História Verso
História Geral · Idade Antiga

Índia: do período védico aos Gupta

Um código que manda os nascidos da boca de um deus ensinar e os nascidos dos pés servir. Um manual de governo que diz que só a riqueza importa. Um rei que mandou gravar em pedra que não se matassem mais pavões na cozinha do palácio. A Índia antiga contada pelos textos que a ordenaram, a governaram e a visitaram.

c. 1500 a.C.-550 d.C.13 min de leitura10 fontes
Capitel dos leões de Sarnath, período Máuria · lisa bat · 2020-02-18
O capitel dos quatro leões de Sarnath, do período Máuria, hoje no museu do sítio. Coluna, leão e roda vinham junto com o texto: os reis máurias falavam aos súditos em pedra, e Ashoka mandou escrever as suas ordens “onde houver um pilar de pedra”.
Capitel dos leões de Sarnath, período Máuria · 2020 · Wikimedia Commons · CC BY 2.0
Pergunta orientadora

Quase tudo o que se lê sobre a Índia antiga em livro escolar vem de três tipos de texto: leis sagradas que dizem como a sociedade deveria ser, documentos de governo que dizem o que o rei queria e relatos de estrangeiros que contam o que acharam ter visto. Quando os três discordam, em quem acreditar?

Este artigo percorre a Índia de mais de dois mil anos lendo essas vozes uma de cada vez — e cruzando-as onde elas se contradizem. É nesse cruzamento que aparecem as perguntas que a prova costuma fazer: o que eram as castas, o que o Buda propôs, como os Máurias governaram e o que mudou com Ashoka.

Como este artigo foi construído
A base aqui são documentos de época — as Leis de Manu, o Arthashastra, os éditos de Ashoka, textos budistas, relatos gregos e chineses — lidos junto com os comentários de Paul Halsall, editor do Internet Indian History Sourcebook (Universidade Fordham). Nenhum livro de síntese foi usado. Leia o que segue como provisório: fonte primária sem historiador moderno ao lado erra mais, e o que esses documentos não cobrem ficou de fora.

Antes do texto, a memória

A primeira voz da Índia não foi escrita. Veda quer dizer conhecimento, e a palavra se aplicava a uma literatura que passava de boca em boca. Em 1900, o editor Epiphanius Wilson calculava que os hinos mais antigos tivessem sido recitados por volta de 1000 a.C. e os mais recentes perto de 500 a.C. — e lembrava que, para os hindus ortodoxos, “védico” não designa só hinos, mas todo o conjunto de textos sagrados.10 O Sourcebook usa 1500 a.C. como marco de entrada do período.1

Quem compunha esses hinos? Aqui o editor do Sourcebook toma posição. Registra que alguns autores negam hoje que tenha havido um movimento de povos indo-europeus — os “arianos” — para dentro da Índia, e atribui essa recusa, em parte, ao desejo nacionalista de afirmar que “sempre estivemos aqui”. Para ele, os argumentos linguísticos a favor de um grupo comum que se espalhou pela Índia, pelo Irã e pela Europa continuam convincentes.1 É uma interpretação, e assim deve ser lida — mas mostra que até o ponto de partida do assunto é disputado.

A norma: um corpo dividido em quatro

A voz mais citada sobre a sociedade indiana é a das Leis de Manu. O texto abre com sábios pedindo a Manu que declare as leis sagradas de cada varna — palavra que a tradução inglesa verte por caste — e responde com uma narrativa da criação.2 Nela, o ser criador faz sair de sua boca o brâmane, dos braços o xátria, das coxas o vaixá e dos pés o sudra (I.31).

A cada parte do corpo corresponde uma função (I.88-91). Aos brâmanes, ensinar e estudar o Veda e oficiar sacrifícios. Aos xátrias, proteger o povo. Aos vaixás, cuidar do gado, negociar, emprestar dinheiro e cultivar a terra. E ao sudra, diz o código, o senhor prescreveu uma única ocupação: “servir humildemente as outras três”.2 A hierarquia vem com uma justificativa anatômica: o homem é mais puro acima do umbigo, e a boca é a sua parte mais pura (I.92).

Abaixo dos quatro há gente que nem entra na lista. Os candalas aparecem no código ao lado de animais: um candala, um porco, um galo e um cão não podem olhar os brâmanes enquanto comem (III.239), e quem toca um deles precisa se purificar.2

O código também fixa o lugar da mulher, em duas formulações quase iguais. A mulher fica sob o pai na infância, sob o marido na juventude e sob os filhos na velhice; “a mulher nunca está apta à independência” (IX.3; também V.148).2

Quando foi escrito o código?
A página do Sourcebook data as Leis de Manu de c. 1500 a.C. Mas o próprio texto menciona os três Vedas pelo nome (I.23), e a fonte de 1900 situa a composição dos hinos entre c. 1000 e c. 500 a.C. Um código que cita os Vedas não pode ser mais antigo que eles. A data da página deve ser lida como o começo da tradição, não como o ano em que estas frases foram escritas — e as fontes usadas aqui não permitem fixar outra.

Um aviso de método antes de seguir: Manu é um texto normativo. Diz o que brâmanes achavam que devia acontecer. Se a sociedade real funcionava assim é outra pergunta — e é para respondê-la que servem as outras vozes.

LembreO que o mito do corpo do criador justifica, nas Leis de Manu?

Uma hierarquia de funções herdada pelo nascimento. Cada varna sai de uma parte do corpo — boca, braços, coxas, pés — e recebe uma tarefa: ensinar e sacrificar, proteger, produzir e negociar, servir. Como a boca é a parte mais pura, a ordem de cima para baixo vira ordem de pureza. Os candalas ficam fora dos quatro.

A contestação: o caminho do meio

A nota introdutória que o Sourcebook reproduz resume o que considera o núcleo confiável da biografia do Buda — e avisa que ela está “saturada de lendas” posteriores. Siddhartha Gautama era filho do governante de uma região do norte da Índia, nascido por volta de 557 a.C. Aos 29 anos, casado e com um filho, renunciou ao mundo. Passou sete anos com mestres de disciplina e concentração, tentou o jejum e a mortificação e não encontrou o que buscava; até que, sentado sob uma figueira em Bodhi Gaya, se tornou “o Desperto”. Começou a pregar em Benares e morreu por volta de 477 a.C.5

O primeiro sermão, na tradução de Rhys Davids e Oldenberg, começa recusando dois extremos: a vida entregue aos prazeres e a vida entregue à mortificação, ambas “sem proveito”. Entre eles está o Caminho do Meio, o óctuplo caminho. E vêm as quatro nobres verdades: existir — nascer, adoecer, envelhecer, morrer, perder o que se ama — é sofrimento; a causa do sofrimento é a sede, o desejo que leva ao renascimento; o sofrimento cessa quando essa sede se extingue; e o caminho para isso é o óctuplo caminho. O sermão termina com o Buda declarando: “este é o meu último nascimento”.5

O alvo é o ciclo de renascimentos, e a saída proposta não passa pelo sacrifício dos brâmanes nem pela posição de nascimento. O relato da morte do Buda reforça a lição: suas últimas palavras aos discípulos foram que tudo o que existe é passageiro e que cada um deve buscar a própria salvação com empenho.5

Arjuna e seu cocheiro Krishna enfrentam Karna, pintura do noroeste da Índia, c. 1820 · Artist/maker unknown, India, Himachal Pradesh or Jammu and Kashmir · circa 1820
Arjuna, conduzido por Krishna, diante de Karna na batalha de Kurukshetra, em pintura do noroeste da Índia de c. 1820. É nesse carro de guerra que se passa o diálogo da Gita — séculos de distância entre o texto e a imagem.
Arjuna e seu cocheiro Krishna enfrentam Karna, pintura do noroeste da Índia, c. 1820 · 1820 · Wikimedia Commons · Public domain

O Estado: um manual que só confia no dinheiro

A segunda voz é a do governo. O Sourcebook data o Império Máuria entre 321 e 185 a.C. (em outro ponto da mesma página, 324-183) e reproduz trechos do Arthashastra, tratado atribuído a Kautilya, que a descrição do link apresenta como “primeiro-ministro” do fundador, Chandragupta Máuria.1 O tradutor James Legge, em nota de 1886, identifica esse Chandragupta com o Sandrocottus dos gregos, que teria expulsado os gregos da Índia e derrotado Seleuco, governante grego das províncias do Indo.9

O que surpreende no Arthashastra é a franqueza. O rei pode gozar três objetivos da vida — a virtude, a riqueza e o desejo —, mas “Kautilya sustenta que a riqueza, e só a riqueza, é importante”, porque as outras duas dependem dela.3 O dia do rei é dividido em oito partes, com hora marcada para receber relatórios de espiões, conferir receitas, nomear superintendentes e planejar a guerra. E o texto exige que ele não deixe peticionário esperando à porta, porque o rei inacessível gera desordem e descontentamento.3

O manual confirma Manu num ponto e o complica em outros. Confirma a hierarquia: a mesma falta tem pena diferente conforme a varna, e no caso extremo do adultério com uma brâmane o xátria paga a multa mais alta, o vaixá perde tudo e o sudra é queimado vivo.3 Mas a mulher do Arthashastra tem bens próprios, chega à maioridade aos doze anos (o homem, aos dezesseis) e pode obter o divórcio quando há inimizade mútua.3 E o texto regula a escravidão, com multas para quem vende um menor ariano e a regra de que quem se vende e foge vira escravo para sempre.

Há até uma tabela de juros que diz muito sobre a economia: a taxa “justa” é de um pana e um quarto por cem ao mês; a comercial, cinco; nas florestas, dez; para quem negocia por mar, vinte.3 Quanto mais arriscado o caminho, mais caro o dinheiro.

Questão 01múltipla escolha · sem placar
Comparando as Leis de Manu e o Arthashastra, ambos reproduzidos no Internet Indian History Sourcebook, é correto afirmar que:
  1. Incorreta. As varnas estão nos dois: Manu narra sua origem no corpo do criador, e o Arthashastra gradua penas e heranças conforme a varna.

  2. Incorreta. É o oposto: o Arthashastra tem um capítulo inteiro de regras sobre escravos e trabalhadores. A divergência mostra que o relato grego não pode ser aceito sem confronto.

  3. Correta. Correta. Manu diz que a mulher nunca está apta à independência; o manual de governo, mais preocupado com disputas concretas, regula propriedade feminina e divórcio. Textos normativos diferentes mostram faces diferentes da mesma sociedade.

  4. Incorreta. O texto diz o contrário: para Kautilya, só a riqueza importa, porque virtude e desejo dependem dela. E nada liga o manual ao sermão budista.

  5. Incorreta. O Arthashastra é atribuído a Kautilya, associado a Chandragupta, avô de Ashoka. As Leis de Manu são outro texto, de outra tradição.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Ashoka: um rei que escrevia nas pedras

O neto de Chandragupta, Ashoka,9 é datado pelo Sourcebook entre c. 265 e 238 a.C. — ou, em outra contagem, entre 273 e 232.1 A introdução de Tappan, de 1914, diz que ele se converteu ao budismo por volta de 257 a.C. e que seus pequenos sermões, chamados éditos, foram talhados em rochas e pilares, onde ainda podem ser vistos.4

O próprio rei conta a conversão como processo. Por mais de dois anos e meio foi seguidor leigo sem se esforçar muito; havia mais de um ano entrara na Ordem e passara a se esforçar. E manda que o preceito seja escrito “nas rochas, longe e perto, e onde houver um pilar de pedra, no pilar de pedra”.4

Édito de rocha de Ashoka, versão de Girnar, em transcrição publicada por E. Senart, 1891 · E. Senart Publication date 1891 · 1891-01-01
Um édito de rocha de Ashoka na versão de Girnar, reproduzido na escrita original em publicação de E. Senart, de 1891. Oito linhas para serem lidas em voz alta diante de quem passasse.
Édito de rocha de Ashoka, versão de Girnar, em transcrição publicada por E. Senart, 1891 · 1891 · Wikimedia Commons · Public domain

O conteúdo é o que Tappan traduz por “Lei da Piedade”: obedecer a pai e mãe, respeitar os seres vivos, dizer a verdade, honrar o mestre.4 Um dos éditos proíbe o sacrifício de animais na capital e conta uma mudança na própria cozinha real: antes se matavam ali, por dia, “muitas centenas de milhares” de animais para os caris; agora, só dois pavões e um antílope — e nem esses seriam mais abatidos. Outro manda que os funcionários tragam os assuntos do povo a qualquer hora, mesmo com o rei à mesa ou no quarto, porque “o bem-estar de todos é aquilo por que devo trabalhar”.4 Um terceiro registra que, vinte anos depois de consagrado, ele visitou o lugar onde “nasceu o Buda”, ergueu ali um pilar e isentou a aldeia de Lummini de tributos religiosos.

Duas observações de método. A primeira: são textos de propaganda real, e o exagero sobre a cozinha mostra que o rei quer impressionar. A segunda: James Legge, em 1886, chamou Ashoka de “o Constantino da sociedade budista”, pelo número de mosteiros e monumentos que ergueu — e registrou uma versão lendária da conversão, por obra de um santo que o rei mandara enterrar vivo.9 A comparação com o imperador romano é do tradutor, não das fontes indianas.

O que este artigo não pode contar sobre Ashoka
Os livros didáticos costumam explicar a conversão de Ashoka pelo remorso depois de uma guerra sangrenta contra Kalinga. O trecho dos éditos que o Sourcebook reproduz não inclui esse texto, e as demais fontes usadas aqui também não o trazem. Por isso o artigo não narra a guerra de Kalinga nem seus números — a lacuna é da base documental, não do assunto.
LembrePor que os éditos de Ashoka são fonte valiosa e, ao mesmo tempo, suspeita?

Valiosos porque são a voz do próprio rei, gravada na época, em pedra, e espalhada pelo território. Suspeitos porque são propaganda: falam do que o rei quer que se acredite sobre ele — a cozinha que deixou de matar, o governante sempre disponível. A mesma dupla leitura vale para qualquer inscrição oficial.

O estrangeiro: gregos que viram demais

A terceira voz vem de fora. Heródoto, no século V a.C., contou que parte do ouro da Índia era recolhida da areia escavada por formigas menores que cães e maiores que raposas.8 O geógrafo Estrabão, que reuniu os relatos gregos sobre o país, abria seu livro sobre a Índia admitindo que os relatos gregos eram de ouvir dizer, colhidos às pressas por soldados de passagem, e que os autores “frequentemente se contradizem”.7

O mais citado deles é Megástenes, enviado em embaixada a Sandrocottus. Pelo que Estrabão transmite, ele descreveu a capital, Palibothra, na confluência do Ganges, com 80 estádios de comprimento e 15 de largura, cercada por muralha de madeira com seteiras.7 E dividiu a população em sete castas: filósofos, agricultores, pastores e caçadores, artesãos e comerciantes, guerreiros, inspetores e conselheiros. Ninguém podia casar fora da própria casta nem mudar de ofício — salvo os filósofos. Toda a terra, disse ainda, era do rei, e os agricultores pagavam um quarto da produção.7

Megástenes acerta e erra de maneiras instrutivas. Seus inspetores, que informam o rei em segredo, combinam com os espiões do Arthashastra. Mas ele afirma que nenhum indiano usa escravos — o que o próprio Estrabão contesta com outro autor, e o Arthashastra desmente com um capítulo inteiro de regras sobre escravos.7 E diz que os indianos não conheciam a escrita e regulavam tudo de memória — num território onde, poucas décadas depois, um rei gravaria ordens em pedra.7

Questão 02múltipla escolha · sem placar
O embaixador grego Megástenes, citado por Estrabão, afirmou que na Índia de Chandragupta havia sete castas, que ninguém usava escravos e que os indianos não conheciam a escrita. Confrontado com os textos indianos do período, esse relato:
  1. Correta. Correta. O cruzamento de fontes confirma parte do relato (os inspetores lembram os espiões do Arthashastra) e derruba outra parte. É exatamente o cuidado que o próprio Estrabão pedia ao admitir que os gregos se contradiziam.

  2. Incorreta. Nenhum observador é neutro, e Estrabão avisa que os relatos gregos sobre a Índia eram em boa parte de ouvir dizer. O relato de Megástenes, além disso, só chegou até nós citado por terceiros.

  3. Incorreta. São classificações diferentes: Megástenes conta sete grupos, definidos por ofício, e inclui inspetores e conselheiros, que não correspondem às quatro varnas do código.

  4. Incorreta. Nada no trecho de Estrabão trata disso. A adesão de um rei máuria ao budismo documentada nas fontes usadas é a de Ashoka, neto de Chandragupta.

  5. Incorreta. Heródoto (c. 490-425 a.C.) viveu antes da embaixada de Megástenes junto a Chandragupta, e não traduziu nada dele. O relato de Megástenes chegou até nós citado por Estrabão.

Escolha uma alternativa. A resposta aparece na hora, com justificativa.

Os Gupta pelos olhos de um monge chinês

Para os Gupta, o Sourcebook oferece apenas as datas — 320 a 550 d.C. — e menciona Kalidasa, datado com interrogação dos séculos IV-V e descrito no link como o maior dramaturgo da Índia antiga.1 A melhor janela documental para o período é um viajante. O monge chinês Faxian partiu de Chang’an em 399 e percorreu a Índia até 414, atrás de textos budistas autênticos.9 No mosteiro de Jetavana, os monges se espantaram: nunca tinham visto chegar ali “homens de Han”.

O que ele descreveu na região que chamou de Reino do Meio, ao sul de Mathura, é um retrato quase idílico: gente numerosa e feliz, sem registro de famílias; só quem cultiva a terra real paga parte da colheita; o rei governa sem pena de morte nem castigo corporal, apenas com multas — e mesmo quem tenta rebelião várias vezes perde só a mão direita. Ninguém mata animais, bebe álcool ou come cebola e alho.9

Com uma exceção. Os candalas vivem à parte; ao entrar na cidade ou no mercado, batem num pedaço de madeira para que os outros saibam e os evitem; são eles os pescadores, os caçadores e os vendedores de carne.9 O grupo que o código de Manu mantinha longe da mesa dos brâmanes reaparece, séculos depois, no relato de um estrangeiro. É a evidência mais forte deste artigo de que a exclusão descrita na norma também existia na prática.

Em Pataliputra, Faxian viu ainda o palácio de Ashoka — que a tradição local dizia ter sido erguido por espíritos — e casas mantidas pelos chefes das famílias vaixás onde pobres, órfãos, aleijados e doentes recebiam comida, remédio e exame médico.9

Buda em pé, Sarnath, com inscrição datada do reinado de Budhagupta (476 d.C.) · Majumdar, B., Archaeological Society of India · 2019-10-27 07:14:34
Buda de pé, de Sarnath, com inscrição que o acervo data de 476 d.C., no reinado de um rei Gupta. Algumas décadas antes, Faxian descrevera em Pataliputra procissões anuais com imagens do Buda em carros de quatro andares.
Buda em pé, Sarnath, com inscrição datada do reinado de Budhagupta (476 d.C.) · 2019 · Wikimedia Commons · Public domain
Pontos sensíveis deste artigo
  • Norma não é retrato — as Leis de Manu dizem como os brâmanes achavam que a sociedade devia ser. Para saber como ela funcionava é preciso cruzar com outros textos — o Arthashastra, os éditos, os viajantes.
  • Varna e casta não são sinônimos exatos — Manu fala em quatro varnas; Megástenes, em sete grupos de ofício; e todas as traduções usadas aqui vertem as duas coisas por “caste”. O número depende de quem classifica.
  • Datas antigas, todas aproximadas — a página de Manu diz c. 1500 a.C., mas o texto cita os Vedas, compostos depois; o Buda é datado por uma nota antiga; o Sourcebook dá duas cronologias para Ashoka e duas para os Máurias.
  • O debate ariano — o editor do Sourcebook considera convincentes os argumentos linguísticos para uma migração indo-europeia e atribui sua negação, em parte, ao nacionalismo. É interpretação dele, atribuída como tal.
  • Kalinga fica de fora — o édito sobre a guerra de Kalinga, citado em livros didáticos, não está nos trechos disponíveis na base documental. O artigo não o narra.
  • Olhar estrangeiro — formigas que cavam ouro, sociedade sem escravos, povo sem escrita: os gregos acertaram e erraram. A nota que acompanha a Gita no Sourcebook, por sua vez, chama partes do poema de “infantis” para o leitor ocidental — preconceito de época, não análise.
Onde este artigo para
A base documental tem buracos grandes, e o artigo não os preenche de memória. Não trata da civilização do vale do Indo — o Sourcebook só a menciona como cultura que teve contato com a Mesopotâmia —, do jainismo, que aparece apenas em links, nem da guerra de Kalinga. Dos Gupta, conta só o que um viajante chinês viu: nomes de reis, conquistas, matemática e arte do período ficam fora porque nenhuma das fontes usadas os descreve. Este é um artigo para ser ampliado quando houver obra de síntese.

Material de estudo

Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.

Flashcards · 1 de 10evocação · sem placar salvo

Tente responder de cabeça antes de virar. O esforço de lembrar é o que fixa — ler a resposta direto não treina nada.

Da tradição oral ao viajante chinês

c. 1500 a.C.Marcoconvencionaldo períodovédicoc. 1000-500 a.C.Composiçãodos hinosvédicos(Wilson,1900)c. 557-477 a.C.Vida doBuda,segundo anota doSourcebookc. 321 a.C.Início doImpérioMáuriac. 267 a.C.Coroação deAshoka(RhysDavids, viaLegge)c. 257 a.C.Ashokaadere aobudismo egrava oséditosc. 185 a.C.Fim doImpérioMáuria320-550 d.C.ImpérioGupta,segundo oeditor399-414 d.C.Viagem deFaxian pelaÍndiaDatas das fontes usadas, todas aproximadas. Onde o Sourcebook dá duas datas, as duas aparecem. A data de 1500 a.C. é o marco convencional do período védico usado pelo editor, não data de texto.
Os marcos destacados são as três âncoras do assunto: a vida do Buda, o reinado de Ashoka e a época dos Gupta. Todas as datas vêm com a dúvida das fontes.

Quatro ou sete? Duas maneiras de dividir a mesma sociedade

Manu: quatro varnasBrâmanes: ensinar o Veda, sacrificarXátrias: proteger o povoVaixás: gado, comércio, terra, créditoSudras: servir aos outros trêsOrigem: boca, braços, coxas, pésFora da lista: os candalasMegástenes: sete castasFilósofos: poucos e os mais honradosAgricultores: os mais numerososPastores e caçadoresArtesãos, comerciantes, diaristasGuerreiros, pagos pelo tesouro realInspetores que informam o reiConselheiros e juízes
A coluna da esquerda é como um código religioso queria a sociedade; a da direita, como um estrangeiro a classificou pelo ofício. Nenhuma das duas é a sociedade em si.

Quanto custava o dinheiro no Arthashastra

Juro “justo”1,25Comércio5Florestas10Comércio marítimo20juro mensal, em panas por cem panas emprestados, segundo o Arthashastra (III.11)
O comércio marítimo pagava dezesseis vezes o juro “justo”. A tabela é de um manual de governo e mostra o que o Estado tolerava cobrar conforme o risco.

Mapa mental do assunto

Índia antigado período védico aos GuptaA normaVedas: saber transmitido de corManu: quatro varnas e o lugar da mulherGita: cumprir o próprio deverA contestaçãoBuda: o caminho do meioQuatro nobres verdadesFim do ciclo de renascimentosO EstadoMáurias, c. 321-185 a.C.Arthashastra: espiões, multas, jurosAshoka: éditos em pedra e pilarErros que a prova cobraTomar o código pela sociedade realAchar que o budismo nasceu na ChinaVer nos gregos testemunhas neutras
Os três primeiros ramos são as três vozes do artigo. O ramo destacado reúne os enganos que nascem de ler uma voz só.

Quadro-resumo para revisão rápida

ItemDado
Vedasliteratura sagrada transmitida oralmente; hinos de c. 1000 a c. 500 a.C., segundo Wilson (1900)
Debate arianoo editor do Sourcebook aceita a migração indo-europeia por argumentos linguísticos
Leis de Manuquatro varnas nascidas do corpo do criador; sudra serve; mulher nunca independente
Candalasfora das varnas; segregados em Manu e no relato de Faxian
Budac. 557-477 a.C., segundo a nota do Sourcebook; renúncia aos 29 anos; pregação em Benares
Primeiro sermãoCaminho do Meio, quatro nobres verdades, óctuplo caminho
Bhagavad GitaKrishna a Arjuna: cumprir o dever da própria varna
Império Máuriac. 321-185 a.C. (ou 324-183), fundado por Chandragupta
Arthashastraatribuído a Kautilya; “só a riqueza importa”; espiões, penas por varna, juros, escravos
Megástenesembaixador grego: sete castas, Palibothra, “sem escravos”, “sem escrita”
Ashokac. 265-238 ou 273-232 a.C.; adesão ao budismo por volta de 257 a.C.
Éditosgravados em rocha e pilar; respeito à vida, fim dos sacrifícios na capital, rei sempre acessível
Império Gupta320-550 d.C., segundo o editor do Sourcebook
Faxianmonge chinês, na Índia de 399 a 414; governo sem castigo corporal e casas de caridade
Cada linha indica de que fonte vem o dado — que é a primeira coisa a perguntar sobre a Índia antiga.

Fontes

  1. HALSALL, Paul (ed.). Internet Indian History Sourcebook. Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/india/indiasbook.asp. Notas e cabeçalhos do editor sobre o vale do Indo, o debate ariano, as datas dos Máurias, de Ashoka e dos Gupta. Fonte principal deste artigo.
  2. The Laws of Manu. Trad. George Bühler. In: Internet Indian History Sourcebook, manu-full.html. Capítulos I, III, V e IX.
  3. KAUTILYA. Arthashastra, seleções. Trad. R. Shamasastry, 2. ed. Mysore: Wesleyan Mission Press, 1923. In: Internet Indian History Sourcebook, kautilya1.html.
  4. ASHOKA. The Rock Edicts, trechos. In: TAPPAN, Eva March (ed.). The World’s Story, vol. II. Boston: Houghton Mifflin, 1914. In: Internet Indian History Sourcebook, ashoka-edicts.html.
  5. The Buddha: Sources on His Life and Death (Jataka, Maha-Vagga, Maha-Parinibbana-Sutta), com nota introdutória. In: Internet Indian History Sourcebook, buddha-life.html; e o primeiro sermão, trad. T. W. Rhys Davids e H. Oldenberg, Vinaya Texts, Sacred Books of the East, vol. 13 (1881), em página de P. Halsall (Brooklyn College, via Internet Archive), bud-ser1.html.
  6. Bhagavad-Gita or Song Celestial. Trad. Sir Edwin Arnold, com nota introdutória. In: Internet Indian History Sourcebook, bhagavadgita.html.
  7. ESTRABÃO. Geografia, livro XV, sobre a Índia (relato de Megástenes). In: Internet Ancient History Sourcebook, strabo-geog-book15-india.asp. Tradução inglesa sem indicação de tradutor na página.
  8. HERÓDOTO. História, III.98-106: “Greek Reports of India”. In: Internet Ancient History Sourcebook, greek-india.asp.
  9. FAXIAN. A Record of Buddhistic Kingdoms. Trad. e notas de James Legge. Oxford: Clarendon Press, 1886. Project Gutenberg, e-book nº 2124 (indicado pelo Sourcebook, que reproduz trechos).
  10. WILSON, Epiphanius (ed.). Sacred Books of the East: introdução aos hinos védicos (trad. F. Max Müller). 1900. Project Gutenberg, e-book nº 12894. Interpretação de época, atribuída no texto.