O golpe de 1964 e o AI-1
O golpe não fechou o Congresso. Manteve-o aberto, manteve a Constituição de 1946 no papel e mudou o país por decreto — e essa combinação de fachada legal com poder de exceção viraria a marca dos vinte e um anos seguintes.

O Jornal do Brasil de 31 de março de 1964 · 1964 · Wikimedia Commons · Public domain
O golpe de 1964 fechou o Congresso Nacional? Não fechou — e é justamente aí que está a chave para entender os vinte e um anos seguintes.
O regime que se instalou em abril de 1964 preferiu governar por cima das instituições sem removê-las. Manteve a Constituição de 1946, manteve o Congresso funcionando e passou a mudar o país por decreto. Fausto trata essa combinação como uma das características do regime militar, e não como detalhe de transição.1
Os últimos treze dias
Depois do comício em que Jango anunciou as reformas, a resposta veio das ruas — do outro lado. Em 19 de março de 1964, cerca de 500 mil pessoas desfilaram em São Paulo na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, convocada a partir de associações de senhoras católicas próximas à Igreja conservadora. A marcha demonstrou o que faltava provar: quem defendia um golpe tinha base social organizada para sustentá-lo.1

Marcha da Família com Deus pela Liberdade · 2023 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Veio então o abalo dentro da caserna. A Associação dos Marinheiros ganhava peso reivindicando direitos e vencimentos melhores, e quem a liderava era o cabo Anselmo — que viria a ser informante do Cenimar, o serviço de informações da Marinha, ou já o seria àquela altura, conforme alguns relatos.1
O gesto final de Jango, Fausto o classifica como perigoso: o presidente foi discursar, no Rio, diante de uma assembleia de sargentos. A essa altura, porém, o golpe já estava em marcha.1

Reunião de sargentos no Automóvel Clube, 30 de março de 1964 · 1964 · Wikimedia Commons · Public domain
Quem o precipitou foi o general Olímpio Mourão Filho, o mesmo oficial envolvido no episódio do Plano Cohen em 1937. Em 31 de março, com apoio do governador Magalhães Pinto, mobilizou as tropas sob seu comando em Juiz de Fora e as deslocou rumo ao Rio de Janeiro.1
A resistência não se organizou. Brizola tentou no Sul o que dera certo em 1961 — pôr tropa e povo na rua —, e desta vez não funcionou. No fim de abril exilou-se no Uruguai, onde Jango já se encontrava.1
Encerrava-se a experiência democrática de 1945 a 1964. E Fausto marca o que ali era inédito: era a primeira vez que os militares brasileiros assumiam o governo pretendendo ficar, e não devolvê-lo a civis em seguida.1
O que já vinha se armando
Nada disso brotou em março. Nos meios militares a conspiração contra Jango vinha crescendo, alimentada pelos partidários de uma “intervenção defensiva” contra o que chamavam de excessos do governo. E ela havia alcançado o topo: entre os conspiradores estava o homem que chefiava o Estado-Maior do Exército, o general Humberto de Alencar Castelo Branco.1
Dois episódios de 1963 ajudam a explicar essa adesão. Em setembro, cabos e sargentos da Marinha e da Aeronáutica se revoltaram em Brasília depois de o Supremo Tribunal Federal confirmar que sargento não podia ser eleito. Os rebelados chegaram a ocupar prédios públicos, controlar as comunicações e prender oficiais, até serem vencidos. Para a cúpula, aquilo era quebra de hierarquia — e empurrou o grupo para a conspiração.1
Em outubro de 1963 veio a última grande paralisação operária antes da queda, e ela não tinha motivação estritamente política: a greve dos 700 mil, em São Paulo, alcançou metalúrgicos, químicos e o setor de papel e papelão. Os trabalhadores obtiveram vitória parcial, com 80% de aumento, mas não conseguiram unificar os acordos salariais futuros. O reajuste seria rapidamente devorado pela inflação — e o fantasma da hiperinflação passou a ser agitado pelos golpistas como prova de que o país caminhava para o precipício.1
Vale registrar quem estava do outro lado além dos quartéis. A boa parte da UDN foi se alinhando aos oficiais que queriam derrubar Jango, e nomes do partido povoaram a Ação Democrática Parlamentar, agrupamento de extrema direita no Congresso. Foram esses círculos que, segundo Fausto, incentivaram e promoveram o golpe que encerrou o regime nascido em 1945.
9 de abril: o AI-1
Na versão que os vencedores deram de si mesmos, o movimento de 31 de março existia para varrer a corrupção, barrar o comunismo e devolver a democracia ao país. O que o novo regime fez foi outra coisa: passou a reescrever as instituições por decreto. Esses decretos ganharam nome — Atos Institucionais — e uma justificativa sob medida: emanariam de um poder constituinte que seria, dizia o texto, “inerente a todas as revoluções”.1
O AI-1 saiu em 9 de abril de 1964, assinado pelos três comandos militares — Exército, Marinha e Aeronáutica —, e não pelo presidente, o que já diz de onde vinha o poder real. E aqui está o traço que responde à pergunta de abertura: o ato manteve formalmente a Constituição de 1946, com várias modificações, e manteve o Congresso em funcionamento.1
Sob essa fachada, criou os poderes de exceção. Veio o expurgo no serviço público e vieram as bases dos Inquéritos Policial-Militares, os IPMs. Ficava sujeito a eles quem fosse acusado de atentar contra o Estado, seu patrimônio ou a ordem política e social — ou de praticar o que o texto chamou de “atos de guerra revolucionária”. Munido desses poderes, o regime começou a caçar seus adversários, com prisão e tortura.1
Fausto faz questão de marcar, porém, que o sistema ainda não era inteiramente fechado: os tribunais seguiam concedendo habeas corpus, e a imprensa ainda escrevia com relativa liberdade. Isso mudaria — e a comparação com o que viria depois de 1968 é justamente o que dá sentido à ressalva.1
Onde a repressão bateu primeiro
Os estudantes, que haviam tido papel de relevo no período Goulart, foram alvo especial. Logo no dia 1º de abril a sede carioca da UNE foi invadida e queimada; dissolvida a entidade, restou-lhe atuar na clandestinidade. As universidades vieram em seguida: a Universidade de Brasília, nascida com projeto renovador e vista como subversiva pelos militares, foi invadida um dia depois do golpe.1
A violência maior, porém, não foi urbana. Fausto é explícito: foi no campo que a repressão bateu mais forte, e sobretudo no Nordeste, tendo como vítimas principais pessoas ligadas às Ligas Camponesas.1
Na cidade, o alvo foi a estrutura sindical: sindicatos e federações sofreram intervenção e dirigentes foram presos. A escolha seguiu o tamanho — 70% das organizações com mais de 5 mil membros foram atingidas, ou seja, mira dirigida a quem tinha real capacidade de mobilizar.1

A deposição do governo Goulart, abril de 1964 · 1964 · Wikimedia Commons · Public domain
Os expurgos, em números
Ainda em 1964, os expurgos alcançaram 49 juízes. No Congresso, 50 parlamentares perderam o mandato — e a composição da primeira leva diz muito: dos 40 deputados cassados na lista inicial, o PTB vinha na frente, com 18.1
Governadores também caíram. Perderam o mandato Miguel Arraes, de Pernambuco, e Seixas Dória, de Sergipe — este último, note-se, eleito pela UDN, o partido que apoiara o golpe. Com Mauro Borges, de Goiás, o caso foi outro. Filiado ao PSD, ele só caiu em novembro de 1964, e o AI-1 já estava vencido; a saída foi fazer o Congresso aprovar uma intervenção federal no estado.1

A intervenção federal em Goiás, novembro de 1964 · 1964 · Wikimedia Commons · Public domain
Entre os que tiveram mandato cassado ou direitos políticos suspensos, além dos nomes previsíveis de Jango e Brizola, estavam Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek, então senador por Goiás. No caso de Juscelino, observa Fausto, a intenção era nítida: eliminar um candidato civil de prestígio das eleições presidenciais seguintes.1
LembreO golpe cassou apenas políticos de esquerda?
Não. Além de Jango e Brizola, foram atingidos Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek, e um dos governadores cassados, Seixas Dória, fora eleito pela UDN — partido que apoiara o movimento. O critério não era só ideológico: era também eliminar concorrência civil.
Junho de 1964: o SNI
A peça mais duradoura do ano não foi um ato, foi um órgão. Em junho de 1964 criou-se o Serviço Nacional de Informações. Quem o concebeu e o chefiou primeiro foi o general Golbery do Couto e Silva.1
O objetivo declarado era coletar e analisar informações sobre segurança nacional, contra-informação e subversão interna. Na prática, avalia Fausto, o SNI virou um polo de poder capaz de rivalizar com o próprio Executivo, agindo por conta própria na chamada luta contra o inimigo interno. Anos mais tarde, o próprio Golbery tentaria justificar-se dizendo que criara um monstro sem querer.1
Faltava o presidente. O AI-1 previra escolha indireta, pelo Congresso Nacional, e o eleito, em 15 de abril de 1964, foi o general Humberto de Alencar Castelo Branco. Fixaram-lhe o mandato até janeiro de 1966 — prazo que, como se veria, também não seria respeitado.1
- O Congresso não foi fechado em 1964 — o AI-1 manteve formalmente a Constituição de 1946 e o funcionamento do Congresso. Governar por decreto sem remover as instituições é, para Fausto, uma característica do regime — e o erro de dizer que o Congresso foi fechado em abril de 1964 compromete a resposta inteira.
- Quem assinou o AI-1 — os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica — não o presidente da República, que só seria eleito seis dias depois. A autoria do ato indica onde estava o poder de fato.
- As cassações não pouparam a direita civil — além de Jango e Brizola, foram atingidos Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek; entre os governadores cassados estava Seixas Dória, eleito pela UDN. No caso de JK, Fausto aponta a intenção de cortar um candidato civil de prestígio.
- Onde a repressão foi mais violenta — no campo, sobretudo no Nordeste, atingindo gente ligada às Ligas Camponesas. A repressão urbana a estudantes e sindicatos é a mais lembrada, mas não é a que Fausto classifica como a mais violenta.
- Uma lacuna que este artigo não preenche — números totais de mortos e desaparecidos do regime não aparecem aqui porque a fonte principal deste artigo não os fornece. Para essa contabilidade, a referência são os relatórios de comissões de investigação, não um manual de história geral.
- “Deixou de ser sistemática” é avaliação, não fato bruto — Fausto afirma que, após a investigação arquivada de 1964, a tortura deixou de ser prática sistemática naquele momento. É uma avaliação do autor sobre uma fase específica — e o período posterior a 1968 mostra que a interrupção não se manteve.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De março a novembro de 1964, em sete marcos
O que o AI-1 manteve e o que ele criou
O que convergiu, e o que o golpe instalou
Os expurgos de 1964
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Marcha da Família | 19 de março de 1964, São Paulo, cerca de 500 mil pessoas |
| Quem organizou | associações de senhoras católicas ligadas à Igreja conservadora |
| Crise na caserna | Associação dos Marinheiros, liderada pelo cabo Anselmo, e a assembleia de sargentos |
| Estopim | 31 de março de 1964 — Mourão Filho move as tropas de Juiz de Fora, com apoio de Magalhães Pinto |
| Resistência | Brizola falha em repetir 1961 no Rio Grande do Sul; exila-se no Uruguai em fins de abril |
| Novidade histórica | pela primeira vez os militares tomam o poder com a intenção de nele permanecer |
| Antecedente de 1963 | revolta de sargentos e cabos em Brasília, contra decisão do STF sobre elegibilidade |
| Greve dos 700 mil | outubro de 1963, São Paulo; 80% de aumento, logo devorado pela inflação |
| Apoio civil | a maioria da UDN e a ultraconservadora Ação Democrática Parlamentar |
| AI-1 | 9 de abril de 1964, assinado pelos comandantes das três forças |
| O que o AI-1 manteve | a Constituição de 1946, com modificações, e o Congresso em funcionamento |
| O que o AI-1 criou | cassações, expurgo no serviço público, base dos IPMs e eleição indireta do presidente |
| Limites da fase | ainda havia habeas corpus nos tribunais e imprensa relativamente livre |
| Investigação sobre tortura | determinada por Castelo Branco após denúncias do Correio da Manhã, a cargo de Geisel; arquivada por insuficiência de provas |
| Alvos estudantis | sede da UNE invadida e incendiada em 1º de abril; UnB invadida um dia após o golpe |
| Repressão mais violenta | no campo, sobretudo no Nordeste, contra gente ligada às Ligas Camponesas |
| Sindicatos | intervenção em 70% das organizações com mais de 5 mil membros |
| Expurgos de 1964 | 49 juízes e 50 parlamentares; 18 dos 40 deputados da primeira lista eram do PTB |
| Governadores cassados | Miguel Arraes (PE) e Seixas Dória (SE, eleito pela UDN); Mauro Borges (GO) deposto em novembro por intervenção federal |
| Outros atingidos | Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek — neste caso, para cortar um candidato civil de prestígio |
| SNI | junho de 1964, sob Golbery do Couto e Silva; vira centro de poder quase tão forte quanto o Executivo |
| Eleição de Castelo Branco | 15 de abril de 1964, indireta pelo Congresso, com mandato até 31 de janeiro de 1966 |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- GASPARI, Elio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
- REIS, Daniel Aarão. Ditadura Militar, Esquerdas e Sociedade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
- DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado. Petrópolis: Vozes, 1981.