História Verso
História Geral · Idade Média

Reino do Congo

Em 1526, o rei do Congo escreveu a Lisboa pedindo o fim do tráfico de escravos em seu reino. Era o mesmo homem que adotara nome português, títulos de nobreza europeus e mandara o filho estudar em Portugal. Levou dez anos para receber resposta — e a resposta foi não.

séc. XV-XVII14 min de leitura4 fontes
São Salvador, capital do Reino do Congo · Thomas Astley · 1745
São Salvador do Congo, antiga M'banza-Congo, em gravura publicada por Thomas Astley em 1745 — representação europeia da capital como ela teria sido no fim do século XVII, e não registro feito no local à época.
São Salvador, capital do Reino do Congo · 1745 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Em 1526, um rei africano escreveu ao rei de Portugal pedindo que parasse de mandar traficantes ao seu reino. Quem escrevia não era um inimigo dos portugueses: era o soberano que adotara nome português, distribuíra títulos de duque e marquês à sua nobreza e mandara o próprio filho estudar em Lisboa. Entender como as duas coisas cabem na mesma pessoa é entender este assunto.

O que existia antes das caravelas

Convém começar desfazendo a imagem de tribo dispersa. O que Diogo Cão encontrou em 1483 era um Estado, com capital, tributo, hierarquia e exército.

O território ficava numa faixa de savana logo abaixo da floresta equatorial — e não coincide com os dois países que hoje levam o nome Congo.1 A sede do poder era M’banza-Congo, que os portugueses rebatizariam de São Salvador. E ela era enorme para os padrões da época: entre 60 mil e 70 mil habitantes, com um palácio real de 2,4 mil metros de circunferência.1

A base material era agropecuária. Plantavam-se milhete, sorgo e feijão; criavam-se galinhas, ovelhas, porcos e gado bovino. As roupas saíam de fibra de palmeira.1

E havia indústria, no sentido que a palavra tinha então. Os congoleses eram oleiros hábeis e trabalhavam metal — dominavam técnicas de fundição de ferro e cobre, das quais saíam machados, enxadas e as pontas de flecha usadas na caça e na guerra. Morava-se em aldeias cercadas por paliçadas.1

LembreO Congo era um reino, ou o termo é exagero de linguagem?

Era um Estado, no sentido pleno. Tinha capital de dezenas de milhares de habitantes, um soberano com título próprio — o manicongo —, hierarquia de senhores provinciais, exército e metalurgia. Diplomaticamente, foi tratado como reino: enviou embaixadores a Lisboa e à Santa Sé, e em 1651 o próprio Conselho Ultramarino português ainda o descrevia como irmão de armas dos reis portugueses, e não como súdito deles.

Um dado precisa ser dito com clareza, porque é ele que torna a história compreensível: metade dos 200 mil moradores do reino era escrava.1 Cativeiro já existia ali antes de qualquer caravela. O que os portugueses trouxeram não foi a escravidão — foi uma demanda externa, contínua e sem teto, capaz de transformar uma instituição interna em indústria de exportação.

Os reinos do Congo e de Angola · autoria não identificada · between 1686 and 1719
Os reinos do Congo e de Angola, em mapa impresso entre 1686 e 1719. Aparecem lado a lado o Congo e o Ndongo — o reino vassalo cuja separação, em 1554, abriu a crise congolesa.
Os reinos do Congo e de Angola · 1686 · Wikimedia Commons · Public domain

1483: o encontro, e quem propôs o quê

A caravela de Diogo Cão lançou âncora na margem sul da foz do rio Zaire. Quem o recebeu foi o maní do Sônio — o senhor de uma das províncias do reino. Entenderam-se por mímica e uma ou outra palavra, e o navegador despachou presentes e mensageiros para a capital, onde governava o manicongo Nzinga-a-Nkuwa.1

A resposta demorou, e Diogo Cão fez o que se tornaria hábito: tomou quatro reféns entre os moradores e os levou embora, prometendo devolvê-los em quinze luas.1

A promessa foi cumprida. Em 1485 ele reapareceu com os quatro trajados à europeia e falando português com fluência — e com uma carta de Dom João II oferecendo amizade. Dessa vez a resposta veio rápida: o soberano mandaria uma embaixada a Portugal, no próprio navio.1

O que essa embaixada levou merece atenção, porque desmonta a ideia de encontro entre civilização e ausência dela. Os presentes eram peças de marfim e panos de ráfia, e a qualidade e a beleza deles causaram alvoroço na nobreza de Lisboa.1

E os pedidos do manicongo dizem tudo sobre o que ele imaginava estar construindo. Queria que Portugal recebesse e educasse jovens súditos seus, de modo que, uma vez formados, eles repassassem o conhecimento aos conterrâneos. Queria missionários católicos. E queria mestres de ofício — nominalmente agricultores, carpinteiros e pedreiros.1

Repare no que não está na lista: nenhum pedido de armas, nenhuma proposta de venda de gente. O que o Congo estava solicitando era transferência de técnica e de instrução.

Dom João II atendeu. Enviou três navios com padres, artífices e mimos — veludos, damascos, sedas, arreios e cavalos. A travessia foi desastrosa: calmarias, brigas a bordo e mortes por febre levaram o comandante Gonçalo de Sousa e também o embaixador congolês João da Silva — um dos reféns de 1483, cujo nome africano era Caçuta.1

Entre maio e julho de 1491, os recém-chegados ergueram na capital a primeira igreja católica de toda a África subsaariana. A catedral que dali nasceria — Kulumbimbi — só ficaria pronta em 1596, e suas ruínas foram declaradas Patrimônio Mundial pela Unesco em 2017.1

Por que um rei africano se converteu

A pergunta costuma vir carregada de suspeita — como se conversão só pudesse ser cálculo ou imposição. A fonte recusa as duas simplificações e sugere que interesse prático e adesão sincera se somaram.1

O argumento é de afinidade de práticas, e é bom. Guardavam-se ali relíquias dos antepassados — ossos, tufos de cabelo — às quais se atribuíam poderes miraculosos, e usavam-se mandingas e talismãs. Do outro lado do mar, católicos carregavam terços, escapulários, medalhinhas e crucifixos.1 A distância entre as duas religiosidades era menor do que a retórica da época fazia crer.

O primeiro manicongo cristão, batizado Dom João I, morreu em 1506.1

Dom Afonso I: o rei que quis fazer do Congo outro Portugal

A sucessão foi violenta. Mbemba Nzinga, filho mais velho e batizado Dom Afonso I, disputou o trono com o irmão Mpanzu a Kitima — que tinha do seu lado a nobreza tradicional, contrária à europeização. Afonso venceu e matou o irmão.1

A lenda da cruz no céu era importada
Contou-se depois que, na batalha decisiva, Dom Afonso viu o sinal da cruz no céu e teve a ajuda do apóstolo Santiago. A cena não é africana: é ibérica, e antiga. O primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques, teria tido visão semelhante em Ourique; e Santiago era chamado na península de “Mata-Mouros”, pelo auxílio que prestaria aos reis católicos contra os muçulmanos.1 Ou seja: junto com a fé, o Congo importou também o repertório de lendas que a acompanhava — e passou a contar a própria história com as imagens do outro.

No trono, Afonso revelou-se devoto: testemunhas da época diziam que passava as noites lendo vidas de santos e livros de doutrina. E tinha um projeto declarado — fazer do Congo uma cópia de Portugal.1

A execução foi rápida e minuciosa. A aristocracia local passou a usar dom e dona e os títulos de barão, conde, marquês e duque. Instalou-se o gosto pelo traje europeu: correntes de ouro, sapatos de fivela, casacas de veludo com gola alta e punho rendado e chapéus de aba larga com plumas.1

Como o pai, mandou jovens a Lisboa para serem instruídos. Um deles era Henrique, seu filho — que se tornaria o primeiro bispo africano, à frente da diocese de Utica, perto de onde ficara Cartago, na atual Tunísia. Coube ainda a Afonso indicar os primeiros embaixadores do Congo junto à Santa Sé.1

Um reino que negociava com Roma
Vale medir o que esses dois fatos significam. Ter bispo próprio e embaixada permanente no Vaticano colocava o Congo, no plano diplomático, no mesmo tabuleiro dos reinos europeus — não na condição de território conquistado. Foi justamente essa posição que, por um século e meio, protegeu o reino de ser saqueado como os vizinhos. E foi ela que os traficantes precisariam demolir antes de chegar ao que queriam.
A costa africana no mapa de Rigobert Bonne · Rigobert Bonne · 1770 (undated)
A costa africana no mapa de Rigobert Bonne, de 1770. Os trechos de litoral aparecem nomeados pelo que deles se extraía — vocabulário do comércio europeu, e não da geografia africana.
A costa africana no mapa de Rigobert Bonne · 1770 · Wikimedia Commons · Public domain

A carta de 1526

O atrito não nasceu da fé, e sim da conta. Os reis congoleses chegaram a mandar cativos de presente ao rei de Portugal, e, com apoio português, moviam razias contra vizinhos que terminavam com centenas de prisioneiros. Numa delas, o manicongo derrotou o rei Munza, do Dembo: dos 600 capturados, 300 seguiram imediatamente para Portugal — e os outros só ficaram porque os navios já haviam zarpado.1

Em 1530, a saída anual do reino já era de 4 mil a 5 mil pessoas classificadas como “peças da Índia” — o rótulo comercial para cativos jovens, saudáveis e do sexo masculino.1

O choque estava montado, e a fonte o resume em duas linhas. Do lado africano, a expectativa era de apoio técnico e de reforço militar contra os rivais. Do lado europeu, era gente para embarcar.1

Quando percebeu que o número de súditos embarcando havia se tornado alarmante, Afonso escreveu a Dom João III, em 1526. O trecho decisivo declara a vontade do soberano: “que neste reino não haja trato de escravos”, e que deles não haja mais saída.1

E a carta ia além do pedido. Ele queria comprar um navio em Portugal para negociar direto com a Europa, sem intermediários. Portugueses continuariam bem-vindos — desde que fossem padres ou professores. Traficante não entraria mais.1

A resposta de Lisboa levou dez anos para chegar. E nenhuma das propostas foi aceita. A fonte explica sem rodeios: salvar almas interessava menos que o tráfico.1

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Sobre as relações entre o Reino do Congo e Portugal no século XVI, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. Não houve conquista nesse período. As relações se estabeleceram por embaixadas e tratados, e em 1651 o Conselho Ultramarino ainda tratava aquele rei como irmão de armas dos reis portugueses, não como súdito.

  2. Incorreta. A fonte registra que metade dos 200 mil moradores do reino era escrava. O que os portugueses trouxeram foi uma demanda externa contínua, capaz de converter uma instituição interna em atividade de exportação.

  3. Correta. É o episódio central do assunto. Ele pedia ainda um navio para comerciar sem intermediários e que só padres e professores fossem enviados. Nenhuma proposta foi aceita.

  4. Incorreta. Os pedidos registrados foram de missionários, mestres de ofício — pedreiros, carpinteiros e agricultores — e a formação de jovens congoleses que depois repassariam o conhecimento.

  5. Incorreta. A fonte apresenta a conversão como decisão do próprio soberano, somando interesse prático e adesão sincera, e aponta afinidades entre as práticas religiosas dos dois lados.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

O que desmoronou, e em que ordem

Recusado pelo parceiro, Afonso tentou resolver por dentro. Montou um comitê de três representantes seus, sem cuja autorização nenhum cativo poderia ser embarcado. O resultado foi instrutivo e desanimador: as feiras simplesmente mudaram de endereço, deslocando-se para regiões vizinhas e continuando tão ativas quanto antes.1

Quando ele morreu, em 1543, o projeto de europeização já havia fracassado por inteiro. Portugal não cumprira sua parte. E a decadência atingia até quem deveria encarná-la: padres e missionários se revelaram mais interessados em traficar do que em ensinar ou converter — e entre os que traficavam estava nada menos que o superior da Companhia de Jesus na região, o padre Jorge Vaz.1

As cartas do manicongo a Lisboa viraram um rosário de queixas sobre a conduta do clero. Numa delas, relatava que um padre havia engravidado uma professora da escola local, o que fez os alunos fugirem em massa.1

O historiador Alberto da Costa e Silva resumiu o que aconteceu numa imagem que a fonte cita e que vale guardar: Portugal, escreveu ele, havia se instalado dentro do reino “como uma espécie de doença”.2

O desmoronamento seguiu uma sequência. Primeiro, os herdeiros de Afonso se destroçaram numa luta sucessória. Depois, em 1554, o Ndongo — reino ao sul, até então vassalo — rompeu com o Congo com apoio português e derrotou em campo as tropas do manicongo Dom Diogo I, descrito como um rei janota que nunca repetia roupa e vestia-se à portuguesa.1

Em 1568 vieram os jagas, guerreiros do interior que o viajante Felippo Pigafetta descreveu como “horda feroz, nômade e antropófaga”, sustentada pelo saque e pela guerra. Moviam-se depressa, e atacavam de escudo, punhal e azagaia.1

A instabilidade final tem uma estatística que dispensa comentário. A partir de 1614, em apenas vinte e cinco anos, oito soberanos passaram pelo trono — todos com nomes aportuguesados. O reinado mais longo, o de Dom Álvaro II, durou sete anos. Três reis foram depostos e um, envenenado.1

Funeral da rainha Nzinga, em gravura de 1732 · Giovanni Antonio Cavazzi · 1732
Funeral da rainha Nzinga, em prancha de 1732 do missionário Giovanni Antonio Cavazzi, que esteve na região. Nzinga (1583-1663) governou Ndongo e Matamba — o reino vizinho que se separara do Congo em 1554.
Funeral da rainha Nzinga, em gravura de 1732 · 1732 · Wikimedia Commons · Public domain

Ambuíla, 1665

O golpe final não partiu de Lisboa. Partiu do Brasil.

Executaram-no três homens que a guerra contra os holandeses havia transformado em heróis, tanto no Brasil quanto em solo africano: André Vidal de Negreiros, João Fernandes Vieira e Salvador de Sá. A Coroa os recompensou com honrarias — e, entre elas, com o governo de Angola, que os três ocuparam um após o outro, de 1648 a 1661.1

E olhavam para o Congo com olhos de traficante. Era o último grande bolsão de mão de obra cativa da região, e justamente aquele que nunca fora pilhado como os outros — por causa das relações privilegiadas que os congoleses haviam firmado, um século e meio antes, com o rei português e com o papa.1

Restava, porém, um obstáculo jurídico: o Congo era reino cristão independente, reconhecido por Roma, Lisboa e outras capitais. Em 1651, um estatuto do Conselho Ultramarino havia deixado isso por escrito: o rei do Congo “não é vassalo desta coroa”, e sim irmão de armas dos reis dela.1

Os pretextos foram fabricados. Fernandes Vieira acusou o manicongo Dom Antônio I Afonso de traição e de abrigar escravos fugidos de Angola. Vidal de Negreiros — paraibano e dono de engenhos — alegou que o rei roubava minas e desviava metais preciosos da Coroa; e, para neutralizar a Igreja, classificou o clero congolês de “cismático e idólatra”.1

Pressionado por nobres e súditos, o manicongo tomou a iniciativa e declarou guerra. O objetivo, escreveu ele, era defender terra, família e fazenda — e também as “próprias vidas e liberdades” de um povo de que os portugueses queriam apossar-se.1

O confronto veio em 1665, a cerca de setenta quilômetros a leste de São Salvador: a Batalha de Ambuíla. Do lado congolês havia 190 mosqueteiros e dezenas de milhares de arqueiros e zagaieiros. Do outro lado, o inventário de Vidal de Negreiros somava milhares de guerreiros nativos — os jagas entre eles —, mais 3 mil arqueiros, 550 mosqueteiros e duas peças de artilharia.1

A diferença não estava no número, e sim na artilharia e na proporção de armas de fogo. Foi massacre. O rei foi morto e degolado, e o relato enviado a Lisboa contabilizou mais de 5 mil guerreiros mortos, incluindo “quatrocentos fidalgos titulares”.1

O tratamento dado ao corpo diz muito sobre a natureza do episódio. A cabeça decepada foi levada em procissão pelas ruas de Luanda e sepultada na igreja de Nossa Senhora de Nazaré, que o próprio Vidal de Negreiros mandara erguer no ano anterior.1 Honras de rei cristão para quem se acabara de exterminar.

O que essa história ensina

O Congo é citado pelos estudiosos como caso exemplar e trágico das consequências do tráfico.1 E dois historiadores citados pela fonte formulam a razão disso.

Para o britânico Charles Boxer, o reino é o símbolo máximo de uma “dicotomia” que marcou por séculos o modo português de se aproximar dos africanos: o desejo de salvar almas convivendo com o anseio de escravizar corpos.3 Para John Russell-Wood, tratou-se de “um exercício de desilusão mútua”: cada lado esperou do outro aquilo que o outro nunca pretendeu dar.1

Vale fechar pelo que o caso desfaz. Ele desfaz a ideia de África sem Estado: havia capital, tributo, diplomacia e bispo. Desfaz a ideia de vítima passiva: o Congo negociou, converteu-se por decisão própria, guerreou vizinhos e lucrou com isso antes de virar presa. E desfaz a ideia de que a escravidão atlântica tenha sido um encontro entre europeus e um vazio — foi um encontro entre dois Estados, em que um deles não teve como sustentar o preço.

Depois de Ambuíla, Angola e o território do antigo Congo se firmariam como os maiores fornecedores de cativos ao longo dos 350 anos da escravidão no Brasil.1

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre a destruição do Reino do Congo, em 1665, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. Ocorreu o oposto no plano jurídico: um estatuto do Conselho Ultramarino, de 1651, tratava aquele rei como irmão de armas dos reis portugueses, e não como súdito da Coroa.

  2. Incorreta. O Congo era reino cristão havia mais de um século e meio, com bispo próprio e embaixada junto à Santa Sé. A acusação de clero “cismático e idólatra” foi pretexto fabricado para neutralizar a oposição da Igreja.

  3. Incorreta. O Congo tinha dezenas de milhares de arqueiros e zagaieiros contra 3 mil arqueiros do lado adversário. A diferença decisiva estava na artilharia e na proporção de armas de fogo: 550 mosqueteiros e dois canhões contra 190 mosqueteiros.

  4. Incorreta. Deu-se o contrário: a partir dali, Angola e o território do antigo Congo se consolidaram como os maiores fornecedores de cativos ao longo dos 350 anos de escravidão no Brasil.

  5. Correta. Salvador de Sá, André Vidal de Negreiros e João Fernandes Vieira ocuparam o governo de Angola entre 1648 e 1661 como recompensa pela guerra contra os holandeses, e inventaram pretextos para atacar o reino.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • O Congo era um Estado — capital com 60 mil a 70 mil habitantes, palácio real, senhores provinciais, metalurgia de ferro e cobre, exército, embaixadas em Lisboa e no Vaticano e bispo próprio. Tratá-lo como agrupamento tribal é erro factual, não questão de vocabulário.
  • Havia cativeiro antes dos portugueses — metade dos 200 mil moradores do reino era escrava. Isso não atenua a responsabilidade europeia: o que muda tudo é a demanda externa contínua e sem teto, que converte uma instituição interna em indústria de exportação.
  • A conversão foi decisão própria — não houve imposição pela força. A fonte soma interesse prático e adesão sincera, e aponta afinidades concretas entre as práticas religiosas — relíquias de antepassados e talismãs de um lado, terços e escapulários de outro.
  • O Congo também foi agente do tráfico — os reis congoleses mandaram cativos de presente a Portugal e promoveram razias contra vizinhos, como a que derrotou o rei Munza, do Dembo, e rendeu 600 prisioneiros. Apresentar o reino apenas como vítima apaga metade do processo.
  • O pedido de 1526 é o centro do assunto — dom Afonso I pediu formalmente o fim do trato de escravos em seu reino, um navio para comerciar sem intermediários e que só padres e professores fossem enviados. A resposta demorou dez anos e foi negativa em tudo.
  • Quem destruiu o reino veio do Brasil — Salvador de Sá, André Vidal de Negreiros e João Fernandes Vieira governaram Angola entre 1648 e 1661 e conduziram o ataque de Ambuíla — contra um reino que a própria Coroa portuguesa reconhecia como irmão de armas, e não como vassalo.
  • A data de fundação não vem desta fonte — a fonte principal deste artigo trata do reino a partir do contato de 1483 e não fornece data de fundação. Este artigo não afirma nenhuma.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De 1483 a Ambuíla

1483Diogo Cãoancora nafoz do Zairee levaquatroreféns1485Volta comelesvestidos efalandoportuguês1491Erguida aprimeiraigrejacatólica daÁfricasubsaariana1506MbembaNzingaassume comodom Afonso I1526A carta quepede o fimdo tráfico1554O Ndongo sesepara ederrota oexércitocongolês1568Invasão dosjagas1665Ambuíla: orei é mortoe degoladoEntre a primeira caravela e a decapitação do último rei independente passa-se pouco menos de dois séculos.
O marco em destaque é o ponto de virada: a partir da carta de 1526, tudo o que o reino tenta fazer é conter uma máquina que ele já não controla.

O que o Congo pediu, o que Portugal queria

O que o Congo pediuMestres de ofício: pedreiros e carpinteirosAgricultores que ensinassem técnicaMissionários e professoresEducar jovens que voltariam para ensinarUm navio, para comerciar sem intermediárioO fim do embarque de seus súditosO que Portugal queriaCativos, em quantidade crescenteUma fonte estável de fornecimentoAlmas convertidas, como justificativaNenhum intermediário africano no comércioSilêncio de dez anos sobre o pedidoE, no fim, o próprio reino
Leia as linhas em pares. Nenhum dos pedidos da esquerda é atendido pela coluna da direita — e é essa incompatibilidade, não um mal-entendido, que explica o desfecho.

O que se encontrou, o que a engrenagem fez

O QUE SE ENCONTROU EM 1483O QUE A ENGRENAGEM FEZUm Estado organizadocapital de 60 a 70 mil pessoas,metalurgia e tributo própriosCativeiro já existentemetade dos 200 mil moradoresdo reino era escravaPortugal atrás de corposcatequizar era a justificativa;embarcar era o objetivoO reino entra na engrenagemconverte-se, europeíza-see vira fornecedorExportação em escala4 mil a 5 mil cativos por anojá em 1530Controle impossívelo comitê régio só deslocaas feiras para os vizinhosO reino se parteNdongo se separa em 1554;jagas invadem em 1568Destruição finalAmbuíla, 1665, por trêssenhores de engenho do Brasil
Repare na segunda causa da esquerda: o cativeiro já existia. O que a chegada europeia acrescenta não é a escravidão — é a escala, e a escala é o que destrói o reino.

Mapa mental do assunto

Reino do Congo1483-1665O EstadoCapital M'banza-Congo, depois São SalvadorDe 60 mil a 70 mil habitantesSoberano com título de manicongoMetalurgia de ferro e cobreA aliançaDiogo Cão chega em 1483Embaixada congolesa a LisboaPrimeira igreja subsaariana, 1491Dom Afonso I a partir de 1506O choqueCarta de 1526 pede o fim do tráficoDez anos até a resposta, que foi nãoComitê de controle fracassaPadres entre os próprios traficantesErros que a prova cobraO Congo era Estado, não “tribo”A conversão foi decisão política própriaHavia cativeiro antes dos portuguesesQuem destruiu o reino veio do Brasil
O ramo destacado reúne os erros mais caros. Os três primeiros são versões do mesmo engano: imaginar a África como ausência de história política própria.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Localizaçãosavana logo abaixo da floresta equatorial; não coincide com os países que hoje usam o nome
CapitalM’banza-Congo, rebatizada São Salvador
População da capitalde 60 mil a 70 mil habitantes
Palácio real2,4 mil metros de circunferência
Título do soberanomanicongo, “senhor do Congo”
Economiamilhete, sorgo e feijão; gado, porcos, ovelhas e galinhas; roupas de fibra de palmeira
Técnicaolaria e metalurgia de ferro e cobre — machados, enxadas e pontas de flecha
Escravidão internametade dos 200 mil moradores do reino era escrava, antes do contato
1483Diogo Cão na foz do Zaire; leva quatro reféns
1485retorna com eles vestidos à europeia e falando português
A embaixadaleva marfim e panos de ráfia, que causam alvoroço na nobreza de Lisboa
Os pedidos do Congomissionários, mestres de ofício e formação de jovens que voltariam para ensinar
1491erguida a primeira igreja católica da África subsaariana
A catedralKulumbimbi, concluída em 1596; ruínas são Patrimônio Mundial desde 2017
1506morre dom João I; assume dom Afonso I, após matar o irmão Mpanzu a Kitima
Projeto de Afonsofazer do Congo uma cópia de Portugal — títulos, trajes e nomes europeus
Primeiro bispo africanoHenrique, filho de Afonso, na diocese de Utica
Raziascom apoio português; contra o rei Munza, do Dembo, renderam 600 prisioneiros
1530o reino exporta 4 mil a 5 mil cativos por ano, as “peças da Índia”
O choqueo Congo esperava apoio técnico e militar; Portugal queria gente para embarcar
1526carta a dom João III: que não haja trato de escravos no reino, nem saída deles
Outros pedidos da cartaum navio para comerciar sem intermediários; só padres e professores seriam aceitos
A respostadez anos de espera, e nenhuma proposta aceita
Tentativa de controlecomitê de três representantes; as feiras apenas mudaram para regiões vizinhas
1543morte de dom Afonso I, com o projeto de europeização fracassado
O cleropadres entre os traficantes, inclusive o superior dos jesuítas, padre Jorge Vaz
Costa e Silvapara o historiador, Portugal instalara-se dentro do reino como uma doença
1554o Ndongo se separa com apoio português e derrota as tropas de dom Diogo I
1568invasão dos jagas, guerreiros do interior de Angola
A partir de 1614oito soberanos em 25 anos; três depostos e um envenenado
Os três governadoresSalvador de Sá, André Vidal de Negreiros e João Fernandes Vieira, em Angola entre 1648 e 1661
Estatuto de 1651o Conselho Ultramarino o trata como irmão de armas dos reis portugueses, não como súdito
Ambuíla, 1665do lado congolês, 190 armas de fogo; do outro, 550 e mais duas peças de artilharia
Desfechoo rei é morto e degolado; mais de 5 mil guerreiros mortos
DepoisAngola e o antigo Congo tornam-se os maiores fornecedores de cativos ao Brasil
Cada linha responde a uma pergunta que a prova costuma fazer sobre os Estados africanos e o tráfico atlântico.

Fontes

  1. GOMES, Laurentino. Escravidão — volume 1. Rio de Janeiro: Globo Livros. Fonte principal deste artigo.
  2. COSTA E SILVA, Alberto da. A manilha e o libambo: a África e a escravidão de 1500 a 1700. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Citado pela fonte principal.
  3. BOXER, Charles R. O império marítimo português. São Paulo: Companhia das Letras. Citado pela fonte principal.
  4. THORNTON, John K. A África e os africanos na formação do mundo atlântico. Rio de Janeiro: Campus.