputa entre eles por primazia no continente.1

LembreA tese do imperialismo inglês está descartada?

Não é isso que a fonte diz. Fausto a trata como leitura datada, filha do pensamento de esquerda dos anos 1960 e 1970, e prefere a corrente mais recente — que não nega a influência inglesa na região, apenas recusa transformá-la na causa única. Numa prova, o certo é apresentar a disputa, e não eleger um lado como se fosse consenso.

O tabuleiro antes do primeiro tiro

Quando o domínio espanhol acabou, o velho Vice-Reinado do Rio da Prata não se manteve inteiro. Daquele território saíram, depois de conflitos prolongados, quatro países: Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia.1

O caminho paraguaio teve começo próprio. Sua gente, boa parte descendente de guaranis, não quis se dobrar aos comerciantes de Buenos Aires e agia por conta própria desde os anos 1810. A resposta veio em 1813: os portenhos travaram o comércio paraguaio com o exterior, fechando o caminho natural até o mar pelo estuário do Prata. Foi esse aperto que empurrou José Gaspar de Francia a fechar o país sobre si mesmo e a se tornar ditador vitalício.1

Aqui entra um aviso de Fausto que atinge diretamente a terceira versão. A imagem de um Paraguai de pequenos proprietários guiado por um Estado esclarecido vale sobretudo para o tempo de Francia. As medidas dele foram mesmo fora do comum para a América do Sul de então — só que chamá-las de progressistas achata o que elas eram. Nas terras tomadas, o governo montou as Estâncias da Pátria; nas que explorava diretamente, usava trabalho escravizado ou de prisioneiros. E a economia chegou a abandonar a moeda: aluguel de terra e imposto se pagavam em mercadoria.1

Francisco Solano López em 1866 · Aurelio García (1846–1869) · 1866
Francisco Solano López, retratado em 1866 por Aurelio García, durante a guerra. Compare com a caricatura do ditador megalômano que a memória escolar brasileira consagrou.
Francisco Solano López em 1866 · 1866 · Wikimedia Commons · Public domain

Morto Francia, Carlos Antonio López mudou a rota. Foi ele quem declarou formalmente a independência do país, em 1842, e quem tratou de abrir o Paraguai: puxou trilhos de ferrovia e incentivou o comércio com fora. Mandou o filho Francisco Solano à Inglaterra, de onde ele voltou com armamento comprado e técnicos europeus contratados. País que cresce vendendo para fora precisa de duas coisas: navegar os rios Paraguai e Paraná, e passar livremente pelo porto de Buenos Aires. Em 1862, com a morte do pai, Solano López assumiu o poder.1

E o Brasil, o que temia? Sobretudo a Argentina: a possibilidade de que ela se unificasse e virasse uma república forte o suficiente para disputar a hegemonia regional. Havia até um padrão nas alianças. Com a rivalidade platina em alta, o Império puxava o Paraguai para perto; acalmada a rivalidade, voltavam à mesa os atritos com Assunção — questões de limite e de navegação do rio Paraguai, que era o caminho de água até Mato Grosso.1

O ano de 1862 desarrumou o tabuleiro. Bartolomé Mitre venceu os federalistas, reunificou a Argentina e passou a conduzir uma política que agradava aos liberais brasileiros — recém-chegados ao governo aqui, no mesmo ano. Mitre também se acertou com os colorados do Uruguai. Solano López apostou no lado contrário: aliou-se aos blancos, que então mandavam em Montevidéu, e aos inimigos de Mitre nas províncias de Entre Ríos e Corrientes.1

Novembro de 1864: um navio no rio

A avaliação de Fausto sobre o gesto seguinte é probabilística, e convém repeti-la assim: López provavelmente concluiu que a expansão dos dois vizinhos terminaria por asfixiar o Paraguai, e resolveu sair na frente.1

No dia 11 de novembro de 1864, o vapor brasileiro Marquês de Olinda foi capturado em pleno rio Paraguai por uma canhoneira de López. Vieram o rompimento das relações diplomáticas e, em 23 de dezembro, o início efetivo das operações militares.1

O vapor Marquês de Olinda em Assunção · Unknown · 2019-04-01 22:39:43
O vapor Marquês de Olinda, fotografado em Assunção. É o navio capturado em 11 de novembro de 1864 — o objeto exato em que a guerra começou.
O vapor Marquês de Olinda em Assunção · 2019 · Wikimedia Commons · Public domain

A aposta de López tinha três pernas: um golpe rápido no Mato Grosso desguarnecido, capaz de forçar o Brasil a negociar; o apoio dos blancos uruguaios; e a adesão das províncias argentinas hostis a Mitre. Em março de 1865 o Paraguai declarou guerra também à Argentina. No 1º de maio seguinte, brasileiros, argentinos e uruguaios firmaram o Tratado da Tríplice Aliança, com Mitre no comando das forças reunidas.1

Por que não foi rápido

Somados, os três aliados tinham muito mais população e muito mais economia que o adversário — e, dos dois lados do Prata, se esperava uma campanha curta, como costuma acontecer no começo das guerras. Os números de tropa explicam o engano.1

Fausto avisa que não existem cifras seguras, e apresenta as estimativas: o Paraguai entrou com cerca de 64 mil soldados, mais uma reserva de veteranos calculada em 28 mil; o Brasil, com 18 mil; a Argentina, com 8 mil; o Uruguai, com mil. Diferentemente dos adversários, López havia se preparado militarmente. O trunfo brasileiro era outro: largo domínio no mar e nos rios.1

O dado que inverte a intuição
A pergunta “como o Paraguai aguentou tanto?” parte de premissa errada. No arranque, o exército paraguaio era maior que os três aliados juntos. A vantagem aliada estava em população e riqueza — coisas que levam anos para virar soldado treinado em campo.

Quem o Brasil mandou para a frente

Esta parte costuma sumir do resumo escolar, e é das que mais dizem sobre o país. Estima-se que o Brasil tenha mobilizado entre 135 mil e 200 mil homens, numa população masculina avaliada em 4,9 milhões no ano de 1865.1

Essa gente saiu de três lugares. Do Exército regular. Dos batalhões da Guarda Nacional. E, na maior parte, de captura à força, pelos métodos de arregimentação herdados dos tempos coloniais. Vem daí o detalhe que vale a leitura inteira: muitos desses homens foram inscritos no corpo dos “Voluntários da Pátria”, como se tivessem batido à porta por conta própria.1

Havia ainda o caminho da escravidão. Proprietários entregaram cativos para servir como soldados, e uma lei de 1866 prometeu liberdade aos chamados “escravos da Nação” que fossem para o Exército — designação dos africanos desembarcados ilegalmente depois do fim do tráfico, apreendidos e mantidos sob a guarda do governo.1

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Sobre a composição das tropas brasileiras na Guerra do Paraguai, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. Obrigatoriedade não existia: havia um sorteio de alcance muito estreito, e quem pertencia à Guarda Nacional — a maior parte da população branca — estava fora dele.

  2. Incorreta. É exatamente a versão que a fonte desmonta: muita gente entrou naquele corpo vinda da captura à força, e foi registrada como se tivesse se oferecido.

  3. Correta. É a descrição correta. Somaram-se a isso cativos entregues por proprietários e os “escravos da Nação” libertados pela lei de 1866 para servir.

  4. Incorreta. Ela não foi dissolvida: seus batalhões formaram parte das tropas. Quem se mostrou insuficiente diante de um exército moderno foi a milícia gaúcha, que até ali bastava nas campanhas do Prata.

  5. Incorreta. A lei de 1866 fez o oposto: ofereceu liberdade aos “escravos da Nação” que fossem para o Exército — africanos apreendidos depois do fim do tráfico.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

A guerra dos rios

Antes do conflito, o Império tinha oficialato profissional pequeno e enorme dificuldade para engrossar as fileiras. Faltava obrigatoriedade de serviço: existia apenas um sorteio de alcance estreito, do qual escapava quem pertencesse à Guarda Nacional — ou seja, a maior parte da população branca. Nas campanhas anteriores no Prata, a milícia gaúcha tinha dado conta do recado; diante de um exército moderno, não deu. Foi ao longo desses cinco anos que o Exército brasileiro se consolidou.1

A guerra que se seguiu mistura façanhas militares dos dois lados com fome, morte em combate e morte por doença — Fausto lembra o cólera que arrasou os combatentes em Mato Grosso.1

O primeiro golpe decisivo veio pela água. Em 11 de junho de 1865, a esquadra brasileira sob o comando do almirante Tamandaré desmontou a paraguaia em águas argentinas: é a batalha de Riachuelo. Com ela, o Paraguai perdeu sua única porta para o exterior, o rio Paraná, e ficou bloqueado.1

Só que a vitória naval não virou avanço em terra. As fortificações paraguaias ao longo do rio — com destaque para Humaitá — intimidaram os aliados, que ficaram anos parados diante daquele sistema de defesa.1

A guerra em terra

Ainda em junho de 1865, tropas paraguaias que ocupavam Corrientes entraram no Rio Grande do Sul — e foram batidas em pouco tempo. A partir de novembro daquele ano, tirando Mato Grosso, que virou frente lateral, os combates passaram a acontecer dentro do Paraguai.1

Em maio de 1866 houve Tuiuti, o maior choque campal de toda a guerra, que a memória brasileira liga ao nome do general Osório. O Paraguai perdeu o embate — e mesmo assim os aliados não converteram aquilo em progresso: logo depois levaram um golpe sério em Curupaiti.1

Episódio da batalha de Tuiuti, por Cándido López · Luis Candido Lopez · 1866
Episódio da batalha de Tuiuti, por Cándido López. O pintor argentino lutou na guerra e perdeu a mão direita em Curupaiti; voltou a pintar com a esquerda. É registro de quem esteve no campo, não reconstituição de ateliê.
Episódio da batalha de Tuiuti, por Cándido López · 1866 · Wikimedia Commons · Public domain

No início de 1868, Caxias passou a comandar também as forças aliadas. Mitre precisara retornar a Buenos Aires para cuidar de encrencas domésticas — entre elas a recusa de várias províncias a mandar mais gente para a frente. Daí em diante, o Brasil tocou a guerra praticamente sozinho.1

Caxias não atacou Humaitá de imediato. Primeiro tratou de montar a estrutura de apoio que faltava à tropa; só depois avançou. A fortaleza se rendeu em agosto de 1868. Cinco meses mais tarde, em janeiro de 1869, a capital paraguaia estava tomada.1

Trincheira em Tuiuti, 1866 · Bate y cia. · 1866
Trincheira em Tuiuti, 1866, com soldados uruguaios na posição aliada. Fotografia de guerra era raridade naquela altura — e aqui aparece a trincheira, não o cavalo empinado das telas.
Trincheira em Tuiuti, 1866 · 1866 · Wikimedia Commons · Public domain

O fim, e por que Caxias saiu antes dele

O que aconteceu depois da queda de Assunção é dos momentos mais reveladores do episódio. Doente e querendo o fim da guerra, Caxias abandonou o comando — e o motivo registrado por Fausto é duro: continuar atirando, àquela altura, atendia apenas a uma política de destruição. Assumiu em seu lugar o Conde d’Eu, casado com a princesa Isabel.1

O desfecho confirma o diagnóstico. Depois de vários combates, o que restava do lado paraguaio era um exército pequeno, feito de velhos, meninos e doentes — e ele foi batido. Cercado no próprio acampamento, Solano López morreu pelas mãos de soldados brasileiros em 1º de março de 1870.1

O que sobrou do Paraguai

O país saiu em ruínas. Cedeu pedaços de território a Brasil e Argentina e perdeu, junto, o próprio horizonte: a modernização iniciada por Carlos Antonio López ficou para trás, e o Paraguai passou a vender para fora apenas produtos de pouco valor.1

O dado demográfico é o mais brutal do assunto. Pelos cálculos considerados mais confiáveis, metade da população morreu: de algo perto de 406 mil habitantes em 1864 para 231 mil em 1872. E a lista de quem restou completa a frase — entre os sobreviventes predominavam idosos, mulheres e crianças.1

Como escrever esse número
Não basta dizer “o Paraguai foi destruído”. A formulação que rende nota traz o antes e o depois — 406 mil em 1864, 231 mil em 1872 — e observa quem sobrou. Uma população em que predominam idosos, mulheres e crianças descreve, sem nenhum adjetivo, o que aconteceu com os homens.

O que a guerra fez com o Brasil

Duas heranças, e a segunda muda a história do país.1

A primeira é de caixa: o Brasil terminou o conflito devendo mais à Inglaterra — com quem, aliás, havia reatado relações diplomáticas quando as hostilidades começaram.1

A segunda é institucional, e Fausto a considera a mais importante de todas: o Exército saiu dali firmado como instituição, com feições e agenda próprias. Reclamações antigas contra o governo imperial ganharam voz nova, e por um motivo compreensível: quem segurou a linha de frente, com acertos e erros, foi a tropa — enquanto a elite civil, que os militares passaram a chamar com desprezo de “casacas”, permaneceu longe do tiroteio e, em certos casos, fez dinheiro com os negócios da guerra.1

Dentro da própria corporação, o conflito abriu um corte entre duas gerações. Entre os combatentes estavam Deodoro e Floriano — cada um representando uma tendência distinta, e ambos destinados a ocupar o centro do palco na derrubada do Império e nos primeiros anos republicanos.1

Há ainda um efeito menos visível e de grande alcance. Terminada a guerra, passou a circular nos círculos dirigentes a percepção de que o país tinha uma fragilidade interna séria: não podia contar com a lealdade de uma parcela enorme de seus habitantes. Diante disso — e do risco de revolta de escravizados —, tratar da questão servil começou a parecer o mal menor, mesmo que isso contrariasse interesses econômicos poderosos.1

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre as interpretações historiográficas da Guerra do Paraguai, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. Não há consenso. Essa é a leitura revisionista de autores como León Pomer, e Fausto a situa como filha do pensamento de esquerda das décadas de 1960 e 1970.

  2. Incorreta. Fausto registra que ela foi aproveitada para dar brilho ao ditador Alfredo Stroessner, que se apresentava como herdeiro de Bernardino Caballero.

  3. Incorreta. É o contrário: essa corrente não apaga o peso inglês na região — apenas recusa transformá-lo na explicação única do conflito.

  4. Incorreta. Elas se opõem justamente nas causas: uma culpa a ambição do governante paraguaio, a outra descreve um ataque de vizinhos poderosos a um país pequeno.

  5. Correta. É o quadro que a fonte apresenta. Sobre a quarta, Fausto avisa que não é a última palavra, mas a considera menos ideológica e melhor sustentada em documentos.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • Controvérsia em aberto — quatro leituras disputam o assunto. Adotar a tese do imperialismo inglês como consenso é erro — e ignorá-la também. Fausto prefere a corrente recente de Doratioto e Salles, avisando que ela não é a última palavra.
  • Os efetivos surpreendem — no arranque, o Paraguai tinha cerca de 64 mil soldados, mais reserva estimada em 28 mil, contra 18 mil do Brasil, 8 mil da Argentina e mil do Uruguai. A superioridade aliada era econômica e demográfica, não militar imediata.
  • “Voluntários da Pátria” — o nome esconde a origem. A maior parte da tropa veio de captura à força nos moldes coloniais, e foi inscrita como se tivesse se apresentado espontaneamente.
  • O Paraguai de Francia não era idílico — a imagem de país de pequenos proprietários guiado por um Estado esclarecido vale sobretudo para o tempo de Francia — e mesmo ali havia trabalho escravizado e de prisioneiros nas Estâncias da Pátria.
  • Números do saldo — a população paraguaia caiu de cerca de 406 mil habitantes em 1864 para 231 mil em 1872, e entre os sobreviventes predominavam idosos, mulheres e crianças.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Do navio capturado ao cerco final

1862Mitre chega aopoder ereunifica aArgentina11 nov 1864Vapor Marquêsde Olinda écapturado norio1º mai 1865Assinado oTratado daTrípliceAliançajun 1865Riachuelo tiraa esquadraparaguaia dojogomai 1866Tuiuti, omaior choquecampal doconflitoago 1868Humaitá serende;Assunção caiem janeiro1º mar 1870Cercado,Solano López émortoCinco anos e quatro meses entre o navio capturado e o cerco final. O Brasil entra numa aliança de três países e termina a campanha quase sozinho.
Os dois marcos em destaque delimitam o conflito. Entre eles cabem cinco anos, uma aliança que se desfaz na prática e a destruição de um país.

O tabuleiro antes, e o que ficou depois

O TABULEIRO ANTES DE 1864O QUE FICOU DEPOISPrata em pedaçosquatro países nascem de umvice-reinado desfeitoSaída para o mar fechadaBuenos Aires trava o comércioparaguaio já em 1813Rio como estradanavegar o Paraguai é chegara Mato GrossoVizinhos se acertamdepois de 1862, Brasil eArgentina se aproximamGuerra · 1864–1870cinco anos de combate,cerco e destruiçãoUm país esvaziadoo Paraguai perde metadeda sua genteMais dívidaa conta brasileira vaipara os credores inglesesO Exército se descobrecorporação com identidadee agenda própriasA escravidão na pautaa lealdade da populaçãovira cálculo de Estado
Note que as quatro causas da esquerda são todas anteriores a Solano López. Explicar a guerra apenas pela vontade de um homem é ignorar cinquenta anos de disputa no Prata.

Os exércitos no arranque da guerra

Paraguai64 mil (+28 mil de reserva)Brasil18 milArgentina8 milUruguai1 milmilhares de soldados no arranque da guerra (estimativa)
A barra destacada desmonta a intuição: em 1864, o exército paraguaio era maior que os três aliados somados. A vantagem dos aliados estava na economia e na população, não no campo de batalha.

A mesma guerra, contada de dois lados

Como o Brasil se contouA culpa é da ambição pessoal dogovernante paraguaioA guerra vira vitrine da bravuradas armas brasileirasNomes celebrados: Tamandaré,Osório e, acima de todos, CaxiasSolano López aparece caricatoComo o Paraguai se contouPotências vizinhas atacaram umpaís pequeno e soberanoA resistência vira mito de fundaçãonacionalServiu de prestígio ao regime deAlfredo StroessnerCaballero, oficial de López, entracomo elo dessa linhagem
As duas colunas descrevem os mesmos cinco anos. Compará-las é o melhor exercício possível sobre o que significa dizer que a História é escrita, e não apenas registrada.

Mapa mental do assunto

Guerra do Paraguai1864–1870Como começouCaptura do Marquês de OlindaTríplice Aliança, maio de 1865A aposta de López em Mato GrossoComo foi travadaRiachuelo e o bloqueio dos riosTuiuti, Curupaiti, HumaitáAssunção cai em janeiro de 1869Quem foi mandado lutarRecrutamento à força, no molde antigoRótulo de “Voluntários da Pátria”Cativos cedidos e libertos por leiQuatro versões em disputaA brasileira e a paraguaiaA do imperialismo inglêsA de Doratioto e Salles
O ramo destacado é o que este assunto exige mais que qualquer outro: saber que existem quatro versões vale mais do que decorar a ordem das batalhas.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Duraçãode 11 de novembro de 1864 a 1º de março de 1870
Outro nomeGuerra da Tríplice Aliança, como é chamada na América espanhola
Versão brasileira tradicionalambição e expansionismo de Solano López; heróis Tamandaré, Osório e Caxias
Versão paraguaiaataque de vizinhos poderosos; aproveitada para dar prestígio a Stroessner
Versão revisionistainstigação inglesa; anos 1960, com León Pomer entre os expoentes
Versão recenteDoratioto e Ricardo Salles: formação dos Estados nacionais e disputa por primazia
Avaliação de Faustoa mais recente não é a última palavra, mas é menos ideológica e melhor documentada
Estopimcaptura do vapor Marquês de Olinda, no rio Paraguai
Início das operações23 de dezembro de 1864
Tríplice Aliança1º de maio de 1865; Mitre no comando das forças reunidas
Efetivos iniciaisParaguai 64 mil (+28 mil de reserva) · Brasil 18 mil · Argentina 8 mil · Uruguai 1 mil
Mobilização brasileiraentre 135 mil e 200 mil homens, numa população masculina avaliada em 4,9 milhões
Combates decisivosRiachuelo (jun 1865), Tuiuti (mai 1866), revés em Curupaiti, rendição de Humaitá (ago 1868)
Assunçãotomada em janeiro de 1869; Caxias deixa o comando e entra o Conde d’Eu
Saldo paraguaiode cerca de 406 mil habitantes (1864) para 231 mil (1872); perda de território e de futuro
Saldo brasileiromais dívida com a Inglaterra e, acima de tudo, o Exército firmado como instituição
Cada linha responde a uma pergunta recorrente sobre o maior conflito militar da história sul-americana.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
  3. SALLES, Ricardo. Guerra do Paraguai: escravidão e cidadania na formação do exército. São Paulo: Paz e Terra.
  4. POMER, León. A Guerra do Paraguai: a grande tragédia rioplatense. São Paulo: Global.