A crise de 1929
A bolsa de Nova York caiu em outubro de 1929, mas a maioria dos americanos não tinha ações. O que transformou um tombo de mercado em depressão mundial foi o que veio depois: bancos fechando, comércio encolhendo dois terços e governos se fechando em si mesmos.

Multidão em Wall Street diante da Bolsa de Nova York, outubro de 1929 · 1929 · Wikimedia Commons · Public domain
A bolsa de Nova York despencou em outubro de 1929, mas a imensa maioria dos americanos não tinha uma única ação. Como um tombo no mercado financeiro virou uma depressão que durou uma década e atravessou o oceano?
A resposta passa por três escalas, e este artigo as percorre na ordem: a bolsa, onde a queda começou; o país, onde ela virou fila de desempregados e corrida aos bancos; e o mundo, onde governos fecharam fronteiras ao comércio e, em alguns casos, à democracia.
A coleção de fontes da Universidade Fordham, base desta série, tem pouco material sobre a Depressão. O texto se apoia, por isso, em documentos do governo dos Estados Unidos — do Departamento de Estado e dos Arquivos Nacionais — e no discurso de posse de Roosevelt. Sem um livro de síntese por trás, o texto é provisório e tem duas lacunas que precisam ser ditas de saída: as fontes cobrem pouco o crash em si, com números que divergem entre um documento e outro, e cobrem pouco os efeitos fora dos EUA. O que se diz aqui sobre a Europa e a América Latina vem de três parágrafos de um órgão do governo americano — e é visto, portanto, de Washington.
A bolsa: quanto caiu, e quem caiu junto
Os números variam conforme o texto, e é melhor mostrá-los lado a lado. Thomas Schwartz, num artigo publicado em 2022 no blog da Biblioteca Presidencial Herbert Hoover, que pertence aos Arquivos Nacionais dos EUA, dá os seguintes: o índice Dow Jones atingiu o pico em 3 de setembro de 1929, com 381,17 pontos; caiu 12,8% e 11,7% na segunda e na terça-feira negras; e só chegou ao fundo quase dois anos depois, em 41,2 pontos — uma perda de 89,2%. O valor anterior à crise só foi superado em 1954.5 A exposição on-line da mesma biblioteca resume de outro modo: em menos de uma semana, o mercado caiu quase metade em relação aos recordes recentes.4A “terça-feira negra” é 29 de outubro, data lembrada por um texto dos Arquivos Nacionais como o dia mais infame de Wall Street.6
Como se chegou ali? A Biblioteca Hoover descreve a década de 1920 como de otimismo e prosperidade — “para alguns americanos” — e aponta investidores aproveitando juros baixos para comprar ações a crédito, o que empurrava os preços ainda mais para cima.4 Schwartz detalha o mecanismo: bastava pagar 25% do valor da ação; os outros 75% eram emprestados pela corretora.5
O mesmo autor dá a escala social do tombo. Havia cerca de 600 mil contas de compra a crédito numa população de 120 milhões, e estima-se que uns 3 milhões de americanos tivessem alguma ação — menos de 2,5% da população. Logo depois da queda, segundo ele, não houve falência de banco nem de grande empresa.5 Daí a tese que os dois textos dos Arquivos Nacionais compartilham: o crash, sozinho, não causou a Grande Depressão. Foi um fator, e um símbolo do fim dos “anos loucos”.56
LembreSe só uma pequena parte dos americanos tinha ações, por que a crise atingiu todo o país?
Porque a queda da bolsa foi o começo, não o todo. Nos anos seguintes vieram a retração do consumo, as demissões, as falências de bancos — que levaram a poupança de quem nunca comprara ações — e, por fim, a contração do comércio mundial. Os documentos dos Arquivos Nacionais insistem: o crash foi um fator, não a causa única.
O país: da bolsa à fila da sopa
A Biblioteca Hoover conta uma história que contraria a imagem do presidente imóvel diante da crise — e convém lembrar que é a instituição dedicada a ele. Em novembro de 1929, Hoover reuniu empresários na Casa Branca e obteve a promessa de manter os salários: pela teoria econômica dele, as perdas deviam recair sobre o lucro, não sobre o emprego. Conseguiu compromissos de US$ 1,8 bilhão em obras privadas para 1930, mandou acelerar obras federais e pediu ao Congresso um corte de impostos de US$ 160 milhões.4
Não bastou. Os consumidores cortaram gastos, as empresas reduziram a produção e demitiram. Uma seca atingiu 30 estados em 1930, e Hoover brigou com o Congresso sobre o socorro, insistindo em que o dinheiro de impostos só fosse usado quando a caridade não desse conta. Em 1931, uma série de quebras de bancos na Europa mandou nova onda de choque à economia americana. Em janeiro de 1932, Hoover criou a Reconstruction Finance Corporation (RFC), para emprestar a bancos, ferrovias e organizações agrícolas à beira da falência.4

Desempregados na fila de uma cozinha de sopa aberta por Al Capone, Chicago, fevereiro de 1931 · 1931 · Wikimedia Commons · Public domain
Entre a eleição de novembro de 1932, vencida por Franklin Roosevelt com folga, e a posse dele, em março, a situação piorou. Bancos fechavam em ritmo alarmante, e depositantes assustados passaram a sacar dinheiro até dos bancos sólidos. Quando Roosevelt assumiu, o sistema bancário estava perto do colapso total, e o desemprego chegava a 25%.4

Depositantes diante do American Union Bank fechado, Nova York, 26 de abril de 1932 · 1932 · Wikimedia Commons · Public domain
A resposta: o New Deal em quatro leis
O discurso de posse de 4 de março de 1933 tem a frase mais conhecida do período:
“A única coisa que devemos temer é o próprio medo — terror sem nome, irracional e injustificado, que paralisa os esforços necessários para transformar a retirada em avanço.”
— Franklin D. Roosevelt, primeiro discurso de posse, 1933, a partir do texto do Avalon Project.7
O resto do discurso é programa. A tarefa principal era “pôr o povo para trabalhar”, inclusive com contratação direta pelo governo; era preciso uma “supervisão estrita” dos bancos, do crédito e dos investimentos, e o fim da “especulação com o dinheiro dos outros”. E, se o Congresso não agisse, Roosevelt pediria “amplo poder Executivo” para travar uma guerra contra a emergência, tão grande quanto o que teria se o país fosse invadido. Ele fecha afirmando que não desconfiava do futuro da democracia.7
Quatro leis, descritas nos “documentos-marco” dos Arquivos Nacionais, mostram o que isso virou. A lei da Tennessee Valley Authority, de 18 de maio de 1933, criou uma empresa federal para construir barragens, controlar enchentes e levar energia elétrica barata a um vale pobre — à custa, também, do deslocamento de famílias e cidades inteiras.8 A National Industrial Recovery Act, de 16 de junho de 1933, suspendeu leis antitruste e mandou cada setor escrever “códigos de concorrência leal” que fixavam preços, salários e cotas de produção; mais de 500 códigos foram adotados. O próprio texto do arquivo avalia que eles pouco ajudaram e, ao elevar preços, pioraram a situação; em maio de 1935, a Suprema Corte derrubou o sistema.9
As duas leis de 1935 ficaram. A Lei Wagner, de 5 de julho, garantiu o direito de formar sindicatos e negociar coletivamente, depois de uma onda de greves gerais e ocupações de fábricas em 1933 e 1934; ao fim da década, mais de 800 mil mulheres eram sindicalizadas, o triplo de 1929.10 A Lei de Seguridade Social, de agosto, criou aposentadoria para trabalhadores, seguro-desemprego e auxílio a mães e crianças dependentes, a cegos e a pessoas com deficiência — e enfrentou oposição de quem via nela intromissão do governo na esfera privada.11
O mundo: ouro, tarifas e cada um por si
Para o Office of the Historian, a Grande Depressão foi um evento global que derivou “em parte” de acontecimentos e políticas financeiras dos Estados Unidos — e suas origens são complicadas e muito debatidas. O texto aponta a Primeira Guerra como fator inicial: ela abalou o sistema financeiro, e o esforço de Estados Unidos, Europa e Japão para voltar ao padrão-ouro nos anos 1920 deixou os mercados rígidos demais para absorver novos choques. A queda da bolsa americana coincidiu com uma retração na Alemanha e com dificuldades financeiras na França e na Grã-Bretanha.1
O que transformou crises nacionais em depressão mundial, segundo o mesmo texto, foi a falta de coordenação. A Grã-Bretanha, que sustentava o sistema, foi a primeira a abandonar o padrão-ouro, em 1931; os Estados Unidos não ocuparam o lugar e saíram do ouro em 1933. A Conferência Econômica de Londres, naquele ano, terminou sem acordo importante.1 Uma advertência de 1920 ganha outro peso aqui: o economista britânico John Maynard Keynes criticara o Tratado de Versalhes por não conter nenhuma provisão para a reabilitação econômica da Europa.12
O comércio fez o resto. Nos anos 1920, a produção agrícola que se expandira fora da Europa durante a guerra, somada à recuperação dos produtores europeus, gerou superprodução e queda de preços, e os Estados Unidos mantinham tarifas altas — que, nota o Office of the Historian, dificultavam aos europeus vender aos americanos e ganhar dólares para pagar as dívidas de guerra. Em 1930, uma revisão pensada para proteger o agricultor virou a tarifa Smoot-Hawley, que subiu tarifas em todos os setores. Historiadores divergem sobre quanto ela protegeu de fato e sobre se provocou retaliação. É certo, diz o texto, que ela virou símbolo das políticas de “empobrecer o vizinho” adotadas por muitos países; entre 1929 e 1934, o comércio mundial caiu cerca de 66%.2

“Mãe migrante”, de Dorothea Lange, Nipomo, Califórnia, março de 1936 · 1936 · Wikimedia Commons · Public domain
A resposta política fora dos Estados Unidos é o ponto mais fino das fontes. O Office of the Historian registra que, enquanto os americanos se voltavam para dentro, regimes militaristas chegaram ao poder na Alemanha, na Itália e no Japão prometendo alívio econômico e expansão nacional, e encontraram pouca oposição.1 Mussolini, numa seção da doutrina fascista que trata dos anos posteriores a 1929, usou a crise como argumento:
“O que se chama de crise não pode ser resolvido senão pelo Estado e dentro do Estado.”
— Benito Mussolini, “A doutrina do fascismo”, a partir da tradução inglesa reunida no Project Gutenberg.13
Na América Latina, o efeito registrado nas fontes é diplomático. A Depressão aprofundou o isolacionismo americano, e uma das formas dele foi a política de boa vizinhança, anunciada no mesmo discurso de posse: os Estados Unidos reduziram a presença militar na região, apoiaram em Montevidéu, em dezembro de 1933, a declaração de que nenhum Estado tem o direito de intervir nos assuntos de outro, e em 1934 abriram mão do tratado que lhes dava direito de intervir em Cuba.13
- O crash não é a Depressão — os textos dos Arquivos Nacionais tratam a queda da bolsa como fator e símbolo, não como causa única. Bancos quebrando, consumo em queda e o comércio mundial encolhendo vieram depois.
- Os números da queda divergem — um texto fala em queda de quase metade em menos de uma semana; outro, em perdas de 12,8% e 11,7% em dois dias e de 89,2% até o fundo, quase dois anos depois. O artigo mostra os dois em vez de escolher um.
- Hoover não ficou parado — a imagem do presidente que nada fez é contestada pela Biblioteca Hoover: houve obras públicas, corte de impostos e a RFC. A fonte é a instituição dedicada a ele, e por isso é favorável — mas os fatos que ela lista estão datados.
- O New Deal não acabou com a crise sozinho — a Biblioteca Hoover e o Office of the Historian concordam que a Depressão só terminou com a economia de guerra. Parte das medidas, como os códigos da NIRA, foi considerada ineficaz pelos próprios Arquivos Nacionais.
- O mundo visto de Washington — tudo o que o artigo diz sobre Europa, Japão e América Latina vem de um órgão do governo americano. Faltam fontes dos países atingidos.
Nenhuma das fontes lidas cobre o crash por dentro — o pânico dia a dia, os bancos de investimento, a investigação do Senado — nem os efeitos da crise sobre o Brasil e o café, a Alemanha em números de desemprego, o Japão, a União Soviética ou as colônias africanas e asiáticas. O artigo não arrisca nenhum desses temas de memória. No caso brasileiro, a crise de 1929 é o pano de fundo da Revolução de 1930 e do Estado Novo, que têm artigos próprios; a ascensão de Hitler e Mussolini está no artigo sobre o nazifascismo.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Da Fordney-McCumber à Seguridade Social
O comércio entre EUA e Europa, 1929 e 1932
Duas respostas à mesma crise
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Antecedentes | superprodução agrícola nos anos 1920; tarifas altas (1922); padrão-ouro rígido; compra de ações a crédito |
| A queda | pico em 3/9/1929; perdas de 12,8% e 11,7% na segunda e na terça negras, esta em 29 de outubro (Schwartz; NARA); “quase metade” em uma semana (Biblioteca Hoover) |
| O fundo | 41,2 pontos, queda de 89,2%; recuperação só em 1954 |
| Quem tinha ações | cerca de 3 milhões de americanos, menos de 2,5% da população |
| Hoover | salários mantidos, obras, corte de impostos; caridade antes do imposto; RFC em janeiro de 1932 |
| 1931 | quebras de bancos na Europa; Grã-Bretanha deixa o padrão-ouro |
| Março de 1933 | bancos à beira do colapso; desemprego de 25%; posse de Roosevelt |
| Discurso de posse | temer só o medo; pôr o povo para trabalhar; supervisão de bancos; poder “como numa guerra” |
| New Deal | TVA (5/1933), NIRA (6/1933, derrubada em 1935), Lei Wagner (7/1935), Seguridade Social (8/1935) |
| Comércio | Smoot-Hawley (1930); comércio mundial cai cerca de 66% (1929–1934) |
| Fora dos EUA | regimes militaristas prometem alívio e expansão; Mussolini: crise só se resolve “pelo Estado” |
| América Latina | boa vizinhança: não intervenção (Montevidéu, 1933); fim da intervenção em Cuba (1934) |
| Fim da crise | só com a economia da Segunda Guerra |
Fontes
- ESTADOS UNIDOS. Office of the Historian. “The Great Depression and U.S. Foreign Policy”, Milestones in the History of U.S. Foreign Relations. history.state.gov/milestones/1921-1936/great-depression
- ESTADOS UNIDOS. Office of the Historian. “Protectionism in the Interwar Period”, Milestones. history.state.gov/milestones/1921-1936/protectionism
- ESTADOS UNIDOS. Office of the Historian. “Good Neighbor Policy, 1933”, Milestones. history.state.gov/milestones/1921-1936/good-neighbor
- HERBERT HOOVER PRESIDENTIAL LIBRARY (National Archives). “The Great Depression”, exposição on-line. hoover.archives.gov/exhibits/great-depression. Instituição dedicada a Hoover; perspectiva favorável a ele.
- SCHWARTZ, Thomas F. “The Great Stock Market Crash of 1929: Why History Textbooks and the Conventional Wisdom Get It Wrong”, blog da Biblioteca Hoover, National Archives, 15 jun. 2022. hoover.blogs.archives.gov
- GREEN, Richard. “Black Tuesday: 85 Years Gone By”, The Unwritten Record, National Archives, 29 out. 2014. unwritten-record.blogs.archives.gov
- ROOSEVELT, Franklin D. Primeiro discurso de posse, 4 de março de 1933. Avalon Project, Yale Law School. avalon.law.yale.edu/20th_century/froos1.asp
- NATIONAL ARCHIVES. “Tennessee Valley Authority Act (1933)”, Milestone Documents. archives.gov/milestone-documents/tennessee-valley-authority-act
- NATIONAL ARCHIVES. “National Industrial Recovery Act (1933)”, Milestone Documents. archives.gov/milestone-documents/national-industrial-recovery-act
- NATIONAL ARCHIVES. “National Labor Relations Act (1935)”, Milestone Documents. archives.gov/milestone-documents/national-labor-relations-act
- NATIONAL ARCHIVES. “Social Security Act (1935)”, Milestone Documents. archives.gov/milestone-documents/social-security-act
- KEYNES, John Maynard. The Economic Consequences of the Peace (1920), excertos, com nota do editor. Internet Modern History Sourcebook, Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1920keynes.asp
- MUSSOLINI, Benito. “The Doctrine of Fascism”, seção “Political and Social Doctrine”, em Readings on Fascism and National Socialism. Project Gutenberg, ebook 14058.