China: Zhou, Qin e Han
Em 213 a.C., um ministro propôs queimar todos os livros de história que não fossem os do próprio Estado, e o imperador respondeu com uma palavra: aprovado. Como três dinastias chinesas responderam à mesma pergunta — o que dá a alguém o direito de governar — e por que a resposta dos livros queimados acabou vencendo.

Fileiras de soldados de terracota na fossa 1 do túmulo do Primeiro Imperador, Xi'an · 2015 · Wikimedia Commons · CC BY 3.0
Por que uma dinastia cai? Para os chineses da Antiguidade a resposta não era “perdeu a guerra”, e sim “perdeu o direito”. Quem dá esse direito, e como se sabe que ele foi perdido?
A pergunta atravessa mil anos de história chinesa e organiza este artigo. Os Zhou formularam uma resposta; a crise do fim da dinastia produziu três propostas rivais; os Qin apostaram em uma delas com uma violência que ficou famosa; e os Han fizeram a escolha que marcaria a China até o século XX.
O ponto de partida são documentos de época em traduções hoje livres de direitos — clássicos confucianos, o Tao Te King, o relato de Sima Qian sobre a queima dos livros — e as notas de Paul Halsall, editor do Internet East Asian History Sourcebook, mantido pela Universidade Fordham. Obra de síntese, aqui, não houve. Várias traduções modernas que o próprio Sourcebook indica são protegidas e ficaram de lado, e com elas parte do assunto. Leia o que segue como provisório.
Um aviso sobre as dinastias
Quase todo livro divide a história chinesa por dinastias, e este artigo também o faz. Mas o editor do Sourcebook, ao montar sua cronologia, aponta três problemas no método: ele sugere mudanças onde a vida comum não mudou; sugere continuidades que não existiram — dizer que a queda dos Qing, em 1911, encerrou “mais de dois mil anos de império” esconde transformações profundas; e, por contar a história da elite política, deixa de lado a economia e a agricultura.2 Ele avisa também que as datas mais antigas variam de autor para autor. Para os Zhou, dá duas: começo em 1111 ou em 1027 a.C.2
Para enxergar além da lista de nomes, Halsall resume a periodização do historiador Jacques Gernet, que pensa em formas de poder.2 Entre c. 900 e c. 500 a.C., um sistema de cidades aristocráticas, ligadas por parentesco e culto, ora aliadas, ora rivais. Entre c. 500 e 220 a.C., uma crise dessa sociedade de nobres, resolvida pela criação de um Estado centralizado que suprime os chefes locais e se apoia diretamente no campesinato, fonte de riqueza e de soldados. A partir de 220 a.C., esse Estado se estende pela conquista de todos os antigos reinos.
O Mandato do Céu
A resposta dos Zhou à pergunta inicial está num dos textos mais antigos da tradição, o Shu Jing, ou Clássico da História, que Halsall data do século VI a.C. e reproduz sob o título The Mandate of Heaven.3 O trecho é um conselho dado a um rei jovem pelo ministro Yi Yin.
A lição é uma história de dinastias. Os antigos reis Xia cultivaram a virtude, e não houve calamidades. Seu descendente abandonou o exemplo, e “o grande Céu fez descer calamidades”, usando como instrumento o fundador dos Shang, que substituiu a opressão pela brandura e ganhou o coração de milhões.3 Daí o aviso ao herdeiro, que resume a doutrina inteira: “os caminhos do Céu não são invariáveis: sobre quem faz o bem ele derrama todas as bênçãos, e sobre quem faz o mal, todas as misérias”.3
Duas consequências decorrem daí. A primeira: o trono não é propriedade de uma família; é uma concessão, e se revoga. A segunda, mais perigosa para quem governa: se a dinastia caiu, é porque já tinha perdido a virtude. A vitória do rebelde vira prova de que o Céu estava com ele. O texto lista até os comportamentos que arruínam um Estado — festas e cantoria bêbada no palácio, apego à riqueza e às mulheres, desprezo pelos sábios — e manda marcar a ferro o ministro que não corrigir o soberano.3
LembreSegundo o Shu Jing, por que os Xia perderam o poder?
Porque o descendente dos antigos reis abandonou a virtude, e o Céu mandou calamidades, usando o fundador dos Shang como instrumento. O Céu não garante o trono a uma família: favorece quem governa bem e castiga quem governa mal. É a lógica do Mandato do Céu.
A crise e três respostas
Pela cronologia do editor, os Zhou do Oeste dão lugar aos Zhou do Leste em 771 a.C., e o período final recebe dois nomes: Primaveras e Outonos (722-481 a.C.) e Reinos Combatentes (480-222 a.C.).2 A história dos Han Anteriores, citada por Legge, descreve essa fase como um tempo em que, depois da morte de Confúcio, “verdade e falsidade” também estavam em guerra.5 Da desordem saíram respostas diferentes à pergunta de como governar.
Confúcio: a virtude que se irradia
Confúcio nasceu em 551 a.C. (ou 550, conforme a fonte chinesa seguida) e morreu em 479 a.C., segundo Legge.5 Nos Analectos, a coletânea de suas falas, quem governa pela virtude é comparado à estrela polar, que fica parada enquanto as outras giram em torno dela.4 E o contraste com o governo pela punição é explícito: “se o povo for conduzido por leis e mantido na ordem por castigos, tentará escapar do castigo, mas não terá vergonha; se for conduzido pela virtude e pelas regras do decoro, terá vergonha e, além disso, se tornará bom”.4
Ordem, para Confúcio, é cada um ocupar o próprio papel. Ao duque que lhe pergunta sobre governo, responde que há governo quando o príncipe é príncipe e o ministro é ministro, o pai é pai e o filho é filho. A piedade filial não se reduz a sustentar os pais — cães e cavalos também recebem sustento —, mas exige reverência. E a regra para a vida inteira cabe numa palavra, reciprocidade: não fazer aos outros o que não se quer para si.4

Confúcio ensinando, em imagem atribuída a Wu Daozi (dinastia Tang) · 0 · Wikimedia Commons · Public domain
Um século depois, Mêncio, nascido em 372 a.C. segundo a introdução de Wilson, levou a cobrança aos palácios.7 A um rei que culpava o mau ano pela fome, respondeu que isso era como matar um homem a facadas e dizer “não fui eu, foi a arma”; perguntou se havia diferença entre matar com uma espada e matar com medidas de governo; e lembrou que, enquanto os estábulos tinham cavalos gordos, o povo morria de fome nos campos.7
Laozi: governar menos
A segunda resposta vem do Tao Te King, atribuído a Laozi, que o Sourcebook data, com dupla interrogação, do século V a.C.1 Aqui o diagnóstico se inverte: o excesso de governo é a doença. “Quanto mais se exibe a legislação, mais ladrões e salteadores existem”, diz o capítulo 57; e o 75 atribui a fome do povo à multidão de impostos consumidos pelos superiores.6 O ideal descrito no capítulo 80 é um Estado pequeno, de pouca gente, com barcos e armas que ninguém precisa usar.
Qin: uma só autoridade
A terceira resposta venceu primeiro. O Sourcebook agrupa sob o rótulo legalismo os textos de Han Fei, morto em 233 a.C., e a política do Estado de Qin.1 Em 221 a.C., Qin conquistou os demais reinos e criou o primeiro império unificado; seu rei tornou-se Qin Shi Huangdi, o Primeiro Imperador.2
213 a.C.: aprovado
O episódio que melhor revela a lógica de Qin está nos Registros Históricos de Sima Qian, num trecho que o sinólogo James Legge traduziu por inteiro.5 Num banquete no palácio de Xianyang, setenta letrados da corte saúdam o imperador. Um ministro o lisonjeia por ter transformado os principados em províncias e distritos. Um letrado protesta: as dinastias antigas davam domínios aos filhos e irmãos do rei, e um governo que não segue o modelo da Antiguidade não dura.
Quem responde é o primeiro-ministro, Li Si. Cada época, diz ele, teve seu sistema; agora as leis e ordens “emanam de uma só autoridade suprema”. O povo deve se dedicar à lavoura, e os letrados, às leis — mas eles estudam a Antiguidade para condenar o presente e espalham murmúrio pelas ruas.5 A proposta vem em seguida: queimar os registros dos historiadores, salvo os de Qin; entregar às autoridades, para o fogo, as cópias dos clássicos de poesia e de história; executar quem discutir esses livros; punir com a morte, junto com os parentes, quem usar o passado para criticar o presente. Quem não queimasse seus livros em trinta dias seria marcado a ferro e mandado trabalhar na muralha por quatro anos. Só escapavam os livros de medicina, de adivinhação e de agricultura.5
A decisão imperial, registra o texto, foi uma palavra: “Aprovado”.5 No ano seguinte, mais de 460 letrados acusados de violar as proibições foram enterrados vivos. O filho mais velho do imperador, Fusu, protestou — e foi mandado para longe, para junto do general que dirigia a construção da grande muralha.5

Qin Shi Huangdi em retrato imaginado de um álbum de imperadores do século XVIII · 0 · Wikimedia Commons · Public domain
Legge não se limitou a traduzir. Lembrou que o édito poupava o livro de adivinhação e as cópias guardadas pelos letrados da corte; que o imperador morreu em 210 a.C., três anos depois da ordem; que o grande incêndio da capital, no saque de 206 a.C., deve ter destruído tanto quanto o édito; e que entre a ordem e a ascensão dos Han passaram só onze anos. Concluiu que o dano “não pode ter chegado perto de uma destruição completa”.5 É uma avaliação de historiador do século XIX, não um fato — mas mostra que o episódio mais famoso da dinastia pede leitura crítica.
Os Han: a dinastia que guardou os livros
O império de Qin durou pouco: a cronologia do editor o encerra em 206 a.C., e os Han governam dali até 220 d.C., com uma interrupção entre 9 e 23 d.C.2 Legge data o reinado do fundador Han de 202 a.C.5 As capitais, Chang’an e Luoyang.
O que os Han fizeram com a herança de Qin aparece no capítulo sobre literatura da história oficial dos Han Anteriores, que Legge também traduziu. Ali, a queima é descrita como uma calamidade imposta “para manter o povo na ignorância” — e a nova dinastia, como a que se dedicou a remediar o mal: recolheu as tiras e tábuas em que se escrevia, abriu caminho para que os livros fossem trazidos e, no tempo do imperador Wu (140-85 a.C.), criou depósitos e nomeou funcionários para copiá-los.5 Vinte e dois anos depois da ordem de Qin, segundo Legge, o édito contra a posse privada de livros foi formalmente revogado.
Os Han mantiveram as províncias e o poder central de Qin, mas reabilitaram os clássicos que Qin tinha mandado queimar. É a combinação que a periodização de Gernet registra: um Estado centralizado que se estende e dura, até que crises internas, a partir de c. 190 d.C., terminam em anarquia política.2

Édito imperial de 61 a.C. em tiras de bambu, dinastia Han, achado na região de Juyan · 2019 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
- “Céu” não é um deus pessoal à maneira ocidental — no Shu Jing, o Céu concede e retira o favor conforme a virtude do governante. Ler o Mandato do Céu como “direito divino” europeu é anacronismo.
- A lista de dinastias engana — o próprio editor do Sourcebook adverte que a cronologia dinástica inventa rupturas e continuidades e esconde a economia. Use-a como régua, não como explicação.
- Datas antigas variam — o início dos Zhou aparece como 1111 ou 1027 a.C.; o começo dos Han, como 206 a.C. (fim dos Qin) ou 202 a.C. (reinado do fundador, em Legge). Nenhuma das duas está errada: medem coisas diferentes.
- A queima dos livros foi real, a extensão é discutida — o episódio está em Sima Qian e não foi contestado por críticos chineses, segundo Legge; o tamanho do estrago é o que se discute.
- Os retratos não são do natural — as imagens de Confúcio e do Primeiro Imperador que circulam foram feitas muitos séculos depois. Mostram como a tradição os via.
- O que este artigo não usou — várias traduções indicadas pelo Sourcebook (Sima Qian por Burton Watson, Han Fei, Ban Zhao) são protegidas por direitos e ficaram de fora. Isso explica as lacunas abaixo.
A base documental usada aqui é forte em ideias políticas e fraca em quase todo o resto. Não se trata dos Shang nem dos ossos oraculares, da economia agrária, da Rota da Seda, do sistema de recrutamento de funcionários dos Han, da escrita e da técnica do período, nem de Ban Zhao e das mulheres letradas — os textos que o Sourcebook indica para esses temas estão em traduções protegidas ou não existem na seção. A muralha aparece só onde a fonte a menciona. Este artigo deve ser ampliado quando houver obra de síntese em domínio público ou licenciada.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
De Zhou ao fim dos Han
Virtude ou lei: Confúcio e Li Si
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Zhou | início em 1111 ou 1027 a.C.; do Oeste até 771, do Leste até 221 a.C. |
| Mandato do Céu | o Céu favorece o governante virtuoso e castiga o mau; a dinastia que cai perdeu a virtude |
| Primaveras e Outonos | 722-481 a.C. |
| Reinos Combatentes | 480-222 a.C.; crise da sociedade aristocrática |
| Confúcio | 551 (ou 550)-479 a.C.; virtude, decoro, papéis, piedade filial, reciprocidade |
| Mêncio | nascido em 372 a.C.; o governo que deixa o povo morrer de fome também mata |
| Laozi | data incerta; mais leis, mais ladrões; impostos causam fome |
| Legalismo | rótulo do Sourcebook para Han Fei (m. 233 a.C.) e a política de Qin |
| Unificação | 221 a.C.: Qin conquista os reinos e os transforma em províncias e distritos |
| Queima dos livros | 213 a.C., proposta de Li Si; poupados medicina, adivinhação e agricultura |
| Letrados | mais de 460 enterrados vivos no ano seguinte |
| Muralha | destino dos que não queimassem os livros: quatro anos de trabalho |
| Fim de Qin | imperador morre em 210 a.C.; dinastia cai em 206 a.C. |
| Han | 206 a.C.-220 d.C., com interrupção entre 9 e 23 d.C.; capitais Chang’an e Luoyang |
| Política dos livros | recolhidos e copiados; depósitos sob o imperador Wu (140-85 a.C.) |
| Budismo | primeiro texto levado à China c. 67 d.C. |
Fontes
- HALSALL, Paul (ed.). Internet East Asian History Sourcebook. Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/eastasia/eastasiasbook.asp. Introdução e cabeçalhos do editor. Fonte principal deste artigo.
- HALSALL, Paul. “A Brief Chinese Chronology”, com a periodização resumida de Jacques Gernet, A History of Chinese Civilization (1982). Página do editor do Sourcebook (Brooklyn College, via Internet Archive), chron.html.
- Shu Jing (Clássico da História): “The Mandate of Heaven”. Trad. James Legge, The Sacred Books of the East, vol. 3 (Oxford, 1879). Em página de P. Halsall (Brooklyn College, via Internet Archive), shu-jing.html. Usado só o texto de Legge.
- CONFÚCIO. The Analects. Trad. James Legge (The Chinese Classics). Project Gutenberg, e-book nº 3330.
- LEGGE, James. The Chinese Classics — Prolegomena, com a tradução do relato de Sima Qian sobre a queima dos livros (213 a.C.) e o capítulo de literatura da história dos Han Anteriores. Project Gutenberg, e-book nº 2941. Avaliação crítica de Legge atribuída no texto.
- LAOZI. The Tao Teh King. Trad. James Legge. Project Gutenberg, e-book nº 216.
- MÊNCIO. The Sayings of Mencius. Trad. James Legge. In: WILSON, Epiphanius (ed.). Chinese Literature. Nova York: Colonial Press, 1900. Project Gutenberg, e-book nº 10056. Introdução de Wilson atribuída no texto.