O Plano Cruzado
O congelamento de preços deu ao governo a maior vitória eleitoral da Nova República. Três meses depois da eleição, a inflação explodia e o país declarava moratória. O plano funcionou bem demais para durar.

Cédula de 50 mil cruzeiros carimbada como 50 cruzados · 1986 · Wikimedia Commons · Public domain
Como um plano econômico entrega ao governo a maior vitória eleitoral da Nova República e, três meses depois dessa vitória, termina em moratória?
Porque as duas coisas têm a mesma causa. O que fez o plano ser amado em março é exatamente o que o inviabilizou em dezembro — e a eleição caiu no intervalo, quando o fracasso já existia mas ainda não aparecia.
O que foi anunciado
Rádio e televisão em cadeia nacional, na noite de 28 de fevereiro de 1986. O pacote que Sarney apresentou ao país tinha várias peças, e vale separá-las.1
Moeda nova. O cruzeiro saía de cena e entrava o cruzado, na razão de mil por um — três zeros a menos.1
Fim da correção automática. A indexação foi abolida, isto é, contratos e preços deixaram de subir sozinhos atrás de um índice passado.1
Congelamento. Preços e taxa de câmbio ficaram travados sem data para descongelar; os aluguéis, por um ano.1
E uma preocupação explícita com quem ganhava pouco. O salário mínimo foi recalculado pela média dos seis meses anteriores, com um abono de 8% por cima. Dali em diante, os reajustes viriam automaticamente sempre que a inflação acumulasse 20% — mecanismo que ficou conhecido pela imagem do gatilho. Patrões e empregados ainda podiam negociar aumentos além disso, desde que não repassassem o custo aos preços.1

Cem mil cruzeiros viram cem cruzados · 1986 · Wikimedia Commons · Public domain
O país comprou a ideia
Sarney conclamou “as brasileiras e os brasileiros” a entrar na campanha e a encarar a inflação como guerra de vida ou morte. E a adesão foi real. Fausto explica por quê, sem condescendência: quem não tinha como acompanhar os meandros da economia preferia acreditar em atos de vontade de um governante que, de repente, parecia corajoso.1
Daí as cenas que ficaram: a ocupação de supermercados em nome do povo e a atuação dos fiscais do Sarney — cidadãos comuns conferindo tabelas de preço, numa vigilância que Fausto qualifica de comovente, mas inútil.1
O efeito material sobre os mais pobres existiu, e o clima geral foi de otimismo ilimitado. O autor registra dois sinais concretos desse momento, e eles dizem mais que qualquer índice: o trânsito ficou insuportável e muita gente bebeu cerveja à larga pela primeira vez.1
Por que começou a fazer água
O defeito estava no acerto. O plano nasceu num momento em que a economia já vinha se expandindo e, somado ao reajuste do mínimo, resultou em aumento real de salário para muita gente.1
Junte isso a preços travados e o resultado é aritmético: houve uma corrida ao consumo. Faltou de tudo — Fausto vai da carne e do leite aos automóveis e às viagens ao exterior. E, onde falta mercadoria com preço tabelado, aparece o ágio: a quantia cobrada por fora, acima do valor da tabela.1
LembreO que é o ágio, e por que ele apareceu em 1986?
É a quantia cobrada por fora da tabela, acima do preço oficial. Surgiu porque o congelamento não fez a procura parar de crescer: com salário real maior e preço travado, faltou produto — e quem tinha a mercadoria passou a cobrar a diferença por baixo do balcão. O congelamento não elimina a pressão de preços; ele a empurra para fora da tabela.
Em julho de 1986 o governo reagiu com um pacote apelidado de “cruzadinho”, cujo objetivo era conter o consumo e estimular o investimento. Ele mirava sobretudo a classe média, ao instituir empréstimo compulsório na compra de automóveis, de gasolina e álcool, de dólares para viagem e de passagens aéreas ao exterior.1
Havia ainda um problema de fora para dentro. As contas externas se desequilibraram com um salto nas importações, e a razão era o câmbio: a moeda nacional havia se fortalecido de modo artificial, sem que exportações e entrada de capital estrangeiro sustentassem essa força.1
Novembro: a conta que ainda não tinha chegado
Este é o ponto mais instrutivo do episódio, e Fausto o formula sem rodeios: quando o país foi às urnas em novembro de 1986, o plano já havia fracassado — só que isso ainda não era perceptível ao grande público.1
Os candidatos governistas ainda podiam atribuir os problemas a este ou àquele setor. Podiam, por exemplo, prometer que iriam ao pasto tomar à força o gado que os criadores seguravam, para conter o preço da carne — o desabastecimento apresentado como sabotagem, e não como efeito previsível do congelamento.1
O resultado foi arrasador. O PMDB elegeu os governadores de todos os estados menos Sergipe e obteve maioria absoluta nas duas casas. Na Câmara, ficou com 261 das 487 cadeiras — 53% —, contra 116 do PFL, ou 24%. No Senado, onde se renovavam dois terços das cadeiras estaduais e se elegia pela primeira vez o Distrito Federal, levou 38 das 49 em disputa; somados os mandatos não renovados, ficou com 45 de 72.1
A dimensão da vitória assustou. Chegou-se a dizer, naquele momento, que o Brasil corria risco de “mexicanização”: o PMDB viraria uma espécie de PRI, o Partido Revolucionário Institucional, que por longos anos manteve quase o monopólio do poder no México. O temor não se confirmou — e a razão está no parágrafo seguinte deste artigo.
Dezembro, e a conta chega
Passada a eleição, veio o que havia sido represado. Os aumentos adiados de tarifas públicas e de impostos indiretos foram liberados, e a inflação explodiu.1

Cinco mil cruzados, em 1988 · 1988 · Wikimedia Commons · Public domain
O rombo externo cobrou o seu. Em fevereiro de 1987, o Brasil declarou moratória: suspendeu de forma unilateral e por tempo indeterminado o pagamento dos juros da dívida externa de médio e longo prazo devida aos bancos credores.1
Chamaram-na de “técnica”, e não de “política” — e o gesto foi recebido com indiferença, tanto aqui quanto lá fora. No lugar da euforia do começo do ano instalou-se decepção e desconfiança quanto ao rumo da economia.1

A cédula definitiva de 100 cruzados · 1986 · Wikimedia Commons · Public domain
Onde a fonte para
Depois do Cruzado vieram outras tentativas, e Fausto as nomeia sem desenvolver: o plano Bresser e o plano verão. Sobre eles, escreve que já não fazem parte da sua história — o livro encerra ali seu recorte.1
Este artigo respeita esse limite. O que veio a seguir — inclusive a moeda que finalmente estabilizaria os preços — está fora do alcance da fonte usada aqui, e preencher esse espaço de memória seria trocar história por lembrança.

Quinhentos cruzados, ainda em 1986 · 1986 · Wikimedia Commons · Public domain
- A ordem dos fatos decide a resposta — o plano é de fevereiro de 1986, a eleição de novembro de 1986 e a moratória de fevereiro de 1987. Quem inverte eleição e moratória perde a chave do episódio: o governo venceu porque a conta ainda não havia chegado.
- O sucesso é que causou a ruína — o plano nasceu com a economia em expansão e produziu ganho real de salário. Com preços congelados, isso virou corrida ao consumo, desabastecimento e ágio. Não foi execução ruim: foi o desenho encontrando seu limite.
- Congelar não é combater a causa — o congelamento suprime o sintoma visível e empurra a pressão de preços para fora da tabela, na forma de ágio, e para depois, na forma de tarifas represadas. Foi a liberação desse represamento que fez a inflação explodir em dezembro.
- O gatilho é mecanismo, não bondade — os reajustes automáticos a cada 20% de inflação acumulada foram parte do desenho técnico do plano, junto com a abolição da indexação. Descrevê-lo apenas como concessão aos trabalhadores perde a função que ele cumpria.
- A moratória tinha adjetivo — foi apresentada como “técnica”, não “política”, alcançou os juros da dívida de médio e longo prazo com bancos credores e, segundo Fausto, foi recebida com indiferença dentro e fora do país.
- Onde este artigo para, e por quê — a fonte principal nomeia o plano Bresser e o plano verão e declara que eles já não fazem parte de sua história. O que veio depois não é coberto aqui porque não é coberto por ela.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De fevereiro de 1986 a fevereiro de 1987
O que foi anunciado e o que aconteceu
O que levou ao plano, e o que ele desencadeou
A Câmara dos Deputados eleita em 1986
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Anúncio | 28 de fevereiro de 1986, em rede nacional de rádio e televisão |
| Moeda | o cruzado substitui o cruzeiro, a mil por um |
| Indexação | abolida |
| Congelamento | preços e câmbio por prazo indeterminado; aluguéis por um ano |
| Salário mínimo | recalculado pela média dos seis meses anteriores, mais abono de 8% |
| Gatilho | reajuste automático sempre que a inflação acumulasse 20% |
| Negociação livre | permitida para aumentos adicionais, desde que não repassados aos preços |
| Adesão popular | ocupação de supermercados e os “fiscais do Sarney”, em vigilância comovente e inútil |
| Por que ruiu | plano lançado em economia em expansão gerou ganho real de salário e corrida ao consumo |
| Ágio | quantia cobrada por fora, acima do preço de tabela, onde faltava mercadoria |
| Cruzadinho | julho de 1986; empréstimo compulsório em carros, combustíveis, dólares e passagens ao exterior |
| Contas externas | moeda artificialmente forte puxa importações sem contrapartida de exportação ou capital externo |
| Eleições | novembro de 1986: o plano já fracassara, sem que o público percebesse |
| Resultado no Congresso | PMDB com 261 de 487 cadeiras (53%) e PFL com 116 (24%); 38 das 49 vagas em disputa no Senado |
| Resultado nos estados | PMDB elege governadores em todos, menos em Sergipe |
| “Mexicanização” | temor de que o PMDB virasse um PRI brasileiro, com quase monopólio do poder |
| Depois da eleição | tarifas públicas e impostos indiretos represados são liberados e a inflação explode |
| Moratória | fevereiro de 1987: suspensão unilateral dos juros da dívida de médio e longo prazo |
| Adjetivo da moratória | “técnica”, não “política”; recebida com indiferença no país e no exterior |
| Limite da fonte | o livro nomeia o plano Bresser e o plano verão e declara que já não fazem parte de sua história |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- SOLA, Lourdes. Estado, Mercado e Democracia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.
- SINGER, Paul. O Dia da Lagarta: democratização e conflito distributivo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1990.
- BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Os Tempos Heroicos de Collor e Zélia. São Paulo: Nobel, 1991.