Pérsia: o império aquemênida
Vinte satrapias, uma estrada de noventa dias, cartas escritas na língua de cada povo e um rei que mandou gravar numa rocha que não estava mentindo. Como os persas governaram do Egito à Índia, contado por quem os admirava, por quem os temia e por eles mesmos.

Relevo de Behistun: Dario pisa o usurpador derrotado, reinado de Dario I · 2019 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0
Um rei persa mandava suas ordens “a cada província segundo a sua escrita, e a cada povo segundo a sua língua”, de acordo com o livro de Ester.7 Do Egito à Índia, como se mantinha unido um império em que ninguém falava a mesma língua?
Os persas responderam a essa pergunta com quatro instrumentos: uma forma de justificar o poder diante de povos com deuses diferentes, um tributo calculado, uma estrada e uma dose deliberada de tolerância. Antes de ver cada um, é preciso saber quem está contando a história.
Este texto foi montado diretamente sobre documentos de época — Heródoto, o cilindro de Ciro, a inscrição de Behistun, trechos bíblicos — e sobre as notas do editor do Internet Ancient History Sourcebook, da Universidade Fordham. Não há obra de síntese por trás dele. É, por isso, mais provisório que um artigo apoiado em historiografia consolidada.
Quem conta a história da Pérsia
Duas vozes dominam o que chegou até nós por escrito, e nenhuma é neutra. A primeira é grega: Heródoto, que viveu de c. 490 a c. 425 a.C.1 e escreveu sobre um império que os gregos haviam enfrentado em guerra. A segunda é a dos próprios reis persas, que gravavam em argila e em pedra a versão oficial de seus feitos.
Heródoto, ao menos, mostra as costuras. Ao narrar a morte de Ciro, admite que havia muitas versões e que escolheu a que lhe pareceu mais digna de crédito.3 Os reis não fazem isso. É desse cruzamento entre o olhar de fora e a propaganda de dentro que sai o retrato do império.
Ciro: conquistar sem apagar
Segundo Heródoto, os persas eram um povo de muitas tribos, e Ciro reuniu as principais para que se revoltassem contra os medos, que então os dominavam. A família real, os aquemênidas, era um clã da tribo mais nobre, a dos pasárgadas.3 O editor do Sourcebook data o início do reinado de Ciro em 560 ou 559 a.C.1
Em 539 a.C., Ciro tomou Babilônia. Heródoto conta que, depois de um cerco sem progresso, ele desviou o Eufrates para uma antiga bacia, e seus soldados entraram pelo leito do rio com a água na altura da coxa; no centro da cidade, que era imensa, a população seguia em festa sem saber que a periferia tinha caído.3
O que Ciro fez depois é o que o distingue. No cilindro de argila redigido em seu nome, ele se apresenta como “rei legítimo, rei de Babilônia, rei da Suméria e da Acádia”, descendente de uma família que sempre reinou, e diz ter entrado na cidade “como amigo”. Afirma que o próprio Marduk, deus de Babilônia, fez os babilônios o amarem. E descreve a política: devolveu as imagens dos deuses a cidades cujos santuários estavam em ruínas e reconduziu os antigos habitantes às suas casas.4

Cilindro de Ciro, Babilônia, c. 539-530 a.C. · 2007 · Wikimedia Commons · CC BY 2.5
Repare no detalhe: um rei persa invocando o deus dos vencidos, na escrita dos vencidos. Do lado hebreu, o livro de Isaías chegou a chamar Ciro de “ungido” do Senhor.7 Dois povos, dois deuses, a mesma conclusão: o conquistador tinha sido enviado pelo deus deles. Era essa a vantagem da política.
Ciro morreu depois de 29 anos de reinado. Na versão que Heródoto preferiu, caiu em batalha contra os massagetas, povo de pastores governado por uma rainha, Tômiris, que mandou mergulhar a cabeça dele num odre de sangue.3 Seu filho Cambises levou a conquista ao Egito.25
LembrePor que Ciro se apresentava como escolhido de Marduk, e não de um deus persa?
Porque falava aos babilônios. Apresentar-se como rei legítimo escolhido pelo deus da cidade, devolver as imagens dos deuses e os habitantes deslocados transformava a conquista em restauração. O mesmo raciocínio aparece no lado hebreu, que viu Ciro como ungido do seu próprio Deus.
Dario e a Mentira
A sucessão de Cambises terminou em crise, e ela chegou até nós em duas versões que vale ler juntas. A primeira foi gravada por Dario num rochedo em Behistun, no texto que o editor do Sourcebook aponta como peça-chave para a decifração moderna do cuneiforme.1
Ali, Dario conta que Cambises havia matado o irmão, Bardiya, em segredo, e partido para o Egito. Na ausência dele, “a Mentira” se espalhou pelas províncias, e um mago chamado Gaumata se apresentou ao povo dizendo “eu sou Bardiya, filho de Ciro”. Ninguém ousava enfrentá-lo até que Dario, “com poucos homens”, o matou. Seguiram-se revoltas em várias províncias — cada rebelde, diz o texto, “mentiu” — e nove reis foram capturados.5
O fecho da inscrição é revelador. Dario aconselha o rei futuro a se proteger da Mentira e se dirige a quem lê: “tu que examinares esta inscrição no futuro, que ela te convença do que foi feito por mim; não a tomes por mentira”.5 Quem precisa jurar que não mente, em pedra, sabe que a própria versão pode ser contestada.
A segunda versão é grega. Heródoto descreve sete nobres que, depois de derrubar o mago, debatem a melhor forma de governo: Otanes defende o governo do povo, com cargos por sorteio e magistrados que prestam contas; Megabizo, uma oligarquia; Dario, a monarquia. Quatro votam com Dario, e o rei é escolhido pelo cavalo que relinchar primeiro ao nascer do sol — prova que um cavalariço esperto arranjou em favor do patrão.2 O próprio Heródoto registra que muitos gregos não acreditavam naquele debate.2 Ele diz mais sobre as discussões gregas do que sobre a corte persa.
A máquina: satrapias, tributo e estrada
Firme no trono, segundo Heródoto, Dario dividiu o império em vinte governos, que os persas chamavam de satrapias, cada um com seu governador e um tributo fixo. Antes dele, sob Ciro e Cambises, não havia valor estabelecido: os povos levavam presentes. Por isso, conta Heródoto, os persas diziam que Ciro foi um pai, Cambises, um senhor, e Dario, um negociante — que tirava lucro de tudo.2
A lista de Heródoto mostra o peso de cada região. A satrapia de Babilônia e Assíria pagava mil talentos de prata e quinhentos meninos eunucos; o Egito, setecentos, além de trigo para os 120 mil persas aquartelados em Mênfis. A Índia pagava em ouro em pó, e mais que qualquer outra. A própria Pérsia não pagava nada. Fora das satrapias, alguns povos levavam presentes regulares — entre eles os etíopes vizinhos do Egito, que entregavam a cada três anos ouro, ébano, cinco meninos e vinte presas de elefante.2

Relevo das delegações, Persépolis · 2006 · Wikimedia Commons · Public domain
Para cobrar e mandar, era preciso chegar. Heródoto descreve a estrada real entre Sardes e Susa: 111 estações com pousadas, terra habitada e segura, postos de guarda nas travessias de rios. No ritmo de um viajante, eram noventa dias de caminho.6 As ordens andavam bem mais depressa. Cavalos e homens ficavam postados a cada dia de percurso, e a mensagem passava de um para outro como uma tocha numa corrida de revezamento; “nem neve, nem chuva, nem calor, nem a escuridão da noite” os impediam, escreveu ele.6
Tolerância ou cálculo?
É comum ler a política persa como tolerância, e há documentos para isso. Heródoto observa que nenhum povo adotava costumes estrangeiros com tanta facilidade: os persas vestiam a roupa dos medos e iam à guerra com a couraça egípcia.3 O cilindro devolve deuses aos santuários, e o livro de Esdras atribui a Ciro a ordem de reconstruir o Templo de Jerusalém.4
Mas os mesmos documentos permitem outra leitura. Devolver deuses e habitantes era um modo barato de obter lealdade de quem pagava tributo. E a tolerância tinha limite no topo. Heródoto conta que, quando Cambises quis casar com a própria irmã, os juízes reais — cargo vitalício, intérpretes das leis antigas — responderam que nenhuma lei o permitia, mas que havia outra lei: o rei podia fazer o que quisesse.7 O editor do Sourcebook põe a palavra “despotismo” entre aspas ao reunir esses relatos — sinal de que o rótulo é o do olhar grego.7
As duas leituras convivem. A pergunta útil não é se os persas eram “bons”, mas o que a diversidade rendia ao império — e a resposta das fontes é: obediência a um custo menor que o da força.
A religião do rei
Na inscrição de Behistun, Dario repete que é rei “pela graça de Auramazda” — o deus que, diz ele, lhe deu o reino e o ajudou em cada batalha.5 Heródoto, de fora, notou que os persas não faziam imagens dos deuses, nem templos, nem altares; subiam aos montes para sacrificar ao céu, ao sol, à lua, ao fogo e à água, e nenhum sacrifício era válido sem a presença de um mago. Quem sacrificava não podia pedir só para si: pedia pelo rei e por todos os persas.3
Há um fio que liga esses textos: a verdade. Heródoto diz que os meninos persas aprendiam, dos cinco aos vinte anos, só três coisas — montar, atirar com arco e dizer a verdade — e que mentir era, para eles, a pior das vergonhas.3 Dario, em Behistun, chama os rebeldes de mentirosos e trata a Mentira quase como uma força; o tradutor de 1908, H. C. Tolman, anota que a palavra é a personificação do Engano.5 O credo zoroastriano reproduzido no Sourcebook declara fidelidade a Ahura Mazda e se compromete com o bom pensamento, a boa palavra e a boa ação.8

Friso dos arqueiros do palácio de Dario em Susa, c. 510 a.C. · 2007 · Wikimedia Commons · Public domain
- Base em documentos, não em síntese — o artigo foi construído sobre fontes primárias e notas de editor. É mais provisório que um artigo apoiado em obra de síntese.
- Fontes interessadas dos dois lados — Heródoto escreve como grego, sobre um inimigo; o cilindro e Behistun são propaganda real. Nenhuma das duas vozes é neutra, e o artigo as cruza em vez de escolher uma.
- O cilindro não cita os judeus — a política que ele descreve é geral. O vínculo com o retorno a Jerusalém vem de Esdras e da forma como o editor agrupa os textos.
- Tolerância não é bondade — devolver deuses e respeitar línguas rendia lealdade a baixo custo. A mesma monarquia tinha juízes que reconheciam que o rei podia fazer o que quisesse.
- Datas com duas possibilidades — o editor dá 560 ou 559 a.C. para o início de Ciro, e 522 ou 521 a.C. para o de Dario. O artigo mantém as duas em vez de escolher.
- Religião dos reis — Dario invoca Auramazda, e o credo zoroastriano invoca Ahura Mazda. As fontes lidas não permitem afirmar em que medida os reis aquemênidas seguiam a doutrina de Zaratustra.
Ficam de fora: as Guerras Médicas contra as cidades gregas e a conquista por Alexandre, que encerra a dinastia em 330 a.C. — ambas no artigo sobre a Grécia; a história de Xerxes e dos reis seguintes; a arquitetura de Persépolis, que aparece aqui só em imagem; a vida de Zaratustra e a história do zoroastrismo; e o exílio dos judeus, tratado no artigo sobre os hebreus. Os documentos lidos não sustentam números de população nem de exército.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Dois séculos de um império
O peso de cada satrapia
Como Dario chegou ao trono, em duas versões
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Dinastia | aquemênidas, clã da tribo dos pasárgadas; c. 560-330 a.C. |
| Origem do império | Ciro lidera a revolta persa contra os medos |
| Ciro | r. 560/559-529 a.C.; toma Babilônia em 539 a.C.; morre em guerra contra os massagetas |
| Cilindro de Ciro | rei legítimo escolhido por Marduk; devolve deuses e habitantes; não cita os judeus |
| Cambises | leva a conquista ao Egito |
| Dario I | r. 522/521-486 a.C.; Behistun: derrota o mago Gaumata e a “Mentira” |
| Versão grega | Heródoto: debate sobre democracia, oligarquia e monarquia; escolha pelo cavalo |
| Satrapias | 20 governos com governador e tributo fixo |
| Tributo | Babilônia 1.000 talentos de prata; Egito 700; Índia, a maior, em ouro; Pérsia isenta |
| Apelidos | Ciro, pai; Cambises, senhor; Dario, negociante |
| Estrada real | Sardes a Susa: 111 estações, 90 dias de viagem; mensageiros em revezamento |
| Línguas | ordens enviadas a cada povo na sua língua e escrita (Ester 1) |
| Limite da tolerância | juízes reais: “o rei pode fazer o que quiser” |
| Religião | Auramazda nas inscrições; sem templos nem imagens, segundo Heródoto; magos |
| Valor central | a verdade; a Mentira como inimiga, em Heródoto e em Behistun |
Fontes
- HALSALL, Paul (ed.). Internet Ancient History Sourcebook: Persia. Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/ancient/asbook05.asp. Notas do editor sobre datas e sobre Behistun. Fonte principal deste artigo.
- HERÓDOTO. História, III.80-97: “The Persians Reject Democracy / Darius’ State Organization”. Trad. George Rawlinson (1862). In: Internet Ancient History Sourcebook, herodotus-persdemo.asp.
- HERÓDOTO. “On the Customs of the Persians”. Trad. Rawlinson, via W. S. Davis (1912). In: Internet Ancient History Sourcebook, herodotus-persians.asp; e “Queen Tomyris”, I.201-214, tomyris.asp; e I.188-192 sobre a tomada de Babilônia, greek-babylon.asp.
- Kurash (Cyrus) the Great: The Decree of Return for the Jews, 539 BCE: cilindro de Ciro. In: Internet Ancient History Sourcebook, 539cyrus1.asp. Tradução sem indicação de tradutor.
- DARIO I. Inscrição de Behistun. In: TOLMAN, Herbert Cushing. The Behistan Inscription of King Darius. Nashville: Vanderbilt University, 1908. Internet Archive, behistaninscript00daririch (indicado pelo Sourcebook).
- HERÓDOTO. The History of Herodotus, vol. 2, V.52-54 e VIII.98. Trad. G. C. Macaulay. Project Gutenberg, e-book nº 2456.
- Accounts of Persian “Despotism” and Law: Heródoto III.31 e Ester 1. In: Internet Ancient History Sourcebook, persianlaw.asp; versículos de Ester e Isaías citados pela King James Version, Project Gutenberg, e-book nº 10.
- The Zoroastrian Creed. In: Internet Ancient History Sourcebook, zoroastriancreed.asp (texto do Avesta Web Server).