História Verso
História Geral · Idade Moderna

O tráfico atlântico de escravizados

Antes de comprar uma única pessoa, um capitão europeu na Costa dos Escravos pagava aos reis africanos o equivalente a 37 ou 38 cativos só pelo direito de negociar. Esse pedágio diz o que quase nenhum resumo diz: o mercado tinha dois lados — e mesmo assim a conta final foi de 12,5 milhões de pessoas embarcadas.

1501-186716 min de leitura4 fontes
Mansa Musa no Atlas Catalão, 1375 · attributed to Abraham Cresques · 1375 AD
Mansa Musa, rei do Mali, no Atlas Catalão de 1375: sentado no trono, com uma moeda de ouro na mão. Mais de um século antes do tráfico atlântico, a Europa já mapeava a África ocidental como território de reinos ricos e nomeados.
Mansa Musa no Atlas Catalão, 1375 · 1375 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Na chamada Costa dos Escravos, um capitão europeu precisava pagar, antes de comprar a primeira pessoa, o equivalente a 37 ou 38 cativos — cerca de 375 libras esterlinas por navio — só pelo direito de negociar ali.1 Quem cobrava esse pedágio? E o que isso muda no que costumamos contar sobre o tráfico?

O mercado tinha dois lados

Comece pela composição daquele pedágio, porque ela é uma radiografia do poder local. Havia taxas cobradas pelos reis da região. Havia pagamento a oficiais africanos e aos intérpretes capazes de verter os idiomas locais para o português, o inglês, o francês ou o holandês — conforme a bandeira do navio. E havia, ao fim, uma taxa de exportação sobre a carga geral.1

Faltava ainda uma prerrogativa, e é a mais reveladora: reis e nobres africanos tinham o direito de vender seus próprios cativos primeiro, e pelo melhor preço.1 Quem chega de fora não escolhe a ordem da fila.

A estratégia comercial do lado africano é descrita pela fonte com precisão. Os chefes competiam entre si pelo negócio com os europeus — e tomavam um cuidado deliberado: não se tornar dependentes de um único comprador. Ao contrário, estimulavam a concorrência entre os traficantes, porque assim quem definia preço e condição eram eles.1

Dois episódios mostram até onde isso ia. O capitão português José Pinheiroinsistiu, em 1698, em expulsar a canhonaço os barcos holandeses e ingleses que vinham comprar na região de Bissau. Quem governava ali era Incinhate, rei do povo papel — e a resposta foi mandar prendê-lo e açoitá-lo. Pinheiro não sobreviveu à surra.1

Em 1743, o rei Tegbesso, do Daomé, foi além: conquistou e destruiu a feitoria de Jaquim, para que ela não fizesse concorrência ao comércio na fortaleza de Ajudá — a São João Batista —, onde as negociações estavam sob controle dele e de seus aliados portugueses.1

Do outro lado, os europeus faziam o movimento espelhado: exploravam rivalidades regionais e abriam feitorias novas onde conseguissem condição melhor. O que existia, portanto, era uma queda de braço — e o historiador Herbert S. Klein, citado pela fonte, formulou a conclusão de modo direto: os africanos não eram, ali, “atores passivos” nem “pessoas inocentes” — e negociavam com os europeus em pé de igualdade.3

Um rei africano pede uma fortaleza portuguesa
O caso de 1775 inverte tudo o que a intuição sugere. O rei de Ardra, em Porto Novo — hoje República do Benim —, Dé Ayikpé, escreveu ao governador da Bahia, Manuel da Cunha e Meneses, e mandou a carta pelas mãos de um capitão negreiro. O pedido era que os portugueses erguessem uma fortaleza em seus domínios, para que ele e seus vassalos tivessem o gosto de ver ali a bandeira portuguesa hasteada, nos mesmos moldes de Ajudá.1 Portugal recusou — e não por escrúpulo: para não irritar o rei do Daomé, seu aliado. Quem tinha poder de veto sobre a diplomacia portuguesa na região era um soberano africano.

A África que os mapas europeus não sabiam desenhar

Antes de entrar nos números, é preciso desfazer a imagem de um continente sem história. E o melhor antídoto é anterior às caravelas.

Mansa Mohamed, rei do Mali, olhou o Atlântico uns dois séculos antes de Cabral e de Vasco da Gama e teve a intuição de que haveria outra margem. Mandou duzentas embarcações ao alto-mar; voltou uma só, com a notícia de que as demais tinham perecido. Inconformado, armou uma segunda frota de 2 mil canoas — e embarcou nela. Nunca mais se teve notícia de nenhum dos viajantes.1

Quem contou a história, anos depois no Cairo, foi o sucessor dele, mansa Musa, e quem a registrou foi o cronista árabe Al Umari.1

O Mali era, então, o maior produtor mundial de ouro — posição que só perderia com a descoberta de metais e pedras em Minas Gerais, no século XVIII.1 E o próprio mansa Musa protagonizou o episódio que fixou essa fama na Europa e no mundo islâmico.

A fonte extrai desses relatos a conclusão que interessa: a África anterior ao tráfico era complexa, diversa, culturalmente sofisticada e, em algumas regiões, rica.1 A visão contrária, que persiste, reflete o preconceito e a ignorância dos europeus da época, que viam os africanos como bárbaros, selvagens e infiéis.1

O desconhecimento ficou registrado na cartografia. Nomes genéricos como Guiné, Negrolândia e Etiópias, no plural, serviam para marcar o que não se conhecia. Em 1730, um mapa feito sob orientação do geógrafo real da França, Guillaume Delisle, exibia uma região simplesmente inventada — a Nigrita —, que se estenderia do vizinho do Egito às nascentes do Níger. Havia cartógrafos europeus que julgavam o Níger um braço do Nilo.1

O Saara ocidental na cartografia de 1375 · attributed to Abraham Cresques · 1375
Porção inferior da mesma folha do Atlas Catalão de 1375, mostrando o Saara ocidental. A cartografia europeia nomeava com precisão os reinos com que negociava — e inventava o resto.
O Saara ocidental na cartografia de 1375 · 1375 · Wikimedia Commons · Public domain

Por que os números demoraram tanto a existir

Perguntas básicas — quantos embarcaram, de onde saíram, quantos morreram no caminho, quantos navios — ficaram séculos sem resposta confiável, e por um motivo estrutural: boa parte da cadeia era informal, clandestina ou ilegal. Para escapar de tributo, muitos navios cruzaram o Atlântico sem registro oficial nenhum.1

O resultado foi um vaivém de estimativas que hoje impressiona pelo tamanho do erro. Em 1880, o português Joaquim Pedro de Oliveira Martins calculava 20 milhões de desembarcados na América. O alemão R. R. Kuczynski chegou, em 1936, a 14.650.000. E o norte-americano Edward E. Dunbar já propusera, em 1861, o número de aparência falsamente exata de 13.887.500.1

Sobre o Brasil, a dispersão foi ainda maior. Houve quem falasse, no século XIX, em 50 milhões. Depois vieram Pandiá Calógeras com 15 milhões, Pedro Calmon com 8, Renato Mendonça com 6,8, Caio Prado Júnior com 5, Taunay e Sérgio Buarque de Holanda com cerca de 3,6 e Roberto Simonsen com 3,3.1

LembrePor que estimativas tão diferentes entre si?

Porque, até poucas décadas atrás, elas se baseavam mais em suposição do que em documento. E a razão de fundo é que o próprio negócio trabalhava contra o registro: navio que declarava carga pagava imposto, então muitos simplesmente não declaravam. O que mudou o quadro não foi uma tese nova — foi pesquisa de arquivo em escala internacional, somada a banco de dados digital.

A virada tem nomes e datas. O pioneiro foi Philip Curtin, cujo The Atlantic Slave Trade: a Census, de 1969, foi o primeiro levantamento sistemático do assunto — cheio de imprecisões, reconhece a fonte, mas abriu a trilha.4

Em 1999, uma equipe internacional liderada por David Eltis e David Richardson publicou dados sobre 27.233 viagens. O trabalho tinha uma falha grave, e ela era justamente onde mais importava: subestimava o tráfico para o Brasil e a América Latina, os destinos de maior volume.1

A correção veio de um mutirão em arquivos portugueses, espanhóis, brasileiros e de países vizinhos, entre 2001 e 2005. O banco saltou para cerca de 36 mil viagens — quase 50% a mais do que se tinha em 1999. Dessas, 14.910 rumaram a portos brasileiros.1

Hoje o material está aberto em slavevoyages.org, cobrindo cerca de 80% de todas as viagens de três séculos e meio, com versão em português. Entre os colaboradores há uma equipe brasileira, com Mariana Candido, Daniel B. Domingues da Silva, Roquinaldo Ferreira e Manolo Garcia Florentino.2

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Sobre a participação das sociedades africanas no tráfico atlântico, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. O comércio se fazia com soberanos e mercadores locais, que cobravam taxas, vendiam seus próprios cativos em primeira mão e concediam ou negavam autorização para negociar.

  2. Incorreta. Faziam o contrário: evitavam deliberadamente a dependência de um só comprador e estimulavam a concorrência entre traficantes, para manter em suas mãos a definição de preço e condições.

  3. Incorreta. Interferiam de forma direta e às vezes violenta. Em 1698, o rei Incinhate mandou açoitar um capitão português que tentara expulsar a canhonaço navios holandeses e ingleses — e o capitão morreu em consequência.

  4. Correta. É a descrição da fonte, e Herbert S. Klein resume que os africanos não eram atores passivos nem inocentes naquele mercado, negociando em pé de igualdade.

  5. Incorreta. Em 1775, o rei de Ardra, Dé Ayikpé, pediu por carta ao governador da Bahia que os portugueses erguessem uma fortaleza em suas terras. Portugal recusou para não desagradar o rei do Daomé.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

O que se sabe hoje

Os números atuais são estes, e convém lê-los devagar. 12.521.337 seres humanos foram embarcados para a travessia entre 1500 e 1867. Chegaram vivos à América 10.702.657. A diferença — 1.818.680 pessoas — morreu no caminho. O transporte consumiu cerca de 36 mil viagens de navios negreiros.1

Vale ficar um instante no número do meio. 1,8 milhão de mortes é a contabilidade apenas da travessia — não inclui quem morreu na captura, na marcha até a costa, na espera nos entrepostos nem nos primeiros meses após o desembarque.

A origem desse contingente concentra-se em duas regiões, e juntas elas respondem por quase 80% de todo o comércio atlântico. Uma é a África Central, que vai do Gabão ao sul de Angola. A outra é a África Ocidental, também chamada Costa da Mina, entre Gana e a Nigéria.1

No destino, a concentração é igualmente forte. O Brasil sozinho recebeu 4,9 milhões de pessoas — 47% de tudo que desembarcou no continente americano entre 1500 e 1850. Para dar escala: é dez vezes o que foi levado às colônias inglesas da América do Norte, e só encontra comparação no total recebido pelo Caribe.1

E há uma comparação que reorganiza a compreensão do povoamento. Até meados do século XIX, entraram no Brasil cerca de 750 mil imigrantes portugueses. Posto ao lado dos 4,9 milhões, o resultado é este: de cada cem pessoas que chegaram ao Brasil no período, oitenta e seis eram africanas escravizadas e apenas catorze tinham origem europeia.1

O castelo de Elmina, em Gana · Dave Ley · Autumn 2003
O castelo de Elmina, em Gana, erguido pelos portugueses no fim do século XV e depois um dos maiores entrepostos da Costa da Mina. Fotografia de 2003, muito posterior aos fatos.
O castelo de Elmina, em Gana · 2003 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

As rotas seguiam os rios

Um padrão geográfico explica onde os grandes portos negreiros se instalaram: quase todos ficavam nas vizinhanças de grandes bacias hidrográficas, porque os rios facilitavam o transporte e o escoamento dos cativos desde o interior.1

As bacias que a fonte nomeia desenham o mapa do tráfico. Na Senegâmbia, os rios Senegal e Gâmbia. Na África Ocidental e Central, o Volta, o Níger, o Congo e o Cuanza. Em Moçambique, o Limpopo e o Zambeze.1

Repare no que isso significa: o tráfico não raspou apenas o litoral. Ele usou a hidrografia africana como sistema de drenagem humana, alcançando populações a centenas de quilômetros do mar.

Muralhas do castelo de São Jorge da Mina · Stig Nygaard from Copenhagen, Denmark · 2005-02-06 15:10:00
Muralhas do castelo de São Jorge da Mina, em fotografia de 2005. Fortalezas como esta eram praça de comércio e ponto de disputa ao mesmo tempo — entre europeus, e entre estes e os soberanos africanos da região.
Muralhas do castelo de São Jorge da Mina · 2005 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Como começou — e não foi na África

As primeiras travessias transatlânticas datam, provavelmente, de 1501 — um ano depois da chegada portuguesa ao Brasil e nove depois de Colombo.1

E aqui está um detalhe que quase todo resumo erra: nessa fase inicial os navios não partiam da África. Saíam de Sevilha, então detentora do monopólio do novo negócio, com destino à Ilha de Hispaniola — onde hoje ficam Haiti e República Dominicana.1

O primeiro registro é modesto e sinistro. Em 1505, dezessete pessoas foram enviadas à Hispaniola, sob os auspícios da Coroa espanhola, para as minas de cobre. Ainda naquele ano, outras cem chegaram ao mesmo destino, agora para as minas de ouro.1

A escala mudou em 1518. Carlos I, futuro imperador Carlos V, assinou decreto autorizando o conde de Bresa, Lorenzo de Gouvenod, a levar 4 mil escravizados ao longo de sete anos — direito que ele revendeu a quatro italianos. Ainda em 1518, outra licença espanhola saiu em nome de dom Jorge de Portugal — filho bastardo de dom João II — para quatrocentos cativos com destino à Hispaniola. Todos partiram da Península Ibérica, e não da África.1

A forma que consolidaria o comércio veio depois: os assientos — contratos que a Coroa espanhola leiloava entre negociantes portugueses e italianos. Os destinos eram Cartagena, na atual Colômbia, e Vera Cruz, no México, que passaram a funcionar como entrepostos de distribuição para todo o nascente império espanhol.1

O que o contrabando escondeu

Duas janelas mostram o tamanho do que ficou fora dos livros de registro.

A primeira é a União Ibérica. Entre 1580 e 1640, negreiros que saíam de Angola e de outros portos sob controle português declaravam o Brasil como destino, porque ali o imposto era mais baixo — e depois rumavam para onde o cativo valia mais: o Caribe, ou Buenos Aires, onde havia contrabando de prata espanhola.1

A segunda é maior e mais grave. Na primeira metade do século XIX, os registros pioraram justamente porque a Marinha britânica passou a patrulhar o Atlântico caçando negreiros ilegais. E o número que sai daí é o mais surpreendente do assunto inteiro: cerca de 3 milhões de africanos — um quarto de todo o tráfico — foram embarcados depois de 1807, ano em que o Parlamento britânico proibiu o comércio em seus domínios. Mais da metade veio para o Brasil, e quase nada disso foi contabilizado oficialmente.1

LembreA proibição britânica de 1807 encerrou o tráfico?

Longe disso. Um quarto de todo o tráfico atlântico — cerca de 3 milhões de pessoas — ocorreu depois daquela data, e mais da metade teve o Brasil como destino. A proibição não interrompeu o comércio: empurrou-o para a clandestinidade, o que é uma das razões de os números terem demorado tanto a ser reconstituídos.

O interior das muralhas, em Elmina · Stig Nygaard from Copenhagen, Denmark · Taken on 6 February 2005, 15:23:00
O interior das muralhas de Elmina, em fotografia de 2005. O prédio segue de pé; o que ele movimentou está contado em números que só a pesquisa das últimas décadas conseguiu reconstituir.
O interior das muralhas, em Elmina · 2005 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Agência não é responsabilidade igual

Fica a questão mais delicada do assunto, e ela precisa das duas metades para não virar propaganda em nenhuma direção.

A primeira metade já foi mostrada: houve participação africana, e ela foi ativa. Reis cobravam pedágio, taxavam carga, vendiam em primeira mão, escolhiam parceiros, puniam capitães e destruíam entrepostos rivais. Tratar isso como detalhe é apagar a política africana da história — e transformar sujeitos em cenário.

A segunda metade é igualmente firme. Agência não significa responsabilidade dividida em partes iguais, por uma razão de escala: nenhum reino africano fixou o tamanho da demanda. Quem o fixou foi a grande lavoura americana, e é dela que vem o número de 12,5 milhões. Um mercado em que um lado define quanto se compra não é um mercado entre iguais, por mais que o outro lado negocie bem o preço.

A prova disso está na própria geografia da destruição. Duas regiões africanas forneceram quase 80% de tudo, e os reinos que ali existiam subiram e caíram em função do negócio — alguns se formaram para fornecer, outros ruíram por não conseguir conter o que haviam ajudado a montar. Nenhuma região da Europa foi reorganizada assim.

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre o volume e a cronologia do tráfico atlântico, é correto afirmar que:
  1. Correta. São os números consolidados pela pesquisa recente: 12.521.337 embarcados, 10.702.657 sobreviventes da travessia e 1.818.680 mortos, em cerca de 36 mil viagens.

  2. Incorreta. Variaram enormemente: Oliveira Martins calculou 20 milhões em 1880, Kuczynski 14,65 milhões em 1936, e para o Brasil houve quem falasse em 50 milhões e quem falasse em 3,3 milhões.

  3. Incorreta. Nas primeiras décadas os navios saíam de Sevilha, que detinha o monopólio, rumo à Hispaniola. Os embarques autorizados em 1518 também partiram da Península Ibérica.

  4. Incorreta. O Brasil recebeu 4,9 milhões de pessoas, 47% do total americano — dez vezes o destinado às colônias inglesas do norte, e comparável apenas ao Caribe.

  5. Incorreta. Duas regiões responderam por quase 80% do total: a África Ocidental, ou Costa da Mina, entre Gana e a Nigéria, e a África Central, do Gabão ao sul de Angola.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Pontos sensíveis deste artigo
  • Africanos não foram atores passivos — reis e mercadores cobravam pedágio antes de qualquer compra, taxavam a carga, vendiam seus cativos em primeira mão, estimulavam a concorrência entre compradores e chegavam a destruir entrepostos rivais. Herbert S. Klein registra que negociavam em pé de igualdade.
  • Mas agência não divide a responsabilidade em partes iguais — nenhum reino africano determinou o tamanho da demanda. Ela veio da grande lavoura americana, e é dela que resulta a cifra de 12,5 milhões. Um mercado em que só um lado define o volume não é um mercado entre iguais.
  • 1807 não encerrou o tráfico — cerca de 3 milhões de pessoas, um quarto de todo o comércio atlântico, embarcaram depois da proibição britânica — mais da metade delas com destino ao Brasil, quase sem registro oficial.
  • As primeiras viagens saíram da Europa — nas primeiras décadas os navios partiam de Sevilha, detentora do monopólio, com destino à Hispaniola. Em 1505 chegaram ali dezessete pessoas para as minas de cobre e, no mesmo ano, outras cem para as de ouro.
  • Os números são recentes, não antigos — até poucas décadas atrás as cifras eram suposição. A base atual vem de Philip Curtin (1969), do trabalho de Eltis e Richardson (1999) e do mutirão de arquivos de 2001-2005, que corrigiu a subestimação do tráfico para o Brasil e a América Latina.
  • 1,8 milhão é só a travessia — a diferença entre embarcados e desembarcados mede apenas as mortes no mar. Não inclui a captura, a marcha até a costa, a espera nos entrepostos nem os primeiros meses após o desembarque.
  • A África anterior ao tráfico não era vazio histórico — o Mali foi o maior produtor mundial de ouro até as descobertas em Minas Gerais, no século XVIII. Nomes como Guiné, Negrolândia e Etiópias, e regiões inventadas como a Nigrita de 1730, medem o desconhecimento europeu, não a realidade africana.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De 1375 ao fim do tráfico

1375O AtlasCatalãomapeia oMali comoreino ricoc. 1501Prováveisprimeirastravessias,saindo deSevilha1505Os primeiroscativoschegam àHispaniola,para asminas1518Carlos Iautoriza 4milembarques emsete anosséc. XVI-XVIIAssientoslevamcativos aCartagena eVera Cruz1580-1640ContrabandodeclaraBrasil edesvia aoCaribe1807O Parlamentobritânicoproíbe otráficoaté 18673 milhõesaindaembarcamdepois daproibiçãoRepare no último marco: um quarto de todo o tráfico ocorre DEPOIS de a Inglaterra o proibir.
O primeiro marco é anterior ao tráfico e está aqui de propósito: em 1375 a Europa já mapeava o Mali como reino rico. O último mostra que a proibição de 1807 não encerrou nada.

Quanto se achou que tinha sido, e quanto foi

Oliveira Martins, 188020 milhõesKuczynski, 193614,65 milhõesDunbar, 186113,89 milhõesPesquisa atual12,52 milhõesmilhões de africanos embarcados, segundo cada estimativa
As três primeiras barras são estimativas antigas, feitas sem base documental. A última vem de pesquisa de arquivo em escala internacional — e é menor que todas, o que raramente se espera.

Os dois lados do mercado

O que o lado africano controlavaCobrar pedágio antes de qualquer compraTaxar a carga geral do navioVender os próprios cativos em primeira mãoEscolher a quem conceder feitoriaPunir capitão que atrapalhasse a concorrênciaDestruir entreposto rival pela forçaO que o lado europeu controlavaA demanda, que vinha da lavoura americanaOs navios e a travessiaExplorar rivalidades entre reinos vizinhosAbrir feitoria onde o preço fosse melhorO crédito e as mercadorias de trocaE, no fim, a escala — que nenhum reino fixou
Leia as duas colunas juntas. A da esquerda desfaz a ideia de África passiva; a última linha da direita explica por que, ainda assim, a responsabilidade não se divide igualmente.

O que montou o sistema, o que ele produziu

O QUE MONTOU O SISTEMAO QUE O SISTEMA PRODUZIUDemanda americanaa grande lavoura pede braçosem quantidade sem tetoEstados africanos fornecedorescom guerra, tributo e mercadojá organizados antes do contatoDomínio da travessianavio, crédito e rota atlânticaficam com os europeusTráfico atlântico36 mil viagens entre1500 e 186712,5 milhões embarcadose 10,7 milhões chegam vivosao outro lado1,8 milhão de mortessó na travessia,sem contar captura e marchaDuas regiões sangradasÁfrica Ocidental e Centralrespondem por quase 80%África reorganizadareinos sobem e caemconforme o negócio
Repare que as três causas da esquerda são necessárias juntas: sem demanda americana não há escala, sem Estados fornecedores não há oferta contínua, e sem domínio da travessia não há Atlântico.

Mapa mental do assunto

Tráfico atlântico1501-1867Os números12.521.337 embarcados10.702.657 chegaram vivos1.818.680 morreram na travessiaCerca de 36 mil viagensA geografiaÁfrica Ocidental e Central: quase 80%Portos junto a grandes bacias fluviaisBrasil recebe 47% do total americanoDez vezes o das colônias inglesas do norteO mercado africanoPedágio de 37 a 38 cativos por navioTaxa de exportação sobre a cargaReis vendem em primeira mãoConcorrência entre compradores é estimuladaErros que a prova cobraAfricanos não foram atores passivosAgência não é responsabilidade igualO tráfico não acaba com a proibição de 1807As primeiras viagens saíram da Espanha
O ramo destacado reúne os erros mais caros. Os dois primeiros precisam ser sustentados ao mesmo tempo — é isso que separa uma resposta madura de um slogan.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Períodode 1500 a 1867, com as primeiras travessias por volta de 1501
Embarcados12.521.337 pessoas
Desembarcados vivos10.702.657
Mortes na travessia1.818.680 — só no mar, sem contar captura e marcha
Viagenscerca de 36 mil; 14.910 delas rumo a portos brasileiros
Regiões de origemÁfrica Central e África Ocidental respondem por quase 80%
África Centraldo Gabão ao sul de Angola
África Ocidentala Costa da Mina, entre Gana e a Nigéria
Destino brasileiro4,9 milhões, ou 47% de todo o desembarque americano
Comparaçãodez vezes o das colônias inglesas do norte; comparável só ao Caribe
Imigração portuguesacerca de 750 mil até meados do século XIX
Proporção de chegadade cada cem, 86 africanos escravizados e 14 europeus
Geografia dos portosjunto a grandes bacias — Senegal, Gâmbia, Volta, Níger, Congo, Cuanza, Limpopo, Zambeze
Primeiras rotassaíam de Sevilha, detentora do monopólio, para a Hispaniola
1505dezessete pessoas para as minas de cobre; outras cem, no mesmo ano, para as de ouro
1518Carlos I autoriza o conde de Bresa a transportar 4 mil cativos em sete anos
Assientoscontratos leiloados pela Coroa espanhola; entrepostos em Cartagena e Vera Cruz
Pedágio africanoequivalente a 37 ou 38 cativos por navio, antes de qualquer compra
O que ele cobriataxas dos reis, pagamento de oficiais e intérpretes e taxa de exportação sobre a carga
Prerrogativa dos reisvender os próprios cativos em primeira mão e pelo melhor preço
Estratégia africanaevitar comprador único e estimular a concorrência entre traficantes
1698o rei Incinhate manda açoitar o capitão José Pinheiro, que morre da surra
1743Tegbesso, do Daomé, destrói a feitoria de Jaquim para proteger o comércio em Ajudá
1775o rei de Ardra pede uma fortaleza portuguesa; Portugal recusa para não irritar o Daomé
Herbert S. Kleinos africanos não eram atores passivos nem inocentes, e negociavam em pé de igualdade
Contrabando ibéricoentre 1580 e 1640, negreiros declaravam o Brasil e desviavam ao Caribe ou a Buenos Aires
Depois de 1807cerca de 3 milhões ainda embarcam — um quarto do total, mais da metade ao Brasil
Estimativas antigas20 milhões (1880), 14,65 milhões (1936), 13,89 milhões (1861)
A viradaPhilip Curtin em 1969; Eltis e Richardson em 1999; mutirão de arquivos entre 2001 e 2005
Banco de dadosslavevoyages.org, cobrindo cerca de 80% das viagens, com equipe brasileira entre os colaboradores
O ponto de equilíbriohouve agência africana, mas a escala veio da demanda americana
Cada linha responde a uma pergunta que a prova costuma fazer sobre o comércio atlântico de escravizados.

Fontes

  1. GOMES, Laurentino. Escravidão, volumes 1 e 2. Rio de Janeiro: Globo Livros. Fonte principal deste artigo.
  2. The Transatlantic Slave Trade Database — slavevoyages.org. Banco de dados citado pela fonte principal; cobre cerca de 80% das viagens.
  3. KLEIN, Herbert S. O comércio atlântico de escravos. Citado pela fonte principal.
  4. CURTIN, Philip D. The Atlantic Slave Trade: a Census, 1969. Primeiro levantamento sistemático do tráfico.