História Verso
História do Brasil · Regime Militar

Caracterização do regime militar

Vinte e um anos, cinco generais, duas Constituições e um Congresso quase sempre aberto. Que nome se dá a isso? A resposta de Fausto é mais fina do que “ditadura” — e há quem sustente que nem sequer houve um regime autoritário no Brasil.

1964–198512 min de leitura4 fontes
O Congresso Nacional · Eurico Zimbres · 2006-01-19
O Congresso Nacional. O regime o manteve funcionando durante quase todo o período — e é essa fachada preservada que torna a classificação do período um problema, e não uma obviedade.
O Congresso Nacional · 2006 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.5
Pergunta orientadora

Vinte e um anos, cinco generais, duas Constituições e um Congresso que quase nunca fechou. Que nome exato se dá a isso?

Este artigo não reconta o período — cada episódio tem seu endereço no capítulo. Ele faz outra coisa: pergunta que tipo de coisa foi aquilo. E a resposta de Fausto é mais fina do que a palavra “ditadura” sugere, a ponto de haver quem sustente que nem sequer houve um regime autoritário no Brasil.

Autoritário, e não fascista

Comecemos pelo que o regime não foi. Fausto é categórico: ele não teve características fascistas, e a demonstração vem por três ausências.1

Primeira: não houve esforço para arregimentar as massas em favor do governo. Segunda: não se tentou erguer um partido único acima do Estado. Terceira, e a mais reveladora: não se produziu uma ideologia capaz de conquistar os setores letrados.1

O resultado dessa terceira ausência é quase irônico. Ao longo de todo o período, a ideologia de esquerda continuou dominante nas universidades e nos meios culturais em geral. Um regime que prendia, censurava e torturava perdeu a disputa pelas cabeças instruídas do próprio país.1

A mesma distinção, outro período
Fausto aplica o par autoritário / fascista também ao Estado Novo, com critérios parecidos: ausência de mobilização de massas e de doutrinação escolar totalitária. Vale comparar os dois usos — mas o argumento e as provas são de cada período, e o do varguismo está desenvolvido no artigo próprio.

Regime autoritário, ou situação autoritária?

Aqui está a distinção mais sutil do assunto, e Fausto a registra como posição de terceiros, não como veredito próprio. Há quem sustente que — com uma exceção — o país posterior a 1964 teria vivido, antes, uma situação autoritária, e não propriamente um regime autoritário.1

O que essa fórmula quer dizer é preciso. Houve, sem dúvida, medidas de exceção e arbitrariedades. O que não houve, nessa leitura, foi o passo seguinte: os governantes não chegaram a defender o autoritarismo como forma de governo preferível — isto é, como algo superior à democracia. Governaram por exceção sem defender a exceção como ideal.1

E a exceção da regra tem nome: o período Médici. É dele que a fórmula abre ressalva.1

Médici, o mais fechado · Governo do Brasil · 1969
Retrato oficial de Médici. É o período que a leitura da “situação autoritária” precisa excetuar — sinal de que a classificação não vale por igual ao longo dos vinte e um anos.
Médici, o mais fechado · 1969 · Wikimedia Commons · Public domain
Questão 01múltipla escolha · sem placar
Segundo Fausto, o regime militar brasileiro não teve características fascistas. Entre os argumentos que sustentam essa afirmação está:
  1. Incorreta. Houve repressão política sistemática, com prisão, censura e tortura. A ausência de fascismo não se demonstra pela brandura do regime, e sim por sua forma de organização.

  2. Incorreta. Não houve eleição direta para presidente no período. Os presidentes foram escolhidos indiretamente, e a partir de 1974 pelo Colégio Eleitoral.

  3. Incorreta. É justamente o contrário: não se tentou construir um partido único acima do Estado. Essa ausência é um dos argumentos de Fausto.

  4. Correta. São dois dos três argumentos, ao lado da ausência de partido único. E a consequência é notável: a ideologia de esquerda seguiu dominante nas universidades e nos meios culturais.

  5. Incorreta. Ocorreu o oposto. A permanência da ideologia de esquerda nas universidades e nos meios culturais é uma das provas de que faltou ao regime uma ideologia capaz de ganhar os letrados.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Quem passou a mandar

Se a classificação é discutível, a mudança de comando não é. Fausto considera claras as diferenças entre o regime representativo de 1945 a 1964 e o que veio depois.1

No arranjo anterior, decidiam os políticos profissionais, e o Congresso era instância de decisão. No novo, nenhuma das duas coisas se sustenta. Passaram a mandar três atores: os órgãos de informação e repressão, a burocracia técnica de Estado e a alta cúpula militar.1

Vale reter a segunda dessas instâncias, porque ela é a mais estranha à tradição republicana: órgãos criados para vigiar tornaram-se órgãos que decidem. Não é detalhe de organograma — é o que distingue esse regime de uma ditadura militar convencional, em que a hierarquia da caserna bastaria para explicar quem manda.

Castelo Branco, o primeiro · Governo do Brasil · 1964
Castelo Branco, o primeiro dos cinco. A meta de uma “democracia relativa” era declarada por seu grupo desde 1964 — e continuou sendo invocada por outros governos, com resultados muito diferentes.
Castelo Branco, o primeiro · 1964 · Wikimedia Commons · Public domain

A economia: o que ficou e o que virou

No terreno econômico, a primeira advertência de Fausto é contra o exagero: seria equivocado pensar que tudo mudou depois de 1964. Um traço atravessou o período inteiro — o peso do Estado sobre a atividade econômica e sobre a regulação. E ele não foi igual o tempo todo: variou de governo para governo, sendo mais típico de Geisel do que de Castelo Branco.1

Mas muita coisa mudou, e a mudança tem nome. O desenho que começara a tomar forma sob Juscelino ganhou ampla dimensão, apoiado em dois pilares: empréstimos externos e estímulo à entrada de capital estrangeiro. É o que se chamou de desenvolvimento associado, e ele privilegiou as grandes empresas — as multinacionais, certamente, mas também as nacionais, tanto públicas quanto privadas.1

A ruptura, portanto, foi com o esquema anterior. Houve corte declarado com o que o governo Goulart praticava, assentado no arranjo populista — dentro do qual se tentara, sem êxito, um desenvolvimento autônomo puxado pela burguesia nacional.1

LembreO Estado saiu da economia depois de 1964?

Não. A forte presença estatal na atividade econômica e na regulação permaneceu durante todo o regime — variando de intensidade, e sendo maior sob Geisel do que sob Castelo Branco. O que mudou foi o papel do empréstimo externo e do capital estrangeiro no financiamento do crescimento.

O país que ficou no lugar

O balanço material é grande e desconfortável ao mesmo tempo. Ao fim do período, o Brasil havia se tornado um país semi-industrializado, e seu parque produtivo era o maior entre todas as nações do então chamado Terceiro Mundo.1

A autonomia da indústria também cresceu bastante. Os dados de 1985 mostram que quatro quintos da necessidade nacional de bens de capital — máquinas e equipamentos — era atendida dentro do país, sem recurso à importação. Com uma ressalva que Fausto faz questão de acrescentar: isso não significa que tudo viesse de indústrias nacionais, já que entram na conta as indústrias estrangeiras instaladas aqui.1

Geisel, o da distensão · Governo do Brasil · 1974
Geisel. É sob seu governo que a presença do Estado na economia atinge o ponto mais alto do período — traço que, segundo Fausto, atravessou o regime inteiro em intensidades diferentes.
Geisel, o da distensão · 1974 · Wikimedia Commons · Public domain

O sindicato que o regime não desmontou

Aqui está o achado mais contraintuitivo do balanço. As direções sindicais herdadas do arranjo populista foram reprimidas — mas a estrutura sindical em si continuou de pé.1

No campo, a Contag — a confederação dos trabalhadores agrícolas — passou a agir independentemente do governo já em 1968, incentivando a organização de federações de sindicatos rurais pelo país.1

Os números não deixam dúvida sobre o resultado. Havia 625 sindicatos rurais em 1968; passaram a 1.154 em 1972, 1.745 em 1976 e 2.144 em 1980. Já o contingente sindicalizado no campo, que em 1973 mal passava de 2,9 milhões, ultrapassou os 5,1 milhões em 1979.1

O motivo desse salto é a parte mais instrutiva, e o empurrão veio de onde menos se esperaria: os programas de previdência social passaram a ser administrados pelos próprios sindicatos, e filiar-se virou caminho de acesso ao benefício. Foi a política assistencial do regime que empurrou o trabalhador rural para dentro da estrutura sindical — e, sem pretender, ajudou a construir a organização que o enfrentaria.1

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre a relação entre o regime militar e a organização sindical, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. O regime reprimiu direções sindicais ligadas ao esquema populista, mas não desmantelou os sindicatos, que continuaram existindo e crescendo em número.

  2. Incorreta. O número mais que triplicou: de 625 em 1968 para 2.144 em 1980.

  3. Incorreta. A Contag começou a agir independentemente do governo já em 1968, incentivando a organização de federações de sindicatos rurais.

  4. Incorreta. Fausto aponta um estímulo bem menos heroico e mais revelador: a administração dos programas de previdência social por meio dos próprios sindicatos.

  5. Correta. É a descrição correta, e o mecanismo é o ponto: a política assistencial do próprio regime empurrou o trabalhador rural para dentro da estrutura sindical.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

O balanço social

Dois indicadores ajudam a medir o país que atravessou o período, e ambos vêm de censo.1

O primeiro é o analfabetismo, entre a população de cinco anos ou mais. Em 1950, não sabiam ler 60,6% das mulheres e 53,9% dos homens. No censo de 1980, os índices haviam caído para 34,9% e 35,2%. E a pesquisa por amostra de domicílios de 1987 registra 25,8% entre eles e 26,0% entre elas.1

Repare no que aconteceu com a distância entre os dois sexos: ela desapareceu. Em 1950 as mulheres estavam quase sete pontos atrás; em 1987, os índices praticamente coincidem. Fausto trata o avanço da alfabetização feminina como indicador indireto da maior presença da mulher na vida social e na população economicamente ativa.1

E é exatamente o que o segundo indicador confirma. Em 1970, integravam a população economicamente ativa 71,9% dos homens contra apenas 18,2% das mulheres. Em 1985, os percentuais eram de 76% e 36,8% — a participação masculina subiu pouco, e a feminina dobrou.1

Figueiredo, o último · Governo do Brasil · 1979
Figueiredo, o último dos cinco. Quando ele deixou o cargo, o país era mais industrializado, mais alfabetizado e mais endividado do que aquele que os militares haviam encontrado em 1964.
Figueiredo, o último · 1979 · Wikimedia Commons · Public domain
Pontos sensíveis deste artigo
  • Autoritário não é sinônimo de fascista — Fausto nega características fascistas ao regime por três ausências: não organizou as massas em apoio ao governo, não ergueu partido único acima do Estado e não produziu ideologia capaz de ganhar os setores letrados.
  • “Situação autoritária” é hipótese registrada, não veredito — Fausto anota que há quem sustente que, exceto no período Médici, houve mais uma situação autoritária que um regime autoritário — porque os governantes não assumiram o autoritarismo como princípio superior à democracia. Atribua a leitura, não a apresente como fato.
  • O Estado não saiu da economia — a forte presença estatal permaneceu, variando por governo e sendo mais acentuada sob Geisel do que sob Castelo Branco. O que mudou foi o peso do empréstimo externo e do capital estrangeiro, no modelo do desenvolvimento associado.
  • Os sindicatos não foram extintos — as direções ligadas ao esquema populista foram reprimidas, mas a estrutura sindical sobreviveu e cresceu: de 625 sindicatos rurais em 1968 para 2.144 em 1980, impulsionada pela gestão da previdência por meio dos sindicatos.
  • Balanço material e balanço político não se anulam — o país terminou o período semi-industrializado, com quatro quintos dos bens de capital produzidos internamente e com queda expressiva do analfabetismo. Registrar isso não atenua a repressão, e omitir a repressão não se corrige omitindo os números.
  • Uma comparação que este artigo não faz — o cotejo com as ditaduras do Cone Sul — Chile, Argentina, Uruguai — não aparece aqui porque a fonte principal deste projeto não o fornece. Construí-lo de memória seria inventar erudição, e a lacuna fica declarada.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Cinco governos, uma estrutura

1964–67Castelo Branco1967–69Costa e Silva1969–74Médici1974–79Geisel1979–85FigueiredoCinco chefes em vinte e um anos, e uma estrutura de poder que não mudou de mãos: cúpula militar, órgãos de informação e burocracia técnica.
A linha serve de orientação, não de narrativa: cada governo tem artigo próprio. O marco em destaque é o período que a leitura da “situação autoritária” precisa excetuar.

Regime autoritário ou situação autoritária

Um regime autoritário seriaAutoritarismo assumido como princípioSuperioridade declarada sobre a democraciaProjeto de duração indefinidaIdeologia própria a ser difundidaMassas organizadas em apoioPartido acima do EstadoO que houve, nessa leituraMedidas de exceção e arbitrariedadesSem assumir o autoritarismo como idealRessalva: o período Médici é a exceçãoEsquerda segue dominante nas universidadesSem mobilização de massas pelo governoFausto chama isso de situação autoritária
A coluna da direita é uma hipótese que Fausto registra, e não a conclusão dele. Numa dissertação, apresentar as duas leituras vale mais do que escolher uma sem dizer que a outra existe.

Quem decidia, antes e depois de 1964

Regime representativo · 1945–1964Decidem os políticos profissionaisCongresso é instância decisóriaPartidos exprimem correntes de opiniãoPresidente eleito pelo voto diretoDisputa aberta pelo poderConflito resolvido no LegislativoRegime militar · 1964–1985Manda a alta cúpula militarCongresso deixa de ser decisivoÓrgãos de informação e repressão no centroBurocracia técnica de Estado decidePresidente escolhido em círculo fechadoCongresso aberto, porém esvaziado
Leia a última linha de cada coluna em par. O Congresso continuou existindo — e é precisamente por isso que a mudança de quem decide passa despercebida em respostas apressadas.

Sindicatos rurais durante o regime

196862519721.15419761.74519802.144sindicatos rurais no Brasil
O número mais que triplicou sob a ditadura. O mecanismo por trás disso é o que surpreende: a previdência social administrada pelos próprios sindicatos puxou a filiação no campo.

Mapa mental do assunto

Regime militarbalanço de 1964–1985NaturezaAutoritário, não fascistaSem partido único nem massasIdeologia de esquerda segue nas letrasQuem decidiaAlta cúpula militarÓrgãos de informação e repressãoBurocracia técnica de EstadoO país que ficouSemi-industrializado4/5 dos bens de capital feitos aquiAnalfabetismo cai, mulher entra na PEAO que a prova erraFascista e autoritário não são sinônimosO regime não desmontou os sindicatosO Congresso ficou aberto quase sempre
O ramo destacado reúne os três enganos que mais aparecem quando o assunto é a natureza do regime — e o primeiro deles custa caro em qualquer questão de interpretação.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Duração1964 a 1985, com cinco presidentes militares
Classificação de Faustoregime autoritário, e não fascista
Ausência 1não houve esforço para arregimentar as massas em favor do governo
Ausência 2não se tentou construir partido único acima do Estado
Ausência 3não se produziu ideologia capaz de ganhar os setores letrados
Consequência notávela ideologia de esquerda seguiu dominante nas universidades e nos meios culturais
Hipótese alternativahouve mais uma situação autoritária que um regime autoritário — exceto no período Médici
O que a hipótese sustentaos governantes não defenderam o autoritarismo como forma de governo preferível à democracia
Quem mandava antes (1945–64)os políticos profissionais, com o Congresso como instância decisória
Quem mandava depoisórgãos de informação e repressão, burocracia técnica de Estado e alta cúpula militar
Continuidade econômicaforte presença do Estado na economia, mais acentuada sob Geisel que sob Castelo Branco
Mudança econômicaempréstimos externos e capital estrangeiro como pilares do financiamento
Nome do modelodesenvolvimento associado — atravessa os cinco governos, em intensidades diferentes
Ruptura com Goulartcai o arranjo populista e, com ele, a aposta na burguesia nacional como motor
Resultado industrialpaís semi-industrializado, com o maior produto industrial do Terceiro Mundo
Autonomia em bens de capitalquatro quintos atendidos internamente em 1985, incluindo estrangeiras instaladas aqui
Sindicatosdireções populistas reprimidas, mas a estrutura sindical não foi desmantelada
Sindicatos rurais625 (1968), 1.154 (1972), 1.745 (1976) e 2.144 (1980)
Sindicalizados no campomal passavam de 2,9 milhões em 1973 e superaram 5,1 milhões seis anos depois
Motor da sindicalização rurala previdência social entregue à administração dos próprios sindicatos
Analfabetismo em 195060,6% das mulheres e 53,9% dos homens
Analfabetismo em 198034,9% dos homens e 35,2% das mulheres
Analfabetismo em 198725,8% dos homens e 26,0% das mulheres
Mulheres na população ativa18,2% em 1970 e 36,8% em 1985
Cada linha responde a uma pergunta de interpretação — o tipo que cai em questão discursiva e em redação, mais do que em teste de memória.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. REIS, Daniel Aarão. Ditadura e Democracia no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
  3. O’DONNELL, Guillermo. Análise do Autoritarismo Burocrático. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
  4. CARDOSO, Fernando Henrique. Autoritarismo e Democratização. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.