Nazifascismo
Mussolini chegou ao governo nomeado por um rei; Hitler virou chanceler e, mesmo depois de uma eleição feita sob decreto de exceção, não tinha maioria. Os dois desprezavam o parlamento e entraram por ele. O que os documentos dos próprios regimes — e os de seus acusadores — mostram sobre como uma democracia é desmontada por dentro.

Hitler, Himmler e Lutze no congresso do Partido Nazista em Nuremberg, setembro de 1934 · 1939 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Em 1928, o dirigente nazista Goebbels escreveu que os nazistas entravam no parlamento para se armar “no arsenal da democracia” com as armas dela mesma. Como movimentos que desprezavam o voto chegaram ao poder passando pelas instituições que queriam destruir?
A frase, publicada no jornal Der Angriff em 30 de abril de 1928, continua: “Não viemos como amigos, nem mesmo como neutros. Viemos como inimigos.”6 Ela resume um método que fascistas italianos e nazistas alemães seguiram, cada um à sua maneira: violência na rua, nomeação legal para o governo e, uma vez lá dentro, o desmonte das garantias que os tinham deixado entrar. Este artigo segue esse método ferramenta por ferramenta, com os dois países lado a lado.
A base aqui são textos produzidos na época — doutrinas escritas por Mussolini e por seus ministros, o programa nazista de 1920, um estudo do Departamento de Estado americano sobre a ideologia nazista e a peça da acusação americana no Tribunal de Nuremberg —, além das apresentações do editor da coleção de fontes da Universidade Fordham. Falta a historiografia de síntese, e por isso o texto é provisório. Um cuidado extra: metade dos documentos foi escrita pelos próprios regimes, e a outra metade, por quem os acusava.
O que eles diziam ser
O editor do Sourcebook lembra que Benito Mussolini(1883–1945) foi socialista e dirigiu o jornal Avanti antes de liderar um movimento novo, batizado a partir dos fasces, o feixe de varas que simbolizava o poder na Roma antiga.1 Em 1932, com a ajuda do filósofo Giovanni Gentile, ele definiu a doutrina num verbete de enciclopédia. O texto se apresenta como uma lista de recusas: o fascismo não acredita na paz perpétua e vê o pacifismo como covardia; nega que a luta de classes seja o motor da sociedade; e combate “todo o complexo da ideologia democrática”, por negar que a maioria, só por ser maioria, possa dirigir uma sociedade.1
No lugar do que recusa, põe o Estado. A frase central é esta:
“O fascismo concebe o Estado como um absoluto, em comparação com o qual todos os indivíduos ou grupos são relativos, e só podem ser concebidos em sua relação com o Estado.”
— Benito Mussolini, “O que é o fascismo”, 1932, a partir da tradução inglesa reproduzida no Internet Modern History Sourcebook.1
O mesmo texto trata a expansão territorial — o império — como “manifestação essencial de vitalidade”, e sua renúncia como sinal de decadência.1
O programa do partido nazista, proclamado por Hitler em Munique em 24 de fevereiro de 1920, tem 25 pontos e outra espinha. Pede a união de todos os alemães numa Grande Alemanha, a anulação dos tratados de Versalhes e de Saint-Germain, terras e colônias para a população “excedente”. No ponto 4, define o cidadão pelo sangue: só é membro da nação quem tem “sangue alemão”, e, “consequentemente, nenhum judeu pode ser membro da nação”. Ao lado disso, o programa traz reivindicações de tom social — confisco dos lucros de guerra, nacionalização dos trustes, ampliação da previdência para a velhice.5 O editor do Sourcebook resume a mistura: nacionalismo extremo, racismo e alguns conceitos socialistas.

Colunas fascistas a caminho de Roma, 28 de outubro de 1922 · 1922 · Wikimedia Commons · Public domain
A diferença entre as duas doutrinas está na ordem das coisas. Para Mussolini, o Estado é a vontade consciente que organiza a nação. Para o jurista nazista Ernst Rudolf Huber, citado no estudo do Departamento de Estado americano, as democracias erram justamente por partir do Estado: o nacional-socialismo parte do povo — o Volk, definido pelo sangue — e constrói o Estado sobre ele.6 No fascismo italiano, a nação cabe dentro do Estado; no nazismo, quem não pertence ao povo racial fica fora da cidadania.
LembreEm que fascismo e nazismo concordavam, e onde divergiam, segundo os textos dos próprios regimes?
Concordavam na recusa da democracia liberal, do marxismo e da luta de classes, e na exaltação da guerra e da expansão. Divergiam no centro da doutrina: para Mussolini, o Estado é o absoluto; para os nazistas, o povo definido pela raça vem antes do Estado — por isso o programa de 1920 já excluía os judeus da cidadania.
A rua
Nenhum dos dois movimentos chegou ao poder só pelo voto. Gentile, num texto de defesa do regime, chama os anos de 1919 a 1923 de período das “esquadras” e admite, sem rodeio, que esse esquadrismo “transgrediu a lei do velho regime” porque queria suprimi-lo.4 Mussolini, por sua vez, lembra que a doutrina cresceu no meio das “expedições punitivas”.2
Na Alemanha, a acusação americana em Nuremberg descreve as SA, criadas em 1921, como organização semimilitar de jovens treinados para a violência, com a missão de fazer do partido o “senhor das ruas”: invadiam e dissolviam reuniões de adversários, como as da Sociedade Alemã pela Paz. Em agosto de 1932, quando cinco nazistas foram condenados à morte por um assassinato na cidade de Potempa, Hitler lhes telegrafou prometendo “fidelidade ilimitada” e chamando de dever lutar contra o governo que permitia tal sentença.7
A porta legal
Na Itália, a nota do Sourcebook resume: depois da Marcha sobre Roma, em 1922, Mussolini foi nomeado primeiro-ministro pelo rei Vítor Emanuel.1 Gentile marca a data — 28 de outubro de 1922 — e a apresenta como o fim, e não o começo, da fase violenta: a partir dali o fascismo já não estava em guerra com o Estado, porque “era o Estado”.4 Mussolini acrescenta que o movimento, que tivera tendência republicana, abandonou-a antes da marcha. A monarquia ficou.2
Hitler tentou primeiro a força. Em 8 de novembro de 1923, em uma cervejaria de Munique, disparou um tiro e anunciou uma “revolução nacional”; o golpe fracassou. Depois de sair da prisão, reconstruiu o partido para disputar eleições. Em 30 de janeiro de 1933, foi nomeado chanceler.7
O que veio em seguida é a parte mais estudada, e os números estão nos documentos. Um decreto presidencial de 28 de fevereiro de 1933, baixado depois do incêndio do Reichstag, suspendeu as garantias da Constituição de Weimar à liberdade pessoal, de imprensa, de reunião e de associação. Nas eleições de 5 de março, os nazistas elegeram 288 dos 647 deputados — menos da metade. Para mudar a Constituição eram precisos dois terços. Os deputados comunistas e parte dos social-democratas foram presos em “custódia protetora”; o ministro do Interior, Frick, anunciou que os comunistas estariam “ocupados” em campos de concentração na abertura dos trabalhos.7

O Reichstag em chamas, Berlim, 27 de fevereiro de 1933 · 1933 · Wikimedia Commons · Public domain
Em 23 de março, Hitler pediu a aprovação da lei de plenos poderes e avisou: rejeitá-la seria tomado como declaração de resistência — “será paz ou guerra”. A lei passou com 441 votos a favor e 94 contra, todos dos social-democratas, e foi promulgada em 24 de março de 1933. Permitia ao gabinete fazer leis e afastar-se da Constituição sem passar pelo Reichstag.7
O desmonte
Com a lei aprovada, o restante se fez em poucos meses, sempre segundo a acusação de Nuremberg. Em 2 de maio de 1933, SA e SS ocuparam as sedes e o banco dos sindicatos livres, e os dirigentes foram presos. A negociação coletiva foi substituída por “curadores do trabalho” nomeados por Hitler, e em janeiro de 1934 o princípio do líder chegou à fábrica: o empresário passava a ser o líder, e os trabalhadores, seus seguidores.7 O Partido Social-Democrata foi suprimido; os demais partidos se dissolveram ou se fundiram aos nazistas, e uma lei passou a punir com prisão quem tentasse manter ou fundar outro partido. Em 6 de julho de 1933, Hitler resumiu: “O partido se tornou o Estado.”7
O fascismo italiano tinha formulado o mesmo controle sobre o trabalho com outra linguagem. Alfredo Rocco, num discurso em Perugia endossado por carta de Mussolini, diz que greves e locautes levam à anarquia, e que a “autodefesa de classe” deveria ser substituída pela “justiça do Estado”. O fascismo criara “o seu próprio sindicalismo”: o sindicato continuaria a existir, mas controlado, disciplinado e subordinado ao Estado.3
Na Alemanha, a lei de 1º de agosto de 1934 fundiu os cargos de presidente e chanceler em Hitler, o que lhe deu o comando das forças armadas; cada soldado passou a jurar obediência a ele pessoalmente. Desde 1935, as ordens da Gestapo não podiam ser revistas pelos tribunais. As eleições continuaram a existir, mas, segundo a acusação, sem escolha: em 1938 a lei passou a prever uma única lista, e cédulas eram marcadas às escondidas, por exemplo com leite desnatado, para identificar quem votava “não”.7
Os campos de concentração apareceram nessa fase, antes de qualquer guerra. Em 1934, Göring, um dos chefes nazistas, justificou-os pela necessidade de agir “sem piedade” contra os inimigos do Estado e disse que neles tinham sido confinados “milhares” de funcionários comunistas e social-democratas. O diplomata americano Raymond Geist, que serviu em Berlim de 1929 a 1939, declarou depois que, poucos meses após a chegada de Hitler ao poder, quase toda família alemã já tinha ouvido relatos das brutalidades nos campos — e que esse medo era um freio eficaz contra a oposição.7
O líder e a raça
O estudo do Departamento de Estado resume a teoria que sustentava esse edifício. Pelo princípio do líder, a vontade verdadeira do povo não se revela em votações parlamentares nem plebiscitos, mas só no Führer, que a encarna; abaixo dele, cada chefe deve obediência incondicional ao superior e manda de forma absoluta na própria esfera. Robert Ley, chefe da organização do partido, resumiu em 1935: a Alemanha deve obedecer “como um soldado bem treinado” — “o Führer, Adolf Hitler, tem sempre razão”.6 Na Juventude Hitlerista, segundo um livro sobre a educação no Terceiro Reich citado no estudo, o jovem devia aprender que não existe igualdade de direitos, só subordinação ao comando.6
O ponto 4 do programa de 1920 virou lei. Segundo o mesmo estudo, a exclusão dos judeus da cidadania tornou-se base da lei de cidadania de 15 de setembro de 1935 — a mesma data em que a bandeira da suástica foi feita bandeira nacional. Hitler, que a desenhou, explicou em Mein Kampf o significado de cada cor: o vermelho para a ideia social, o branco para a nacionalista, e a suástica para a “vitória do homem ariano”, numa luta que ele chama de antissemita.6
- Documentos de parte interessada — os textos de Mussolini, Rocco e Gentile são propaganda doutrinária do regime; a peça de Nuremberg é a acusação americana, que chama os réus de “conspiradores”. Os decretos, leis e números de votação citados vêm dos documentos que ela reproduz, mas o enquadramento é de quem acusava.
- Nazismo e fascismo não são sinônimos — os dois recusavam democracia, marxismo e luta de classes. Mas o centro da doutrina italiana é o Estado; o da alemã, o povo definido pela raça. O termo “nazifascismo” junta os dois sem apagar essa diferença.
- “Chegou ao poder pelo voto” é meia verdade — Mussolini foi nomeado pelo rei. Hitler governou com eleições sob decreto de exceção, prisão de deputados e ameaça aberta — 288 cadeiras de 647 não eram maioria.
- O tom “social” do programa de 1920 — o programa pedia confisco de lucros de guerra e nacionalização de trustes. Uma vez no poder, o regime confiscou os bens dos sindicatos e entregou ao empresário o papel de líder da fábrica.
- Os campos vieram antes da guerra — os primeiros campos de concentração receberam opositores políticos em 1933. A perseguição e o extermínio na guerra são assunto do artigo sobre a Segunda Guerra.
Os documentos lidos não cobrem, e por isso ficam de fora: o assassinato de Matteotti e a ditadura aberta na Itália a partir de 1925, o Pacto de Latrão, o crescimento eleitoral nazista entre 1928 e 1932 e o peso que a crise econômica teve nele, a Guerra Civil Espanhola, o salazarismo e o integralismo brasileiro. Não há aqui número de vítimas: o Holocausto e a guerra pertencem ao artigo sobre a Segunda Guerra Mundial, e as raízes no pós-guerra, como Versalhes, ao da Primeira.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De Milão a Nuremberg, 1919–1935
O Estado ou o povo
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Origem do nome | fasces: feixe de varas, símbolo de poder na Roma antiga |
| Doutrina fascista | Estado absoluto; contra pacifismo, marxismo e democracia; império como vitalidade (Mussolini, 1932) |
| Programa nazista | 25 pontos, 24/2/1920: Grande Alemanha, anti-Versalhes, cidadania pelo sangue, nenhum judeu cidadão |
| Violência | esquadras fascistas (1919–1923); SA (1921); telegrama de Hitler aos condenados de Potempa (1932) |
| Itália | Marcha sobre Roma, 28/10/1922; rei Vítor Emanuel nomeia Mussolini |
| Putsch de Munique | 8/11/1923, fracassado; depois, via eleitoral |
| Hitler chanceler | 30/1/1933, por nomeação |
| Decreto de 28/2/1933 | suspende liberdades da Constituição de Weimar após o incêndio do Reichstag |
| Eleição de 5/3/1933 | 288 nazistas em 647 deputados |
| Plenos poderes | lei de 24/3/1933, 441 a 94; gabinete legisla sem o Reichstag |
| Trabalho | sindicatos ocupados em 2/5/1933; Führerprinzip na fábrica (1934); na Itália, sindicato subordinado ao Estado (Rocco) |
| Partido único | “o partido se tornou o Estado” (Hitler, 6/7/1933) |
| Hitler presidente e chanceler | lei de 1/8/1934; juramento pessoal das forças armadas |
| Raça | lei de cidadania de 15/9/1935, a partir do ponto 4 do programa |
Fontes
- MUSSOLINI, Benito. “What is Fascism” (1932), excertos do verbete da Enciclopedia Italiana, com nota do editor. Internet Modern History Sourcebook, Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/mussolini-fascism.asp
- MUSSOLINI, Benito. “The Doctrine of Fascism”, em Readings on Fascism and National Socialism (Denver: Alan Swallow, s.d.; parte dos “Fundamental Ideas” na trad. de I. S. Munro, 1933). Project Gutenberg, ebook 14058.
- ROCCO, Alfredo. “The Political Doctrine of Fascism”, discurso em Perugia, com carta de Mussolini, em Readings on Fascism and National Socialism. Project Gutenberg, ebook 14058.
- GENTILE, Giovanni. “The Philosophic Basis of Fascism”, em Readings on Fascism and National Socialism. Project Gutenberg, ebook 14058.
- NSDAP. Programa de 25 pontos, proclamado em Munique em 24 de fevereiro de 1920, trad. do documento 1708-PS do Tribunal de Nuremberg, com resumo e nota do editor. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/25points.asp
- MURPHY, R. E.; STEVENS, F. B.; TRIVERS, H.; ROLAND, J. M. National Socialism: Basic Principles…, Divisão de Assuntos Europeus do Departamento de Estado dos EUA, seções “Elements of Nazi Ideology” e “Nazi Aims and Methods”, em Readings on Fascism and National Socialism. Project Gutenberg, ebook 14058.
- ESTADOS UNIDOS. Chief of Counsel for Prosecution of Axis Criminality. Nazi Conspiracy and Aggression, vol. 1, cap. 7, “Means Used by the Nazi Conspirators in Gaining Control of the German State”. Avalon Project, Yale Law School. avalon.law.yale.edu/imt/chap_07.asp
- HALSALL, Paul (ed.). Internet Modern History Sourcebook, seções “Fascism” e “Nazism”. Fordham University. Fonte das notas de editor citadas.