Primeira Guerra Mundial
Começou com dois tiros em Sarajevo e terminou com um tratado que entregava ao Japão direitos numa província chinesa. Entre uma coisa e outra, alianças negociadas com mapas da África e da Ásia, trincheiras de lama e três promessas diferentes para a mesma terra.

O atentado de Sarajevo na capa da Domenica del Corriere, 12 de julho de 1914 · 1914 · Wikimedia Commons · Public domain
O artigo 156 do Tratado de Versalhes, de 1919, transferia ao Japão os direitos que a Alemanha tinha numa província da China. O que uma guerra começada nos Bálcãs tinha a ver com a China?
Tudo, se a guerra for lida pelos papéis que a produziram. Os tratados de aliança dos anos anteriores foram negociados com mapas da África e da Ásia sobre a mesa; a guerra recrutou soldados nas colônias; e a paz redistribuiu colônias como parte do pagamento. A Europa foi o campo de batalha principal, mas não o único assunto.
Este texto foi construído sobre documentos de época — tratados, cartas diplomáticas, um diário de soldado, um poema, um panfleto escrito na prisão, memórias — e sobre as notas de editor do Internet History Sourcebooks Project, da Universidade Fordham, com complementos do Avalon Project (Yale) e do Project Gutenberg. Não se apoia em obra de síntese historiográfica e é, por isso, mais provisório que um artigo que se apoie. Por esse mesmo motivo, ele não traz número de mortos: nenhum dos documentos lidos dá esse total.
Antes do tiro: alianças feitas sobre mapas alheios
Em outubro de 1879, Áustria-Hungria e Alemanha assinaram em Viena um tratado secreto: se uma das duas fosse atacada pela Rússia, a outra entraria na guerra com toda a sua força, e só fariam a paz juntas.1 É a peça mais antiga do sistema de alianças, e ela já tem nome de inimigo.
Do outro lado, os acordos que aproximaram França, Grã-Bretanha e Rússia quase não falam da Europa. A Entente Cordiale, de abril de 1904, tinha título oficial de declaração “a respeito do Egito e do Marrocos”: a Grã-Bretanha deixava a França agir no Marrocos, a França deixava a Grã-Bretanha agir no Egito, e as duas garantiam a passagem pelo canal de Suez.2 O acordo anglo-russo de 1907 fez o mesmo com a Pérsia: traçou duas linhas no mapa do país, reservou o norte às concessões russas e o sudeste às britânicas — tudo depois de declarar respeito à “integridade e independência” persas.3
Em 1911, o Marrocos quase levou à guerra. O editor do Sourcebook, numa nota ao panfleto de Rosa Luxemburgo, resume a crise: a Alemanha mandou uma canhoneira, a Panther, ao porto de Agadir para contestar o protetorado francês, e acabou aceitando-o em troca de uma faixa da África Equatorial Francesa.9 Os povos do Marrocos, do Egito e da Pérsia não assinaram nenhum desses papéis.
O pavio: de Sarajevo ao tratado secreto de 2 de agosto
O jornalista americano Frederic Wile, que estava na Alemanha naquele verão, registrou a data em livro publicado em 1916: o 28 de junho de 1914, domingo em que o arquiduque Francisco Ferdinando, da Áustria-Hungria, foi morto em Sarajevo.4
Guilherme II, o imperador alemão, conta nas memórias que soube do assassinato do “amigo”, desistiu da regata de Kiel, acabou viajando para a Noruega a conselho do chanceler e que leu nos jornais noruegueses a notícia do ultimato da Áustria à Sérvia. No mesmo livro, publicado depois da derrota, ele afirma que a Sérvia havia “encenado” o crime e que a guerra fora preparada sistematicamente, durante dezessete anos, pelos países da Entente.5 É a defesa de um réu, e deve ser lida como tal — mas mostra que a disputa sobre a culpa começou nos próprios documentos.
Como a crise austro-sérvia virou guerra geral aparece num papel de 2 de agosto de 1914, assinado em Constantinopla. Nele, a Alemanha e o Império Otomano prometem neutralidade no “conflito entre a Áustria-Hungria e a Sérvia”, mas combinam que, se a Rússia interviesse e obrigasse a Alemanha a socorrer a aliada, a obrigação valeria também para os turcos. A missão militar alemã ganharia “influência efetiva” sobre o exército otomano, e o tratado deveria ficar secreto.6 Cada aliança puxava a seguinte.
LembrePor que um conflito entre Áustria-Hungria e Sérvia podia envolver Alemanha, Rússia e Império Otomano?
Porque as alianças eram automáticas e encadeadas. A Dupla Aliança de 1879 obrigava a Alemanha a lutar se a Rússia atacasse a Áustria-Hungria; o tratado secreto de 2 de agosto de 1914 estendia a mesma obrigação aos otomanos caso a Rússia interviesse. Um conflito regional acionava, em sequência, compromissos assumidos anos antes.
Na trincheira
A guerra que o Estado-Maior alemão imaginava era rápida. O editor do Sourcebook lembra que o plano Schlieffen previa seis semanas para vencer no Ocidente e foi abandonado em outubro de 1914, quando a guerra de movimento virou guerra de trincheiras.9
O soldado canadense Donald Fraser anotou no diário, em setembro de 1915, como era viver ali. A faixa entre as linhas inimigas, a terra de ninguém, tinha em média de 150 a 250 jardas e em alguns pontos encolhia para 35. Os abrigos eram pequenos, úmidos, frios e cheios de ratos. Ao nascer e ao pôr do sol todos ficavam de prontidão, porque eram as horas preferidas para o ataque. Com chuva, o fundo da trincheira virava lama líquida, e a pá não dava conta. Para Fraser, não era de admirar que a permanência média de um homem na trincheira fosse de poucos meses.7

Bosque de Château, perto de Ypres, 29 de outubro de 1917, fotografia de Frank Hurley · 1917 · Wikimedia Commons · Public domain
O poeta Wilfred Owen (1893–1918) escreveu sobre um ataque com gás visto de perto: um homem que não conseguiu ajustar o capacete antigás a tempo, jogado numa carroça, sufocando. O poema termina devolvendo ao leitor um verso latino que se repetia às crianças sedentas de glória — dulce et decorum est pro patria mori, “é doce e honroso morrer pela pátria” — e o chamando de “a velha mentira”.8 As datas que o Sourcebook dá para Owen dizem o resto: ele morreu em 1918.
Na retaguarda: o voto de 4 de agosto
Muitos socialistas acreditavam que o movimento operário organizado seria capaz de barrar a guerra. Segundo o editor do Sourcebook, a votação dos créditos de guerra em agosto de 1914 desmentiu isso: os principais partidos social-democratas da Alemanha, da França e da Inglaterra correram para defender as respectivas pátrias.9 Na Alemanha, os partidos do Reichstag votaram os créditos e declararam uma trégua política, a Burgfrieden, suspendendo eleições até o fim da guerra; os generais que comandavam os distritos militares podiam suspender direitos civis e censurar a imprensa.
Rosa Luxemburgo (1871–1919), da ala esquerda da social-democracia alemã, escreveu da prisão, em 1916, um panfleto assinado “Junius” que trata o 4 de agosto como uma queda. Para ela, a guerra era uma disputa entre capitalismos maduros pela exploração das regiões do mundo ainda não capitalistas — e a violência que a Europa exportava tinha voltado para casa. Na frase dela: “pela primeira vez, as feras que a Europa capitalista soltou sobre todos os cantos do globo irromperam dentro da própria Europa”.9 No mesmo trecho, ela lembra que o “mundo civilizado” assistira calado à destruição dos hererós no deserto do Kalahari — a guerra colonial alemã no sudoeste da África, de 1903 a 1907, segundo a nota do editor.
O controle da opinião não foi exclusivo dos impérios. Nos Estados Unidos, a emenda de maio de 1918 à Lei de Espionagem punia com até vinte anos de prisão quem, em tempo de guerra, publicasse linguagem “desleal” ou ofensiva sobre o governo, a Constituição, as forças armadas ou a bandeira, ou defendesse a redução da produção bélica.10

Granadeiros da infantaria indiana em Saint-Floris, França, 23 de julho de 1915 · 1915 · Wikimedia Commons · Public domain
Três promessas para a mesma terra
Para derrotar o Império Otomano, a Grã-Bretanha assinou papéis que precisam ser lidos lado a lado.
Em 24 de outubro de 1915, Henry McMahon, alto-comissário britânico no Egito, escreveu ao xerife de Meca que a Grã-Bretanha estava pronta a reconhecer e apoiar a independência dos árabes nas regiões pedidas por ele — ressalvadas as áreas em que precisava respeitar os interesses da aliada França, e com “arranjos administrativos especiais” para Bagdá e Basra. Os árabes, em troca, aceitariam conselheiros só britânicos.11
Em 1916, o acordo Sykes-Picot, entre Grã-Bretanha e França, dividiu a mesma região em zonas. Na azul, a França poderia estabelecer a administração que quisesse; na vermelha, a Grã-Bretanha. Nas zonas A e B haveria um Estado árabe, mas com prioridade econômica e conselheiros franceses numa e britânicos noutra. Uma zona marrom ficaria sob administração internacional. O texto prevê ainda informar a Rússia, considerar as pretensões da Itália e avisar o Japão.12

O mapa do acordo Sykes-Picot, assinado em 8 de maio de 1916 · 2011 · Wikimedia Commons · Public domain
Em 2 de novembro de 1917, o secretário do Exterior Arthur Balfour comunicou a Lord Rothschild que o governo britânico via com simpatia a criação na Palestina de um “lar nacional para o povo judeu”, ressalvando que nada deveria prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judias já existentes ali.13 O editor do Sourcebook observa que a carta visava obter o apoio judeu aos Aliados.
A paz dos vencedores
Em 8 de janeiro de 1918, o presidente americano Woodrow Wilson apresentou, num discurso, os Quatorze Pontos. Os primeiros falam de método: acordos de paz feitos às claras, sem entendimentos secretos; liberdade dos mares; redução dos armamentos de todos. O quinto pede um ajuste “imparcial” das questões coloniais, em que os interesses das populações tivessem peso igual ao dos governos. O último propõe uma associação geral de nações.14
O tratado apresentado à Alemanha em 28 de junho de 1919, em Versalhes, guardou parte disso e inverteu outra. Pelo artigo 231, a Alemanha aceitava a responsabilidade, sua e de seus aliados, por todas as perdas causadas por uma guerra imposta “pela agressão da Alemanha e de seus aliados”; pelo 232, pagaria os danos à população civil dos vencedores. O exército alemão ficaria limitado a 100 mil homens; a margem esquerda do Reno, sem fortificações; as minas do Sarre, entregues à França; a Alsácia-Lorena, devolvida à França a partir do armistício de 11 de novembro de 1918.15
E há os artigos que respondem à pergunta do começo. Pelo 119, a Alemanha renunciava a todas as suas possessões ultramarinas em favor dos vencedores. Pelo 156, passava ao Japão os direitos obtidos da China em 1898 na província de Shantung — e não à China. E pelo 22, comunidades do antigo Império Turco seriam reconhecidas como nações “provisoriamente”, sob a tutela de um “mandatário” — uma potência ocidental, esclarece o editor — até poderem “ficar de pé sozinhas”.15
- Base documental, não historiográfica — o artigo foi escrito a partir de documentos de época e de notas de editor. Mostra o que governos, soldados e militantes escreveram, não o balanço dos historiadores sobre causas e consequências.
- Nenhum número de mortos — nenhum dos documentos lidos traz total de baixas. Em vez de repetir uma cifra de memória, o artigo deixa a lacuna declarada.
- A culpa está em disputa desde 1919 — o artigo 231 atribui a responsabilidade à Alemanha e a seus aliados; Guilherme II, nas memórias, culpa a Sérvia e a Entente. Os dois textos são parte interessada.
- Uma testemunha não neutra — Frederic Wile, que fornece a data do atentado, escrevia em 1916 um livro hostil à Alemanha. A data não depende da opinião dele, mas o tom sim.
- As três promessas não são equivalentes — a carta de McMahon, o acordo Sykes-Picot e a carta de Balfour têm naturezas diferentes — correspondência, tratado secreto entre potências, declaração de simpatia. O artigo os põe lado a lado sem afirmar que um anula o outro.
- Mandato não é independência — o artigo 22 de Versalhes reconhece as comunidades do antigo Império Turco apenas provisoriamente, sob tutela de um mandatário.
Ficam de fora, por falta de documento entre os lidos: as batalhas (Marne, Verdun, Somme, Galípoli), a data e os motivos detalhados da entrada dos Estados Unidos, o trabalho feminino nas fábricas, a gripe de 1918 e o número de vítimas. Também não se trata do genocídio armênio, que é parte da guerra no Império Otomano e exige fonte própria — não foi encontrado documento sobre ele na seção usada, e o tema não entra de memória. A saída da Rússia e o tratado de Brest-Litovsk são do artigo sobre a Revolução Russa.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Quarenta anos de papéis, de Viena a Versalhes
O programa e o tratado
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Dupla Aliança (1879) | Áustria-Hungria e Alemanha, secreta, contra ataque russo |
| Entente Cordiale (1904) | França e Grã-Bretanha trocam liberdade de ação no Marrocos e no Egito |
| Acordo anglo-russo (1907) | Pérsia dividida em zonas de concessão |
| Agadir (1911) | Alemanha aceita protetorado francês no Marrocos em troca de faixa da África Equatorial |
| Atentado | Sarajevo, 28 de junho de 1914; morto o arquiduque Francisco Ferdinando |
| Alemanha–Turquia | tratado secreto de 2 de agosto de 1914, acionado por intervenção russa |
| Plano alemão | vitória no Ocidente em seis semanas; abandonado em outubro de 1914 |
| Trincheira | terra de ninguém de 150 a 250 jardas; lama, ratos, prontidão no amanhecer e no anoitecer (Fraser) |
| Retaguarda | créditos de guerra votados em agosto de 1914; Burgfrieden; censura |
| Oposição | Rosa Luxemburgo, Panfleto Junius (1916): guerra imperialista |
| EUA | Lei de Espionagem (1918): até 20 anos de prisão por linguagem “desleal” |
| Oriente Médio | McMahon (1915), Sykes-Picot (1916), Balfour (1917) |
| Quatorze Pontos | diplomacia aberta, desarmamento geral, questão colonial, Liga das Nações |
| Versalhes | art. 231 culpa; exército de 100 mil; Alsácia-Lorena à França; colônias aos vencedores; Shantung ao Japão; mandatos |
Fontes
- Dupla Aliança entre Áustria-Hungria e Alemanha, Viena, 7 de outubro de 1879. Avalon Project, Yale Law School. avalon.law.yale.edu/19th_century/dualalli.asp
- Entente Cordiale: declaração franco-britânica sobre o Egito e o Marrocos, 8 de abril de 1904. Avalon Project. avalon.law.yale.edu/20th_century/entecord.asp
- Entente anglo-russa: acordo sobre a Pérsia, 1907. Avalon Project. avalon.law.yale.edu/20th_century/angrusen.asp
- WILE, Frederic William. The Assault: Germany Before the Outbreak and England in War-Time (1916). Project Gutenberg, ebook 41252.
- GUILHERME II. The Kaiser’s Memoirs, trad. inglesa de T. R. Ybarra (1922), cap. 10. Project Gutenberg, ebook 43522.
- Tratado de aliança entre a Alemanha e a Turquia, Constantinopla, 2 de agosto de 1914. Avalon Project. avalon.law.yale.edu/20th_century/turkgerm.asp
- FRASER, Donald. Diário, setembro de 1915, em R. H. Roy (ed.), The Journal of Private Fraser (1985), cópia permitida. Internet Modern History Sourcebook, Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1918Fraser.asp
- OWEN, Wilfred. “Dulce et Decorum Est”, em World War I Poetry. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1914warpoets.asp
- LUXEMBURGO, Rosa. “A crise da social-democracia” (Panfleto Junius, 1916), trad. inglesa de Richard S. Levy, com notas do editor. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1916luxemburg-junius.asp
- ESTADOS UNIDOS. Lei de Espionagem, emenda de 16 de maio de 1918. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1916espionageact.asp
- McMAHON, Henry. Carta ao xerife de Meca, 24 de outubro de 1915. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1915mcmahon.asp
- Acordo Sykes-Picot, 1916. Avalon Project. avalon.law.yale.edu/20th_century/sykes.asp
- BALFOUR, Arthur James. Carta a Lord Rothschild, 2 de novembro de 1917. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/balfour.asp
- WILSON, Woodrow. Discurso dos Quatorze Pontos, 8 de janeiro de 1918. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1918wilson.asp
- Tratado de Versalhes, 28 de junho de 1919, excertos. Internet Modern History Sourcebook. sourcebooks.fordham.edu/halsall/mod/1919versailles.asp
- HALSALL, Paul (ed.). Internet Modern History Sourcebook, seção “World War I”, e Internet Indian History Sourcebook, seção “British Rule”. Fordham University. Fonte das notas de editor citadas.