O governo Figueiredo e a anistia
A oposição pedia anistia havia anos. Em agosto de 1979 ela veio — e, na mesma frase que libertava presos e trazia exilados de volta, alcançava também quem havia torturado.

Retrato oficial de João Figueiredo · 1979 · Wikimedia Commons · Public domain
Como se tira uma bandeira das mãos do adversário? Aprovando-a — com uma cláusula a mais. É o que aconteceu com a anistia, em agosto de 1979.
A luta pela anistia era, havia anos, uma das principais bandeiras da oposição. Figueiredo a atendeu e, ao atendê-la, desarmou-a. A lei aprovada pelo Congresso trazia restrições e embutia uma concessão de peso à linha-dura.1
O general que veio do SNI
Ao contrário dos antecessores, Geisel conseguiu emplacar seu sucessor. O escolhido foi o general João Batista Figueiredo, com Aureliano Chaves, ex-governador de Minas, na vice. No Colégio Eleitoral reunido em 14 de outubro de 1978, a chapa bateu a oposicionista, que reunia o general Euler Bentes Monteiro e o senador gaúcho Paulo Brossard.1
Fausto observa, porém, que essa não foi a vitória que importou. A disputa decisiva de Geisel se deu dentro das Forças Armadas: o ministro do Exército Sylvio Frota lançara a própria candidatura como porta-voz da linha-dura, começando a articular em maio de 1977 — antes do calendário previsto — e acusando o governo de ser complacente com subversivos. Geisel respondeu demitindo-o do ministério e interrompendo sua escalada.1
Quanto ao escolhido, o currículo é revelador: Figueiredo chefiara o Gabinete Militar sob Médici e dirigira o SNI sob Geisel. Parecia, por isso mesmo, talhado para prosseguir na abertura lenta e ao mesmo tempo neutralizar a linha-dura — e era, nas palavras de Fausto, um dos paradoxos da liberalização brasileira.1

Figueiredo sobe a rampa do Congresso na posse · 1979 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
Agosto de 1979: a anistia
O texto aprovado anistiava, na fórmula que o próprio Fausto destaca, “crimes de qualquer natureza relacionados com crimes políticos ou praticados por motivação política”. Uma redação assim ampla tinha um efeito que não passou despercebido a ninguém: ela abrangia também os responsáveis pela prática da tortura.1
E, ainda assim, Fausto não descarta o ganho. A mesma lei permitiu que os exilados políticos voltassem e representou um passo importante na ampliação das liberdades. As duas leituras convivem, e uma resposta boa sobre o assunto segura as duas.1
O que já mudara em janeiro
A anistia chegou a um país que, meses antes, já havia perdido o instrumento mais duro do regime. Com a revogação do AI-5, cidadãos voltaram a se manifestar com relativa liberdade e os controles sobre a imprensa desapareceram.1
Mas a mesma emenda que devolveu garantias criou outra coisa. Ao lado do estado de sítio, que já existia, surgiram as chamadas “salvaguardas”: o Executivo passou a poder decretar estado de emergência e medidas de emergência — estas últimas aplicáveis a locais determinados, para restabelecer a ordem pública em caso de calamidade ou de graves perturbações. Foi por causa dessas ressalvas que o MDB se absteve na votação.1
Ficava assim desenhado o limite do período: a oposição tinha campo de manobra, mas não podia alcançar seu objetivo lógico, que era chegar ao poder.1
A abertura sob ataque
A liberalização foi perturbada o tempo todo pela ação da linha-dura, e a lista de atentados registrada por Fausto é concreta. Explodiram bombas em redações de jornais oposicionistas e também na Câmara Municipal do Rio. O presidente da OAB recebeu uma carta-bomba, que detonou na sede da entidade e matou a secretária. E houve sequestros de figuras ligadas à Igreja, entre elas o bispo de Nova Iguaçu, Dom Adriano Hipólito, e o jurista Dalmo Dallari.1
É nesse contexto que aparece o episódio do Riocentro. Sobre ele, Fausto registra uma coisa e apenas uma: Figueiredo contemporizou com a linha-dura no caso. O que a fonte deste artigo não fornece é a narrativa dos fatos nem o desfecho da apuração — e essa ausência não é detalhe editorial.
Vale separar duas coisas que costumam se confundir. Uma é o que aconteceu; outra é o que foi oficialmente estabelecido. No caso do Riocentro, a fonte usada aqui sustenta a postura do governo — a contemporização com a linha-dura — mas não descreve o episódio. Este artigo, por isso, não narra o caso. Quando um assunto chega ao estudante cercado de versões, saber de onde vem cada afirmação vale mais que decorar uma delas.
Dezembro de 1979: acabam Arena e MDB
Para enfraquecer a oposição, o governo obteve do Congresso, ainda em dezembro de 1979, a Nova Lei Orgânica dos Partidos. Ela extinguiu MDB e Arena e exigiu que as novas legendas trouxessem a palavra “partido” no nome.1
A reação dos dois lados é quase cômica e diz muito. A Arena, cujo nome era impopular, aproveitou para trocar de fachada e virou PDS. Já os dirigentes do MDB tiveram a esperteza de apenas acrescentar a palavra exigida, preservando a sigla conhecida: nasceu o PMDB.1
O cálculo do governo, no entanto, tinha fundamento. Os tempos de oposição unida haviam passado: as várias tendências permaneceram juntas enquanto existia um inimigo comum todo-poderoso, e, à medida que o regime se abria, as diferenças ideológicas e pessoais começaram a aparecer.1
LembrePor que Arena e MDB deixaram de existir em 1979?
Por uma lei do próprio governo — a Nova Lei Orgânica dos Partidos, de dezembro de 1979 —, cujo objetivo era fragmentar a oposição. A Arena, com nome desgastado, virou PDS; o MDB apenas somou a palavra exigida e virou PMDB.
O ABC entra na conta
A pressão social mais nova do período não veio dos partidos. Sua origem está numa confissão do governo: em agosto de 1977, admitiu-se que os índices oficiais de inflação de 1973 e 1974 haviam sido manipulados. Como esses índices regulavam os reajustes, o cálculo da perda apareceu: 31,4% do salário real.1
O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema abriu campanha pela correção, e daí saíram as grandes greves de 1978 e 1979, que mobilizaram milhões de trabalhadores. Foi nesse cotidiano e nas assembleias do estádio da Vila Euclides que se afirmou a liderança de Luís Inácio da Silva, presidente do sindicato.1
As reivindicações combinavam pauta econômica e política: aumento salarial, garantia de emprego, reconhecimento das comissões de fábrica e liberdades democráticas. A extensão do movimento em 1979 desmentiu a tese conservadora de que São Bernardo seria um mundo à parte.1
Ainda assim, o sindicalismo do ABC nasceu com marcas próprias, e Fausto lista três: maior independência diante do Estado, um índice alto de organização — em torno de 1978, 43% da categoria estava sindicalizada — e a afirmação de líderes fora da influência da esquerda tradicional.1
1982: o voto vinculado e as urnas
O calendário previa eleições para novembro de 1982, e Figueiredo o manteve — obtendo do Congresso, ao mesmo tempo, medidas para cortar as asas da oposição. A principal foi o voto vinculado: o eleitor ficava obrigado a manter uma só legenda do vereador ao governador, sob pena de ter o voto anulado. A regra favorecia o PDS, mais forte no plano municipal, na aposta de que o voto para vereador puxaria os demais.1
Não funcionou onde mais importava. Nas disputas por governo estadual, as oposições fizeram vitórias expressivas: o PMDB elegeu Franco Montoro em São Paulo, Tancredo Neves em Minas e José Richa no Paraná; no Rio de Janeiro venceu Brizola, e uma tentativa de fraudar a contagem de votos pelos computadores foi descoberta pelo PDT e fracassou. O PDS, por sua vez, triunfou na maioria dos estados e bateu os adversários em dois redutos oposicionistas: Rio Grande do Sul e Pernambuco. No caso gaúcho, ajudou a divisão entre PMDB e PDT.1
Diretas Já, e a derrota
Em 1983, o PT elegeu como prioridade a campanha por eleições diretas para presidente e, pela primeira vez, aceitou compor uma frente com outros partidos. A cúpula nacional do PMDB tomou a mesma decisão em junho.1
Dali em diante o movimento ultrapassou as organizações partidárias e virou quase unanimidade nacional. As ruas do Rio e de São Paulo receberam milhões de pessoas, com um entusiasmo raramente visto no país.1

Sócrates em ato pelas Diretas Já · 1984 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0
Fausto faz aqui uma leitura que vale reter, porque é ao mesmo tempo elogiosa e crítica: a campanha expressava a vitalidade da manifestação popular e, junto, a dificuldade dos partidos para exprimir reivindicações. A população depositava nas diretas todas as suas esperanças — não só a de uma representação autêntica, mas também a solução de problemas como salário baixo, segurança e inflação, que eleger um presidente diretamente não resolveria sozinho.1

Tancredo Neves e Ulysses Guimarães nas Diretas Já · 2010 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
E havia uma distância entre a rua e o Congresso, onde o PDS tinha maioria. A eleição direta exigia alteração constitucional, isto é, dois terços dos votos — o que obrigava muitos congressistas do PDS a votar a favor. A proposta levava o nome de quem a apresentou — Dante de Oliveira, deputado do PMDB por Mato Grosso — e entrou para a história como Emenda Dante de Oliveira.1
A votação, em 25 de abril de 1984, ocorreu sob estado de emergência imposto por Figueiredo em Brasília e executado pelo general Newton Cruz — que tentou impedir um buzinaço saindo a cavalo pelas ruas e chicoteando o capô dos automóveis. A emenda não passou.1

Manifestação pelas diretas na Câmara dos Deputados · 2010 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
Abertura e crise, ao mesmo tempo
Resta o paradoxo econômico, e Fausto o trata como uma lição de método. O período combinou dois traços que muita gente julgava incompatíveis: ampliar a abertura e, ao mesmo tempo, afundar na crise econômica. Esperava-se que as dificuldades gerassem conflito social e, com ele, novos controles autoritários. O erro desse raciocínio, escreve ele, estava em fazer da política simples decorrência da economia.1
Os números explicam por que a expectativa parecia razoável. Em agosto de 1979, Simonsen deixou o Planejamento e Delfim Netto assumiu, prestigiado como o homem do milagre. Só que o cenário era outro: veio um segundo choque do petróleo, as taxas internacionais de juros seguiram subindo e obter novos empréstimos ficou cada vez mais difícil, com prazos que se estreitavam.1
O balanço final é duro. Quando Figueiredo deixou o governo, no início de 1985, havia alívio financeiro temporário e o país voltara a crescer — mas a inflação, que em 1978 era de 40,8%, fechou 1984 em 223,8%, e a dívida externa subira de 43,5 para 91 bilhões de dólares.1
- A anistia valeu para os dois lados — ao anistiar crimes de qualquer natureza relacionados a crimes políticos ou praticados por motivação política, a lei de agosto de 1979 alcançou também os responsáveis pela tortura. Ela permitiu a volta dos exilados e ampliou liberdades — as duas coisas são verdadeiras.
- As Diretas Já perderam — a Emenda Dante de Oliveira foi derrotada em 25 de abril de 1984, porque dependia de dois terços do Congresso e o PDS tinha maioria. A eleição seguinte ainda seria indireta.
- Riocentro: limite de fonte declarado — o material usado aqui registra que Figueiredo contemporizou com a linha-dura no episódio, mas não narra os fatos nem o resultado da apuração. Este artigo não completa a lacuna — e distinguir o que foi estabelecido do que nunca foi apurado é parte do assunto, não um detalhe dele.
- Abertura e crise não se excluem — Fausto usa o período para desmontar a ideia de que a política decorre da economia: a liberalização avançou justamente enquanto a inflação disparava e a dívida externa dobrava.
- Quem acabou com o bipartidarismo foi o governo — a Nova Lei Orgânica dos Partidos, de dezembro de 1979, extinguiu Arena e MDB para fragmentar a oposição. A Arena virou PDS; o MDB apenas acrescentou a palavra exigida e virou PMDB.
- A violência do regime continuou na abertura — bombas em jornais de oposição e na Câmara Municipal do Rio, uma carta-bomba que matou a secretária da OAB e sequestros de Dom Adriano Hipólito e Dalmo Dallari. Abertura não significou fim da violência de Estado.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De 1978 a 1984, em sete marcos
Os dois lados da anistia
O que permitiu continuar, e o que o período produziu
A inflação no período Figueiredo
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Eleição | Colégio Eleitoral de 14 de outubro de 1978; vice, Aureliano Chaves |
| Chapa derrotada | general Euler Bentes Monteiro e senador Paulo Brossard, pelo MDB |
| A disputa que importou | dentro das Forças Armadas: Geisel demitiu o ministro Sylvio Frota e cortou sua candidatura |
| Currículo de Figueiredo | Gabinete Militar sob Médici e chefia do SNI sob Geisel |
| Condutores da abertura | o general Golbery e o ministro da Justiça Petrônio Portela |
| Anistia | agosto de 1979, aprovada pelo Congresso |
| Fórmula da lei | crimes de qualquer natureza relacionados a crimes políticos ou praticados por motivação política |
| O que ela concedeu | alcançou também os responsáveis pela tortura |
| O que ela abriu | volta dos exilados políticos e ampliação das liberdades |
| Salvaguardas | estado de emergência e medidas de emergência, ao lado do estado de sítio; o MDB se absteve |
| Violência da linha-dura | bombas em redações e na Câmara do Rio; carta-bomba à OAB mata a secretária; sequestros de Dom Adriano Hipólito e Dalmo Dallari |
| Riocentro | a fonte registra que Figueiredo contemporizou com a linha-dura, sem narrar os fatos nem a apuração |
| Fim do bipartidarismo | dezembro de 1979: Arena vira PDS e MDB vira PMDB |
| Origem das greves do ABC | manipulação admitida dos índices de 1973 e 1974, com perda de 31,4% do salário real |
| Greves de 1978 e 1979 | milhões de trabalhadores; liderança de Lula nas assembleias da Vila Euclides |
| Marcas do sindicalismo do ABC | independência diante do Estado, 43% de sindicalizados em 1978 e líderes fora da esquerda tradicional |
| Voto vinculado | obriga uma só legenda do vereador ao governador; favorecia o PDS |
| Eleições de 1982 | Montoro em SP, Tancredo em MG, Richa no PR e Brizola no RJ; PDS vence em PE e no RS |
| Diretas Já | PT e PMDB puxam a campanha em 1983; vira quase unanimidade nacional |
| Emenda Dante de Oliveira | votada em 25 de abril de 1984 e derrotada, sob estado de emergência em Brasília |
| Balanço econômico | inflação em 40,8% no ano de 1978 e em 223,8% no de 1984; dívida externa de 43,5 a 91 bilhões de dólares |
| A lição de método | abertura e crise conviveram — a política não é simples decorrência da economia |
Fontes
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: Edusp. Fonte principal deste artigo.
- GASPARI, Elio. A Ditadura Acabada. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2016.
- SADER, Eder. Quando Novos Personagens Entraram em Cena. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
- KUCINSKI, Bernardo. Abertura, a História de uma Crise. São Paulo: Brasil Debates, 1982.