História Verso
História do Brasil · Nova República

A Constituição de 1988

Por que a Carta de 1988 é tão longa e tão detalhada? A resposta de Fausto não é técnica jurídica, é desconfiança: num país onde a lei vale pouco, cada grupo tratou de gravar sua garantia no documento mais difícil de mudar.

198813 min de leitura4 fontes
Capa da Constituição de 1988 · Assembleia Nacional Constituinte 1987/1988 · 1988
Capa da Constituição promulgada em 5 de outubro de 1988. É nela que caem, para Fausto, os últimos resíduos formais do autoritarismo — treze anos e meio depois de a abertura ter começado.
Capa da Constituição de 1988 · 1988 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Por que a Constituição de 1988 é tão longa e desce a tantos detalhes? A explicação de Fausto não tem a ver com técnica jurídica. Tem a ver com desconfiança.

O raciocínio dele é curto e implacável. Num país cujas leis valem pouco, os vários grupos trataram de gravar o maior número possível de regras na Constituição, tomando isso como garantia adicional de cumprimento. A extensão da Carta, portanto, não é vício de redator: é retrato de um país que não confia na própria lei ordinária.1

Vinte meses sem ponto de partida

A Assembleia começou a se reunir em 1º de fevereiro de 1987, e o país depositou nela expectativas que iam muito além do que uma Constituição pode fazer: esperava-se que ela não apenas fixasse direitos e instituições, mas resolvesse problemas fora de seu alcance.1

Os trabalhos se arrastaram, e Fausto aponta uma causa concreta: não havia texto de partida sobre o qual discutir. Começou-se do zero, e cada tema teve de ser construído no debate.1

Daí a impressão de caos. Mas o autor faz questão de corrigi-la: apesar da aparência, o plenário discutiu de fato — ao lado de miudezas — o desenho do Estado e os direitos de quem vive nele. As votações se encerraram em 22 de setembro de 1988, e a promulgação veio em 5 de outubro.1

A instalação da Assembleia Nacional Constituinte · Senado Federal · 2017-10-04 20:02
A instalação da Assembleia Nacional Constituinte, com Ulysses Guimarães eleito para presidi-la. Dali em diante, vinte meses de trabalho sem um texto-base para orientar as discussões.
A instalação da Assembleia Nacional Constituinte · 2017 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Quem escreveu, e por quê ficou assim

A crítica mais comum ao texto é que ele entra em assuntos que tecnicamente não são de natureza constitucional. Fausto registra a crítica — e então explica o fenômeno em vez de apenas repeti-lo.1

O texto absorveu a pressão de quem tinha força para pressionar. Militares, sindicalistas e grandes empresas — cada um tratou de inscrever ali normas que servissem a seus interesses ou combinassem com suas concepções.1

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Segundo Fausto, a extensão e o detalhamento do texto constitucional de 1988 se explicam sobretudo por:
  1. Incorreta. A explicação de Fausto não é de competência técnica. Ele situa o problema na relação da sociedade brasileira com o cumprimento das leis.

  2. Incorreta. Os militares foram um dos grupos que pressionaram, mas não o único: grandes empresas e sindicalistas fizeram o mesmo. A causa apontada é geral, não específica de um ator.

  3. Incorreta. Não houve projeto inicial algum — a ausência de um texto-base é justamente uma das razões pelas quais os trabalhos se alongaram.

  4. Correta. É a explicação de Fausto, e ela transforma a extensão do texto de defeito de redação em sintoma político legível.

  5. Incorreta. O plebiscito é consequência do texto, não sua causa: a Carta remeteu a ele a definição entre presidencialismo e parlamentarismo, República e monarquia.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

O que a Carta avançou

Com todos os defeitos, avalia Fausto, ela refletiu o avanço ocorrido no país — sobretudo por alargar direitos sociais e políticos, tanto para o conjunto dos cidadãos quanto para as chamadas minorias.1

A inovação de fundo foi reconhecer que existem direitos e deveres coletivos, e não apenas individuais. Disso decorreu uma mudança prática: o mandado de segurança — a ação que protege direito líquido contra ato de autoridade — passou a estar ao alcance de partidos com representação no Congresso e de organizações sindicais.1

Os constituintes criaram ainda o habeas data, pelo qual o cidadão pode obter as informações que registros públicos guardam sobre ele. E o objetivo declarado desse instrumento vem diretamente da experiência anterior: impedir que registros secretos, sobretudo policiais, sejam usados contra as pessoas, como ocorreu no regime autoritário.1

Um direito criado contra um arquivo
O habeas data é o caso mais nítido de dispositivo escrito de olho no passado imediato. Ele não nasceu de teoria jurídica abstrata: nasceu de um país que acabara de sair de vinte e um anos em que fichas secretas decidiam a vida de pessoas. Guarde isso como exemplo de como se lê uma Constituição historicamente — cada artigo responde a alguma coisa que aconteceu.
Página do texto constitucional de 1988 · Assembleia Nacional Constituinte 1987/1988 · 1988
Uma página do texto de 1988. A extensão que se vê aqui é o assunto do artigo, não um detalhe de diagramação.
Página do texto constitucional de 1988 · 1988 · Wikimedia Commons · Public domain

Os indígenas, e a distância entre lei e prática

Um capítulo inteiro foi dedicado aos povos indígenas, reconhecendo “sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”.1

E aqui Fausto faz sua ressalva mais dura. O texto é bastante abrangente, e mesmo assim existe nesse ponto, mais do que em qualquer outro, um abismo entre o texto legal e a realidade. Ele não deixa a afirmação no abstrato: o massacre de indígenas e a invasão de suas terras não permitem dúvida sobre o tamanho desse abismo.1

O que a Carta agravou

Reconhecer avanços não impede o autor de listar problemas que o texto criou, e que o tempo se encarregaria de demonstrar.1

No sistema tributário, muitos recursos saíram da União e foram para estados e municípios — sem que estes assumissem obrigações de gasto em nível correspondente. Dinheiro transferido, encargo não.1

Na previdência, manter a aposentadoria por idade válida para qualquer profissão pesou tanto sobre o sistema que o tornou permanentemente deficitário, mesmo com melhora de funcionamento.1

No funcionalismo, a estabilidade de todo servidor concursado após dois anos de serviço concorreu para reduzir a flexibilidade da máquina do Estado. Somados, avalia Fausto, esses preceitos agravaram a crise do Estado brasileiro.1

LembreA Constituição de 1988 só trouxe avanços?

Não, e Fausto é explícito quanto a isso. Ao lado da extensão de direitos, ele aponta três problemas que o texto criou: recursos transferidos da União sem encargo correspondente, previdência tornada estruturalmente deficitária e rigidez na máquina do Estado. Resposta que só lista avanços está incompleta.

Uma Carta que nasceu provisória

O detalhe mais revelador do texto é que ele já veio ao mundo com prazo para ser questionado. Fausto lê isso como reflexo do clima de instabilidade vivido pelo país: a Constituição já veio ao mundo destinada a não durar muito na forma em que fora escrita.1

Duas coisas que normalmente uma Constituição decide ficaram em aberto. Tanto o sistema presidencialista de governo quanto a própria forma republicana foram submetidos a plebiscito marcado para 7 de setembro de 1993: a população escolheria entre presidencialismo e parlamentarismo e entre República e monarquia. Ganharam, como se sabe, o presidencialismo e a República. O texto ainda marcava uma revisão, a ser feita cinco anos depois da promulgação.1

Encerramento das votações, 22 de setembro de 1988 · Senado Federal · 1988-09-22
Encerramento das votações, em 22 de setembro de 1988. Duas semanas depois viria a promulgação — e, com ela, o fim formal do ciclo aberto em 1964.
Encerramento das votações, 22 de setembro de 1988 · 1988 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre o conteúdo e os efeitos da Constituição de 1988, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. Ocorreu o oposto: tanto o presidencialismo quanto a forma republicana foram submetidos a plebiscito, marcado para 7 de setembro de 1993.

  2. Correta. É o balanço completo de Fausto: avanços reais na extensão de direitos, e problemas concretos no sistema tributário, na previdência e na flexibilidade do Estado.

  3. Incorreta. O movimento foi inverso: o sistema tributário retirou recursos da União e os transferiu a estados e municípios, sem obrigações de gasto correspondentes.

  4. Incorreta. Fausto reconhece a abrangência do texto e adverte que é justamente nesse campo que existe a maior distância entre a lei e a prática — o massacre de indígenas e a invasão de terras não deixam dúvida.

  5. Incorreta. A estabilidade foi mantida para todo servidor concursado após dois anos de serviço, e Fausto a aponta como um dos fatores que reduziram a flexibilidade do Estado.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

A transição avaliada

Fausto fecha o período com um balanço, e ele começa por uma afirmação categórica: é na Carta de 1988 que caem os últimos resíduos formais do autoritarismo. Entre a abertura que Geisel iniciara em 1974 e esse desfecho passaram-se mais de treze anos.1

Por que tanto tempo? Porque quem definiu a abertura lenta, gradual e segura foi o próprio governo. Mudar esse ritmo dependia de duas hipóteses: que a oposição reunisse força bastante para impor outro, ou que o desgaste do regime o levasse ao colapso — e nenhuma delas se realizou. O resultado foi o que ele chama de longa “transição transada”, cheia de limites e incertezas.1

Para medir o caso brasileiro, o autor recorre a uma comparação que na época se fazia bastante: a Espanha, que passou da ditadura de Franco à democracia. Há pontos em comum, mas as diferenças é que ensinam.1

No plano das personagens, faltou aqui alguém como o rei Juan Carlos — que, além de rei, fizera carreira no Exército e reunia prestígio suficiente para aproximar grupos distintos e conduzir o processo. E há uma diferença de desfecho ainda mais importante. Lá, os quadros do franquismo saíram de cena; aqui, ao contrário, figuras de destaque do regime seguiram na política e em postos de governo.1

A última diferença é de sociedade: a espanhola é bem mais articulada que a brasileira, com classes e grupos sociais de fisionomia mais bem definida.1

A promulgação, 5 de outubro de 1988 · Agência Senado from Brasilia, Brazil · 2024-01-09 17:46
A promulgação, em 5 de outubro de 1988. Entre o início da abertura, em 1974, e esta cerimônia, passaram-se treze anos e meio.
A promulgação, 5 de outubro de 1988 · 2024 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
Pontos sensíveis deste artigo
  • A extensão do texto tem explicação política — não é vício de redação nem inexperiência técnica. Num país cujas leis valem pouco, cada grupo tratou de fixar o máximo de regras no texto constitucional, como garantia adicional de cumprimento. É a chave do assunto.
  • Balanço tem dois lados — avanços na extensão de direitos sociais, políticos, coletivos e das minorias; e problemas concretos — recursos transferidos sem encargo, previdência estruturalmente deficitária e menor flexibilidade da máquina do Estado.
  • A Carta nasceu provisória — presidencialismo e forma republicana ficaram sujeitos a plebiscito marcado para 7 de setembro de 1993, e previu-se revisão cinco anos após a promulgação. Fausto lê isso como reflexo do clima de instabilidade do país.
  • Direito indígena: texto amplo, prática distante — o capítulo reconheceu organização social, costumes, línguas, crenças e direitos originários sobre as terras tradicionalmente ocupadas. Fausto adverte que é neste campo, mais que em qualquer outro, que a lei e a realidade se separam.
  • O habeas data responde ao regime anterior — foi criado para impedir que registros secretos, sobretudo policiais, fossem usados contra as pessoas — como ocorrera no regime autoritário. Ler o artigo sem esse contexto é perder o que ele significa.
  • Transição longa por decisão de quem saía — a estratégia “lenta, gradual e segura” partiu do próprio governo, e nem a oposição teve força para acelerá-la nem o regime colapsou. Daí a “transição transada” — e a permanência de figuras do regime na política, ao contrário do que houve na Espanha.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De 1987 a 1993, em cinco marcos

1 fev 1987A Constituinte começaa se reunir22 set 1988Encerram-se asvotações do texto5 out 1988Promulgação da novaConstituição7 set 1993Plebiscito escolhepresidencialismo eRepública1993Revisão prevista,cinco anos após apromulgaçãoVinte meses de trabalhos, e um texto que já nasceu com data marcada para ser questionado.
Repare nos dois últimos marcos: uma Constituição promulgada em 1988 já trazia, no próprio texto, encontro marcado com o eleitor em 1993.

Por que o texto ficou assim, e o que ele produziu

POR QUE O TEXTO FICOU ASSIMO QUE ELE PRODUZIUSem projeto de partidanão havia texto-base paraorganizar as discussõesPressão de todos os ladosempresas, militares esindicalistas no mesmo textoDesconfiança da lei comumnum país onde a lei vale pouco,grava-se na ConstituiçãoConstituição · 5 out 1988texto extenso, detalhadoe minuciosamente disputadoDireitos ampliadoscoletivos, minorias,habeas dataCrise fiscal agravadarecursos vão a estados emunicípios sem obrigaçãoPrevidência deficitáriaaposentadoria por idadepara qualquer profissãoNasce provisóriaplebiscito em 1993 erevisão em cinco anos
A terceira caixa da esquerda é a explicação de Fausto e a espinha deste artigo: a desconfiança na lei comum é que empurra tudo para dentro da Constituição.

O que a Carta avançou e o que ela agravou

O que ela avançouDireitos e deveres coletivos, além dos individuaisMandado de segurança para partidos e sindicatosHabeas data contra registro secretoCapítulo próprio de direitos indígenasExtensão de direitos sociais e políticosFim dos vestígios formais do autoritarismoO que ela agravouRecursos saem da União sem obrigação correspondenteAposentadoria por idade para qualquer profissãoPrevidência tornada sempre deficitáriaEstabilidade do servidor após dois anosMáquina do Estado menos flexívelContribui para a crise do Estado brasileiro
Uma resposta que só usa a coluna da esquerda está incompleta, e uma que só usa a da direita é injusta. O balanço de Fausto tem as duas.

Brasil e Espanha: duas transições

A transição espanholaJuan Carlos, rei com carreira no ExércitoPrestígio para aproximar grupos distintosQuadros franquistas marginalizadosSociedade mais articuladaClasses com fisionomia mais definidaRuptura mais nítida com o regime anteriorA transição brasileiraFaltou figura de prestígio equivalenteEstratégia partiu do próprio governoNomes do regime seguem na políticaPermanência em postos de governoSociedade menos articuladaUma longa “transição transada”
A comparação é do próprio Fausto. A linha decisiva é a terceira: onde os quadros do regime anterior foram marginalizados, a ruptura ficou mais nítida.

Mapa mental do assunto

Constituição de 19881987–1993Os trabalhosInstalada em 1º de fevereiro de 1987Sem projeto inicial de basePromulgada em 5 de outubro de 1988Por que é longaPressão de empresas e sindicatosNum país onde a lei vale poucoCada grupo grava sua garantiaO que criouDireitos coletivosHabeas dataDireitos originários sobre a terraO que a prova erraExtensão não é defeito de redaçãoA Carta gerou problemas tambémNasceu sujeita a plebiscito e revisão
O ramo destacado reúne os três enganos mais frequentes, e o primeiro deles é o que este artigo inteiro procura desfazer.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Instalação da Constituinte1º de fevereiro de 1987
Encerramento das votações22 de setembro de 1988
Promulgação5 de outubro de 1988
Por que os trabalhos foram longosfaltava um texto de partida sobre o qual discutir
Crítica frequente ao textoentra em assuntos que tecnicamente não são de natureza constitucional
Explicação de Faustonum país onde as leis valem pouco, cada grupo grava sua garantia na Constituição
Quem pressionougrandes empresas, militares e sindicalistas, entre outros grupos
Inovação de fundoreconhecimento de direitos e deveres coletivos, além dos individuais
Mandado de segurançaestendido a partidos com representação no Congresso e a organizações sindicais
Habeas dataacesso do cidadão a registros públicos sobre si, contra o uso de fichas secretas
Direitos indígenasorganização social, costumes, línguas, crenças e direitos originários sobre as terras ocupadas
Ressalva sobre esses direitosé o campo de maior distância entre lei e prática, segundo Fausto
Problema tributáriorecursos saem da União para estados e municípios sem obrigação de gasto correspondente
Problema previdenciárioaposentadoria por idade para qualquer profissão torna o sistema sempre deficitário
Problema administrativoestabilidade do servidor concursado após dois anos reduz a flexibilidade do Estado
Plebiscito7 de setembro de 1993 — vencem o presidencialismo e a República
Revisãoprevista para cinco anos após a promulgação
Marco históricoqueda dos últimos resíduos formais do autoritarismo
Duração da transiçãomais de treze anos entre a abertura de 1974 e o regime democrático
Comparação com a Espanhalá houve Juan Carlos e a marginalização dos franquistas; aqui, permanência das figuras do regime
Cada linha responde a uma pergunta que a questão de vestibular costuma fazer sobre a Carta de 1988 e sobre o fecho da transição.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. PILATTI, Adriano. A Constituinte de 1987-1988: progressistas, conservadores, ordem econômica e regras do jogo. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008.
  3. CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
  4. CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.