Hebreus e o monoteísmo
Um povo pequeno, espremido entre o Egito, a Assíria e a Babilônia, perdeu o reino, o templo e a terra — e saiu disso com a ideia de um Deus único que nenhum império conseguia derrotar. O que os documentos permitem afirmar, e onde começa a disputa.

Obelisco Negro de Salmanasar III: Jeú, rei de Israel, prostrado, c. 825 a.C. · 2014 · Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0
Em 701 a.C., o exército assírio cercou Jerusalém. O rei da Assíria mandou gravar a sua versão num prisma de argila; os hebreus registraram a deles nos livros que viriam a compor a Bíblia. As duas não batem. Como se escreve a história de um povo quando a principal fonte sobre ele é também o seu livro sagrado?
Essa pergunta não é um desvio: é o próprio assunto. O povo que a tradição chama de hebreus, ou israelitas, nunca foi uma grande potência. O que ele deixou de decisivo foi uma ideia — a de um Deus único — e um conjunto de textos que a sustenta. Para entender as duas coisas, é preciso saber o que os documentos permitem afirmar e onde a afirmação vira fé ou hipótese.
Este texto foi escrito diretamente sobre documentos de época — inscrições assírias e egípcias, o cilindro de Ciro, passagens bíblicas — e sobre as notas do editor do Internet Ancient History Sourcebook, da Universidade Fordham. Não há obra de síntese por trás dele. Por isso é mais provisório que um artigo apoiado em historiografia consolidada, e várias datas aparecem com interrogação, como aparecem na fonte.
Dois relatos do mesmo cerco
Comece pelo lado assírio. No prisma, Senaquerib narra sua terceira campanha: o rei de Judá, Ezequias, “não se submeteu ao meu jugo”; por isso as cidades fortificadas e incontáveis aldeias foram tomadas com rampas, aríetes e minas, e 200.150 pessoas levadas como escravas. Ezequias ficou fechado em Jerusalém “como um pássaro numa gaiola” e, depois, mandou a Nínive 30 talentos de ouro, 800 de prata, marfim, as próprias filhas e concubinas.2
O segundo livro dos Reis confirma o começo: Senaquerib tomou as cidades fortificadas de Judá, e Ezequias pagou tributo — ali, 300 talentos de prata e 30 de ouro. O desfecho, porém, é outro. Naquela noite, o anjo do Senhor teria matado 185 mil homens no acampamento assírio, e Senaquerib voltou para Nínive, onde foi morto pelos próprios filhos.2
Os dois textos concordam no essencial — houve campanha, houve cerco, houve tributo — e discordam no que cada lado queria lembrar. O rei assírio não fala em derrota; a Bíblia transforma o recuo assírio em intervenção divina. Para o editor do Sourcebook, esse é o período em que Israel passa a ser documentado repetidas vezes fora da Bíblia.1 É justamente por isso que ele é um bom ponto de partida.

Prisma de Senaquerib (Prisma de Taylor), Assíria, séc. 7 a.C. · 2009 · Wikimedia Commons · Public domain
O que se pode datar, e desde quando
A primeira aparição do nome Israel numa fonte histórica não é hebraica: é egípcia. Está numa estela de vitória do faraó Merneptah, de c. 1220 a.C., segundo o editor.1 Dali até o século IX a.C., porém, quase tudo o que se conta vem de uma única fonte — a Bíblia.
O editor organiza a seção com as datas tradicionais, mas as marca com interrogação: conquista da terra entre 1250 e 1000 a.C., juízes de c. 1200 a 1050 a.C., Saul como primeiro rei por volta de 1020 a.C., Davi até 961 a.C. e Salomão, construtor do primeiro Templo, até 922 a.C.1 E faz um alerta que muda a leitura dessas datas.
A chamada arqueologia bíblica nasceu para provar que a Bíblia estava certa. Muitos estudiosos atuais, observa o editor, não a veem mais assim. Ele reproduz uma avaliação arqueológica dura: os israelitas não teriam estado no Egito, não teriam vagado pelo deserto nem conquistado a terra militarmente; a monarquia unida de Davi e Salomão teria sido, no máximo, um pequeno reino tribal. O próprio editor tempera: isso não nega que haja núcleos de história nos livros que vão até meados do século VIII a.C. — mas só a partir da dinastia de Omri outras fontes permitem confirmar o que a Bíblia narra.1
O Obelisco Negro é um exemplo dessa virada. Nele, os príncipes vassalos levam tributo ao rei assírio Salmanasar III, morto em 823 a.C., e Jeú de Israel está entre eles.7 Um rei israelita registrado numa fonte externa aparece, portanto, de joelhos.
LembrePor que as datas de Davi e Salomão vêm com interrogação, e as de 722 e 586 a.C. não?
Porque as primeiras dependem quase só da narrativa bíblica, que a arqueologia citada pelo editor contesta. As outras são confirmadas por fontes de fora — assírias e babilônicas. A regra do editor: a partir da dinastia de Omri, no século IX a.C., é possível conferir; antes disso, não.
Um reino pequeno entre impérios grandes
A própria Bíblia registra a monarquia como imitação. No primeiro livro de Samuel, os anciãos pedem ao profeta: “dá-nos um rei para nos julgar, como têm todas as nações”.4 Segundo a cronologia tradicional, o reino se divide em 922 a.C. em dois: Israel, cuja capital era Samaria, e Judá, a de Jerusalém.1
Os dois caíram para impérios mesopotâmicos, com mais de um século de distância. Israel foi o primeiro: o rei da Assíria tomou Samaria e levou a população para a Assíria e para as cidades dos medos — o editor data a queda em 722 a.C.41 Judá resistiu mais, inclusive ao cerco de 701 a.C., e caiu para a Babilônia em 586 a.C. Um comandante de Nabucodonosor queimou a casa do Senhor — o Templo —, o palácio e as casas de Jerusalém, derrubou os muros e levou o resto do povo.41
O livro de Jeremias soma três deportações e chega a 4.600 pessoas.4 O número parece pequeno perto dos 200.150 do prisma assírio, e convém não comparar os dois: são episódios diferentes, e cada um conta à sua maneira. O que importa é o que o exílio produziu. O Salmo 137 guarda a memória: “junto aos rios da Babilônia, ali nos sentamos e choramos, lembrando-nos de Sião”.4

Estela de Merneptah, Museu Egípcio do Cairo, c. 1220 a.C. · 2019 · Wikimedia Commons · CC BY 3.0
Um Deus só: desde quando?
O núcleo do monoteísmo está formulado em frases curtas. No Êxodo: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirou da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim”. No Deuteronômio: “Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor”.4 Note o detalhe da primeira frase: o primeiro mandamento não ordena acreditar que outros deuses não existem — ordena não tê-los.
Quando essa ideia virou regra é uma disputa aberta, e o vestibular precisa das duas posições. A leitura tradicional, que segue o texto bíblico, situa a aliança com o Deus único no tempo de Moisés, no Sinai. A leitura crítica, reproduzida pelo editor, sustenta que a religião israelita adotou o monoteísmo só no período final da monarquia — e que o Deus de Israel chegou a ser cultuado ao lado de uma consorte feminina.1
A cronologia que o editor monta para a emergência do judaísmo vai nessa direção. Primeiro, as reformas do rei Ezequias (r. 715-687 a.C.), que ele descreve como a imposição do monoteísmo. Depois, a “descoberta” do Deuteronômio, por volta de 621 a.C. Por fim, já no exílio, o chamado Segundo Isaías, de c. 550 a.C., que o editor identifica com o monoteísmo absoluto.1 É ali que aparece a fórmula sem ambiguidade: “Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus”.4
Uma lei que olha para baixo
O “olho por olho” também está no Êxodo: “vida por vida, olho por olho, dente por dente”.4 Em 1915, Charles Horne viu nisso uma herança direta da Babilônia: no Código de Hamurabi, escreveu, “podemos ver onde os hebreus aprenderam” a regra.5 É a opinião de um comentarista daquele tempo, e a comparação dos textos mostra semelhança — mas também uma diferença de direção.
Em Hamurabi, quem arranca o olho de um escravo paga metade do valor dele ao dono.6 No Êxodo, quem fere o olho do próprio servo tem de libertá-lo por causa do olho; o mesmo vale para o dente.4 Na lei babilônica, o prejuízo é do proprietário. Na hebraica, a reparação vai para quem sofreu.
O mesmo deslocamento aparece na proteção aos fracos. O epílogo de Hamurabi apresenta o rei como protetor das viúvas e dos órfãos. O Êxodo faz da proteção um mandamento de Deus e acrescenta um terceiro: “não oprimirás o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito”.4
Os profetas levaram isso adiante. Amós, do século VIII a.C. — o primeiro profeta a deixar escritos, segundo o editor1 —, põe na boca de Deus o desprezo pelas festas e pelos sacrifícios, e termina: “corra o direito como as águas, e a justiça como um ribeiro perene”.4 É o que costuma ser chamado de monoteísmo ético: o Deus único cobra conduta, não só culto.
Do exílio ao judaísmo
Em 539 a.C., Ciro, rei da Pérsia, tomou Babilônia. O livro de Isaías o chama de “ungido” do Senhor — título dado a um rei estrangeiro.4 O livro de Esdras diz que, no primeiro ano de seu reinado, Ciro mandou proclamar, de viva voz e por escrito, que se reconstruísse em Jerusalém a casa do Deus do céu.43
O documento persa conta a mesma política de outro jeito, e o detalhe é instrutivo. No cilindro de Ciro, o rei diz ter entrado em Babilônia “como amigo”, ter devolvido as imagens dos deuses a cidades cujos santuários estavam em ruínas e ter reconduzido os antigos habitantes às suas casas.3 O cilindro não cita os judeus. Quem liga os dois textos é o editor, que dá ao conjunto o título de “decreto de retorno”. O retorno dos exilados de Judá aparece, assim, como caso particular de uma política geral persa.
![Grande Rolo de Isaías, de Qumran, c. séc. 2 a.C. (capítulo 53) · Photography by Ardon Bar Hama (see [2] , author of original document is unknown. · +/- 2nd century BC](/_next/image?url=%2Facervo%2Fcommons-great-isaiah-scroll-ch53.jpg&w=3840&q=75)
Grande Rolo de Isaías, de Qumran, c. séc. 2 a.C. (capítulo 53) · 0 · Wikimedia Commons · Public domain
O Templo foi reconstruído entre c. 520 e 515 a.C. No século seguinte, Neemias, governador de c. 445 a 433 a.C., e o escriba Esdras definiram quem pertencia à comunidade.1 Uma cena do livro de Neemias mostra o que tinha mudado: o livro da lei é lido diante do povo e explicado para que todos entendam. O editor anota que o hebraico precisava ser traduzido para o aramaico — a língua falada já era outra.41
É nesse período que o editor situa a emergência do judaísmo como religião centrada num texto. A primeira menção a uma Torá de cinco livros está bem depois, em Josefo, no século I d.C.1 Um povo sem rei e espalhado por vários impérios passou a se reconhecer por uma lei escrita — e por um Deus que não dependia de território.
- Base em documentos, não em síntese — o artigo foi construído sobre fontes primárias e notas de editor. É mais provisório que um artigo apoiado em obra de síntese.
- A Bíblia como fonte — é texto religioso, escrito e editado ao longo de séculos. O editor do Sourcebook registra que só a partir da dinastia de Omri fontes externas confirmam os acontecimentos narrados.
- Datas tradicionais — as datas de Saul, Davi e Salomão vêm da cronologia bíblica e aparecem com interrogação na própria fonte. Não devem ser tratadas como fato verificado.
- Quando surgiu o monoteísmo — é disputa aberta. A tradição situa a aliança no Sinai; a leitura crítica, reproduzida pelo editor, o vê consolidado no fim da monarquia e no exílio.
- Herança babilônica — a ideia de que os hebreus “aprenderam” o olho por olho em Hamurabi é de Charles Horne, em 1915. Os textos mostram semelhança, mas também diferenças de sentido.
- O cilindro de Ciro não cita os judeus — ele descreve uma política geral de devolver deuses e habitantes às suas cidades. O vínculo com o retorno de Judá vem do livro de Esdras e do editor.
Ficam de fora, por falta de base nos documentos lidos: a história dos patriarcas (Abraão, Isaac, Jacó) e do êxodo como narrativa, que a fonte apenas indica; a origem do nome “hebreus”; a vida econômica e social do antigo Israel; e o período helenístico e romano, com os macabeus, as seitas e a destruição do segundo Templo. As datas anteriores ao século IX a.C. são as da tradição, e o artigo não as afirma como fato.
Material de estudo
Tudo o que você precisa para revisar este assunto está aqui — não é preciso procurar em outro site. Comece pelos flashcards, que testam o que você lembra, e use os diagramas para reconstruir o que faltou.
Do nome numa estela ao Templo reconstruído
O mesmo cerco, contado pelos dois lados
Duas leis antigas, lado a lado
Mapa mental do assunto
Quadro-resumo para revisão rápida
| Item | Dado |
|---|---|
| Primeira menção a Israel | estela de Merneptah, Egito, c. 1220 a.C. |
| Monarquia (tradição) | Saul c. 1020 a.C.; Davi até 961; Salomão e o 1º Templo até 922 — datas com interrogação |
| Debate arqueológico | para a leitura crítica, monarquia unida no máximo pequeno reino tribal |
| Confirmação externa | a partir da dinastia de Omri; Jeú no Obelisco Negro, c. 825 a.C. |
| Divisão | Israel (norte, Samaria) e Judá (sul, Jerusalém) |
| Queda de Israel | 722 a.C., para a Assíria |
| Cerco de 701 a.C. | Senaquerib contra Ezequias; dois relatos divergentes |
| Queda de Judá | 586 a.C., para a Babilônia; Templo queimado |
| Exílio | 587-538 a.C.; Jeremias conta 4.600 deportados em três levas |
| Monoteísmo | “não terás outros deuses”; Ezequias; Deuteronômio c. 621; Segundo Isaías c. 550 |
| Monoteísmo ético | profetas, como Amós (séc. VIII a.C.): justiça acima do culto |
| Lei e escravo | Êxodo 21:26 — servo ferido no olho sai livre |
| Retorno | Ciro toma Babilônia em 539 a.C.; Esdras 1; cilindro de Ciro não cita os judeus |
| Segundo Templo | reconstruído c. 520-515 a.C. |
| Judaísmo do livro | Esdras e Neemias; lei lida em público e traduzida para o aramaico |
Fontes
- HALSALL, Paul (ed.). Internet Ancient History Sourcebook: Israel. Fordham University. sourcebooks.fordham.edu/halsall/ancient/asbook06.asp. Notas do editor sobre periodização, arqueologia bíblica, profetas e a formação do judaísmo. Fonte principal deste artigo.
- Accounts of the Campaign of Sennacherib, 701 BCE: prisma de Senaquerib (trad. em O. J. Thatcher, The Library of Original Sources, 1907) e 2 Reis 18-19 e 2 Crônicas 32 (versão Douai-Rheims, 1914). In: Internet Ancient History Sourcebook, 701sennach.asp.
- Kurash (Cyrus) the Great: The Decree of Return for the Jews, 539 BCE: cilindro de Ciro e Esdras 1. In: Internet Ancient History Sourcebook, 539cyrus1.asp. Tradução do cilindro sem indicação de tradutor.
- The Holy Bible, King James Version (1611). Project Gutenberg, e-book nº 10. Êxodo 20-22; Deuteronômio 6; 1 Samuel 8; 2 Reis 17 e 25; Jeremias 52; Salmo 137; Isaías 45; Amós 5; Esdras 1; Neemias 8.
- HORNE, Charles F. Introdução ao Código de Hamurabi (1915). In: Internet Ancient History Sourcebook, hamcode.asp. Interpretação de época, atribuída no texto.
- HAMURABI. Código de Hamurabi. Trad. L. W. King. In: Internet Ancient History Sourcebook, hamcode.asp. Para a comparação com a lei mosaica.
- HALSALL, Paul (ed.). Internet Ancient History Sourcebook: Mesopotamia and Syria, asbook03.asp. Nota sobre o Obelisco Negro de Salmanasar III.