História Verso
História do Brasil · Nova República

O Plano Cruzado

O congelamento de preços deu ao governo a maior vitória eleitoral da Nova República. Três meses depois da eleição, a inflação explodia e o país declarava moratória. O plano funcionou bem demais para durar.

198613 min de leitura4 fontes
Cédula de 50 mil cruzeiros carimbada como 50 cruzados · Casa da Moeda do Brasil · 1986-02-28
Uma cédula de 50 mil cruzeiros carimbada como 50 cruzados, em 28 de fevereiro de 1986. Não houve tempo de imprimir dinheiro novo: cortaram-se três zeros com um selo redondo sobre a nota velha.
Cédula de 50 mil cruzeiros carimbada como 50 cruzados · 1986 · Wikimedia Commons · Public domain
Pergunta orientadora

Como um plano econômico entrega ao governo a maior vitória eleitoral da Nova República e, três meses depois dessa vitória, termina em moratória?

Porque as duas coisas têm a mesma causa. O que fez o plano ser amado em março é exatamente o que o inviabilizou em dezembro — e a eleição caiu no intervalo, quando o fracasso já existia mas ainda não aparecia.

O que foi anunciado

Rádio e televisão em cadeia nacional, na noite de 28 de fevereiro de 1986. O pacote que Sarney apresentou ao país tinha várias peças, e vale separá-las.1

Moeda nova. O cruzeiro saía de cena e entrava o cruzado, na razão de mil por um — três zeros a menos.1

Fim da correção automática. A indexação foi abolida, isto é, contratos e preços deixaram de subir sozinhos atrás de um índice passado.1

Congelamento. Preços e taxa de câmbio ficaram travados sem data para descongelar; os aluguéis, por um ano.1

E uma preocupação explícita com quem ganhava pouco. O salário mínimo foi recalculado pela média dos seis meses anteriores, com um abono de 8% por cima. Dali em diante, os reajustes viriam automaticamente sempre que a inflação acumulasse 20% — mecanismo que ficou conhecido pela imagem do gatilho. Patrões e empregados ainda podiam negociar aumentos além disso, desde que não repassassem o custo aos preços.1

Cem mil cruzeiros viram cem cruzados · Casa da Moeda do Brasil · 1986-02-28
Cem mil cruzeiros convertidos em cem cruzados pelo mesmo carimbo. A conversão de mil por um era a parte mais simples do plano — e a única que funcionou até o fim.
Cem mil cruzeiros viram cem cruzados · 1986 · Wikimedia Commons · Public domain

O país comprou a ideia

Sarney conclamou “as brasileiras e os brasileiros” a entrar na campanha e a encarar a inflação como guerra de vida ou morte. E a adesão foi real. Fausto explica por quê, sem condescendência: quem não tinha como acompanhar os meandros da economia preferia acreditar em atos de vontade de um governante que, de repente, parecia corajoso.1

Daí as cenas que ficaram: a ocupação de supermercados em nome do povo e a atuação dos fiscais do Sarney — cidadãos comuns conferindo tabelas de preço, numa vigilância que Fausto qualifica de comovente, mas inútil.1

O efeito material sobre os mais pobres existiu, e o clima geral foi de otimismo ilimitado. O autor registra dois sinais concretos desse momento, e eles dizem mais que qualquer índice: o trânsito ficou insuportável e muita gente bebeu cerveja à larga pela primeira vez.1

Por que começou a fazer água

O defeito estava no acerto. O plano nasceu num momento em que a economia já vinha se expandindo e, somado ao reajuste do mínimo, resultou em aumento real de salário para muita gente.1

Junte isso a preços travados e o resultado é aritmético: houve uma corrida ao consumo. Faltou de tudo — Fausto vai da carne e do leite aos automóveis e às viagens ao exterior. E, onde falta mercadoria com preço tabelado, aparece o ágio: a quantia cobrada por fora, acima do valor da tabela.1

LembreO que é o ágio, e por que ele apareceu em 1986?

É a quantia cobrada por fora da tabela, acima do preço oficial. Surgiu porque o congelamento não fez a procura parar de crescer: com salário real maior e preço travado, faltou produto — e quem tinha a mercadoria passou a cobrar a diferença por baixo do balcão. O congelamento não elimina a pressão de preços; ele a empurra para fora da tabela.

Em julho de 1986 o governo reagiu com um pacote apelidado de “cruzadinho”, cujo objetivo era conter o consumo e estimular o investimento. Ele mirava sobretudo a classe média, ao instituir empréstimo compulsório na compra de automóveis, de gasolina e álcool, de dólares para viagem e de passagens aéreas ao exterior.1

Havia ainda um problema de fora para dentro. As contas externas se desequilibraram com um salto nas importações, e a razão era o câmbio: a moeda nacional havia se fortalecido de modo artificial, sem que exportações e entrada de capital estrangeiro sustentassem essa força.1

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Sobre os mecanismos do Plano Cruzado e suas consequências imediatas, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. Deu-se o oposto: o salário mínimo foi recalculado pela média de seis meses com abono de 8%, houve ganho real em muitos casos e o consumo disparou.

  2. Incorreta. A indexação foi abolida. A proteção dos salários veio por outro mecanismo, o gatilho, que disparava reajuste automático a cada 20% de inflação acumulada.

  3. Correta. É a cadeia central do assunto. Com preço travado e procura em alta, faltou mercadoria — e o preço reprimido reapareceu por fora da tabela, na forma de ágio.

  4. Incorreta. O objetivo era o inverso: conter o consumo e incentivar o investimento, por meio de empréstimo compulsório em automóveis, combustíveis, dólares de viagem e passagens ao exterior.

  5. Incorreta. O câmbio foi congelado junto com os preços. A moeda ficou artificialmente forte e as importações dispararam, agravando justamente as contas externas.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Novembro: a conta que ainda não tinha chegado

Este é o ponto mais instrutivo do episódio, e Fausto o formula sem rodeios: quando o país foi às urnas em novembro de 1986, o plano já havia fracassado — só que isso ainda não era perceptível ao grande público.1

Os candidatos governistas ainda podiam atribuir os problemas a este ou àquele setor. Podiam, por exemplo, prometer que iriam ao pasto tomar à força o gado que os criadores seguravam, para conter o preço da carne — o desabastecimento apresentado como sabotagem, e não como efeito previsível do congelamento.1

O resultado foi arrasador. O PMDB elegeu os governadores de todos os estados menos Sergipe e obteve maioria absoluta nas duas casas. Na Câmara, ficou com 261 das 487 cadeiras — 53% —, contra 116 do PFL, ou 24%. No Senado, onde se renovavam dois terços das cadeiras estaduais e se elegia pela primeira vez o Distrito Federal, levou 38 das 49 em disputa; somados os mandatos não renovados, ficou com 45 de 72.1

Falou-se em “mexicanização”
A dimensão da vitória assustou. Chegou-se a dizer, naquele momento, que o Brasil corria risco de “mexicanização”: o PMDB viraria uma espécie de PRI, o Partido Revolucionário Institucional, que por longos anos manteve quase o monopólio do poder no México. O temor não se confirmou — e a razão está no parágrafo seguinte deste artigo.

Dezembro, e a conta chega

Passada a eleição, veio o que havia sido represado. Os aumentos adiados de tarifas públicas e de impostos indiretos foram liberados, e a inflação explodiu.1

Cinco mil cruzados, em 1988 · Casa da Moeda do Brasil · 1988
Uma cédula de cinco mil cruzados, de 1988. Compare com a nota de abertura deste artigo: em dois anos, a moeda que nasceu para matar a inflação já precisava de valores de face assim.
Cinco mil cruzados, em 1988 · 1988 · Wikimedia Commons · Public domain

O rombo externo cobrou o seu. Em fevereiro de 1987, o Brasil declarou moratória: suspendeu de forma unilateral e por tempo indeterminado o pagamento dos juros da dívida externa de médio e longo prazo devida aos bancos credores.1

Chamaram-na de “técnica”, e não de “política” — e o gesto foi recebido com indiferença, tanto aqui quanto lá fora. No lugar da euforia do começo do ano instalou-se decepção e desconfiança quanto ao rumo da economia.1

Questão 02múltipla escolha · sem placar
Sobre as eleições de novembro de 1986 e o desfecho do Plano Cruzado, é correto afirmar que:
  1. Correta. É exatamente a leitura de Fausto, e explica o resultado: 261 das 487 cadeiras da Câmara e governadores em todos os estados menos Sergipe, com a conta do plano ainda represada.

  2. Incorreta. Não houve derrota: o PMDB fez a maior vitória eleitoral do período, a ponto de se falar em risco de “mexicanização” da política brasileira.

  3. Incorreta. A moratória é de fevereiro de 1987, posterior às eleições de novembro de 1986. A ordem dos fatos é decisiva para entender o episódio.

  4. Incorreta. Logo após as eleições, a liberação das tarifas públicas e dos impostos indiretos represados fez a inflação explodir.

  5. Incorreta. A suspensão alcançou os juros da dívida de médio e longo prazo devida aos bancos credores. Foi chamada de técnica, e não política, e recebida com indiferença.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

A cédula definitiva de 100 cruzados · Casa da Moeda do Brasil · 1986-10
A cédula definitiva de 100 cruzados, de outubro de 1986. Quando ela entrou em circulação, com Juscelino na face, o plano já estava perdido — e o país ainda não sabia.
A cédula definitiva de 100 cruzados · 1986 · Wikimedia Commons · Public domain

Onde a fonte para

Depois do Cruzado vieram outras tentativas, e Fausto as nomeia sem desenvolver: o plano Bresser e o plano verão. Sobre eles, escreve que já não fazem parte da sua história — o livro encerra ali seu recorte.1

Este artigo respeita esse limite. O que veio a seguir — inclusive a moeda que finalmente estabilizaria os preços — está fora do alcance da fonte usada aqui, e preencher esse espaço de memória seria trocar história por lembrança.

Quinhentos cruzados, ainda em 1986 · Casa da Moeda do Brasil · 1986-10
Quinhentos cruzados, ainda em 1986. Oito meses depois de a moeda nascer valendo mil cruzeiros, o valor de face das notas já contava outra história.
Quinhentos cruzados, ainda em 1986 · 1986 · Wikimedia Commons · Public domain
Pontos sensíveis deste artigo
  • A ordem dos fatos decide a resposta — o plano é de fevereiro de 1986, a eleição de novembro de 1986 e a moratória de fevereiro de 1987. Quem inverte eleição e moratória perde a chave do episódio: o governo venceu porque a conta ainda não havia chegado.
  • O sucesso é que causou a ruína — o plano nasceu com a economia em expansão e produziu ganho real de salário. Com preços congelados, isso virou corrida ao consumo, desabastecimento e ágio. Não foi execução ruim: foi o desenho encontrando seu limite.
  • Congelar não é combater a causa — o congelamento suprime o sintoma visível e empurra a pressão de preços para fora da tabela, na forma de ágio, e para depois, na forma de tarifas represadas. Foi a liberação desse represamento que fez a inflação explodir em dezembro.
  • O gatilho é mecanismo, não bondade — os reajustes automáticos a cada 20% de inflação acumulada foram parte do desenho técnico do plano, junto com a abolição da indexação. Descrevê-lo apenas como concessão aos trabalhadores perde a função que ele cumpria.
  • A moratória tinha adjetivo — foi apresentada como “técnica”, não “política”, alcançou os juros da dívida de médio e longo prazo com bancos credores e, segundo Fausto, foi recebida com indiferença dentro e fora do país.
  • Onde este artigo para, e por quê — a fonte principal nomeia o plano Bresser e o plano verão e declara que eles já não fazem parte de sua história. O que veio depois não é coberto aqui porque não é coberto por ela.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

De fevereiro de 1986 a fevereiro de 1987

28 fev 1986Sarney anuncia oplano em redenacionaljul 1986“Cruzadinho” tentafrear o consumonov 1986PMDB vence quase tudonas urnasdez 1986Tarifas e impostosadiados são liberadosfev 1987Brasil declaramoratória da dívidaexternaDoze meses entre a euforia e a moratória. A eleição de novembro cai bem no meio, quando o fracasso já existia e ainda não aparecia.
Os dois marcos em destaque contam o assunto inteiro: entre o anúncio e a eleição, nove meses; entre a eleição e a moratória, três. O eleitor votou no intervalo exato.

O que foi anunciado e o que aconteceu

O que foi anunciadoCruzado no lugar do cruzeiro, mil por umIndexação abolidaPreços e câmbio congelados sem prazoAluguéis congelados por um anoMínimo pela média de seis meses, mais 8%Gatilho dispara a cada 20% de inflaçãoO que aconteceuGanho real de salário em muitos casosCorrida às compras, de carne a automóvelÁgio: preço cobrado por fora da tabelaImportação puxada por moeda forte artificialJulho: “cruzadinho” freia a classe médiaDezembro: tarifas represadas fazem tudo explodir
Leia as linhas em pares. Nenhum item da direita é acidente: cada um decorre do item correspondente à esquerda, o que faz do Cruzado um caso-modelo de efeito não pretendido.

O que levou ao plano, e o que ele desencadeou

O QUE LEVOU AO PLANOO QUE ELE DESENCADEOUInflação em disparada235,5% em 1985 e ofantasma da hiperinflaçãoOrtodoxia esgotadacorte de orçamento nãohavia segurado nadaGoverno sem prestígioum presidente que ninguémhavia escolhido para o cargoPlano Cruzado · 28 fev 1986moeda nova, indexação abolidae preços congeladosSalário real sobeo plano nasce em plenaexpansão da economiaCorrida ao consumofalta carne e leite;aparece o ágioContas externas rachadasmoeda forte artificialpuxa as importaçõesVitória nas urnasnovembro de 1986, antesde a conta chegar
A primeira caixa da direita é a origem de todo o resto: um plano de congelamento lançado em economia aquecida gera aumento de renda real — e renda real, com preço travado, vira fila.

A Câmara dos Deputados eleita em 1986

PMDB261 (53%)PFL116 (24%)Demais partidos110cadeiras na Câmara dos Deputados, eleição de 1986 (total de 487)
A barra do PMDB é a maior vitória eleitoral da Nova República — e foi obtida com o plano econômico já fracassado, embora ainda não visivelmente.

Mapa mental do assunto

Plano Cruzado1986–1987As medidasCruzado, mil cruzeiros por umFim da indexaçãoCongelamento e gatilho salarialA adesão popularOcupação de supermercadosOs fiscais do SarneyOtimismo ilimitado no paísPor que ruiuSalário real sobe e consumo disparaÁgio cobrado por fora da tabelaImportações sem contrapartidaO que a prova erraO plano já falhara na eleiçãoCongelar não é combater causaMoratória é de 1987, não de 1986
O ramo destacado reúne os três enganos mais caros. O primeiro deles é de cronologia e compromete qualquer análise do episódio.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Anúncio28 de fevereiro de 1986, em rede nacional de rádio e televisão
Moedao cruzado substitui o cruzeiro, a mil por um
Indexaçãoabolida
Congelamentopreços e câmbio por prazo indeterminado; aluguéis por um ano
Salário mínimorecalculado pela média dos seis meses anteriores, mais abono de 8%
Gatilhoreajuste automático sempre que a inflação acumulasse 20%
Negociação livrepermitida para aumentos adicionais, desde que não repassados aos preços
Adesão popularocupação de supermercados e os “fiscais do Sarney”, em vigilância comovente e inútil
Por que ruiuplano lançado em economia em expansão gerou ganho real de salário e corrida ao consumo
Ágioquantia cobrada por fora, acima do preço de tabela, onde faltava mercadoria
Cruzadinhojulho de 1986; empréstimo compulsório em carros, combustíveis, dólares e passagens ao exterior
Contas externasmoeda artificialmente forte puxa importações sem contrapartida de exportação ou capital externo
Eleiçõesnovembro de 1986: o plano já fracassara, sem que o público percebesse
Resultado no CongressoPMDB com 261 de 487 cadeiras (53%) e PFL com 116 (24%); 38 das 49 vagas em disputa no Senado
Resultado nos estadosPMDB elege governadores em todos, menos em Sergipe
“Mexicanização”temor de que o PMDB virasse um PRI brasileiro, com quase monopólio do poder
Depois da eleiçãotarifas públicas e impostos indiretos represados são liberados e a inflação explode
Moratóriafevereiro de 1987: suspensão unilateral dos juros da dívida de médio e longo prazo
Adjetivo da moratória“técnica”, não “política”; recebida com indiferença no país e no exterior
Limite da fonteo livro nomeia o plano Bresser e o plano verão e declara que já não fazem parte de sua história
Cada linha responde a uma pergunta que a questão de vestibular costuma fazer sobre o Plano Cruzado.

Fontes

  1. FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
  2. SOLA, Lourdes. Estado, Mercado e Democracia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.
  3. SINGER, Paul. O Dia da Lagarta: democratização e conflito distributivo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1990.
  4. BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Os Tempos Heroicos de Collor e Zélia. São Paulo: Nobel, 1991.