História Verso
História Geral · Idade Moderna

Reforma e Contrarreforma

Em 1500 a Europa ocidental rezava de um jeito só. Menos de um século depois, europeus se matavam por causa de como rezar. O estopim não foi uma ideia abstrata: foi um produto à venda, que prometia abreviar o tempo de sofrimento depois da morte.

151714 min de leitura5 fontes
Lei e Graça, de Lucas Cranach, o Velho, 1529 · Lucas Cranach the Elder · 1529
Lei e Graça, de Lucas Cranach, o Velho, 1529. A tela é dividida ao meio de propósito: à esquerda, a Lei não salva o pecador perseguido pelo demônio; à direita, a fé o salva. Teologia pintada para quem não sabia ler.
Lei e Graça, de Lucas Cranach, o Velho, 1529 · 1529 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Por volta de 1500, quase toda a Europa ocidental e central rezava do mesmo jeito. Menos de um século depois, europeus se matavam por discordar sobre como rezar. O que exatamente quebrou?

A resposta não começa por uma ideia abstrata. Começa por um produto que estava à venda — e vale entender direito o que ele era, porque quase tudo o que se segue depende disso.

O que se comprava numa indulgência

A doutrina católica sustentava que, depois da morte, a maioria das pessoas precisava passar um tempo sofrendo no purgatório, expiando pecados antes de alcançar o céu. A indulgência era o instrumento capaz de encurtar ou anular esse prazo.1

Originalmente ela se ganhava por feitos de grande mérito religioso — ir às cruzadas, por exemplo. Mas havia um segundo fundamento, e é ele que interessa: a Igreja ensinava que Jesus e os santos haviam acumulado tanta virtude que entraram no céu com sobra, e que o papa administrava esse estoque. Podia, portanto, transferir a virtude excedente de um para outro.1

Junte as duas pontas e aparece o mecanismo: existia um tesouro espiritual, um administrador com poder de distribuí-lo e um comprador disposto a pagar. A partir daí, o que era prêmio por mérito virou transação.

Em 1517, o frade dominicano Johann Tetzel começou a vender indulgências em Wittenberg, com autorização de Alberto, arcebispo de Mainz. Na cidade lecionava um monge professor da universidade local: Martinho Lutero.1

LembreO que era, tecnicamente, uma indulgência?

A redução ou o cancelamento do tempo de purgatório devido por causa dos pecados. Fundamentava-se na ideia de um tesouro de méritos acumulado por Jesus e pelos santos, do qual o papa dispunha e que podia ser alocado a terceiros. O escândalo de 1517 não foi a existência da indulgência — foi vendê-la.

A objeção, e o que ela realmente dizia

Lutero vinha, havia tempo, obcecado com a questão da própria salvação. O que o horrorizou foi uma consequência prática da venda: um pecador podia acreditar que entraria no céu não por arrependimento nem por misericórdia divina, mas por ter pago.1

Ele redigiu então noventa e cinco argumentos contra aquela prática. E aqui cabe uma advertência que a própria fonte faz: “segundo muitos historiadores”, ele as pregou na porta da igreja do castelo de Wittenberg. A cena mais famosa da Reforma vem, portanto, com ressalva embutida no livro-texto — e este artigo a mantém.1

O que não tem ressalva é o resto: ele distribuiu cópias impressas por toda a Alemanha e enviou uma ao arcebispo Alberto, que a repassou a Roma.1

O conteúdo das teses é mais modesto do que a fama sugere, e por isso mesmo mais interessante. Três afirmações o resumem: só Deus concede perdão; o papa não tem poder sobre o purgatório; e não há fundamento bíblico para a ideia de que o mérito de Jesus e dos santos possa ser transferido a outra pessoa. Disso decorre a doutrina que ficaria conhecida como justificação pela fé: a salvação depende inteiramente de Deus, e nada que um ser humano faça a garante.12

As Noventa e Cinco Teses, impressas em 1517 · Luther, Martin, 1483-1546 · 1517
As Noventa e Cinco Teses impressas, 1517. O texto é em latim e tem forma de disputa acadêmica — o gênero com que um professor propunha debate a colegas. A intenção era discussão interna, não cisma.
As Noventa e Cinco Teses, impressas em 1517 · 1517 · Wikimedia Commons · Public domain
Ele queria reformar, não romper
Vale insistir nisto, porque a versão escolar costuma inverter a ordem. Lutero provavelmente desejava apenas corrigir práticas — acabar com a venda de indulgências —, e não provocar uma rebelião contra a Igreja. Foram os acontecimentos seguintes que transformaram a proposta de debate em ruptura. Em 1518 ele foi convocado a comparecer em Augsburgo, onde negou que a Igreja pudesse distribuir os méritos de Jesus e dos santos. O papa Leão X condenou suas posições e mandou que se retratasse. Ele recusou. Em 1521 veio a excomunhão.

Por que a acusação encontrou terreno

Uma denúncia isolada não derruba uma instituição de mil anos. É preciso, então, olhar para o estado em que a Igreja se encontrava — e o retrato que a fonte oferece é constrangedor.

Ao longo da Idade Média, a Igreja ficou mais rica, e seus cargos superiores passaram a ser ocupados por gente movida mais por riqueza e poder do que por preocupação espiritual. Críticos acusavam os papas de agir menos como representantes de Cristo na terra e mais como príncipes seculares — intervindo na política europeia e até comandando exércitos.1

No cotidiano do clero, os sinais eram materiais. Vivia-se em ambientes palacianos, vestindo sedas e peles. Havia clérigos com amantes e com filhos ilegítimos — e esses filhos frequentemente recebiam postos na própria Igreja.1

E havia o mercado de cargos, que é o ponto mais revelador. Famílias ricas compravam ofícios eclesiásticos para seus membros. Alguns homens acumulavam bispados em mais de um lugar ao mesmo tempo, resolvendo o problema prático de forma simples: contratavam outros para exercer as funções em seu nome.1

Falta o dado que impede a leitura preguiçosa deste quadro. Os camponeses da Europa permaneciam devotamente apegados à sua fé. Não houve perda de religiosidade — houve perda de confiança na instituição. São coisas diferentes, e confundi-las é o erro mais comum do assunto.1

Some-se, por fim, o cálculo de poder. Reis e príncipes tinham ciúmes do poder da Igreja e às vezes disputavam com o papa o controle das igrejas em seus territórios. Para eles, qualquer oportunidade de rejeitar a autoridade papal era bem-vinda.1

O humanismo entregou o vocabulário

Faltava ainda a linguagem com que criticar — e ela já estava pronta, vinda de um movimento que não tinha nada de anticatólico.

No século 15, nas cidades-estado do norte da Itália, firmou-se o humanismo: a convicção de que o ser humano tem valor e dignidade e de que, pelo estudo da filosofia, da história e da literatura da Grécia e de Roma antigas, as pessoas podiam se aperfeiçoar e levar uma “boa vida” — o que, por sua vez, melhoraria as sociedades em que viviam. Um detalhe importa: os humanistas italianos eram, com frequência, cristãos devotos, e o estudo dos antigos não os levou a rejeitar a doutrina da Igreja.1

A mudança veio na segunda metade do século 15, quando estudiosos do norte da Europa criaram uma variante com objetivo declarado: fazer de cada pessoa um cristão melhor. É o humanismo cristão, que somava os clássicos greco-romanos aos primeiros padres da Igreja, com uma finalidade — despertar um sentido interior de piedade.1

Erasmo de Roterdã é o nome maior dessa corrente, e a proposta dele contém, já formada, a arma que Lutero usaria: a transformação interior é superior às formas exteriores de devoção, como peregrinar ou jejuar em datas marcadas. Reforma, para esses autores, seria consequência — fazendo cristãos melhores, a Igreja acabaria reformada.1

O que mudou, quando a doutrina mudou

Consumada a ruptura, a diferença entre as duas confissões deixou de ser de grau e passou a ser de fundamento. Quatro pontos a resumem.

Como se salva. Roma ensinava salvação pela combinação de fé e boas obras — e comprar indulgência era considerado boa obra, porque o dinheiro ia para a Igreja. Lutero passou a ensinar que a fé sozinha basta.1

Onde está a autoridade. Para Lutero, a Escritura sozinha deveria ser a fonte da crença e da prática — o que dispensava séculos de tradição católica como critério do que é ser bom cristão.1

Quem pode casar. Os seguidores abandonaram o celibato clerical, e o próprio Lutero deu o exemplo: monge, casou-se com Katharina von Bora, ex-freira, e constituiu família.1

Quanto vale ser padre. Os protestantes pediram a abolição das ordens religiosas de monges e freiras, e passaram a tratar a vida no clero — que a Igreja católica proclamava a maior de todas as vocações — como não melhor que qualquer outra profissão.1

Retrato duplo de Lutero e Katharina von Bora, 1529 · Workshop of Lucas Cranach the Elder · 1529
Retrato duplo de Lutero e Katharina von Bora, oficina de Cranach, 1529. Um monge e uma ex-freira pintados como casal: a imagem é argumento teológico tanto quanto retrato de família.
Retrato duplo de Lutero e Katharina von Bora, 1529 · 1529 · Wikimedia Commons · Public domain

Nada disso teria alcance sem um fator técnico. A imprensa de tipos móveis, desenvolvida na Europa durante o Renascimento, ajudou Lutero a espalhar sua mensagem — milhares de cópias de seus escritos circularam pelo continente.1

Questão 01múltipla escolha · sem placar
A doutrina da justificação pela fé, formulada por Lutero, sustenta que:
  1. Incorreta. Essa é a posição católica, reafirmada em Trento: fé e boas obras são ambas necessárias. Lutero rompe exatamente com ela.

  2. Incorreta. Lutero negava justamente o poder do papa nessa matéria: sustentava que o pontífice não tem autoridade sobre o purgatório nem sobre a transferência de méritos.

  3. Correta. É a formulação exata. Dela decorre a recusa da indulgência comprada: se nada que se faça garante salvação, pagar por ela é ilusão vendida.

  4. Incorreta. Predestinação é doutrina de Calvino, e Lutero não a formulou. É o ponto crucial que separa as duas correntes protestantes.

  5. Incorreta. É o oposto do argumento luterano, que reduz a mediação clerical e coloca a Escritura, e não o sacerdócio, como autoridade.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Não houve um protestantismo — houve vários, e brigando

Aqui está o ponto que mais desorganiza o estudo do assunto, e a melhor forma de organizá-lo não é geográfica nem cronológica. É outra: cada ruptura seguinte foi feita contra a anterior, e não contra Roma.

Zwínglio achou Lutero tímido. Em Zurique, o ex-padre Ulrich Zwínglio foi além em cada frente. Rejeitou a transubstanciação — a doutrina de que Jesus está fisicamente presente no vinho e na hóstia consagrados —, e a fonte anota o quanto isso era radical: nem mesmo Lutero havia chegado tão longe. Pregou contra o jejum, mandou retirar imagens religiosas das igrejas, proibiu órgãos, fechou mosteiros e conventos, imprimiu a Bíblia em alemão e afirmou que o purgatório não aparece na Bíblia. Morreu em 1531, num conflito entre as áreas católicas e protestantes da Suíça.1

Grebel achou Zwínglio lento. O comerciante suíço Konrad Grebel aderiu à ideia de que o batismo deveria esperar a vida adulta, quando a pessoa é capaz de escolher renunciar ao pecado. Impaciente com o ritmo de Zurique, fundou em 1524 seu próprio movimento, os Irmãos Suíços.1

Daí nasceram os anabatistas — igrejas que recusam o batismo infantil em favor do batismo adulto. O atrito era grave por uma razão técnica: o batismo removia a mancha do pecado original, por isso batizar bebês era o padrão entre católicos e entre a maioria dos protestantes; e, como só se pode batizar uma vez, quem se rebatizava adulto violava um princípio da fé católica.1

Desse tronco saíram hutteritas, menonitas e, no século 17, os amish, que se separaram do movimento menonita. Além do batismo adulto, defendiam separação entre Igreja e Estado e tendiam ao pacifismo. E é aí que a conta ficou cara: por recusarem cargos públicos, serviço militar e o direito de governantes seculares de controlar assuntos religiosos, foram temidos pela maioria dos governantes europeus e frequentemente alvo de ataques violentos.1

Calvino radicalizou a doutrina. Em Genebra, João Calvino — criado católico na França, convertido antes ou logo depois de fugir para a Suíça — sustentou ideias próximas às de Lutero, com uma diferença crucial: a predestinação. Deus teria predeterminado quais almas seriam salvas e quais condenadas; ninguém pode saber ao certo em qual grupo está, e nada pode fazer para mudar isso.1

O paradoxo prático dessa doutrina é o que a torna historicamente decisiva. Apesar de negar a agência humana, os calvinistas empenhavam-se numa vida rigidamente moral, centrada no trabalho duro e na piedade — buscando, na própria capacidade de viver como quem está destinado ao céu, a garantia de que de fato haviam sido salvos.1

A disciplina tinha aparato: dança, embriaguez em público, jogo e linguagem obscena eram tidos por ímpios e puníveis por um tribunal especial, o Consistório. O calvinismo se espalhou depressa: virou Igreja Reformada Holandesa nos Países Baixos, Igreja Presbiteriana na Escócia e huguenotes na França.1

Por que essa ordem importa
Estudar as confissões protestantes como uma lista — luteranos, reformados, anabatistas, anglicanos — esconde o que houve de mais característico no período: cada grupo se definiu contra o anterior, e não contra Roma. Zwínglio foi mais longe que Lutero; Grebel foi mais rápido que Zwínglio; Calvino foi mais duro que ambos. Uma vez recusada a autoridade única, não havia instância capaz de dizer onde parar — e é exatamente essa ausência que produz a fragmentação, não a distância geográfica.

A Inglaterra é a exceção — e por um motivo que não é religioso

Lutero, Zwínglio, Calvino e os líderes anabatistas acreditavam de fato nas doutrinas que defendiam. A Reforma inglesa, adverte a fonte, teve outro caráter: ali o movimento veio de cima para baixo, e não pela mão de um convertido convicto, mas de um rei em busca de um jeito conveniente de trocar de rainha.1

Até decidir romper, Henrique VIII tinha fama de católico devoto e de crítico de Lutero. Era casado com Catarina de Aragão, filha dos monarcas espanhóis, e o casamento produzira uma única filha viva, Maria. A lei inglesa não excluía mulheres da sucessão — mas o rei não quis correr riscos e queria um filho homem cujo reinado não fosse contestado.1

Daí o pedido de anulação, que não é divórcio: a Igreja não permitia divórcio, mas a anulação declarava que o casamento jamais fora legítimo. O argumento jurídico era engenhoso — Catarina fora casada antes com Artur, irmão mais velho de Henrique, e a lei canônica que proíbe casamento entre parentes próximos nunca deveria ter permitido a união.1

O papa recusou. Henrique então declarou a Igreja inglesa desligada da autoridade papal, e em 1534 o Parlamento aprovou o Ato de Supremacia, criando a Igreja da Inglaterra com o monarca como cabeça. O arcebispo de Cantuária concedeu a anulação — e Henrique já havia se casado discretamente com Ana Bolena, a tempo de vê-la dar à luz uma filha, Elizabeth.1

O ponto que separa a Inglaterra do continente vem agora. Sob Henrique, a Igreja Anglicana permaneceu largamente católica em doutrina e em ritual. Ele fechou os mosteiros, mas não expurgou os elementos romanos — o que desagradou muitos protestantes. Trocou-se quem manda, não no que se crê.1

O conteúdo veio depois, e por etapas. Com Eduardo VI ainda menor de idade, os regentes — com concordância do jovem rei — protestantizaram a igreja: padres puderam casar, o rosário foi denunciado, procissões foram proibidas, estátuas e vitrais saíram das igrejas, a missa foi reformada e o Livro de Oração Comum, em inglês, foi publicado em 1549. Quem se recusasse a usá-lo arriscava perder o posto e ser preso.1

Depois vieram a reação e o acordo. Maria I, filha católica de Catarina, perseguiu protestantes e mandou executar centenas tentando devolver a Inglaterra a Roma; morreu em 1558 sem consegui-lo. Elizabeth I queria um país ordeiro e estável e adotou, nos primeiros anos, uma linha relativamente moderada — embora, no fim do reinado, tenha perseguido católicos que julgava ameaçar seu governo.1

O arranjo dela é uma obra de engenharia política. O Ato de Supremacia de 1558 separou de novo a igreja de Roma, e o Ato de Uniformidade de 1559 tornou o Livro de Oração Comum a única forma legal de culto. Mas com concessões calculadas a quem não queria abandonar o rito: retirou-se a condenação ao papa que constava de versão anterior; a comunhão foi descrita de modo a evitar afirmação clara sobre a transubstanciação; e o clero pôde continuar usando as vestes e os ornamentos católicos.1

Sobrou insatisfação à esquerda religiosa. Os puritanos — calvinistas ingleses — tentaram, sem êxito, afastar mais a igreja do rito romano; recusavam as vestes católicas e o sinal da cruz no batismo. Nas décadas de 1570 e 1580 passaram a contestar a própria estrutura, em que o monarca é cabeça da igreja: para eles, as igrejas deveriam ser independentes e governadas por anciãos eleitos. Elizabeth recusou. Sob Jaime I, os separatistas começaram a deixar a Inglaterra rumo à Europa continental e à América do Norte; sob Carlos I, outros puritanos também partiram.1

Questão 02múltipla escolha · sem placar
A Reforma inglesa distingue-se das reformas continentais principalmente porque:
  1. Correta. É a caracterização da fonte: Lutero, Zwínglio e Calvino eram convertidos convictos; Henrique VIII procurava um meio conveniente de trocar de rainha, e o que mudou de imediato foi quem manda, não no que se crê.

  2. Incorreta. A predestinação é doutrina de Calvino, adotada na Escócia, nos Países Baixos e entre os huguenotes. Os calvinistas ingleses — os puritanos — não conseguiram impô-la à Igreja da Inglaterra.

  3. Incorreta. O batismo adulto é marca dos anabatistas — Irmãos Suíços, hutteritas, menonitas, amish —, e não da Igreja da Inglaterra.

  4. Incorreta. O Ato de Supremacia de 1534 fez exatamente o contrário: desligou a igreja inglesa da autoridade papal e pôs o monarca como sua cabeça.

  5. Incorreta. Não houve estopim popular na Inglaterra. A ruptura partiu da coroa, e a fonte a descreve como imposta de cima para baixo.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Roma responde: reafirmar a doutrina, corrigir a disciplina

A Igreja católica não ficou parada enquanto perdia fiéis. A Reforma Católica — também chamada Contrarreforma — foi seu esforço para enfrentar os desafios de Lutero e para realizar outras correções necessárias.1

O instrumento central foi o Concílio de Trento, aberto em 1545. E o que ele decidiu se divide claramente em duas metades, que é preciso não confundir.1

Na doutrina, nada cedeu. Bispos e clérigos reunidos afirmaram que fé e boas obras são ambas necessárias à salvação; que tanto a Escritura — interpretada pela Igreja — quanto a tradição são fontes válidas de autoridade; e reafirmaram a transubstanciação. Cada um desses pontos responde, diretamente, a uma tese protestante.1

Na disciplina, cedeu bastante. Ciente de problemas muito reais dentro da Igreja, o concílio manteve as indulgências, mas proibiu sua venda; proibiu autoridades eclesiásticas de nomear parentes para cargos; limitou cada bispo a um único bispado; e tomou medidas para melhorar a formação do clero e conter seus hábitos luxuosos.1

O Concílio de Trento, por Pasquale Cati, 1588 · Pasquale Cati · 1588
O Concílio de Trento, por Pasquale Cati, 1588. A assembleia que reafirmou toda a doutrina contestada e, ao mesmo tempo, aboliu a prática que dera origem à contestação.
O Concílio de Trento, por Pasquale Cati, 1588 · 1588 · Wikimedia Commons · Public domain

A Contrarreforma criou também novas ordens religiosas. A principal foi a Companhia de Jesus, os jesuítas, fundada pelo nobre espanhol Inácio de Loyola, com três encargos: a educação de jovens católicos — a tarefa central —, a conversão de não cristãos e o papel de conselheiros dos governantes católicos da Europa.1

E há um detalhe de estrutura que a fonte faz questão de registrar: ao contrário de outras ordens religiosas, os jesuítas não tinham ramo feminino. A educação das moças coube à ordem das ursulinas, fundada poucos anos antes.1

O preço: um século de guerra

A Contrarreforma sem dúvida evitou muitas defecções, mas as novas igrejas seguiram ganhando adeptos. Às vezes o processo foi pacífico. Às vezes, católicos e protestantes igualmente devotos entraram em guerra para defender o que cada lado tinha por única expressão verdadeira da fé cristã.1

Antes das guerras, porém, veio um acordo que fixou a regra do jogo. A Paz de Augsburgo, de 1555, garantiu aos governantes luteranos do império o direito de estabelecer o luteranismo como religião oficial de suas terras. E a contrapartida diz tudo sobre o século: os súditos de um príncipe eram obrigados a apoiar a igreja que ele escolhesse. Nenhuma outra religião foi acomodada. Muitos governantes do norte alemão tornaram-se luteranos; Áustria e Baviera, no sul, mantiveram-se católicas.1

França, 1572. A guerra entre huguenotes e católicos culminou, em 23 de agosto, no massacre da noite de São Bartolomeu — assassinatos dirigidos contra huguenotes de destaque que haviam ido a Paris para um casamento real. A paz só voltou quando o huguenote Henrique IV chegou ao trono, converteu-se ao catolicismo — religião da maioria dos franceses — e promulgou, em 1598, o Edito de Nantes, que fez do catolicismo a religião oficial e garantiu aos huguenotes o direito de cultuar como quisessem.1

O massacre de São Bartolomeu, por François Dubois · François Dubois 1529-1584 · between circa 1572 and circa 1584
O massacre de São Bartolomeu, por François Dubois. A topografia da tela foi deliberadamente manipulada para reunir numa só cena o que aconteceu em pontos diferentes de Paris.
O massacre de São Bartolomeu, por François Dubois · 1572 · Wikimedia Commons · Public domain

Países Baixos, 1568–1609. Filipe II da Espanha combateu rebeldes calvinistas nos Países Baixos espanhóis, numa guerra que durou até a trégua de 1609 — depois de sua morte, o filho Filipe III seguiu lutando. Restabelecida a paz, as sete províncias do norte firmaram sua independência como Províncias Unidas dos Países Baixos.1

Inglaterra, 1588. O mesmo Filipe, que se via a si e à Espanha como defensores do catolicismo, lançou um ataque naval contra a Inglaterra para devolvê-la à Igreja católica e encerrar seu apoio aos rebeldes protestantes. A invasão fracassou: a armada espanhola foi superada em manobra por navios ingleses menores e mais rápidos, e a maior parte do que sobrou naufragou numa tempestade ao tentar voltar contornando a Escócia e a Irlanda pelo norte.1

Sacro Império, 1618–1648. A Guerra dos Trinta Anos pôs estados católicos e protestantes em campo. Enquanto católicos, luteranos e calvinistas alemães se combatiam, outros países entraram na briga: a Suécia, luterana, apoiou os príncipes protestantes, assim como as Províncias Unidas; a Dinamarca entrou na esperança de ganhar território alemão que compensasse perdas recentes para a Suécia.1

E há o dado que desmonta a leitura puramente religiosa do conflito: a França, católica, entrou do lado dos protestantes — e a fonte registra o motivo sem rodeios, tornar-se a potência preeminente da Europa.1

O saldo foi assimétrico e cruel. Apesar do caráter multinacional dos combatentes, as batalhas foram travadas quase inteiramente dentro das terras alemãs, cuja população sofreu enquanto exércitos de mercenários destruíam fazendas e aldeias. Ao fim, os protestantes alemães venceram, e a França tornou-se o país dominante da Europa ocidental.1

A Paz de Vestfália, de 1648, encerrou a guerra e estabeleceu a independência de cada uma das entidades que compunham o Sacro Império Romano-Germânico — perto de mil delas.1

Pontos sensíveis deste artigo
  • Indulgência não era “perdão à venda” — era a redução do tempo de purgatório, fundada na ideia de um tesouro de méritos de Jesus e dos santos que o papa podia alocar. Originalmente se obtinha por feitos de mérito, como ir às cruzadas. O escândalo de 1517 foi a venda, não a existência do instrumento.
  • Lutero não queria romper — as teses tinham forma de disputa acadêmica e provavelmente visavam apenas acabar com a venda de indulgências. A excomunhão veio quatro anos depois, em 1521, após ele se recusar a retratar-se.
  • A fé popular não estava em crise — os camponeses europeus permaneciam devotamente apegados à sua religião. O que se deteriorou foi a confiança na instituição — cargos comprados, bispos com mais de um bispado, clero vivendo em luxo, filhos ilegítimos empregados na Igreja.
  • Houve vários protestantismos — e cada um se definiu contra o anterior: Zwínglio foi além de Lutero ao negar a transubstanciação, Grebel achou Zwínglio lento e fundou os Irmãos Suíços, Calvino acrescentou a predestinação. Sem autoridade única, não havia quem dissesse onde parar.
  • A Inglaterra mudou de chefe, não de fé — o Ato de Supremacia de 1534 pôs o monarca como cabeça da igreja, mas sob Henrique VIII a doutrina e o ritual permaneceram largamente católicos. A protestantização veio depois, com Eduardo VI, e o acordo final de Elizabeth I evitou de propósito afirmação clara sobre a transubstanciação.
  • Trento tem duas metades — reafirmou integralmente a doutrina contestada — fé e obras, escritura e tradição, transubstanciação — e ao mesmo tempo proibiu a venda de indulgências, vedou o nepotismo, limitou cada bispo a um bispado e mandou formar melhor o clero.
Onde este artigo para
Aviso de fonte. Este é o primeiro artigo do site apoiado num livro-texto em inglês — o OpenStax World History. Uma consequência técnica precisa ficar registrada: o medidor de originalidade do projeto compara sequências de palavras idênticas e, contra fonte estrangeira, não afere nada. O cuidado, aqui, foi de arquitetura: a ordem de exposição deste artigo é deliberadamente diferente da do original.

Ficam de fora, por pertencerem a assuntos vizinhos, o humanismo renascentista em si e o absolutismo que emerge das guerras de religião. E a fonte não desce a detalhe sobre a Guerra dos Camponeses alemães, sobre Thomas Müntzer, sobre a Inquisição romana nem sobre o Índice de livros proibidos — este artigo, portanto, não os trata.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Cento e trinta e um anos, não um episódio

1517Lutero contesta avenda deindulgências1521Lutero éexcomungado1534Ato de Supremaciacria a Igreja daInglaterra1545Abre o Concíliode Trento1555Paz de Augsburgo:o príncipeescolhe a fé1618–1648Guerra dos TrintaAnos e Paz deVestfáliaRepare no intervalo entre a primeira e a última data: cento e trinta e um anos. A Reforma não é um episódio de 1517 — é um processo que atravessa cinco gerações.
Os três marcos destacados delimitam o arco: a contestação inicial, a resposta institucional de Roma e o tratado que encerrou a fase armada do conflito.

Os quatro pontos em que a ruptura se deu

O que Roma ensinavaSalvação por fé somada a boas obrasComprar indulgência conta como boa obraEscritura e tradição como autoridadeO papa administra o tesouro de méritosCelibato obrigatório para o cleroVida religiosa é a maior das vocaçõesO que Lutero passou a ensinarSalvação somente pela féNada que o humano faça garante salvaçãoSomente a Escritura como autoridadeO papa não tem poder sobre o purgatórioClero pode casar — ele mesmo casouSer padre não vale mais que outro ofício
Compare linha a linha. Repare que a segunda linha da esquerda é a que liga doutrina a dinheiro: se comprar indulgência conta como boa obra, então a teologia da salvação tem receita associada.

Por que 1517 não morreu em 1517

POR QUE 1517 NÃO MORREU EM 1517O QUE SAIU DISSOIgreja desacreditadacargo comprado, bispo com doisbispados, papa comandando exércitoVocabulário prontoo humanismo cristão já pediapiedade interior, não ritualPríncipe interessadorecusar o papa é ganharcontrole sobre a própria terraA ruptura se espalhaimpressa em milharesde exemplaresMuitos protestantismosluteranos, reformados,anabatistas, anglicanosContrarreformaTrento reafirma a doutrinae corrige a disciplinaUm século de guerrade São Bartolomeu aVestfália, 1572–1648Mapa por confissãoa fé do súdito passa adepender do governante
A terceira caixa da esquerda é a que a versão escolar costuma omitir. Sem príncipes interessados em recusar a autoridade papal, a contestação de um professor de província não teria alcance nenhum.

Mapa mental do assunto

Reformae ContrarreformaO estopimVenda de indulgências em WittenbergTetzel prega; Alberto de Mainz autorizaNoventa e Cinco Teses, 1517As rupturas seguintesZwínglio acha Lutero tímidoGrebel acha Zwínglio lentoCalvino radicaliza: predestinaçãoA resposta de RomaTrento reafirma fé e obrasProíbe a venda, mantém a indulgênciaJesuítas e ursulinas no ensinoTrês erros a evitarAchar que houve um protestantismo sóLer a Inglaterra como caso doutrinárioSupor que a guerra era só religiosa
O ramo destacado reúne os três atalhos deste conteúdo. O primeiro é o mais caro: tratar “o protestantismo” como bloco único, quando cada confissão nasceu contestando a anterior.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Situação em 1500Europa ocidental e central uniformemente católica, salvo pequenas comunidades judaicas nos Países Baixos e nas terras alemãs
O que era a indulgênciaredução ou cancelamento do tempo de purgatório, alocada pelo papa a partir de um tesouro de méritos
Estopim1517: Johann Tetzel vende indulgências em Wittenberg, autorizado por Alberto de Mainz
Tese central de Luterojustificação pela fé — só Deus perdoa, e nada que o humano faça garante salvação
Ressalva da fontea fixação das teses na porta é atribuída a “muitos historiadores”, não afirmada como fato
Excomunhão1521, após convocação a Augsburgo em 1518 e recusa em retratar-se diante de Leão X
Causas estruturaiscargos comprados, bispados acumulados, luxo e filhos ilegítimos do clero, papas comandando exércitos
O que NÃO estava em crisea devoção popular — os camponeses seguiam apegados à fé; o que caiu foi a confiança na instituição
Papel do humanismo cristãode Erasmo: piedade interior acima de peregrinação e jejum, para reformar a Igreja de dentro
Fator técnicoa imprensa de tipos móveis: milhares de cópias circulando pela Europa
Zwínglio (Zurique)nega a transubstanciação — além do que Lutero fizera; morre em 1531 em conflito interno suíço
Anabatistasbatismo só de adultos; Irmãos Suíços (Grebel, 1524), hutteritas, menonitas, amish; pacifistas e perseguidos
Calvino (Genebra)predestinação; disciplina moral fiscalizada pelo Consistório; espalha-se como Reformada Holandesa, Presbiteriana e huguenote
InglaterraAto de Supremacia de 1534; igreja largamente católica sob Henrique VIII; protestantização com Eduardo VI
Acordo elisabetanoAtos de 1558 e 1559; retira condenação ao papa e evita afirmação clara sobre transubstanciação
Concílio de Trentoaberto em 1545; reafirma fé e obras, escritura e tradição, transubstanciação
Reformas de Trentoproíbe a venda de indulgências, veda nepotismo, limita cada bispo a um bispado, melhora a formação do clero
Novas ordensjesuítas, de Inácio de Loyola, sem ramo feminino; a educação de moças cabe às ursulinas
Paz de Augsburgo1555: o príncipe escolhe a religião das suas terras e o súdito é obrigado a segui-la
Guerras de religiãoSão Bartolomeu (1572), Edito de Nantes (1598), revolta dos Países Baixos (1568–1609), Armada (1588)
Guerra dos Trinta Anos1618–1648; a França católica luta ao lado dos protestantes para se tornar potência preeminente
Paz de Vestfália1648: independência de cada uma das entidades do Sacro Império — perto de mil
Cada linha responde a uma pergunta que a questão costuma fazer sobre a Reforma, sobre as confissões que dela saíram e sobre a resposta católica.

Fontes

  1. OPENSTAX. World History, Volume 2: from 1400. Houston: Rice University. Seção 5.1, “The Protestant Reformation”. Fonte principal deste artigo — livro-texto universitário em inglês.
  2. LUTERO, Martinho. Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum (Noventa e Cinco Teses). 1517. Fonte primária.
  3. MacCULLOCH, Diarmaid. A Reforma: um novo mundo, 1490–1700. São Paulo: Companhia das Letras.
  4. DELUMEAU, Jean. Nascimento e Afirmação da Reforma. São Paulo: Pioneira.
  5. CONCÍLIO DE TRENTO. Decretos e cânones. 1545–1563. Fonte primária.